Outubro de 2022 – Vol. 27 – Nº 10

Sérgio Telles

 

  1. Notícia do lançamento do livro “René Major, La psychanalyse à venir”, com artigos de vários autores sobre o trajeto institucional e político de René Major, desde a criação dos Cahiers Confrontations até a criação do Institut des Hautes Études en Psychanalyse – que comandou de 2003 a 2017, além da realização dos Estados Gerais da Psicanálise nos anos 2000, que organizou com Elisabeth Roudinesco e Jacques Derrida.

Danielle Cohen-Levinas & Ginette Michaud (dir.), René Major. La psychanalyse à venir (fabula.org)

 

  1. Alicia Puglionesi, da “The Yale Review” e pesquisadora do espiritismo e de fenômenos ocultos, discorre sobre o permanente diálogo entre os vivos e os mortos, que fica especialmente intenso na vigência de grandes mortandades trazidas por guerras e pandemias. O COVID matou nos Estados Unidos mais de 1 milhão de pessoas e, mesmo assim, não se organizaram rituais coletivos para expressar o luto. A partir dessa constatação, Puglionesi lembra a febre de espiritismo desencadeada pelas mortes da Primeira Guerra Mundial e pela gripe espanhola, e mesmo antes, quando negros e índios se “manifestavam” através de médiuns nas sessões espíritas para os brancos, dizendo que estavam bem e não guardavam rancor, aplacando assim a culpa pelo racismo e pelo genocídio do povo nativo. Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, o mestre do raciocínio lógico na solução de crimes, era um fervoroso seguidor do espiritismo, especialmente depois da morte de seu filho e de seu irmão durante a gripe espanhola. Como muitos, desejava comunicar-se com seus mortos e se certificar que gozavam das delícias do outro mundo.

The Yale Review | Alicia Puglionesi: “Spiritualism’s Shadows”

 

  1. Uma interessante entrevista com Florant Gabarron-Garcia, autor da “Histoire populaire de la psychanalyse”, que discute o engajamento político de Freud e da própria psicanálise. Segundo o autor, há um “Freud político” dos anos 20, que apoiava as policlínicas de psicanálise e a participação nas causas sociais, que se contrapõe ao “Freud pessimista” do anos 30, que, levando em conta a pulsão de morte, não tem esperança em mudanças sociais. Pensa Gabarron-Garcia que a negociação de Ernest Jones com os nazistas, para “salvar a psicanálise”, teria favorecido o afastamento da instituição psicanalítica da participação política, embora ela tivesse persistido com Wilhelm Reich, cuja importância teria sido apagada na história oficial da psicanálise, assim como foi também rejeitado pelos partidos comunistas em sua proposta de desencadear uma revolução sexual – a “sex-pol”. Reich teria feito um diagnóstico certeiro do impasse político ainda hoje vigente, da escravização das massas a líderes de variado quilate autoritário: a dimensão da luta de classes fica obscurecida pela dimensão pulsional, ou seja, prevalece nas massas o desejo por pais fortes e protetores, independente do teor ideológico do discurso empregado. Gaborron-Garcia ressalta a atuação de Marie Langer e se detem nas tentativas atuais de popularizar a psicanálise para as classes menos favorecidas.

Freud et le socialisme: une histoire méconnue – Entretien avec Florent Gabarron-Garcia (lvsl.fr)

 

  1. Novamente vem à tona a questão dos Arquivos Freud e a grande polêmica desencadeada por Jeffrey Masson Moussaief nos anos 80, quando, nomeado por Kurt Eisler para fazer pesquisas no Arquivo Freud, leu as cartas para Fliess e afirmou que Freud abandonou a teoria da sedução e a substituiu pela teoria pulsional e do Complexo de Edipo por “covardia”, para não enfrentar o poder patriarcal. O cineasta Michel Meignant reconta a história no documentário “La Verité sur Freud, des Archives Freus a #MeToo”.

