Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2005 - Vol.10 - N║ 9

France - Brasil- Psy

SOMMAIRE (SUMÁRIO)

Docteur Eliezer DE HOLLANDA CORDEIRO

Sumário:

QUI SOMMES- NOUS (Quem somos)

DOSSIÊ PSIQUIATRIA DA CRIANÇA

  1. PROPÓSITOS SOBRE A EVOLUÇÃO DA PEDOPSIQUIATRIA NA FRANÇA (Primeira parte) Doutor Eliezer de HOLLANDA CORDEIRO
  2. ENTRE PERCEPÇÃO E CONSCIÊNCIA Maria de Lourdes MELLO BAETA (psicóloga-psicanalista)
  3. PAIS DE CRIANÇAS AUTISTAS CRIAM UM BANCO GENÉTICO
  4. ASSOCIAÇÕES
  5. LIVRES RÉCENTS (LIVROS RECENTES)
  6. REVISTAS
  7. SELEÇÃO DE SITES

QUI SOMMES- NOUS (Quem somos)

QUI SOMMES- NOUS ?

FRANCE-BRASIL-PSYCHIATRIE est le nouvel espace virtuel de "Psychiatry on Line"offert aux professionnels du secteur de la santé mentale d'expression lusophone et française.

Ainsi, les lecteurs pourront désormais y trouver des traductions en français et en portugais d'articles concernant la psychiatrie, la psychologie et la psychanalyse. Sans oublier les rubriques habituelles : actualités, réunions et colloques, formations, associations, revues, sélection de sites.

QUEM SOMOS ?

FRANCE-BRASIL-PSYCHIATRIE é o novo espaço virtual de "Psychiatry On  Line"oferto aos  profissionais do setor da saúde mental de expressão  lusófona e portuguesa.

Assim, os leitores poderão doravante nela encontrar traduções em francês e em português de artigos abrangendo a psiquiatria, a psicologia e a psicanálise. Sem esquecer as rubricas habituais : atualidades, reuniões e colóquios, formações, revistas, seleção de sites.

Dossiê PSIQUIATRIA DA CRIANÇA

1. PROPÓSITOS SOBRE A EVOLUÇÃO DA PEDOPSIQUIATRIA FRANCESA (Primeira parte)

Eliezer de HOLLANDA CORDEIRO (psiquiatra, psicanalista).

Que se trate das demandas feitas aos piquiatras, das expressões clínicas, do prognóstico e das respostas terapêuticas, a Psiquiatria da criança evoluiu de maneira considerável na França, especialmente a partir da década de 1960. Esta evolução retrata as tranformações da sociedade francesa, exprime as inovações teóricas e psicoterápicas introduzidas pela psicanálise, leva em conta os progressos de outras disciplinas (psicologia, psiquiatria geral, pediatria, foniatria, psicomotricidade, pedagogia especializada, trabalho social com as famílias...) e responde às disposições legislativas atuais, fundamento da política de saúde mental em prol das crianças e dos adolescentes.

Neste artigo, mostraremos esta evolução através de uma pequena apresentação histórica, de algumas considerações sobre a contribuição da psicanálise à psiquiatria da criança e uma curta bibliografia de autores franceses. E daremos uma lista sumária de artigos e livros publicados durante o período que abordamos (1927 a 1980).

1) ASPECTOS HISTÓRICOS

Julian de AJURIAGUERRA, em seu « Manuel de psychiatrie de L'Enfant » [1],

evoca os pioneiros da história da psiquiatria da criança, « que mergulha suas raizes num passado rico em experiências pedagógicas e afetivas ».

Ele cita PONCE DE LEON, um beneditino que empreendeu, no Século XVI, as primeiras tentativas de educação de surdos-mudos ; PEREIRE, que instaurou a educação sensorial substituindo a palavra pela vista e o tato ; PESTALOZZI, um suisso, fundador de um instituto educativo e pedagógico ; SEGUIN, um francês criador da primeira escola de reabilitação... Ele ajunta : os pioneiros, médicos ou não, são sobretudo reabilitadores das insuficiências sensoriais e mentais.

É que a colaboração entre médicos e educadores é muito antiga. Assim, J. de AJURIAGUERRA cita uma afirmação de G. HEUYER, psiquiatra francês, segundo a qual a colaboração entre o educador SEGUIN e o psiquiatra ESQUIROL constituiu a primeira equipe médico-pedagógica! E ele ajunta : mas foi somente no Século XIX que BOURNEVILLE, outro francês, abriu um verdadeiro centro médico-pedagógico, porém reservado aos retardados [1].

Foi somente no fim desse século (em 1898) que CLAPAREDE, em Genebra, integrou ao ensino público as primeiras classes especiais para crianças deficientes. Ele encontrou em seguida, François NAVILLE, de cuja associação nasceria, entre 1904 e 1908, a primeira consultação médico-pedagógica.

Julian de AJURIAGUERRA escreve ainda que a publicação francesa da primeira escala da inteligência por BINET e SIMON marca o desenvolvimento da neuropsiquiatria no mundo.

A psiquiatria da criança-que se inscreve numa perspectiva de prevenção e tratamento do sofrimento psíquico e dos distúrbios do desenvolvimento desde os primeiros anos de vida até o fim da adolescência- já aparecia em filigranas na França, por volta de 1927, quando Pierre MÂLE [2] criou, com o Doutor ROBIN, um dos primeiros centros de consultas, após os que haviam sido criados por HEUYER e WALLON. Para tanto, tornou-se necessária uma separação da teoria constitucional reinante na época, que contrastava com as novas perspectivas sobre o desenvolvimento relacional, da vida afetiva e do caráter da criança que começavam a surgir.

Com efeito, os pontos-de-vistas anátomo-clínicos, que tinham aberto tantas perspectivas na psiquiatria do adulto, no sentido das correlações entre o sintoma e a lesão, continuavam dominantes. Assim, a psiquiatria da criança limitava-se sobretudo às crianças retardadas, aos débeis, aos oligofrênicos, aos epilépticos, aos portadores de distúrbios do caráter e aos delinquentes [2].

A aceleração do movimento que conduziu à moderna psiquiatria da criança teve como motores principais a aplicação dos testes intelectuais e projetivos, os estudos capitais sobre o desenvolvimento intelectual e afetivo da criança (BALDWIN, PREYER, CLAPAREDE, WALLON e PIAGET), e as descobertas da psicanálise.

Desta forma, a criança dos anos de 1930 começou a sair do  asilo, da assistência aos retardadas e incapazes, da neurologia tradicional. Ao mesmo tempo, se a história da criança começou a levar em conta o meio ambiente, ela continuou sendo «descritiva ». Esta era o resultado de um certo número de sinais pertencendo, uns à psiquiatria dos adultos, outros à endocrinologia ou à pediatria, os demais à psicologia. A criança era, de uma certa maneira, edificada aos pedaços [2].

