Outubro de 2026 – Vol. 32 – Nº 10
Sérgio Telles
- O texto é um resumo do livro de Robert Misik – EDUCAÇAO NA CRUELDADE: A PSICOLOGIA DE MASSAS DO NOVO FASCISMO (Erziehung zur Grausamkeit. Die Massenpsychologie des neuen Faschismus), publicado pela Suhrkamp Verlag em agosto de 2026. O autor argumenta a partir de uma frase de Leo Löwenthal, importante membro da Escola de Frankfurt, que disse – “a agitação da extrema direita produz um efeito oposto ao da psicanálise”, referindo-as ao trabalho de alienação e descivilização que promove. Citando o EU E A PSICOLOGIA DAS MASSAS de Freud, Misik mostra como o fascismo alimenta a dependência de líderes fortes e agressivos, que, ao romperem os limites civilizatórios, são louvados por seus seguidores como exemplos de “liberdade” e revolta contra as “elites”. O autor enfatiza a base emocional irracional do fascismo, em que predominam sentimentos destrutivos, como ódio, vingança, nojo, inveja, ressentimento, amargura, sarcasmo, cinismo e recusa em empatizar.
Fascism Does Not Begin With Murder but With the Pleasure of Imagining It – Social Europe
- Pequena resenha do livro FROM THE CLINIC TO THE STREETS: PSYCHOANALYSIS FOR REVOLUTIONARY FUTURES (Da clínica ás ruas: psicanálise para futuros revolucionários), de Lara Sheehi, uma psicanalista que tem ocupado, nos Estados Unidos, um lugar relevante nas discussões sobre o impasse entre palestinos e israelenses, especialmente na questão de Gaza. Uma crítica frequente da esquerda à psicanálise é que ela defende posições conservadoras e normalizantes, além de tentar reconciliar as pessoas com condições de vida insuportáveis, contra as quais elas deveriam lutar. Sheehi propõe uma “apropriação” do conhecimento analítico, retirando-o das instituições que o moldaram dentro de seus interesses, ressignificando-o a serviço do que chama de “militância psíquica”. Recupera a memória das clínicas gratuitas de psicanálise no início do século XX na Europa, as ideias de Wilhelm Reich e Franz Fanon, a denúncia contra o colonialismo e a internalização da violência pelo colonizado. Denuncia ainda o uso do conhecimento psicológico e psicanalítico em operações estatais de repressão a movimentos de libertação e na organização das guerras psicológicas contra opositores do poder.
Rumo a uma militância psíquica – Jacobin Brasil
- O artigo de Pietro Bianchi trata do filme THE PERVERT´S GUIDE TO UTOPIAS (2026), de Sophie Fiennes, recentemente premiado no Festival de Veneza, em que a diretora dá seguimento a dois filmes anteriores – THE PERVERT´S GUIDE TO IDEOLOGIES (2012) e THE PERVERT´S GUIDE TO CINEMA (2006). Nesta trilogia, Fiennes entrevista Slavoj Zizek, que discorre sobre os temas propostos nos títulos. São documentários que transcendem a narratividade típica dessa categoria, em função de uma forte preocupação estética. Neste que é objeto do texto, Zizek aborda a utopia, vinculando-a com a catástrofe e o fim do mundo. Para tanto reflete sobre vários filmes, como APOCALYPSE NOW, V FOR VENDETTA, BLADE RUNNER, THE RAPTURE e LAST YEAR IN MARIENBAD.
Next Year at Marienbad: On The Pervert’s Guide to Utopias – Notes – e-flux
- Artigo de um psicanalista argentino sobre a crescente presença da IA no universo das terapias, enfatizando nossa responsabilidade nesse avanço. Num mundo em que a solidão e insegurança são tão frequentes, a escuta próxima e permanente da IA pode se tornar indispensável para muitos que não dispõem de outras alternativas. Não se trata, diz ele, de até onde a IA tem condições de avançar nesse campo e, sim, do quanto nós permitimos que ela avance. Aponta como, no início, lhe pedimos informações, logo lhe pedimos orientação e decisões. Se não atentamos, corremos o risco de abdicar de nossa capacidade de estabelecer relações com os outros e com nós mesmos.
O oráculo: o analista de IA. Artigo de Gustavo Fernando Bertran
- Notícia do último livro de Gerard Haddad, POUR UNE NOUVELLE PSYCHANALISE, em que retoma um tema já abordado em livros anteriores – o complexo de Caim, essa relação de ódio entre irmãos, que, a seu ver, muitas vezes é menosprezada por uma psicanálise aprisionada com exclusividade no complexo de édipo. Haddad não hesita em falar de sua vida pessoa para ilustrar sua argumentação, fazendo com que o livro possa ser visto como uma continuação de seu livro mais conhecido LE JOUR OU LACAN M´A ADOPTÉ.
CP – Le complexe de Caïn pour éclairer la géopolitique – l’Espace Datapresse
- Resenha do livro TALKING CURES – INSIDE STORY, do psicólogo alemão Steve Ayan.
- Lançada no Brasil uma nova biografia de Freud, escrita por Frank Tallis, que foi bem recebida nos Estados Unidos e Europa. O autor procura inserir Freud e a psicanálise no efervescente caldeirão cultural da Viena no ocaso do império dos Habsburg.
Lançamento da editora Nova Fronteira, Segredos mortais revisita a vida do psicanalista …
