Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2007 - Vol.12 - Nº 10

France - Brasil- Psy

Coordenação: Docteur Eliezer DE HOLLANDA CORDEIRO

Quem somos (qui sommes-nous?)                                  

France-Brasil-PSY é o novo espaço virtual de “psychiatry on  line”oferto aos  profissionais do setor da saúde mental de expressão  lusófona e portuguesa.Assim, os leitores poderão doravante nela encontrar traduções e artigos em francês e em português abrangendo a psiquiatria, a psicologia e a psicanálise. Sem esquecer as rubricas habituais : reuniões e colóquios, livros recentes, lista de revistas e de associações, seleção de sites.

Qui sommes- nous ?

France-Brasil-PSY est le nouvel espace virtuel de “psychiatry on line”offert aux professionnels du secteur de la santé mentale d’expression lusophone et française. Ainsi, les lecteurs pourront désormais y trouver des traductions et des articles en français et en portugais  concernant la psychiatrie, la psychologie et la psychanalyse. Sans oublier les rubriques habituelles : réunions et colloques, livres récentes, liste de revues et d’associations, sélection  de sites

SOMMAIRE (SUMÁRIO):

 

  • 1. QUESTÕES SOBRE A PSIQUIATRIA : DIÁLOGO COM CLÁUDIO LYRA BASTOS
  • 2. TRADUÇÃO : PRÁTICAS E MODELOS TEÓRICOS EM PSIQUIATRIA
  • 3. PEDOPSIQUIATRA E PEDIATRA, UMA NOVA COLABORAÇÃO
  • 4. LIVROS
  • 5. REVISTAS
  • 6. ASSOCIAÇÕES
  • 1. QUESTÕES SOBRE A PSIQUIATRIA : DIÁLOGO COM CLÁUDIO LYRA BASTOS

    Se a psiquiatria sempre foi dividida desde que se tornou uma especialidade médica, o aparecimento de tratamentos psicológicos (psicanálise, PIP, TCC…),  de tratamentos médicos ou fisiológicos e dos ‘’tratamentos  sociais’’ou reinserção na sociedade, se  traduziram em correntes psiquiátricas bem precisas e  oposições radicais.  Para tomarmos um único exemplo : na POLBr de Junho de 2004, publicamos um artigo,  ‘’Psicoterapias e psicanálise’’, cujo autor, Robert Palem, trata das divergências entre psiquiatras sobre a  natureza do ato psicoterápico. Assim,  existem os que aceitam o ato   psicoterápico como   um ato médico e os que defendem a tese contrária, a da estrutura do ato psicoterápico como sendo  radicalmente oposta a do ato médico.

     

    Diante dos problemas que parecem se acumular na psiquiatria atual,  pareceu-nos oportuno dialogar com  Cláudio Lyra Bastos, psiquiatra rigoroso e talentoso, em perpétua busca de respostas aos questionamentos que concernem nossa disciplina, especialmente suas relações com a medicina, a biologia (medicamentos), a psicanálise, as terapias cognitivas-comportamentais,  as neurociências, lista não exaustiva. Sem esquecermos os problemas que suscitam tantas divergências entre nós, isto é  a mania classificatória em psiquiatria.

     

    Estou consciente de que o resultado desta troca de idéias foi uma visão panorâmica sobre algumas dessas interrogações que formulamos,  questões que  necessitam, sem dúvida, serem prolongadas e   desenvolvidas.Sobre este ponto, reações dos leitores serão benvindas, acatadas e publicadas.

    Por razões de espaço e de comodidade, a presente entrevista será publicada  em duas partes, a segunda devendo ver o dia na POLBr de novembro..

     

    Psiquiatra de orientação fenomenológica, Cláudio Lyra Bastos  dirige o Instituto Fluminense de Saúde Mental, em Niterói ,’’do outro lado da poça’’, como costuma dizer.

     

    EHC  Para começar, o que é exatamente o Instituto Fluminense de Saúde Mental?