La Vérité sur Freud, des archives Freud à #MeToo – film 2022 – AlloCiné (allocine.fr)

 

  1. Um analista lacaniano russo reflete sobre a guerra de Putin contra a Ucrânia, detectando o uso maciço da forclusão feito pela propaganda oficial russa para negar a a realidade da guerra, que chega ao ponto de impedir a circulação de determinados significantes que poderiam evidenciá-la.

The Contemporary Clinic #3: Psychoanalytical Notes from Russia during the Ukraine War – Notes – e-flux

 

  1. Al psicanalista Karyne Messina lança o livro Resurgence of Global Populism: A Psychoanalytic Study of Projective Identification, Blame-Shifting and the Corruption of Democracy, pela editora Routledge. No livro, Messina examina o populismo nos Estados Unidos, na Hungria, Polônia, Áustria, Austrália, Nova Zelândia, na Europa Oriental, na América Latina, nas Filipinas, Turquia e Índia, ressaltando a ameaça que constitui para os valores democráticos.

New Book on Global Populism Examines Psychology of Blame-Shifting and the Corruption of Democracy (yahoo.com)

 

  1. Hannah Baer, a autora do artigo, reflete sobre a condição da psicanálise submetida às terapias cognitivo-comportamentais, assim como sobre o que considera ser uma repressão de suas raízes confessionais judaicas. Baer acredita que as práticas psicoterápicas se empobrecem ao negarem suas raízes religiosas, coletivas, socioculturais e abraçarem um modelo “branco”, de rendimento, eficiência e lucro.

Therapy Was Never Secular (jewishcurrents.org)

 

  1. Resenha de Sérgio Telles do livro “Derrubar árvores – uma irritação”, do escritor austríaco Thomas Bernhard, em que o autor descreve com acidez e sarcasmo a vida literária de Viena.

Escritor critica a hipocrisia do meio literário | Eu & | Valor Econômico (globo.com)

 

  1. A Disney lança nova versão do filme “Pinocchio”, que mistura atores (Tom Hanks) com animação, motivando o psicanalista fazer uma breve análise dele, na qual capta a fantasia masculina de gerar sozinho um filho, e a dura tarefa de criar um filho e se criar como um pai. Para ele, a transformação do boneco de madeira numa criança de carne e osso, simbolizaria a progressiva assunção do próprio desejo de Pinocchio, antes alienado no desejo de Gepeto.

Le personnage de Pinocchio vu par un psychanalyste (femina.fr)

 

  1. Artigo traça um perfil da jornalista Rachel Aviv, da importante revista “The New Yorker”, atual “correspondente para assuntos de psiquiatria e psicanálise, posto antes ocupado pela renomada Janet Malcolm. Sem constrangimento, Aviv expõe seus traumas infantis e familiares que a transformaram numa usuária dos serviços de saúde mental, quer seja institucional ou psicoterápico. Mas, enquanto Janet Malcolm era uma ardorosa partidária defensora da psicanálise, Aviv mantem dela uma visão mais distanciada e cética.

Rachel Aviv’s Journey to the Ends of Psychiatry – Tablet Magazine

 

  1. Notícia do próximo lançamento (no primeiro semestre do próximo ano) do livro “The Guru, The Bagman and The Sceptic”, de Seamus O´Mahony, pela prestigiosa editora inglesa Head of Zeus. Amparado nas relações de amizade entre Freud, Ernest Jones e o cirurgião Wilfred Trotter, o autor faz como muita verve uma abordagem crítica do entorno de Freud e da vida cultural de Viena e Londres naquela ocasião.

The Bookseller – Rights – Head of Zeus lands O’Mahony’s deep-dive into Freud, Trotter and Jones

 

  1. Em 26/10, a Editora Flammarion lança em Paris a correspondência entre Freud e a Princesa Marie Bonaparte. É supostamente a última grande coleção inédita de cartas do criador da psicanálise.

Dany Nobus no Twitter: “Out on 26 October: the last great Freud correspondence to be released from the archives. Just under 1,000 pages in large format. Marie Bonaparte’s notebooks remain unpublished, but are now also accessible at the Library of Congress. https://t.co/HfmNQcHum3” / Twitter

Similar Posts