Agosto de 2026 – Vol. 32 – Nº 8


Walmor J. Piccinini

1. A crítica histórica à instituição psiquiátrica

Ao longo do século XX, poucas instituições médicas foram alvo de críticas tão intensas quanto o hospital psiquiátrico. Uma das estratégias mais frequentes nesses ataques consistiu em associá-lo ao termo “manicômio”, palavra que passou a evocar imagens de cárceres medievais nos quais indivíduos indefesos seriam submetidos a maus-tratos e violências de diversas naturezas. Essa representação simbólica tornou-se particularmente poderosa a partir das décadas de 1960 e 1970, quando movimentos intelectuais e políticos passaram a questionar o papel da psiquiatria na sociedade moderna.

Entretanto, raramente se menciona um fator estrutural relevante nesse debate: a progressiva asfixia financeira das instituições psiquiátricas. Ao longo das últimas décadas, muitos hospitais foram obrigados a operar com recursos cada vez mais limitados, o que comprometeu sua capacidade de oferecer tratamento adequado. As consequências desse processo tornaram-se amplamente conhecidas: desinstitucionalização incompleta, trans institucionalização para outras estruturas sociais — como prisões — e o abandono de indivíduos com transtornos mentais nas ruas das grandes cidades.

Outro equívoco frequente consiste na suposição de que apenas indivíduos claramente “loucos” seriam internados nesses hospitais. A história mostra que a função dessas instituições foi, em diversos momentos, mais ampla. Em Porto Alegre, por exemplo, durante a grande enchente de 1941, muitas famílias desabrigadas foram acolhidas no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Em outros períodos, indivíduos perseguidos politicamente foram internados para sua própria proteção. Houve também internações motivadas por razões pragmáticas, como acesso a abrigo e alimentação.

Em alguns hospitais circulava uma frase irônica que sintetizava bem essa realidade:

“Nem todos que estão, são; e nem todos que são, estão.”

2. Nellie Bly (1864-1922) e a investigação jornalística da loucura

Muito antes do surgimento da chamada antipsiquiatria, uma jovem jornalista americana realizou uma das primeiras investigações sobre a vida dentro de instituições psiquiátricas. Nellie Bly, repórter do jornal New York World, decidiu simular um quadro de loucura para ser internada no asilo de Blackwell’s Island, em Nova York.

O episódio é ainda mais notável pelo fato de Bly ter apenas 19 anos quando concebeu e executou o plano.

Após ser internada, permaneceu dez dias no asilo, período durante o qual observou atentamente o funcionamento da instituição. O resultado foi publicado inicialmente como uma série de reportagens e posteriormente reunido no livro Ten Days in a Madhouse.

Em um trecho famoso, Bly descreve sua experiência:

“From the moment I entered the insane ward on the Island, I made no attempt to keep up the assumed role of insanity. I talked and acted just as I do in ordinary life. Yet strange to say, the more sanely I talked and acted the crazier I was thought to be.”

Durante sua permanência no asilo, Bly descreveu condições precárias de atendimento, alimentação insuficiente, banhos frios e tratamento brusco por parte dos cuidadores. Observou também que algumas mulheres estavam internadas não por transtornos mentais evidentes, mas por dificuldades sociais ou linguísticas, como imigrantes incapazes de comunicar-se adequadamente em inglês.

A repercussão pública das reportagens foi imediata. A prefeitura de Nova York aumentou os recursos destinados ao asilo e promoveu melhorias nas condições de funcionamento da instituição. O episódio tornou-se um marco precoce da investigação social sobre instituições psiquiátricas.

3. O experimento Rosenhan (1972)

Quase um século depois, um experimento científico provocaria uma controvérsia ainda maior. Em 1973, o psicólogo David L. Rosenhan, da Universidade de Stanford, publicou na revista Science o artigo “On Being Sane in Insane Places”.