    CLB Nosso Instituto originou-se de idéias que eu e Luiz Carlos Marques desenvolvemos desde a década de 80, inicialmente voltadas para o serviço público (Ambulatório e Emergência do Centro Previdenciário de Niterói, do antigo INAMPS). Com a impossibilidade de levar adiante esse projeto, resolvemos criar uma instituição que atendesse e formasse pessoal. O IFSM se localiza em Niterói, no bairro de São Domingos, próximo às barcas, ao Gragoatá e ao Ingá, onde se situa boa parte dos campi da Universidade Federal Fluminense, e se inclui em área de preservação urbana, onde casas antigas convivem com o burburinho dos estudantes. Nasceu com uma proposta de assistência integrada em saúde mental, completa e abrangente, partindo do princípio de que o atendimento de qualidade só pode existir de forma totalizada, sem se fragmentar em atividades estanques e desconexas. Procurando racionalizar o atendimento e proporcionar o melhor na especialidade e nas práticas correlatas, evita a desagregação do atendimento.

     

    EHC ‘’Assistência integrada em saúde mental, completa e abrangente’’, como realizar este projeto ambicioso?

    CLB Concentrando na mesma instituição as atividades diagnósticas – avaliação psicopatológica clínica e forense, testagem neuropsicológica – e terapêuticas – psicoterapia, psicofarmacoterapia, grupos, etc. – procuramos proporcionar ao cliente um atendimento coerente e seguro, com responsabilidade e compromisso. Temos ainda um pequeno Hospital Dia e um Centro de Estudos, que não é um mero setor, mas parte essencial do IFSM. Aqui as atividades permanentes de formação, atualização e divulgação científico-cultural em vários níveis, criam um forte compromisso com o conhecimento e o desenvolvimento do pessoal especializado, resultando na melhora constante da qualidade do atendimento. A formação aqui é totalmente vinculada à prática clínica, sem cultos nem doutrinas explicativas, e sempre crítica.

     

    EHC  Acho que você é um tanto crítico com relação às equipes ditas de ‘’saúde mental’’. O que lhe parece inapropriado nesta estratégia terapêutica  que privilegia um trabalho pluridisciplinar ?

    CLB  O pífio desempenho da maioria das chamadas “ equipes de saúde mental ”, em que uma pessoa se encarrega da abordagem psicoterápica, outra da psicofarmacoterápica e outra da socioterápica (seja lá o que diabo for isso), se deve a uma confusão epistemológica básica, além de uma absoluta ignorância acerca de questões importantíssimas como o papel simbólico do médico e as representações sociais ligadas à prática médica.

    Aqui no IFSM só trabalhamos em equipe. Mas temos uma hierarquia clara e posições definidas. Cada opinião exige compromisso. Há espaço para erro e aprendizado, mas não há nenhum espaço para falações vazias e palpites inconseqüentes.

    A psiquiatria (como a medicina em geral) não é multidisciplinar, mas sim uma prática e um campo do conhecimento essencialmente interdisciplinar e, idealmente, transdisciplinar, com muitos aspectos multidisciplinares. Apesar da sua complexidade, a psiquiatria é uma verdadeira especialidade em si, única e integral, pois tem seus métodos e o seu objeto de estudo; assim se abre a todas as contribuições e recebe as eventuais críticas. Mas as suas subdivisões não o são, pois se fecham em disciplinas capengas, num mundo próprio auto-referente e desoxigenado pela ausência de troca.

    Assim, é perfeitamente possível – apesar de difícil – um trabalho interdisciplinar entre psiquiatras e neurologistas, entre psiquiatras e sociólogos, entre psiquiatras e lingüistas, etc. Mas não é possível um trabalho interdisciplinar entre psiquiatras biológicos e psiquiatras psicanalistas ou psiquiatras sociais, pela simples razão de que neste caso eles estariam tentando dividir artificialmente o mesmo campo da patologia mental humana. Aí não existe qualquer divisão possível mas apenas a dissociação ou a desagregação.