Naquela época, as soluções terapêuticas eram esteriotipadas, as separações do meio familiar demasiadamente frequentes, e os tratamentos eram sobretudo reabilitadores, geralmente a partir de métodos pedagógicos recentes ( Montessori ou Decroly) [2].

Mas, ao entrar em contacto com as descobertas freudianas (insconsciente, sexualidade infantil, estados do desenvolvimento da libido...) que levavam em conta a dimensão histórica e introduziam a noção de conflito psíquico, a psiquiatria começou a conhecer a criança em suas profundezas e encontrou métodos mais eficientes para tratá-la.

O mesmo Pierre MALE [2] escreveu sobre este período histórico « que a grande descoberta( da pedopsiquiatria de inspiração psicanalítica) foi a dos pais, que deixaram de ser considerados apenas como portadores de uma hereditariedade genética para serem reconhecidos como iniciadores , modelos de identificações, etc. Esta descoberta é paralela ao fato de que os clínicos de crianças fizeram a experiência de uma análise pessoal ».

Ilse e Robert BARANDE [6] descrevem a situação da clínica infantil a partir de 1945 mais ou menos da mesma maneira : « ela se inspirava dos dados da neurologia, aplicava as considerações da psiquiatria geral e tirava seu saber das aplicações mais recentes dos testes mentais ».

Pouco a pouco, psiquiatras de grande valor, atraídos pela riqueza dos novos conceitos psicopatológicos forjados pela psicanálise, começaram a trabalhar com crianças portadoras de distúrbios mentais. Serge LEBOVICI considera que o próprio conceito de psicopatologia foi introduzido pela pedopsiquiatria de inspiração psicanalítica, antes de ser admitido pela psiquiatria geral  [3,4].

A partir dos anos de 1960, inúmeros estudos, artigos , trabalhos, livros e seminários trouxeram novos conhecimentos no que diz respeito ao psiquismo da criança, num lapso de tempo relativamente curto, sob o impulso de psicanalistas, como por exemplo : S. Morgenstern, Françoise Dolto, G.Mauco, Pierre Mâle, Serge Lebovici, Evelyne Kestemberg, René Diatkine, Jean Favreau, P. Luquet, J.Luquet-Parat, Alice Doumic, V.R. Misès, Michel Soulé, Maud Mannoni,Jean-Louis Lang,Victor Smirnoff, Annie Anzieu,etc.

Contudo, se considerarmos a evolução da psiquiatria da criança até os anos de 1970, constataremos que os serviços de pedopsiquiatria continuavam ainda a ser apenas lugares onde se depositavam crianças, embora a psicanálise estivesse no auge de sua popularidade.

A partir desta data, começou uma rápida transformação dos antigos serviços de psiquiatrias públicos, até então depósitos para crianças incuráveis e crônicas. Notemos, entretanto, que naqueles anos de 1970 já existia uma pedopsiquiatria associativa, a dos I.M.P.(Institutos Médico-Pedagógicos) e dos C.M.P.P.(Centros-Médico-Psicopedagógicos), estabelecimentos criados por famílias, professores e médicos (...), que para a época representaram um grande progresso, comparados aos serviços de crianças existentes nos hospitais públicos[4].

Um ponto muito importante que acelerou o processo de transformação dos serviços públicos na França foi a criação dos intersetores de psiquiatria, que o governo dotou de meios financeiros importantes afim de garantir o funcionamento da nova política de saúde mental. Isto necessitou a contratação de um número importante de pessoas qualificadas, inexistentes na época, necessitando da parte do Ministério da saúde a organização da formação de novos especialistas nos serviços onde trabalhavam os psicanalistas LEBOVICI, DIATKINE, MISES e SOULE[4].

Esta nova política de saúde mental estimulou as mudanças nos serviços de pedopsiquiatria dos hospitais públicos e engendrou uma outra percepção dos distúrbios psíquicos das crianças. Estas mudanças se traduziram, na prática clínica, « pelo desaparecimento de certas patologias, a evanescência do prognóstico, a usura dos antigos conceitos e terapêuticas, a emergência de uma nova patologia », e por conseguinte de uma nova clínica [4].

Como no mundo inteiro, o desenvolvimento da psiquiatria da criança francesa, em seus aspectos teóricos e técnicos, deu lugar a grandes debates entre kleinianos e anafreudianos, recebeu outras influências estrangeiras ao longo de sua história (WINNICOTT, PIAGET, BOWLBY...) e, a partir dos anos de 1960, começou a ser marcada pelos trabalhos dos analistas lacanianos.

CONTRIBUIÇÃO DA PSICANÁLISE A PSIQUIATRIA DA CRIANÇA

No que vai seguir, insistiremos sobre os laços existentes entre a psicanálise e a psiquiatria da criança, cujo desenvolvimento espetacular começou com as descobertas freudianas.Lembremos para começar a importância dos acontecimentos infantis na elaboração da personalidade, o papel das vicissitudes psicológicas da criança na organização dos distúrbios mentais do adulto.

Com efeito, Sigmund FREUD abriu, aliás sem querer, um novo campo à psiquiatria com a análise do Pequeno HANS, porém muitos trabalhos de FREUD contribuiram ao movimento que ele desencadeou.Não esqueçamos os outros pioneiros, Karl ABRAHAM, Sandor FERENCZI,Otto RANK, Mélanie KLEIN, Anna FREUD, etc.

Resumamos a contribuição da psicanálise, segundo a proposição de Bruno CASTETS [7]:

1) Todo sintoma tem um sentido. Freud generalizou esta descoberta feita com uma paciente histérica às patologias mentais conhecidas em seu tempo.Ele aplicou a sua descoberta ao Pequeno HANS, cujo medo dos cavalos foi considerado por FREUD como uma fobia, um sintoma, por ele interpretado como o resultado de uma angústia de castração, transformando o sintoma em sinal de um tipo de estrutura da personalidade de HANS.

Assim, a psicanálise deu o sentido à psiquiatria da criança.

2) S. FREUD e seus continuadores demonstraram que a criança tem uma vida mental que lhe é própria, correspondendo às mesmas significações profundas que podemos encontrar nos adultos. Salvo que a vida mental do adulto é mais elaborada, donde as diferenças semiológicas : a criança pode tornar-se disléxica ou enurética diante de uma problemática que vai se exprimir no adulto como um delírio, por exemplo !

A psiquiatria da criança é estreitamente ligada à psicanálise do ponto de vista histórico, teórico e prático.

