Novembro de 2026 – Vol. 32 – Nº 11
Walmor J. Piccinini
Tempos atrás, escrevi um artigo sob o título “A loucura liberta”. Referia-me a uma norma do Hospício São Pedro que não permitia a internação de escravizados. Como os proprietários não queriam arcar com os custos do tratamento médico, diante da impossibilidade de interná-los como escravos, alforriavam os doentes e os abandonavam à porta da Santa Casa ou do próprio Hospício. Esse mesmo parâmetro parece ter sido utilizado também em São Paulo. A partir desse episódio, uma questão sempre me inquietou: por que, nas grandes cidades escravistas, como o Rio de Janeiro, os negros não se rebelaram em massa contra seus opressores brancos, como ocorreu na Revolta dos Malês, na Bahia?
A resposta que encontrei não aponta para ausência de resistência, nem para qualquer aceitação passiva da escravidão. Ao contrário: sugere que, no espaço urbano, a resistência muitas vezes assumiu outras formas. Havia uma economia complexa que girava em torno do trabalho negro, especialmente da figura do negro de ganho. Artesãos, pintores, marceneiros, carregadores, vendedores e outros trabalhadores especializados podiam circular pela cidade, negociar serviços, entregar uma parte dos ganhos ao senhor e reter alguma quantia para si. Nessa brecha estreita e ambígua, muitos passaram a acumular recursos, comprar a própria alforria, libertar familiares e, em alguns casos, organizar pequenas redes de trabalho com auxiliares negros.
Há ainda um aspecto desconfortável, mas indispensável: essa economia urbana não produzia apenas solidariedade entre negros. Em certos casos, negros de ganho, libertos ou indivíduos que haviam acumulado algum capital também passaram a possuir escravizados ou a depender do trabalho compulsório de outros. Isso revela que a escravidão não era apenas uma relação simples entre brancos senhores e negros escravizados, mas uma estrutura econômica e social mais ampla, capaz de envolver diferentes posições dentro da própria população negra. A possibilidade de ascensão individual podia, paradoxalmente, levar alguns a reproduzir o sistema que os oprimira.
Minha tese, portanto, é que a escravidão urbana produziu uma contradição particular: explorava brutalmente a população negra, mas também criava pequenas margens de circulação, renda, sociabilidade, negociação e ascensão. Essas margens não anulavam a violência do sistema; ao contrário, podiam ser absorvidas por ele. Em vez de conduzirem necessariamente à rebelião aberta, muitas vezes deslocavam a luta para estratégias menos visíveis: a compra da liberdade, a proteção da família, a formação de redes de solidariedade, a fuga, a negociação cotidiana, a inserção em irmandades e, em alguns casos, a incorporação contraditória à própria engrenagem escravista.
Nesse sentido, a comparação com a Revolta dos Malês deve ser feita com cautela. A Bahia reunia condições próprias de mobilização: forte presença de africanos islamizados, vínculos culturais e religiosos compartilhados, redes de comunicação e uma experiência coletiva capaz de sustentar uma ação organizada. No Rio de Janeiro e em outras cidades, a existência de uma economia urbana dependente do trabalho negro podia produzir outro tipo de dinâmica: menos explosiva, talvez, mas não menos marcada por conflito, cálculo e resistência.
Assim, “A loucura liberta” revela uma ironia cruel da escravidão: em certos casos, a liberdade não vinha do reconhecimento da humanidade do escravizado, mas da perda de seu valor econômico para o senhor. A doença mental, ao tornar o corpo escravizado improdutivo ou incômodo, podia abrir a porta da alforria — uma alforria marcada pelo abandono. A mesma lógica econômica que permitia a alguns comprar a liberdade condenava outros a serem descartados quando já não podiam produzir. É nessa tensão entre exploração, brecha econômica e abandono que se encontra o núcleo do artigo.