    O argumento de que a lesão cerebral e os conflitos interpessoais seriam campos diferentes de estudo não se sustenta, pelo simples fato de que a única forma de estudar essas coisas é através da relação com o paciente. Como eu vou conhecer os detalhes da experiência mental provocada por uma lesão sem conhecer o próprio paciente ? É só dar uma olhada nos textos de Kurt Goldstein,  Aleksandr Luria e Oliver Sacks – que só tratam de pacientes neurológicos, com lesões cerebrais explícitas – para reconhecer isso.  

    Em nossa clínica, eu dou supervisão para psiquiatras e psicólogos num mesmo grupo, com abordagens as mais diversas: psicanalíticas, comportamentais, farmacológicas, e percebo essa dificuldade neles. Com o tempo, passam a reconhecer o espaço dos outros e a aceitar e gostar.
    Digo para eles que aceitaria no grupo até um babalaô, se ele apresentasse casos clínicos bem definidos, com estratégia terapêutica coerente.

     

    EHC  O que você escreveu, especialmente a maneira como  faz suas supervisões, me  faz lembrar minha experiência com equipes multidisciplinares, das quais fui o responsável médico durante muitos anos. Isto se passou numa estrutura de atendimento para crianças e adolescentes.  Encontrei muitas dificuldades : eu  freudiano, dois psicólogos lacanianos, uma outra freudiana... Alguns eram hostis à medicina e à psiquiatria.Numa situação como esta, o papel do psiquiatra que optou por uma prática psicanalítica pode se confundir com a prática dos psicólogos-psicanalistas. Desde então, conflitos e tensões podem prejudicar o trabalho interdisciplinar. Fenômenos grupais, conflitos irredutiveis não apareceriam com mais frequência neste estilo de direção ‘’democrático’’ ? Ao contrário, o ‘’o estilo autoritário’’ adotado em outras equipes não seria mais apropriado ao trabalho interdisciplinar ? O que você acha destas oposições de estilos ?

    CLB  O problema aí é um só: indefinição de papéis; « psicanalista » para eles significa uma espécie de palpiteiro irresponsável e descompromissado, que pode dizer qualquer coisa sem ser responsabilizado por nada.
    Na realidade, nenhum grupo de trabalho funciona sem hierarquia. Por exemplo, qualquer sociedade psicanalítica é altamente hierarquizada, como todo mundo sabe.
    Além disso, devemos diferençar entre autoridade e autoritarismo, assim como entre democracia e anarquismo. Nunca nada foi construído ou sequer esboçado por um grupo anárquico. Não existe país anárquico, nem arquitetura anárquica, nem orquestra anárquica, nem futebol anárquico. Nem mesmo um bloco carnavalesco é anárquico.
    A falsa democracia que vemos ser implantada hoje em dia nas tais equipes "multidisciplinares" não passa de uma manipulação política que visa a desmoralização e a burocratização da prática psiquiátrica (e médica em geral) para o nivelamento por baixo e o controle massificador da saúde pelas organizações estatais (ou empresariais, tanto faz).
    Hoje, garotos sem nenhuma experiência se vêem no direito de dar palpites - sem qualquer fundamento nem responsabilidade - sobre saúde mental.
    No entanto o poder de que essa massa pensa dispor é falso, porque só lhe é dado na medida em que ela repete, como um bando de papagaios, aquilo que já lhes enfiaram previamente nas cacholas, sem crítica alguma. Não percebem que uma crítica real só pode vir do conhecimento, não da doutrinação.
    Na Idade Média, paradoxalmente, havia mais liberdade de pensamento do que hoje, porque se havia a doutrina, havia sempre a crítica - mesmo que violentamente reprimida. Os hereges brotavam aos borbotões na vigência da inquisição.A terrível malícia da educaçào massificada de hoje é que ela já vem com a sua própria pseudo-crítica pronta, embutida no pacote desde cedo; não tem saída. É como um restaurante-bandejào em que você tem toda a liberdade de escolher entre sapo com giló ou lagartixa com maxixe.

    EHC : E o papel dos enfermeiros psiquiátricos neste trabalho interdisciplinar ? Na experiência francesa, autores (R.Angelergues, por exemplo) perguntam porque o tratamento pelas  equipes transformou-se em psicoterapia institucional.