Mais ainda, a psicanálise deu à psiquiatria da criança um vocabulário utilizado há mais de cincoenta anos: mecanismos de defesa do ego, (projeção, repressão, recalcamento, deslocamento, isolamento, formação reativa, anulação retroativa, identificação ao agressor, recusa...), fantasmas originários, angústia de castração, depressão anaclítica, relação dual, relação triangular, objeto transicional, estado do espelho, forclusão do nome do pai, etc.

Insistamos sobre este ponto : a psicanálise é fundada sobre o valor da significação, do discurso do comportamento humano, que ele seja verbal, gestual, normal ou patológico. Neste sentido, ela é a ciência de uma forma de compreensão deste discurso e de suas referências fundamentais. Ao escutar este discurso (...), o psicanalista se refere a dados universais : ele entende a história da organização de uma constelação edipiana, a história de uma castração simbólica por intermédio de suas produções imaginárias, a história de um desejo, das expressões das pulsões de vida e de morte, do desejo de alguém que é o seu paciente. Cada um dos termos deste discurso é carregado de uma importância peculiar ao sujeito [7].

Contudo, isto não quer dizer que a psicanálise e a psiquiatria sejam disciplinas idênticas, nem que a psicanálise alimentasse a semiologia psiquiátrica. Dizer que uma conduta tem um sentido não lhe dá o valor de sinal específico de uma patologia. Pensar o contrário pode conduzir à criação de uma « pseudosemiologia psicanalítica na qual a enuresia e a encopresia adquirissem, por exemplo, valor de  sinais de agressividade ou de  sinais de defesa contra a castração .

Tudo se passa como se existisse uma curiosa tentação para fazer da psicanálise uma nova psiquiatria com sua semiologia e sua nosologia próprias [idem].

Ora, quem praticou curas psicanalíticas sabe que a significação do sintoma não é unívoca, que existe uma polisemia em cada conduta, sintoma, comportamento. Isto explica porque uma enuresia, por exemplo, possa ter diferentes significações : de defesa contra a castração, de manifestação agressiva (e ou) erótica, de mensagem de amor dissimulada endereçada ao pai ou a mãe, de uma problemática edipiana... Devemos insistir sobre o fato de que essas diferentes significações possiveis de uma mesma conduta só podem ser conpreensíveis (até certo ponto) no « insight » da cura analítica.

Contudo, escreveu Bruno CASTETS [idem], a importância da significação do sintoma não foi a única contribuição da psicanálise à semiologia psiquiátrica infantil : a psicanálise deu-lhe o espírito e também o movimento. E foi preciso a obra freudiana para que a criança pudesse ser pensada em termos de vivência, e não de história objetiva, e que lhe fosse reconhecida uma semiologia peculiar.

A partir de 1980, os trabalhos sobre a patologia mental da criança e a clínica pedopisiquiátrica vão exprimir as transformações da sociedade francesas, especialmente da estrutura familiar tradicional :aumento dos divórcios, das famílias recompostas, aparecimento e desenvolvimento das técnicas de procreação em laboratório, o trabalho das mães, o aumento do número de mães isoladas, etc.

Outros fatores podem ser evocados : o desemprego, os problemas ligados à integração de estrangeiros, o aumento das prescrições de psicotrópicos etc.

Notemos, também, o desenvolvimento de novas técnicas psicoterápicas : TCC, terapias sistêmicas, grupos...

E, por fim, constatemos que a pedopsiquiatria prénatal e perinatal está suscitando muito interesse da parte dos pedopsiquiatras. E, levando-se em conta o aumento das violências e das toxicomanias envolvendo notadamente os adolescentes, este domínio da psiquiatria está avançando também de maneira significativa.

Retomaremos essas questões na segunda parte do presente artigo que será publicada na próxima edição de Outubro da POL.

ALGUNS ATORES E CURTA BIBLIOGRAFIA

ANTES DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

1927

Pierre MALE, em : « Aspects du développement de la psychiatrie infantile en France » [2], escreveu que desde os anos de 1927, com o Doutor Robin,ele criou uma das primeiras consultações de psiquiatria da criança, após as que foram criadas por Heuyer e Wallon.

1939 

*Françoise DOLTO publica a tese « Psychanalyse et pédiatrie », que conheceu um sucesso muito grande a partir de sua segunda edição, em 1961, logo seguida de uma terceira, em 1964.

Na edição de 1961, a autora recomenda as leituras dos « notáveis trabalhos de Anna Freud, Mélanie KLEIN, E. GLOVER, R. SPITZ e muitos outros ». Ela ajunta : «Peço também aos leitores para irem às fontes e ler, no texto se possivel, as obras principais de Freud, donde sairam todas as escolas psicanalíticas, e que marcaram todas as escolas de psicologia atuais ».

APÓS A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

1946-1947 

*Conferência de Serge LEBOVICI para psiquiatras, colaboradores, responsáveis, amigos da « L'Évolution Psychiatrique », revista dirigida por Henri Ey, que tinha por objetivo estabelecer laços entre a psiquiatria e a psicanálise. Nesta conferência, S. Lebovici apresentou um caso de esquizofrenia infantil. «Naquela época, só trinta casos haviam sido publicados no mundo inteiro» [3].

1948

*Pierre MALE, inspirando-se na psicanálise, cria o primeiro serviço para crianças, que contou com a colaboração, pouco tempo depois, de J.A.Favreau.

Pierre Mâle [2] evoca a criação deste serviço (« Centre de guidance »), que se inscreveu no sentido da evolução da psicopatologia da criança, numa época em que dominava a assistência psiquiátrica e os Internatos médico-pedagógicos.

1950-1955

*Serge LEBOVICI, que começara a trabalhar no hospital des « Enfants malades », em Paris, no serviço do professor HEUYER, acolheu e formou estagiários estrangeiros, entre os quais Giovanni BOLLEA, professor de psiquiatria da criança em Roma ; NOVELETTO, que desempenhava um papel importante na psiquiatria do adolescente na mesma cidade; Ferdinand LECHAT, psicanalista belga; Matic, psiquiatra de Belgrado.

Mélanie KLEIN et WINNICOTT aceitaram convites para reuniões científicas organizadas a cada ano no hospital. Assim, S.L. começou uma longa colaboração com psicanalistas anglo-saxões [3].

*Alice DOUMIC publica o artigo: «Anorexie mentale des jeunes enfants ».

*Notemos que foi durante este perído que S.L. introduziu o psicodrama para tratamento de crianças no mesmo hospital. Um grupo de analistas se reunia em casa dele nos domingos para continuar as discussões sobre o psicodrama mas também para discutir problemas teóricos relativos a análises feitas no Instituto de Psicanálise de Paris. Entre os analistas que participavam desses encontros podemos citar : Jean GILLIBERT, André GREEEN, Michel SOULE, Conrad STEIN, FAVREAU, Jeanine SIMON, LUQUET, AMADO, Francine KLEIN.

