Julho de 2026 – Vol. 32 – Nº 7
Walmor J. Piccinini
Resumo
A emergência das psicoterapias breves, na segunda metade do século XX, marcou uma inflexão importante na prática psiquiátrica. A partir de uma experiência pessoal de contato com esse movimento — incluindo a convivência com Peter Sifneos e o interesse pela Terapia Interpessoal de Klerman e Weissman — este artigo propõe uma leitura evolutiva das transformações que conduziram das abordagens dinâmicas breves às psicoterapias contemporâneas. Mais do que uma revisão histórica, trata-se de uma reflexão sobre mudanças de linguagem, de foco clínico e de concepção do sofrimento psíquico.
1. Um ponto de partida pessoal
Durante uma temporada nos Estados Unidos, tive a oportunidade de acompanhar de perto o desenvolvimento das chamadas psicoterapias breves. Chamava atenção, naquele momento, a proposta de intervenções limitadas a cerca de doze sessões, centradas na crise atual, em contraste com a tradição psicanalítica de longa duração.
Cheguei, inclusive, a traduzir o manual de Terapia Interpessoal de George Klerman e Myrna Weissman, iniciativa que acabou não se concretizando editorialmente por questões de direitos autorais. Ainda assim, o contato com essa abordagem deixou uma marca duradoura.
Na mesma época, conheci Peter Sifneos em uma visita a Porto Alegre — um encontro breve, mas suficiente para evidenciar o vigor de uma proposta que buscava conciliar intensidade clínica com economia de tempo. Paralelamente, os trabalhos de Malan e Davanloo completavam um quadro que, já então, indicava uma transformação em curso.
2. A tentativa de condensar a psicanálise
As psicoterapias breves dinâmicas podem ser compreendidas como um esforço de condensação: preservar algo da profundidade psicanalítica dentro de limites temporais mais estritos.
Sifneos, com sua postura ativa e confrontadora, procurava evitar a deriva associativa e dirigir o tratamento para um foco definido. Malan, mais sistemático, organizava a experiência clínica em torno de seus conhecidos triângulos. Davanloo, por sua vez, levava a técnica a um nível de intensidade que, para muitos, beirava o limite da tolerância terapêutica.
Apesar das diferenças, havia entre eles uma convicção comum: a de que seria possível acessar o núcleo do sofrimento psíquico sem recorrer a tratamentos prolongados.
3. Uma mudança de linguagem
Com a Terapia Interpessoal, algo começa a mudar de forma mais decisiva. Sem romper completamente com a tradição anterior, Klerman e Weissman deslocam o eixo da intervenção:
- do conflito intrapsíquico para a situação interpessoal
- da interpretação para a resolução de problemas
- da metapsicologia para uma linguagem mais próxima da clínica psiquiátrica
O paciente deixa de ser investigado em profundidade e passa a ser acompanhado em sua inserção atual no mundo das relações.
Essa mudança, que à época poderia parecer apenas técnica, revelou-se posteriormente também epistemológica.
4. O ingresso da psicoterapia no campo científico
Com a terapia cognitiva de Aaron Beck, essa transformação ganha outra dimensão. A psicoterapia passa a se apresentar como:
- estruturada
- replicável
- mensurável
A noção de conflito inconsciente cede espaço a conceitos como pensamentos automáticos e crenças disfuncionais. O que antes era interpretado passa a ser identificado, discutido e testado.
Se nas psicoterapias breves dinâmicas ainda havia uma tentativa de “salvar” a psicanálise, aqui já se delineia um novo campo, com outras referências.
5. Novos deslocamentos: as terapias contemporâneas
As chamadas terapias de terceira onda introduzem um novo deslocamento. Já não se trata apenas de modificar conteúdos mentais, mas de alterar a relação do indivíduo com sua própria experiência.
Aceitação, mindfulness, valores pessoais — termos que, em outro contexto, poderiam parecer estranhos à tradição psiquiátrica — passam a integrar o vocabulário clínico.
Curiosamente, sob novas formas, retorna uma preocupação antiga: como lidar com o sofrimento inevitável da condição humana.
6. Uma observação clínica revisitada
Naquele período inicial, circulava entre clínicos uma observação de tom quase anedótico: a de que pacientes tenderiam a atribuir seus sofrimentos a figuras centrais de suas vidas — o cônjuge, o empregador.
Vista hoje, essa formulação revela mais sobre o contexto cultural de sua época do que sobre diferenças essenciais entre homens e mulheres. Ainda assim, ela aponta para um aspecto persistente da experiência clínica: a tendência de organizar o sofrimento em torno de relações significativas.
O que mudou, ao longo do tempo, não foi tanto o fenômeno, mas a maneira de abordá-lo:
- como resistência
- como padrão relacional
- como cognição
- ou como narrativa experiencial
7. Permanências e transformações
Apesar das mudanças de linguagem e de teoria, certos elementos introduzidos pelas psicoterapias breves permanecem até hoje:
- a importância do foco
- a limitação temporal
- a maior atividade do terapeuta
- a centralidade da situação atual
Por outro lado, houve transformações significativas:
- o declínio da centralidade do inconsciente
- a redução da interpretação como técnica dominante
- a substituição de categorias como “culpa” por modelos mais descritivos
8. Considerações finais
O desenvolvimento das psicoterapias breves não foi apenas um episódio técnico, mas parte de um movimento mais amplo de transformação da psiquiatria.
O que começou como uma tentativa de tornar a psicanálise mais eficiente acabou contribuindo para a construção de um campo mais plural, no qual diferentes modelos coexistem — nem sempre em harmonia, mas frequentemente em diálogo implícito.
Talvez, visto em retrospecto, o aspecto mais relevante desse percurso não seja a substituição de uma abordagem por outra, mas a progressiva redefinição daquilo que entendemos por intervenção terapêutica.