    CLB : Nunca tive problemas com enfermeiros nem quaisquer profissionais que levem a sério o seu trabalho. Já quanto a essa história de se nivelar por baixo chamando todo mundo de « trabalhador de saúde mental » aí não dá. Vê lá se um advogado, juiz ou promotor aceitaria ser chamado de « trabalhador da justiça » e ver seus pareceres contestados por todo mundo. Quando o psicólogo tenta ser assistente social, a assistente social tenta ser médica e o enfermeiro tenta ser psicólogo, o médico acaba virando burocrata. A confusão de papéis, a irresponsabilidade e a inconseqüência vêm juntos.

    Eu andei pesquisando a literatura sobre enfermagem psiquiátrica para um curso que pretendíamos dar aqui no IFSM e só achei livros estrangeiros; os daqui todos traziam esse mesmo discurso verboso e repetitivo sobre instituições, sem nada sobre a prática profissional. 

    No IFSM, obrigando todo mundo a se definir claramente e assumir responsabilidade pelo que diz e pelo que faz, nós não temos nenhum problema desse tipo. Qualquer um pode discordar, desde que fundamente o seu ponto de vista sem apelar para jargões nem se refugiar em jogos de palavras. O que não aceitamos são posições ambíguas, verborragia confusa, justificativas prolixas e esvaziamento da autoridade.

     

    EHC Como você descreveria o percurso médico que o conduziu a  tornar-se psiquiatra ? Quais foram os momentos decisivos que levaram-no a optar pela psiquiatria e não por outra especialidade médica ?

    CLB Imagino que o motivo tenha sido o mesmo que levou o famoso alpinista George Mallory, quando perguntado sobre o porquê do seu empenho em escalar o Everest, a responder : « Because it is there ». A psiquiatria é uma especialidade ingrata, difícil, incerta, muitas vezes obscura, com muitas dúvidas e poucas certezas (ou mesmo nenhuma). Por que escolhê-la? Exatamente por essas razões. Os que tentam simplificar a psiquiatria através de protocolos e guidelines tentam perverter a sua própria natureza, que é a mesma da feitiçaria, que se esforça em desvendar ciências ocultas e letras apagadas.

    Uma pesquisa americana mostrou que o nível de engajamento nos programas atuais de residência em psiquiatria encontrava-se entre 2% e 3%, bem abaixo dos 12% da década de 50 ; ou seja, quanto mais cientificista (ou seja, pseudocientífica) se mostrava a psiquiatria, menos estudantes de medicina ela passou a atrair.

    O que chama para a nossa especialidade é o mistério e a complexidade da mente. Nós gostamos do caos e não de formulários. Ressalve-se que não estou falando de confusão epistemológica nem bagunça terapêutica; ao contrário, a mente do psiquiatra deve ser capaz de se organizar frente à desordem. Aí está o atrativo.

     

    RELAÇÕES ENTRE PSIQUIATRIA E MEDICINA

     

    EHC Parece-me claro que a organização da IFSM repousa sobre uma evidência : a psiquiatria  como uma especialidade médica. Subsiste, contudo, uma questão fundamental : ‘’o saber psiquiátrico deve ou não deve se constituir de maneira análoga ao saber médico ?’’, como indagou J.M.Thurin,  há alguns anos. Isto é, um saber que procurasse adotar exclusivamente o método científico, como as TCC ?

    CLB  A medicina não é, nem jamais foi, uma disciplina científica. A ciência é parte essencial da medicina, mas não é a sua única fonte. Não podemos esquecer que assim como existe o charlatanismo obscurantista, existe o charlatanismo cientificista, ainda mais perigoso.

    A psiquiatria é algo tão antigo como o próprio homem, e fazendo parte da medicina, é investida deste mesmo aspecto simbólico, sacralizado, ainda que todas as correntes ideológicas psiquiátricas tentem laicizá-la.