1956

*Os clínicos de criança S.LEBOVICI, R.DIATKINE, J.A.FAVREAU, P.LUQET, J.Luquet-Parat, V.R.MISES, J.MALLET e Pierre BOURDIER resumiram suas experiências em diversos artigos, pricipalemente « A psicanálise das crianças » [6].

*Didier ANZIEU publica : « Le psychodrame chez l'enfant », P.U.F.

1958 

*Serge LEBOVICI, René DIATKINE e Julien de AJURIAGUERRA criam a « Revue de psychiatrie de l'enfant », uma publicação científica semestral que obteve uma grande notoriedade nos meios especializados.

1959

*Alice DOUMIC publica o artigo : « Le sommeil de l'enfant avant 3 ans".

1961

* Jean LEMAIRE, psiquiatra-psicanalista, cria a « Association Française des Centres de Consultation Conjugale »

1962

*E. KESTEMBERG publica : « L'identité et l'identification chez l'adolescent ».

*Início dos primeiros tratamentos foniátricos, resultado do trabalho comum de S. LEBOVICI e J. de AJURIAGUERRA, donde resultaram as pesquisas que fizeram sobre a linguagem. Durante vinte anos os dois pesquisadores acompanharam os tratamentos de crianças psicóticas e desta longa experiência eles tiraram a conclusão « que elas não evoluiam de maneira obrigatória para uma esquizofrenia, mas às vezes para um isolamento total, ou uma sorte de alienação mental ».

* Françoise DOLTO, após a publicação da segunda edição de seu livro, « Psychanalyse et pédiatrie », e a organização de seminários sobre a psicanálise da criança,  ganhou uma grande notoriedade nos meios especializados.

* S.LEBOVICI e Evelyne KESTEMBERG publicam a monografia intitulada : « Le devenir de la psychose chez l'enfant », após estudos de numerosas observações. Nesta monografia, eles desenvolveram a teoria que distinguia as crianças autistas das psicóticas [3].

1964.

*Françoise DOLTO publica a terceira edição de seu livro, « Psychanalyse et pédiatrie », diffusion Librairie Bonnier-Lespiaut, Paris.

 * Françoise Dolto, após haver publicado vários artigos e livros, e organizado seminários sobre a psicanálise da criança que tiveram um grande sucesso; graças também a sua participação em programas tratando de crianças em rádios e televisões, tornou-se a analista mais conhecida do público francês.

Podemos dizer que ela teve uma atuação política importante, na medida em que conseguiu sensibilizar a opinião pública e a popularizar a psiquiatria da criança. Mas foi também criticada por « fazer psicanálise pelas ondas », referências a um célebre programa de rádio no qual ela respondia às questões dos ouvintes, geralmente as mães, que apresentavam suas dificuldades com os filhos. F. DOLTO aconselhava, guiava, propunha soluções, interpretava às vezes.

1965

*M. FAIN, L. KREISLER e M. SOULÉ publicam o artigo: "La clinique psychosomatique chez l'enfant".

*Maud MANNONI publica: « Le premier rendez-vous avec le psychanalyste », préface de Françoise DOLTO, éditions du Seuil, Paris.

1966

* Publicação da « Psychanalyse de L'Enfant », de Victor SMIRNOFF, livro traduzido em português por Zeferino ROCHA, editora Vozes..

*Criação da « Psiquiatria de setor » e dos primeiros « Hospitais de dia »para crianças. S.LEBOVICI teve participação ativa no desenvolvimento destas estruturas.

*Desenvolvimento da psiquiatria do adolescente e da psiquiatria do bebê (perinatal). Foi um período marcado por ume perda relativa da influência da psicanálise consecutiva à crescente biologisação da pedopsiquiatria e à importância cada vez maior da pediatria [3,4].

1967

*Maud MANNONI publica o livro : « L'Enfant, sa maladie et les autres », Seuil, Paris.

1968

*Serge LEBOVICI apresenta uma classificação multi-axial de crianças psicóticas e autistas num seminário da « Organização Mundial da Saúde », realizado em Paris. Ele sustentou a hipótese de que a psicose e o autismo eram duas entidades clínicas distintas, um ponto de vista contrário ao dos americanos. A O.M.S. utilizou esta classificação como base para uma classificação internacional, a I.C.D. 10. Este trabalho de S.L. contou com a colaboração de Sadoun, psiquiatra-psicanalista de crianças [3].

1970

*Julian DE AJURIAGUERRA,  professor de psiquiatria da criança na Faculdade de medicina de Genebra, publica seu famoso «  Manuel de Psychiatrie de L'Enfant ». 

*Maud MANNONI publica o livro : « Le Psychiatre, son « fou »et la psychanalyse », Editions du Seuil, Paris. Sua tese é que a sociedade faz seus loucos, e cria, para cuidar deles, uma instituição que só pode transformá-los em objetos. Este livro inscreve-se no movimento antipsiquiátrico existente na época.

* Ilse BARANDE, Pierre BOURDIER e S. DAYMAS-LUGASSY escrevem um importante capítulo para a EMC: « Psychothérapies de l'enfant et de l'adolescent », in Encyclopédie Médico-Chirurgicale, Psychiatrie.

* Serge LEBOVICI, Michel SOULE, S. DECOBERT e J. SIMON publicam o livro:« La connaissance de l'enfant par la psychanalyse ». Grande sucesso nos meios psicanalíticos não lacanianos.

*René DIATKINE e Jeaninne SIMON publicam : « La psychanalyse précoce ». Trata-se do relato da psicanálise de uma criança de três anos.

*Gérard MENDEL publica o livro « Pour décoloniser l'enfant, Payot, 1971.

*Françoise DOLTO tornou-se ainda mais célebre e conhecida fora dos círculos psicanalíticos graças às suas publicações e participações em programas de rádios e televisões. Incansável pedagoga, ela tornou-se uma grande defensora das crianças, insistindo para que fossem reconhecidas como pessoas dignas de respeito e merecedoras da atenção dos poderes públicos.

*Diante da impossibilidade de trabalhar com famílias carentes, cujas crianças eram recebidas no centro Alfred BINET por dificuldades escolares, S.LEBOVICI e suas equipes multidisciplinares decidiram sair dos muros do Centro para trabalhar nas próprias escolas do XIII arrondissement da capital francesa. Um inquérito realizado na época por uma equipe do Centro em duas classes de alunos permitiu comprovar a importância do tabalho com os pais, que se revelou mais útil do que os Q.I. para a predição da evolução escolar das crianças [3].

1971

*Françoise DOLTO publica o livro : « Le cas Dominique ».