No estudo, Rosenhan e sete colaboradores saudáveis apresentaram-se como pacientes em doze hospitais psiquiátricos norte-americanos. Todos relataram ouvir vozes e sentir uma sensação de vazio existencial. Após a admissão, passaram a comportar-se normalmente e afirmaram que os sintomas haviam desaparecido.

Apesar disso, permaneceram internados por períodos que variaram entre sete e cinquenta e dois dias, com média de dezenove dias. Onze receberam diagnóstico de esquizofrenia e um de psicose maníaco-depressiva.

Um aspecto curioso relatado pelos pseudopacientes foi que diversos pacientes reais suspeitaram que os recém-internados não eram doentes. Já comportamentos normais — como tomar notas — foram interpretados pela equipe hospitalar como sintomas da doença.

Rosenhan concluiu que o ambiente institucional poderia distorcer a interpretação do comportamento humano e que o diagnóstico psiquiátrico seria incapaz de distinguir com segurança entre sanidade e doença mental.

4. As críticas ao experimento

O estudo teve enorme repercussão e foi rapidamente incorporado ao arsenal argumentativo da crítica antipsiquiátrica. Entretanto, também gerou importantes críticas dentro da própria psiquiatria.

O psiquiatra Seymour Kety argumentou que o experimento se baseava na simulação deliberada de sintomas psicóticos. Segundo ele, se um indivíduo ingerisse sangue e se apresentasse ao hospital vomitando, seria natural que os médicos suspeitassem de uma hemorragia digestiva.

Outro crítico relevante foi Robert Spitzer, que posteriormente desempenharia papel central na reformulação do sistema diagnóstico psiquiátrico. Spitzer observou que os pseudopacientes haviam mentido deliberadamente durante a avaliação inicial, o que inevitavelmente levaria à hospitalização. Também apontou problemas éticos na condução do estudo, já que os profissionais envolvidos não haviam sido informados de que participavam de uma pesquisa.

5. A evolução dos sistemas diagnósticos

O experimento Rosenhan ocorreu sob o contexto do DSM-II (1968), um manual diagnóstico ainda relativamente impreciso em seus critérios clínicos. Nas décadas seguintes, ocorreram transformações importantes na psiquiatria diagnóstica.

A publicação do DSM-III (1980) introduziu critérios operacionais mais rigorosos e padronizados. Revisões posteriores, como o DSM-IV (1994) e o DSM-5, buscaram aprimorar ainda mais a precisão diagnóstica.

Essas mudanças refletem o esforço da psiquiatria em tornar o diagnóstico mais sistemático e confiável.

6. O paradoxo contemporâneo

Com o passar das décadas, o debate sobre pseudopacientes perdeu parte de sua relevância diante de uma realidade inesperada: em muitos países, tornou-se mais difícil encontrar leitos psiquiátricos do que ser internado indevidamente.

Nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 13% da população carcerária apresente transtornos mentais graves, totalizando aproximadamente 650 mil indivíduos. Esse número é semelhante ao total de pacientes internados em hospitais psiquiátricos antes da revolução psicofarmacológica.

Assim, observa-se um fenômeno paradoxal. Enquanto os hospitais psiquiátricos foram progressivamente esvaziados, as prisões tornaram-se os maiores repositórios de pacientes psiquiátricos.

De certa forma, retorna-se a uma situação semelhante à do século XVIII, quando indivíduos pobres com transtornos mentais eram frequentemente recolhidos às prisões, enquanto os mais favorecidos buscavam tratamento em casas de saúde privadas.

7. Considerações finais

A história dos pseudopacientes revela não apenas os limites do diagnóstico psiquiátrico, mas também a complexidade das instituições que lidam com o sofrimento mental. Experiências como as de Nellie Bly e David Rosenhan tiveram o mérito de chamar atenção para aspectos problemáticos da institucionalização psiquiátrica.

Ao mesmo tempo, a evolução posterior da psiquiatria demonstra que a disciplina é capaz de revisar criticamente seus próprios métodos.

A história da psiquiatria sugere que o problema fundamental não reside apenas nas instituições, mas nas formas pelas quais as sociedades escolhem compreender e tratar a loucura.

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