    Ao contrário do que gostam de pensar certos foucaultianos, a psiquiatria não foi inventada nos séculos XVIII e XIX. Aquilo que poderíamos chamar talvez de “psiquiatria moderna” é que surgiu com Pinel no iluminismo, quando a razão começou a ser divinizada e cultuada. A morte de Deus, a perda das referências absolutas e o desenvolvimento do individualismo mais uma vez forçaram a separação entre as eternas dicotomias da mente humana, sempre oscilando entre a lógica e a intuição, o concreto e o simbólico, o objetivo e o subjetivo, o mythos e o logos dos antigos gregos, produzindo uma razão destituída de intuição, de onde se originou o racionalismo e a sua cria, o cientificismo.

    Num momento como o atual, em que o racionalismo e o irracionalismo novamente se confrontam, torna-se claro que ambos são frutos de fundamentalismos, igualmente afastados da racionalidade. Se, por um lado o fanatismo religioso nega a razão em função da Verdade Revelada, o fanatismo racionalista busca uma Verdade Absoluta no que é relativo e tenta compreender o todo esmiuçando as partes, ou dedica-se a mapear o infinito compondo um mosaico de detalhes, como um daqueles quadros fragmentados de esquizofrênicos.

     

    EHC A psiquiatria sempre se mostrou dependente de correntes e ideologias de outros campos: filosofia, psicologia, psicanálise, sociologia, etnologia, culturalismo, artes… Os conhecimentos psiquiátricos, as classificações nosográficas, por exemplo, variam segundo as épocas. Como definir a clínica psiquiátrica atual ? Ela mudou sob a influência dessas disciplinas ?

    CLB  O acelerado desenvolvimento tecnológico e científico de nossa civilização exige bases racionais para o seu estabelecimento. Desta maneira, exerce uma enorme pressão racionalizante, cujas válvulas de escape são a negação da ciência, o misticismo esotérico ou o paradoxal culto à razão. Enquanto que a verdadeira ciência mostra uma capacidade de visão cada vez mais integrativa (a palavra holística acabou ficando um tanto desgastada) e “desamarrada”, o cientificismo racionalista persiste, fortalecido por uma pseudo-oposição irracionalista.

    Não é por acaso que o duro caminho do conhecimento apresenta em suas margens essa tendência a uma relação dicotômica de amor ou de ódio pela lógica e pela matemática. Como bem observou  G.Bachelard, as mentalidades não-científicas ou bem tentam negar qualquer possibilidade de medida ou quantificação ou então desvelam-se em apresentar cifras, gráficos e cálculos de precisão espantosa. Nas palavras de Georges Lantéri-Laura: “...a cultura busca incansavelmente um discurso que a transforme num absoluto em nome da ciência...”

     

    EHC Após tantos anos de trabalho, quais as motivações que, segundo você,  levam um psiquiatra  a continuar  trabalhando, exercendo uma profissão tão dificil e cansativa ? O que nos impulsa a  ajudar os que sofrem, pensando ser-lhes útil ? Não haveria em nós a vocação primeira consistindo em tratar ? Vêm-me ao espírito a sentença :’’o médico se trata tratando os outros’’. Não seria esta nossa motivação inicial ?

    CLB Aí acho que é o mesmo motivo de todo médico, desde o mitológico Asclépios até qualquer feiticeiro: tornarmo-nos semelhantes aos deuses, capazes de antever e mesmo mudar o destino. Por isso Asclépios incorreu em hybris, foi fulminado por Zeus e depois, contraditoriamente, alçado à condição divina. É uma profissão essencialmente sadomasoquista, de antíteses. Os primeiros médicos eram, naturalmente, feiticeiros e assim exerciam a psiquiatria talvez ainda mais freqüentemente do que qualquer outra área médica. Há registros de técnicas psicoterápicas e drogas psicotrópicas de milhares de anos atrás. Não somos diferentes deles.

     

    EHC Ao fenomenólogo que você é, gostaria de insistir sobre outro aspecto relacionado com a  temporalidade e que me parece típico do trabalho do psiquiatra: o que significa lidar  com pacientes que, por uma grande parte, sofrem de  patologias crônicas, necessitando um tratamento inevitavelmente  longo ?