*A. CLANCIER e R. JACCARD publicam o livro: « Parents sans défaut »

1972

*S. DECOBERT e M. SOULÉ : publicação do livro « La notion de couple thérapeutique »

1973

*Maud MANNONI publica : « Éducation impossible », Seuil, Paris.

1975

*S.LEBOVICI começa a cuidar de bebês, e, de uma maneira geral, a pedopsiquiatria dos bebês alcança um importante desenvolvimento, donde o sucesso do « Congresso de Cannes » de 1983, que reuniu cerca de duas mil pessoas .

*R. DIATKINE e J.SIMON publicam o livro : « La psychanalyse précoce », ou a análise de uma criança de três anos.

*F.KLEIN e R.DEBRAY publicam o livro : »Psychothérapies analytiques de l'enfant »,

Privat, Toulouse.

1979

*A revista « DIALOGUE », dirigida pelo psiquiatra-psicanalista, Jean LEMAIRE, publica um número intitulado : « L'Enfant Révélateur », comportando artigos de grande importância.Menção especial ao artigo : « Introduction aux thérapies familiales », de Jean LEMAIRE.

REFERÊNCIAS

1) J. DE AJURIAGUERRA : « Manuel de Psychiatrie de l'Enfant », Masson éditeurs, 1970, Paris.

2) Pierre MÂLE : « Aspects du développement de la psychiatrie infantile en France », in « Cinquantenaire de L'Hôpital Henri Rousselle », Laboratoires Sandor, Paris, 1973.

3) Serge LEBOVICI : «Réflexions spontanées sur un demi-siècle vécu par un psychiatre d'enfants », in «Psychiatrie Française» ,Vol.XXVI ,Ville d'Avray, Março de 1995.

4) Gilbert DIEBOLD e Yves MANELA : « Réflexions sur l'évolution de la psychiatrie de l'enfant », in Psychiatrie Française, Vol. XXVI, Ville-d'Avray, Março de 1995.

5) Jean-Louis BRENOT e Yves MANELA : « L'enfance de la psychiatrie », in Psychiatrie Française, Vol. XXVI, Ville-d'Avray, Março de 1995.

6) Ilse e Robert BARANDE : « Histoire de la Psychanalyse en France », Privat éditeur, 1975, Toulouse.

7) Bruno CASTETS : « De L'Apport de la psychanalyse à la sémiologie psychiatrique de l'enfant », in « Rapport de Psychiatrie », sob a direção de G. BENOIT e G.DAUMÉZON, Masson, Paris, 1970.

2. ENTRE PERCEPÇÃO E CONSCIÊNCIA1

Maria de Lourdes de Melo Baêta2

"Certamente, para o pequeno sujeito se estabeleceu, entre a cena e o mundo, uma função: a da janela que o protege do real".
Eduardo Vidal3

O VIR A SER DO SUJEITO NUMA UTI NEONATAL

Mais um psicanalista no Hospital, desta vez numa UTI neonatal onde a maioria dos neonatos é composta por prematuros aos quais se acrescenta à prematuridade própria da espécie, uma prematuridade clínica. Com freqüência são prematuros extremos que sobrevivem graças aos recursos que o mundo científico despeja nas mãos dos médicos, como nos diz Lacan em "Psicanálise e Medicina", e que os deixam, às vezes, embaraçados quanto à conveniência do seu uso. Eles podem sobreviver, sim, mas, não é sem riscos. Há o risco evidente das seqüelas orgânicas - chamadas doenças da tecnologia porque esses bebês teriam morrido em outros tempos -, e há um risco para o desenvolvimento e constituição desses sujeitos, ainda em seus primórdios, devido às contingências que se inscrevem neste ambiente cheio de percalços que é uma UTI neonatal. E se não são prematuros, são recém-nascidos com patologias graves.

Com todos eles a situação hospitalar, ainda que necessária para salvar a vida, torna difícil a consideração de um sujeito, sobretudo quando o de que se trata nesse tempo inaugural é muito mais da sua antecipação sustentada pelo desejo do Outro - Outro Primordial das funções parentais - para que ele possa vir a ser. Numa UTI neonatal - esse campo que tem, fortemente, a conotação do estranho -, o exercício dessas funções fica severamente obstaculizado porque o discurso que os pais sustentavam com relação àquele sujeito por(vir) fica seriamente abalado. A mãe, em geral, é mais intensamente afetada, embora facilmente se constate a reação em cadeia desse acontecimento atingindo a rede das relações familiares. O atendimento psicanalítico visa propiciar uma travessia desse período de turbulência procurando evitar que aconteçam danos graves, ou até irreversíveis, para o psiquismo do bebê.

Há uma certa obviedade dos efeitos de dor/sofrimento e das tensões que a internação numa UTI neonatal suscita. Os significantes que evidenciam estas situações são abundantes, assim como as falas desconexas, o peso de alguns silêncios, a angústia e o susto (Schreck) diante dos acontecimentos inesperados. As mães parecem estar ancestralmente preparadas para que o filho que lhes sai da barriga lhes retorne para o colo. E ele vai para uma incubadora e está sujeito a procedimentos médicos intensivos e, às vezes, invasivos; é cuidado por diferentes profissionais, mas não por elas, e ainda corre risco de vida e de seqüelas. Obviamente é muito difícil! É o que suscita os movimentos de humanização das UTIs. O que faz uma diferença - fundamental - é que nós analistas temos o olhar voltado para algo mais além disso que se manifesta com tanto sofrimento. Observamos uma espécie de colapso das funções parentais que faz com que aqueles que deveriam sustentar as funções materna e paterna de um bebê encontrem-se absolutamente impossibilitados de inserir esse bebê na sua história de forma que lhe seja favorável. O nascimento prematuro e/ou uma patologia grave no nascimento têm esse efeito desorganizador porque se apresentam como um real que irrompe no tecido simbólico que dava sustentação à vi(n)da daquela criança. O risco de morte imediata - que tem como primeira conseqüência os esforços para a estabilização do quadro - e depois a instabilidade no processo de evolução - as infecções, as intervenções cirúrgicas delicadas, o risco de lesões por anoxia ou hemorragia, os "procedimentos" - desarticulam a fala, as identificações, os afetos com que os pais antecipavam seu bebê, fazendo prever/fantasiar conseqüências assustadoras.

É a clínica do real que atropela as expectativas parentais. Mas de que clínica se trata? Que clínica faz um psicanalista num hospital, no qual ele compõe uma equipe de profissionais em que seu atendimento não é primariamente solicitado, mas se faz necessário pela situação de urgência psíquica? E mesmo essa urgência nem sempre é vivenciada como tal pelos pais que costumam manifestá-la sob a forma de atuações. Mais ainda, o tempo de atendimento é estabelecido em função da permanência do bebê na UTI e do tempo lógico que ele atravessa no seu processo de constituição enquanto sujeito.

