Setembro de 2026 – Vol. 32 – Nº 9
Walmor J. Piccinini
A relevância histórica de Philippe Pinel não se restringe à reforma
institucional dos hospitais nem à formulação do tratamento moral: ela se
inscreve também em seu trabalho de tradução, assimilação e reorganização
crítica da medicina europeia do século XVIII. Formado em Montpellier e,
num primeiro momento, sem plena inserção profissional em Paris, Pinel
encontrou na tradução da obra de William Cullen um laboratório intelectual
decisivo. Nesse contato, a noção de doenças “sem febre”, em especial a
categoria das neuroses, ofereceu-lhe uma matriz conceitual para pensar a
loucura como perturbação funcional, nervosa e moral — e não mais como
simples consequência de estados febris ou de desequilíbrios humorais.
