Junho de 2026 – Vol. 32 – Nº 6

Cláudio Martins e Rachel Nery

A sessão recente do Cine psiquiatria com o filme Valor Sentimental reuniu especialistas e público em torno de uma obra que, com delicadeza e contundência, expõe uma das dimensões mais complexas da clínica contemporânea: a transmissão psíquica entre gerações. Mais do que uma análise fílmica, o encontro se constituiu como espaço de elaboração coletiva sobre traumas, silêncios familiares e possibilidades de transformação — reafirmando o papel da arte como mediadora entre sofrimento e simbolização.

Desde o início, destacou-se a potência da metáfora central do filme: a casa. Como apontado por Rachel Nery, trata-se de uma construção que, à distância, parece íntegra e harmônica, mas que, ao se aproximar, revela rachaduras estruturais, fissuras e acúmulos invisíveis. Essa imagem sintetiza com precisão o funcionamento de muitas famílias marcadas por traumas não elaborados — sistemas que seguem funcionando, muitas vezes admirados externamente, mas sustentados por adaptações silenciosas, hipervigilância afetiva e recalques persistentes. As rachaduras não impedem a vida, mas podem inicialmente condicioná-las. Aprende-se a viver naquele ambiente como se ele fosse saudável. O filme desloca o imaginário popular de que famílias traumatizadas são necessariamente marcadas por eventos espetaculares ou explicitamente violentos. Ele mostra que pode acontecer com qualquer família, em qualquer estrutura ou camada social. Muitas vezes, o trauma se organiza em experiências mais sutis, como na ausência de um abraço afetivo demorado, no hiperfoco no trabalho como forma de evitar contato emocional, no imperativo constante da produtividade, na culpa por descansar, na certeza de que algo ruim irá acontecer ou na rigidez de que “é preciso ser forte.

Nesse contexto, o filme explora a perpetuação de experiências traumáticas ao longo das gerações. A impossibilidade da avó, no filme, em nomear e simbolizar seus próprios sofrimentos reverbera na filha e, posteriormente, nos netos, configurando um circuito de transmissão psíquica em que o não-dito se torna presença constante. Como ressaltado na discussão, não se trata apenas de memória consciente, mas de uma herança emocional silenciosa. Nicolas Abraham e Maria Torok descrevem esse fenômeno como a transmissão de “criptas psíquicas”, conteúdos traumáticos não elaborados que permanecem encapsulados e reaparecem em gerações posteriores por meio de sintomas, silêncios e repetições (ABRAHAM; TOROK, 1995). Já estudos contemporâneos em trauma transgeracional também apontam para possíveis repercussões biológicas e epigenéticas associadas ao estresse traumático severo (YEHUDA et al., 2016), ainda que o impacto relacional permaneça central.

O impacto do luto não elaborado emerge como eixo fundamental da narrativa. O suicídio da mãe de Gustav (Stellan Skarsgård), vivido por ele ainda na infância, inaugura uma ruptura psíquica de enormes proporções. A literatura demonstra que crianças expostas ao luto parental apresentam maior risco de sofrimento psíquico posterior, sobretudo quando o evento é atravessado por silêncio e ausência de elaboração familiar (BRENT et al., 2015). Na lógica infantil — frequentemente marcada por onipotência e egocentrismo — a criança tende a interpretar a perda como resultado de sua própria insuficiência. “O que há de errado comigo para que alguém vá embora?”; “O que eu fiz para não ser escolhido?”. Gustav

parece organizar sua vida ao redor dessa ferida silenciosa. Se alguém pode desaparecer sem aviso, vincular-se torna-se perigoso. O afastamento emocional passa a operar não como ausência de afeto, mas como defesa contra uma ameaça psíquica intolerável. Ele investe excessivamente no trabalho, no controle e na narrativa cinematográfica — talvez como uma forma de administrar aquilo que nunca conseguiu simbolizar.

Esse padrão reaparece na geração seguinte. Sua filha, Nora (Renate Reinsve), marcada por uma experiência subjetiva de abandono, oscila entre desejo intenso de ser escolhida e profundo medo de intimidade. Seus vínculos amorosos frequentemente recaem sobre figuras emocionalmente indisponíveis — uma repetição que Freud descreveu como compulsão à repetição (Wiederholungszwang), tentativa inconsciente de reviver situações traumáticas na fantasia de finalmente controlá-las ou obter um desfecho diferente (FREUD, 1920/2010). Busca-se novamente aquilo que feriu, não por masoquismo, mas porque o conhecido costuma parecer mais suportável que o imprevisível. Como apontado por Rachel Nery durante a discussão, “o trauma não simbolizado pode retornar sob outras formas”.

Os ataques de pânico da personagem também podem ser compreendidos nessa chave. O corpo passa a comunicar aquilo que o psiquismo não conseguiu traduzir em palavras. Quando sentimentos intensos são cronificamente reprimidos, o colapso somático frequentemente emerge como linguagem possível. O pânico, nesse contexto, pode ser lido como um limite corporal: uma expressão de que sustentar permanentemente funcionalidade, performance e autocontrole cobra um preço elevado. Estudos sobre trauma complexo mostram associação frequente entre experiências precoces de negligência emocional e sintomas dissociativos, somáticos e ansiosos na vida adulta (VAN DER KOLK, 2020).