No dizer de Julieta Jerusalinsky: "... escutamos essas atuações dos pais do recém-nascido internado como uma demanda radical a partir da qual propomos nossa intervenção. Tomamos esse sofrimento psíquico que não consegue ser posto em palavras como uma demanda e realizamos a oferta de escutá-lo, dando lugar a que construam suas próprias articulações sobre o evento, a que formulem suas dúvidas, suas preocupações, a que rearmem a imagem do seu bebê e possam constituir estratégias de encontro com ele em meio aos obstáculos que se fazem presentes pela internação e pelo risco de vida do recém-nascido". É isso que justifica a intervenção precoce: que a fala dos pais, estimulada pela nossa escuta interessada - desejo do analista -, inicie um processo de colocar bordas simbólicas na brecha aberta no discurso parental relativo àquela criança onde a irrupção do real fez aflorar algo da verdade dos sujeitos, seja colocando em cheque identificações estabelecidas, seja pelo encontro com um gozo inesperado.

"As fadas, é o que se diz, boas ou más, se curvam sobre os berços para cobrir de dons os recém-nascidos ou destruí-los lançando-lhes uma sorte, uma palavra depreciativa" 4. E foi por serem palavras ditas literalmente em torno da incubadora de um prematuro de 26 semanas, que eu quis trazer este recorte da clínica para dizer alguma coisa do meu trabalho.

A CLÍNICA

No meu primeiro encontro com o casal, contaram-me que esse bebê era o segundo prematuro que tiveram. O primeiro, com 27 semanas, "ficou muito mal e veio a óbito". Agora, na segunda gravidez, Paulo, que novamente é prematuro. Desta vez fizeram o diagnóstico da causa do parto pré-termo durante a gravidez: trombofilia. Estavam controlando, mas o neném parou de mexer, o líquido baixou muito e começou o trabalho de parto. Observo que o marido é muito mais claro que a mãe, que é negra.

Na semana seguinte ela vem sozinha porque o pai já está trabalhando. Diz que acha que seu marido não está bem, que está mais preocupado que ela. Eu pergunto: E você? Ela responde dizendo que está tomando anticoagulante (!). Depois fala das dificuldades com a sogra, com quem mora, e na seqüência conta o que aconteceu no horário de visitas, na quarta-feira da semana anterior (dia dos avós), quando a sogra veio ver Paulo. Conta o comportamento provocativo desta já na entrada, nos procedimentos de assepsia. Então, com a sogra de um lado da incubadora e ela do outro, "disse para ela tudo que quis. Falava baixinho, mas disse tudo que quis. Paulo me deu coragem. Eu tirei força dele" (bem mais adiante, em outro contato comigo, diz que ele está dando força para ela para um "tanto de coisas"). Pergunto por que a sogra a trata "assim". Ela me responde: "Eu acho que é isso, ó". E mostra a pele negra. Paulo ficou muito mal no fim de semana depois desta quarta-feira. Na verdade esteve à morte, e os pais foram avisados disso. Agora já está melhor, mas ainda grave. "Os médicos disseram que foi Deus", disse a mãe, já um pouco mais esperançosa porque Paulo tinha saído do quadro agudo, mas ainda estava grave. Mais tarde vejo-a na Unidade. Está muito excitada, andando e falando mais ou menos para todos e para ninguém - para as coxias, diria Lacan -: "Está corado... não está? Ficou coradinho... não ficou? Foi a transfusão". "Olha como ele está coradinho... olha!". A escansão, bastante evidente, se faz "ouvir". Coloco-me como destinatário da sua mensagem e vou com ela até a incubadora para que me mostre como ele está. A criança tem a pele bem clara e me chama a atenção ela insistir em ver a melhora de Paulo na cor da pele. Confirmo-a dizendo que também acho que ele está corado.

Lembro-me do "Fort... Da" da criança. Um contorno significante para a mãe? Uma tentativa de recuperar o solo perdido - homeostático - do princípio do prazer, fazendo barreira contra o real? Uma forma de conter o excesso traumático?

No próximo atendimento ela chega contando que já voltou para a sua casa, junto com a sogra. Até então estava na casa da mãe. Diz que a sogra mudou na maneira de falar de Paulo. Tem perguntado por ele falando o nome dele. "Isso é muito importante, não é?" Antes dizia "o menino". Insiste em dizer que está tudo bem, mas é visível que não está bem. Aguardo. Começa a falar de uma ansiedade que vem sentindo desde que Paulo esteve muito mal. Acha que está tendo uma recaída. Sem entender bem de quem está falando, pergunto: como assim? Explica que é uma recaída dela e não do Paulo. Então começa a falar da filha que morreu. Só agora diz que foi uma menina. "Quando o médico falou que era enterocolite pensei: outra vez não! Foi disso que a minha filha morreu". Eu lhe digo que agora é mesmo outra vez, onde tudo é diferente: outra criança - um menino - com outra enterocolite, e que ela também teve outra gravidez, pois havia se tratado da trombofilia. Até com a sogra estava diferente! Rimos disso.

Ela passa a dizer que conversa muito com Paulo. Outro dia ele estava de bundinha virada pra cima - me explica que isso é para chamar um irmãozinho - e ela lhe disse que ele precisava sarar porque ela não poderia ter outro filho.

Mais descontraída termina dizendo que hoje nem queria vir. Eu digo que percebi. Ela ri e eu também.

A partir daí, em outros encontros, fala muitas coisas sobre as suas relações com sua família, com seu marido, do marido com sua família e dos ciúmes de uns com os outros. Fala de amigos "mui amigos" nesta situação e de outros. Enfim, fala, demanda. Logo deixei de vê-la porque voltou a trabalhar e visitava Paulo à noite, depois do serviço. Nesse período eu recebia notícias através da enfermagem. Paulo ficou fora de perigo, saiu da incubadora, experimentou a "mãe canguru", iniciou a alimentação com sonda e já mama no peito.Teve alguma dificuldade para ganhar peso, o que retardou um pouco a sua alta.

Destaquei algumas passagens que me pareceram decisivas com relação ao marco de referência do atendimento na UTI neonatal, que é o tempo lógico da constituição do sujeito nos seus primórdios. Se os médicos tentam salvar a vida, nós tentamos salvar o desejo que deverá enlaçar o sujeito. E aqui, mais do que nunca, o desejo do homem é o desejo do Outro. O tempo é aquele da incorporação simbólica, da presença/ausência da mãe, e a qualidade da sua presença é decisiva para as primeiras marcas que o bebê receberá em seu corpo. O investimento narcísico do Outro materno, a falicização do bebê, são elementos fundamentais nessa antecipação de um sujeito que ainda não está lá, mas deverá escolher a vida através de um "a mais" de prazer que o Outro lhe propicie.