    CLB Muitas abordagens terapêuticas não visam uma solução seqüencial para os problemas, mas uma solução circular, eterna, periódica. A flecha inexorável do tempo e o círculo eterno do tempo devem conviver. As sociedades tradicionais não cultuavam entidades vinculadas à saúde, mas sim à doença. Os deuses antigos usavam as doenças para castigar os relapsos e eram cultuados permanentemente, sem perspectiva de « cura », mas sim de clemência. Hoje somos imediatistas, queremos fórmulas e soluções prontas para tudo, esquecendo o aspecto terapêutico simbólico dos rituais de sacrifício periódico, das repetições eternas. Acabamos pagando um preço caro por mais essa hybris

     

    2.TRADUÇÃO RESUMIDA :PRÁTICAS E MODELOS TEÓRICOS EM PSIQUIATRIA

    Act.Méd.Int. Psychiatrie n.6, Juin 1999 Par J.J. Kress

    EPISTEMOLOGIA (relações entre a psicanálise e a psiquiatria)

    G. Lantéri-Laura colocou uma questão de grande importância : ‘’Será que a psiquiatria tira benefícios de sua relação com a psicanálise ou ela paga o preço’’ ? Ele mostrou que a resposta depende da relação que a teoria pretende ter com a verdade. ‘’Se a psicanálise se apresenta como uma concepção geral do homem, uma antropologia, a psiquiatria sai perdendo ; se a psicanálise se apresenta como um ponto de vista relativo, levando em conta a variedade epistemológica, a psiquiatria vai tirar benefícios, mas correrá o risco da falta de nitidêz própria ao ecletismo’’.

    ‘’Um exemplo permite de definir de maneira mais precisa nosso propósito : o da questão do sujeito e de sua evacuação pela psiquatria avaliadora. A psiquiatria sozinha não possui uma teoria do sujeito, embora a parte da psiquiatria que se refere à psicanálise defenda a necessidade de prestar-se atenção ao sujeito. Contudo, essa corrente da psiquiatria psicanalitica tem as vezes tendência a tomar como refém a outra parte da psiquiatria que se refere às neurociências. E necessário notarmos que a psicanálise pode ficar perturbada diante da diversidade da teorização do sujeito em função das correntes psicanalíticas.

    No meu entender, tres pontos especificam essa atenção para com o sujeito : a singularidade, a história e o sofrimento. Com a psicanálise, esses tres aspectos relativos ao sujeito são especificados pelo inconsciente e a transferência.

    Contudo, não se pode dizer que a medicina em sua totalidade não se preocupe com o sujeito. Ela se preocupa , naturalmente, porém no sentido da ética médica do tratamento e não a partir da reflexão epistemológica feita pela parte da psiquiatria que se refere à psicanálise’’.

    A propósito da relação do psiquiatra com as teorias, Paul Ricœur colocou o acento no caráter metafórico dos conceitos da psicanálise e no estatuto linguajar da teoria, insistindo sobre o fato de que a prova não era obtida pela verificação mas por critérios cumulativos, cuja convergência torna as hipóteses plausíveis, prováveis,  convincentes’’.

     Num trabalho paralelo sobre as relações subjetivas do psiquiatra com as teorias, J.J. Kress tentou mostrar que a relação às teorias e aos modelos em psiquiatria não se desenvolve longe de nós, num céu estrelado das idéias, ao contrário, nós somos implicados nesse processo através nossos intinerários de formação, nossas escolhas, nosso estilo de atividade , nossas decisões terapêuticas. . .

    3. PEDOPSIQUIATRA , PEDIATRA, PSICANALISTA ,UMA NOVA COLABORAÇÃO.

     Doutor Eliezer de Hollanda Cordeiro

     

    A consultação pedopsiquiátrica é um ato técnico altamente especializado, que dura bastante tempo, exigindo uma grande disponibilidade da parte do clínico e implicando particularmente a família da criança, escreveram  Gérard SCHMIT e Roger MISÈS  : ‘’Consulta em pedopsiquiatria’’, in Psychiatrie Française, N°119,  Ville-D’Avray, Novembre 2002.

     

    A consultação pediátrica é centrada no exame somático da criança.