Outro aspecto sensível da discussão foi a compreensão de que nem toda falha parental decorre de ausência de amor. Donald Winnicott já propunha a noção de ambiente “suficientemente bom”, reconhecendo que o desenvolvimento emocional depende menos de perfeição parental e mais da capacidade de oferecer holding, previsibilidade e acolhimento (WINNICOTT, 1965/1983). Muitos pais amam profundamente seus filhos, mas falham em sua função emocional porque também foram atravessados por desamparo, violência ou ausência de cuidado. Humanizar os pais, portanto, não significa minimizar danos. Significa compreender contextos sem apagar responsabilidades.

Essa perspectiva torna-se particularmente potente na leitura de Gustav. O homem que abandona suas filhas é também o menino de sete anos cuja mãe morreu de forma abrupta. O pai ausente não desaparece por falta de afeto, mas porque a proximidade emocional ativa memórias intoleráveis de perda. A ternura torna-se cara demais. O vínculo passa a ser vivido como ameaça. Ele tenta controlar roteiros talvez porque sua própria história lhe escapou completamente.

A filha mais velha responde tornando-se altamente funcional. Assume responsabilidades emocionais precoces, cuida da irmã e aprende a resolver conflitos antes mesmo de aprender a ser cuidada. Esse movimento de adaptação extrema também dialoga com o que Alice Miller descreveu como crianças excessivamente adaptadas às necessidades emocionais parentais, frequentemente desconectadas de suas próprias necessidades afetivas (MILLER, 1997). Sándor Ferenczi chamou esse fenômeno de “bebê sábio”:

crianças expostas precocemente ao trauma frequentemente sacrificam espontaneidade em troca de adaptação extrema (FERENCZI, 1933/2011). Tornam-se maduras cedo demais, competentes demais, independentes demais — mas frequentemente carregam colapsos silenciosos e enorme dificuldade de vulnerabilidade genuína.

Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) oferece outro destino psíquico possível para a mesma herança traumática. Ao tornar-se historiadora e investigar o passado familiar, ela busca organizar simbolicamente aquilo que antes existia apenas como fragmento. Sua defesa é mais intelectualizada, mas também representa tentativa legítima de elaboração. Ao compreender que a avó não era simplesmente uma mulher que abandonou o filho, mas alguém atravessado por violência e sofrimento, há um movimento de humanização que complexifica a narrativa familiar.

A discussão conduzida por Roberta Grudtner introduziu um ponto clínico crucial: a quebra do segredo. Ao comentar a cena de suicídio no filme, ela enfatizou que pensamentos de morte, desesperança e sofrimento intenso não podem ser naturalizados nem escondidos. O silêncio frequentemente agrava o trauma. O desmentido — conceito desenvolvido por Ferenczi — ocorre quando a dor é invalidada ou negada, intensificando o sofrimento psíquico. O oposto disso é a validação: quando aquilo que doeu pode finalmente ser nomeado.

E talvez seja justamente aí que o filme encontra sua dimensão mais potente: ele não oferece reconciliações simplistas nem finais completamente reparadores. O retorno de Gustav anos depois não desfaz ausências acumuladas. Algumas perdas permanecem perdas. Algumas infâncias não podem ser refeitas. Ainda assim, existe transformação possível quando a repetição cede espaço à elaboração. Não se trata de esquecer, mas de nomear. Reconhecer: aquilo fez falta. Aquilo doeu. Aquilo deixou marcas.

A arte aparece, então, não apenas como representação, mas como intervenção psíquica. Gustav tenta escrever. Nora atua. Agnes pesquisa. Cada um, à sua maneira, tenta produzir linguagem para aquilo que antes existia apenas como silêncio. Como lembrado por Roberta Grudtner durante a sessão, a arte pode funcionar como uma ponte onde palavras comuns falham.

As intervenções da plateia ampliaram ainda mais o debate ao conectar o filme a experiências contemporâneas de sofrimento coletivo — pandemia, perdas abruptas, desastres ambientais e rupturas familiares. O filme deixou de ser apenas uma narrativa particular e tornou-se espelho de questões amplamente compartilhadas.

Ao final, permaneceu uma pergunta clínica e profundamente humana: quais vínculos hoje nos permitem existir sem performance para “merecermos” amor?

O Cinepsiquiatria reafirma, assim, sua relevância não apenas como atividade cultural, mas como dispositivo de saúde pública. Em tempos de sofrimento psíquico crescente e persistência do estigma, espaços que promovem escuta qualificada, reflexão crítica e simbolização tornam-se cada vez mais necessários. Antes de reparar rachaduras, é preciso reconhecê-las. E, talvez, o trabalho mais difícil — e mais transformador — da vida adulta seja justamente este: identificar qual criança ainda habita nossos mecanismos de defesa e

oferecer a ela experiências emocionais diferentes daquelas que a ensinaram, precocemente, a sobreviver confundindo armadura com força e repetição com amor.

ABRAHAM, Nicolas; TOROK, Maria. A casca e o núcleo. Tradução de Maria José Coracini. São Paulo: Escuta, 1995.

BRENT, David A. et al. Longitudinal effects of parental bereavement on adolescent developmental competence. Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, London, v. 44, n. 5, p. 778–791, 2015.

FERENCZI, Sándor. Confusão de língua entre os adultos e a criança. In: ______. Psicanálise IV. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 111–121.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: ______. Obras completas, v. 14: história de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (1917–1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 161–239.

MILLER, Alice. O drama da criança bem-dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. São Paulo: Summus, 1997.

VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda as marcas: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.

WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.

YEHUDA, Rachel et al. Holocaust exposure induced intergenerational effects on FKBP5 methylation. Biological Psychiatry, Amsterdam, v. 80, n. 5, p. 372–380, 2016.

Similar Posts