O MAIS ALÉM DA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA

Numa construção, feita só depois, naturalmente, o que me parece importante nos recortes que selecionei?

O anúncio da repetição - é o segundo prematuro, o primeiro "veio a óbito" - e a esperança da repetição diferencial - desta vez houve diagnóstico e tratamento da trombofilia. Mas mesmo assim... Um desejo que se enuncia ameaçado. Angústia como sinal? É importante marcar que não vemos aí repetição subjetiva, mas repetição do encontro faltoso com o real sob o semblante da morte.

No segundo encontro acho que um significante-chave é "anticoagulante". Resposta inesperada que sugere um sentido bem peculiar. Anticoagulante do desejo que deve circular no discurso, mas está correndo perigo de soçobrar?

A cena em torno do berço/incubadora me fez escolher este caso por metaforizar de forma tão evidente a presença de um outro discurso, inconsciente, que se insinua nos interstícios do discurso médico, entre percepção e consciência "como se diz entre couro e carne", e que, geralmente, fica ao sabor da sorte, da tichê. Fica evidente o investimento na criança enquanto que é desejada do lugar de objeto para o desejo do Outro, lugar que lhe foi disponibilizado a partir da castração do Outro materno. Daí a conseqüente falicização do bebê e seu revestimento narcísico.

Diante do filho, do qual "tirou força" - talvez por ser homem e mais claro como o pai -, ela faz uma indagação ao desejo do Outro - imaginariamente encarnado na sogra - tentando apontar-lhe a falta: "Por que a Sra. me trata assim?" Agora, com seu bebê, ela também narcisicamente confirmada, quem sabe ela poderá - não sei por quais meandros - encontrar "forças" para entrar nessa dialética dos objetos do desejo? Mas o componente de idealização parental que comporta a majestade do bebê, como Freud tão bem apontou, não se sustentou e o princípio do prazer - barreira de proteção contra o gozo - tornou-se insuficiente.

Na cena da enfermaria vemos a mãe nessa tarefa de ligação, primária para o aparelho psíquico - a Bindung de que fala Freud - a fim de que o discurso retorne ao "solo do prazer"5 . O encontro com o real, encontro faltoso, nos deixa a tarefa de colocar significantes onde eles não existem e representar um objeto que exige representação, mas que é irrepresentável. Para não ter de recobri-lo com a própria pele: "Eu acho que é isso, ó". Daí a importância de eu concordar com a mãe, aceitando a sua observação de que ele estava coradinho. Mesmo porque um sujeito se antecipa onde ele ainda não está, e nós sabemos da importância da localização simbólica da mãe com relação ao seu bebê para - em lugar análogo ao do espelho côncavo no modelo ótico -, fazer coincidir um objeto real com a imagem real sustentada pelo seu desejo. E a sustentação desse lugar numa UTI neonatal é muito difícil.

A outra criança: "Outra vez não!" A mãe fala da recaída e explica: "minha, não do Paulo". Agora pode falar da sua filha, era uma menina. Neste momento achei importante marcar a diferença, na repetição. E ela pôde rir comigo quando falei da mudança da sogra. A partir daí - tendo experimentado o atravessamento do real no que teriam sido os seus projetos e tendo podido sustentar o seu desejo por Paulo, mesmo quando ele não se identificou, simplesmente, ao que ela esperava - sua fala passou a fluir mais livremente e também suas conversas com ele.

A mãe antecipa o seu bebê não só no sentido de ver o que não está lá, mas que responde ao seu desejo. Ela também antecipa nele o sujeito desejante que virá a formular suas próprias demandas. Nisso ela é, também, a primeira "janela que o protege do real". Daí a epígrafe que escolhi. Antes que o bebê possa demandar pela separação, a mãe já sabe - ou é bom que saiba - que ela é o verdadeiro objeto transicional do seu bebê. É assim que Lacan lê o objeto winnicottiano.

Se não, observem. O que ela disse para o seu bebê foi suscitado pela postura do neném. Ele também já está "falando" com ela no entre percepção e consciência onde se arma a cena do desejo.

3.PAIS DE CRIANÇAS AUTISTAS CRIAM UM BANCO GENÉTICO

MEDISCOOP([email protected]é.net)

Tradução: Eliezer DE HOLLANDA CORDEIRO

Pierre Bienvault esceveu no jornal « La Croix »que « a fundação Autismo, criada por pais de crianças autistas, lançou um apelo às suas famílias para que elas façam um dom de ADN destinado à pesquisas.

O jornalista explicou que " a finalidade é de coletar o máximo de amostras amostras sanguíneas de parentes de pessoas doentes para a constituição de um banco genético colocado à disposição dos pesquisadores do mundo inteiro. [...] A esperança é que este banco venha a permitir aos pesquisadores a descoberta de todos os genes implicados no autismo. E, mais tarde, desenvolverem tratamentos mais específicos e eficientes ».

Pierre Bienvault precisou que« cerca de 280 amostras já foram recolhidas em cerca de 60 familias.

O jornalista notou também que «com esta fundação, os pais querem ser entendidos. E afirmarem com muita força que o problema das pesquisas sobre o autismo não concerne somente os cientistas .

(Informações: www.fondation-autisme.org )

4. ASSOCIAÇÕES

Association Française pour l'Approche Intégrative et Eclectique en Psychothérapie (AFIEP)

Association Française de Psychiatrie et Psychologie Légales (AFPP)

Association Française de Musicothérapie (AFM)

Association Art et Thérapie

Association Française de Thérapie Comportementale et Cognitive (AFTCC)

Association Francophone de Formation et de Recherche en Thérapie Comportementale et

Cognitive (AFFORTHECC)

Association de Langue Française pour l'Etude du Stress et du Trauma (ALFEST)

Association de Formation et de Recherche des Cellules d'Urgence Médico-Psychologique (AFORCUMP)

Association Nationale des Hospitaliers Pharmaciens et Psychiatres (ANHPP)

Association Scientifique des Psychiatres de Secteur (ASPS)

Association Commission Des Hospitalisations Psychiatriques France (CDHP France)

Association Promotion Défense de la Psychiatrie à l'Hôpital Général (PSYGE)

Association Karl Popper

Association pour la Fondation Henri Ey

Association Internationale d'Ethno-Psychanalyse (AIEP)

Collectif de Recherche Analytique (CORA)

Ecole Parisienne de Gestalt

Ecole Française de Sexologie

Ecole de la Cause Freudienne www.causefreudienne.org

Groupement d'Etudes et de Prévention du Suicide (GEPS)

Groupe de Recherches sur l'Autisme et le Polyhandicap (GRAP)

Groupe de Recherches pour l'Application des Concepts Psychanalytiques à la Psychose (GRAPP)

Regroupement National en Psychiatrie Publique (RENEPP)