     

    No livro  “Pédopsichiatrie de liaison” , coordenado por D. BAILLY, os autores examinam e defendem a idéia de uma colaboração entre pediatras e pedopsiquiatras. Eles definem esta nova modalidade de trabalho ‘’como a integração sistermática de equipes de psiquiatria da criança e do adolescente nos serviços de pediatria’’.  Esta prática apoia-se em dados oriundos  da pesquisa clínica com a finalidade de precisar os fatores de riscos suscetiveis de favorecer  o aparecimento de distúrbios psicopatológicos nas crianças hospitalizadas’’.

     

    Eeste domínio da psiquiatria da criança, embora esteja se desenvolvendo em todo o mundo, resta ainda bastante ignorado pelos serviços de pediatria. Na França,  esta experiência de trabalho reunindo pediatras e pedopsiquiatras está crescendo à medida em que as equipes pediátricas mostram-se sensíveis aos sofrimentos das crianças e às suas próprias interrogações existenciais, marcadas pela ansiedade decorrente da natureza mesma dos distúrbios que elas tratam,  nos quais a questão da morte é onipresente. Desta forma, psicólogos e pedopsiquiatras de formação psicanalítica trabalham cada vez mais  com equipes acolhendo crianças em fase terminal : em pavilhões para cancerosos, traumatizados do crâneo,  doenças degenerativas, mal-formações irreversiveis... 

     

    Mas outras especialidades médicas estão acolhendo igualmente pedopsiquiatras e psicólogos de formação psicanalítca, por exemplo os serviços de reanimação destinados a crianças prematuras.

     

    Recentemente, tomamos conhecimento dos trabalhos realizados com crianças prematuras na  Universidade Louis-Pasteur, em Strasbourg. Em torno de Serge LESOURD, professor de psicopatologia clínica dessa universidade e diretor da unidade de pesquisa em psicologia,  uma clínica da criança prematura deu lugar a uma série de elaborações teóricas sobre questões fundamentais, notadamente  a função do pai, seu nascimento , sua construção e seus entraves. Como escreve Serge LESOURD, « a clínica da prematuração, revela, como num laboratório, as diversas modalidades da construção da função paterna para um homem, assim como os diferentes papéis que ele deve desempenhar para com a criança, a mulher que se torna mãe, e para a díade mãe-criança(…).

     

    Foi no ‘’Le Journal des Psychologues’’, que publicou um importante dossiê intitulado ‘’ Nascimento do pai, psicanálise e paternidade’’, que tivemos a grata surpresa de notar a participação  de psicanalistas brasileiras aos  trabalhos dirigidos pelo Professor LESOURD. Ao mesmo tempo, soubemos  da existência de um intercâmbio científico entre a Universidade de Strasbourg e a Universidade FUMEC de Belo Horizonte, onde trabalham as três colegas psicanalistas. 

     

    Referimo-nos a Marisa Decat de Moura, Maria de Lourdes de MELO BAÊTA e Lea NEVES MOHALLEN. Notemos  que os três artigos por elas escritos  foram publicados em versão portuguesa, nas edições de France-Brasil-Psy de Julho, Agosto e Setembro 2005.

     

    A pedopsiquiatria é uma disciplina bastante recente, lembrêmo-nos de que sua evolução foi muito lenta,  que os serviços de pedopsiquiatria, até 1970, continuavam ainda a ser apenas lugares onde se depositavam crianças.

    E que foi graças à psicanálise que a psiquiatria da criança começou realmente a se desenvolver e passou  a dar importância aos acontecimentos infantis na elaboração da personalidade e ao papel das vicissitudes psicológicas da criança na organização dos distúrbios mentais do adulto.

     

    Numa sorte de movimento regressivo, a pedopsiquiatria começou a se interessar aos problemas apresentados por crianças cada vez mais jovens: crianças em período de latência, em idade escolar, bebês,  recém-nascidos, embriões, até  chegar às fecundações artificiais.O pedopsiquiatra realiza  assim o duplo trabalho de prevenção e tratamento do sofrimento psíquico das crianças.