Société Française de Gérontologie

Société Française de Thérapie Familiale (SFTF)

Société Francophone de Médecine Psychosomatique

Société Française de Psychopathologie de l'Expression et d'Art-thérapie(SFPE)

Société Française de Recherche sur le Sommeil (SFRS)

Société Française de Relaxation Psychothérapique (SFRP)

Société Française de Sexologie Clinique (SFSC)

Société Française de Psycho-oncologie/Association psychologie et cancers

Société d'Addictologie Francophone

Société Ericksonienne

Société de Psychologie Médicale et de Psychiatrie de Liaison de Langue Française

Société Médicale Balint

Union Nationale des Associations de Formation Médicale Continue (UNAFORMEC)

Union Nationale des Amis et Familles de Malades Mentaux (UNAFAM)

Association Psychanalytique de France (APF)

Société Psychanalytique de Paris (SPP)

Ecole Freudienne de Paris

5. LIVRES RÉCENTS (LIVROS RECENTES)

A « LETTRE DE PSYCHIATRIE FRANÇAISE »  selecionou os seguintes livros :

*Le corps insoumis :psychopathologie des troubles des conduites alimentaires

Maurice CORCOS

Dunod-30 euros

*L'économie addictive : l'alcoolisme et autres dépendances

Jean-Paul DESCOMBEY

Dunod-27euros

*Notre coeur tend vers le Sud :correspondance de voyage, 1895-1923

Sigmund FREUD

Fayard-23euros

*Oeuvres complètes :psychanalyse., 1913-1914

Sigmund FREUD

PUF-46euros

*L'évolution psychologique de la personnalité

Pierre JANET

L'Harmatan-28euros

*Oeuvres choisies.I-Premiers écrits psychologiques(1885-1888)

Pierre JANET

L'Harmatan-14,50euros

*La mélancolie et ses destins :mélancolie et dépression

Anne JURANVILLE

In press-10euros

*Les destins croisés :de la psychiatrie et de la psychanalyse

Simon-Daniel KIPMAN

Doin-20euros

*Les drogues

Nicole MAESTRACCI

PUF-8euros

*L'homme sans gravité :jouir à tout prix :entretiens avec Jean-Pierre LEBRUN

Charles MELMAN, Jean-Pierre LEBRUN

Gallimard-5,30euros

*Mémoire sur la découverte du magnétisme animal.

Mesmer et le magnétisme animal(1853)

Frantz Anton MESMER

L'Harmatan -19,50euros

*Le corps et sa danse

Daniel SIBONY

Seuil-9euros

*Le goût de vivre :retrouver la parole perdue

Edouard ZARIFIAN

O.Jacob-19,90euros

6.REVUES (REVISTAS)

ABSTRAC PSYCHIATRIE : www.impact-medecin.fr

LA REVUE FRANÇAISE DE PSYCHIATRIE ET DE PSYCHOLOGIE MEDICALE : www.mfgroupe.com

L'ENCEPHALE:WWW.ENCEPHALE.ORG

LES ACTUALITES EN PSYCHIATRIE: www.vivactis-media.com

NEUROPSY : WWW.NEUROPSY.FR

NERVURE : REDACTION: HOPITAL SAINTE-ANNE, 1 RUE CABANIS, 75014 PARIS. TÉLÉPHONE: 01 45 65 83 09 FAX. 01 45 65 87 40

NEURONALE (REVISTA DE NEUROLOGIA DO COMPORTAMENTO) [email protected]

PSN :(PSYCHIATRIE, SCIENCES HUMAINES, NEUROSCIENCES) : rue de la convention, 75015 paris. Fax : 0156566566

PSYCHIATRIE FRANÇAISE : [email protected]

PSYDOC-BROCA.INSERM.FR/CYBERSESSIONS/CYBER.HTML

SYNAPSE : [email protected]

EVOLUTION PSYCHIATRIQUE

7.SELEÇÃO de SITES

ETNOPSIQUIATRIA : www.ethnopsychiatrie.net

www.carnetpsy.com

Collège de Psychanalyse Groupale et Familiale www.psychafamille.com

┼ĺdipe www.oedipe.org

Quatrième Groupe http://quatrieme-groupe.org

Société Psychanalytique de Paris www.spp.asso.fr

www.doctissimo.fr

Association Française Des Psychiatres D'exercice Prive:www.afpep-snpp.org

Bulletin de L'ordre des Médecins: www.conseil-national.medecin.fr

Mediagora:http://perso.wanadoo.fr/christine.couderc/

Agoraphobie.com:http://www.agoraphobie.com/

Sitesfrancophones:http://www.churouen.fr/ssf/pathol/etatanxiete.html

Distúrbios do humor (afetivos) : www.dépression.ch

Estados limites em psiquiatria: tratamento (D. Marcelli): Suicídio Escuta - 24/24 http://suicide.ecoute.free.fr

Informações sobre o suicídio e as situações de crise: http://www.suicideinfo.org/french

Centro de Prevenção do suicídio: http://www.preventionsuicide.be

Associaçao Alta ao Suicídio: http://www.stopsuicide.ch

Suicídio : http://www.chu-rouen.fr/ssf/anthrop/suicide.html

Drogas : http://www.drogues.gouv.fr/fr/index.html

S.O.S. RÉSEAUX : http://www.sosreseaux.com/

IREB - Instituto de pesquisas científicas sobre as bebidas: http://www.ireb.com/

ADDICA : Addictions Précarité Champagne Ardenne : http://www.addica.org/

INTERNET ADDICTION : conceito de dependência à Internete: http://www.psyweb.net/addiction.htm

Estupefiantes e conduta automobilística; as proposições da SFTA: http://www.sfta.org/commissions/
stupefiantsetconduite.htm

Coordination (Coordenador): Eliezer de HOLLANDA CORDEIRO
[email protected]

1Trabalho apresentado em Mesa-Redonda sobre Psicologia Hospitalar, na 25a Jornada do Instituto de Estudos Psicanalíticos - IEPSI - Além do Princípio do Prazer de Freud a Lacan - realizada no período de 17 a 19 de outubro de 2003, em Belo Horizonte.

2Psicanalista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG - Belo Horizonte. Especialista em Psicologia Hospitalar.

3Vidal, Eduardo A torção de 1920. In: Pulsão e gozo, Letra Freudiana, Ano XI, n. 10, 11,12. Publicacão da Escola da Letra Freudiana, R. de Janeiro.

4This, B. Le père, acte de naissance, Paris, Seuil, 1980.

5 Vidal, Eduardo A torção de 1920. In: Pulsão e gozo, Letra Freudiana, Ano XI, n. 10, 11,12. Publicacão da Escola da Letra Freudiana, R. de Janeiro, p.24.


TOP