     

    4. LIVROS RECENTES

     

    La Lettre de Psychiatrie Française propõe os seguintes livros :

     

    *Autour de Pierra Fédida : regards, savoirs, pratiques (Em torno de Pierre Fédida : olhares, saberes, práticas)

    PUF, 20 euros

     

    *Descartes et les fondements de l’anthropologie (Descartes e os fundamentos da antropologia)

    ALBAGLI Nicole

    L’Harmattan, 11 euros

     

    * Leçons psychanalytiques sur le fantasme (Lições psicanalíticas sobre o fantasma)

    ASSOUN Paul-Laurent

    Economica-Anthropos, 10 euros

     

    *Leçons psychanalytiques sur le transfert( Lições psicanalíticaq sobre a transferência)

    ASSOUN Paul-Laurent

    Economica-Anthropos, 10 euros

     

    *Leçons psychanalytiques sur masculin et féminin (Lições psicanalíticas sobre maculino e feminino)

    ASSOUN Paul-Laurent

    Economica-Anthropos, 10 euros

     

    *La méthode Coué (O método Coué)

    COUE Emile

    Marabout ,10 euros

     

    *L’angoisse (A angústia)

    KAPSAMBELIS Vassilis

    PUF, 8 euros

     

    *La bioéthique ou le juste milieu : une quête de sens à l’âge du nihilisme technicien (A bioética ou o justo meio : uma busca de sentido no tempo do niilismo técnico)

    TAGUIEFF  Pierre-André

    Fayard, 22 euros

     

    *Validité et limites du consensus en éthique (Validade e limites do consenso ético)

    L’Harmatann, 28,50 euros

     

    *L’évolution psychiatrique.1 (2007), Retour à la clinique (Retorno à clínica)

    Elsevier, 44 euros

     

     

    5.REVISTAS

     

    *Impacte medecine

    *La revue française de psychiatrie et de psychologie medicale 

    *L’encephale

    *Neuropsy

    *Nervure

    *PSN :(psychiatrie, sciences humaines, neurosciences) : rue de la convention, 75015 paris. Fax : 0156566566

    *Psychiatrie française

    *Psydoc-broca.inserm.fr/cybersessions/cyber.html

    *Evolution psychiatrique

     

    6.ASSOCIAÇÕES

     

    *Association française pour l’approche integrative et eclectique en psychotherapie (afiep)

    *Association française de psychiatrie et psychologie legales (afpp)

    *Association française de musicotherapie (afm)

    *Association art et therapie

    *Association française de therapie comportementale et cognitive (aftcc)

    *Association francophone de formation et de recherche en therapie comportementale et Cognitive (afforthecc)

    *Association de langue française pour l’etude du stress et du trauma (alfest)

    *Association de formation et de recherche des cellules d’urgence medico-psychologique (aforcump)

    *Association nationale des hospitaliers pharmaciens et psychiatres (anhpp)

    *Association scientifique des psychiatres de secteur (asps)

    *Association pour la fondation Henri Ey

    *Association internationale d’ethno-psychanalyse (aiep)

    *Collectif de recherche analytique (cora)

    *Ecole parisienne de gestalt

    *Ecole française de sexologie

    *Ecole de la cause freudienne

    *Groupement d’études et de prevention du suicide (geps)

    *Groupe de recherches sur l’autisme et le polyhandicap (grap)

    *Groupe de recherches pour l’application des concepts psychanalytiques a la psychose (grapp)

    *Société française de gérontologie

    *Société française de thérapie familiale (sftf)

    *Société française de recherche sur le sommeil (sfrs)

    *Société française de relaxation psychotherapique (sfrp)

    *Fédération française d’adictologie

    *Société ericksonienne

    *Société de psychologie medicale et de psychiatrie de liaison de langue française

    *Société médicale Balint

    *Union nationale des amis et familles de malades mentaux (unafam)

    *Association Psychanalytique de France (apf)

    *Société Psychanalytique de Paris (spp)

     

     

    *Coordination (coordenador): Eliezer de HOLLANDA CORDEIRO

    [email protected]


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