Outubro de 2026 – Vol. 32 – Nº 10


Walmor J. Piccinini

Tenho visto anúncios de cursos e tratamentos apresentados sob o rótulo de “psiquiatria injetável”. A expressão sugere uma nova área da especialidade, capaz de obter resultados rápidos por meio de injeções, infusões ou outras vias não orais. Mas a via de administração, por si só, não define uma disciplina médica nem garante eficácia.

O assunto tornou-se ainda mais confuso porque, no mesmo debate, aparecem a cetamina, a escetamina, os antipsicóticos de ação prolongada, a eletroconvulsoterapia e até as chamadas canetas emagrecedoras. São intervenções muito diferentes. Algumas têm indicações bem estabelecidas; outras permanecem em investigação; e outras parecem depender mais do apelo comercial do que de evidências consistentes.

A distinção fundamental é simples: uma seringa é um instrumento, não um mecanismo terapêutico.

O que existe de fato na psiquiatria

A psiquiatria utiliza medicamentos injetáveis há muitas décadas. Antipsicóticos de ação prolongada, por exemplo, podem ser úteis na manutenção do tratamento quando há dificuldade de adesão à medicação oral. Também há fármacos administrados por via intravenosa ou intranasal em situações específicas.

A cetamina intravenosa, usada fora das indicações formalmente aprovadas em muitos países, pode produzir resposta antidepressiva rápida em alguns pacientes com depressão resistente. A escetamina, que é administrada por via intranasal sob supervisão, foi aprovada para determinadas formas de depressão resistente. Nenhuma das duas, porém, justifica a criação de uma especialidade chamada “psiquiatria injetável”.

Esses tratamentos exigem seleção criteriosa do paciente, avaliação de riscos, acompanhamento clínico e integração com um plano terapêutico mais amplo. Não constituem uma solução universal. Também não devem ser confundidos com misturas de vitaminas, minerais ou suplementos injetáveis divulgados como tratamento geral para transtornos mentais, cuja eficácia frequentemente não está apoiada em estudos controlados ou diretrizes reconhecidas.

O problema, portanto, não está na agulha, na infusão ou no spray nasal. Está em transformar a via de administração em argumento de autoridade e em promessa de inovação.

Onde entra a eletroconvulsoterapia

A eletroconvulsoterapia, ou ECT, não é uma forma de “psiquiatria injetável”. É um procedimento de neuromodulação no qual um estímulo elétrico controlado produz uma crise convulsiva terapêutica. A ECT moderna é realizada sob anestesia geral breve e com bloqueio neuromuscular.

As substâncias injetadas durante o procedimento — anestésicos, bloqueadores neuromusculares e, quando necessário, outros medicamentos de apoio — tornam o tratamento seguro e tolerável. Elas não são o agente antidepressivo, antimaníaco ou anticatatônico principal. A presença de uma seringa na sala de ECT é instrumental, assim como ocorre em muitos procedimentos cirúrgicos.

A ECT mantém indicações clínicas importantes, sobretudo em depressão grave ou psicótica, catatonia, mania grave e situações nas quais a rapidez da resposta pode ser decisiva. Sua eficácia não decorre da anestesia nem da via intravenosa, mas da própria intervenção eletroconvulsiva.

Usar a ECT para legitimar uma suposta “psiquiatria injetável” seria um erro lógico semelhante a afirmar que, como uma cirurgia cardíaca utiliza anestesia venosa, a anestesia é o tratamento da cardiopatia.

A lição histórica das terapias de choque

Na década de 1930, a psiquiatria recebeu diferentes tratamentos chamados de “choque”. A insulinoterapia de Sakel provocava hipoglicemia profunda e coma, sobretudo em pacientes com esquizofrenia. O cardiazol era usado para induzir convulsões químicas. Em 1938, Cerletti e Bini introduziram a convulsoterapia elétrica.

Essas práticas conviveram no mesmo período, mas não eram equivalentes. A insulinoterapia expunha o paciente a uma grave desorganização metabólica, com riscos consideráveis e eficácia que não se confirmou de modo convincente. Acabou abandonada. A ECT, ao contrário, permitiu induzir a convulsão de maneira mais controlável e reprodutível. Com a introdução da anestesia e do relaxamento muscular, tornou-se muito mais segura.

A história não demonstra que todo tratamento intenso ou rápido seja eficaz. Demonstra que uma intervenção somente permanece quando suas indicações, benefícios e riscos podem ser avaliados. A dramaticidade do procedimento não substitui a evidência.

É por isso que expressões como “reset cerebral”, “revolução terapêutica” ou “resultado em poucos dias” devem ser recebidas com prudência. A rapidez pode ser clinicamente valiosa, mas não é prova suficiente de eficácia, segurança ou superioridade.

O que as canetas emagrecedoras têm a ver com a ECT

As chamadas canetas emagrecedoras — agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, e o coagonista GIP/GLP-1 tirzepatida — não têm relação terapêutica com a antiga insulinoterapia e não são tratamentos psiquiátricos. A relação com a ECT é outra: elas podem modificar o risco anestésico.

Esses medicamentos retardam o esvaziamento gástrico e podem causar náuseas, vômitos, refluxo e sensação prolongada de plenitude. Como a ECT requer anestesia geral breve, a presença de conteúdo no estômago aumenta a preocupação com regurgitação e aspiração pulmonar.

Isso não significa que a semaglutida ou a tirzepatida contraindiquem a ECT. Significa que seu uso deve ser identificado antes do procedimento e comunicado à equipe de anestesia. A avaliação deve considerar o medicamento, a dose, a data da última aplicação, a fase de aumento da dose, os sintomas gastrointestinais, o diabetes, a obesidade, a gastroparesia e outros fatores capazes de retardar o esvaziamento gástrico.

Também é importante evitar afirmações categóricas sobre a interação direta desses medicamentos com a ECT. Até o momento, não há demonstração convincente de que reduzam a eficácia antidepressiva da ECT ou alterem necessariamente o limiar convulsivo. Ao mesmo tempo, os dados específicos em pacientes submetidos à ECT ainda são limitados. A principal preocupação conhecida é anestésica, não psiquiátrica.

As recomendações mudaram

As primeiras orientações sobre agonistas de GLP-1 recomendavam, de maneira ampla, suspender os fármacos de uso diário no dia do procedimento e os de uso semanal sete dias antes. Recomendações posteriores passaram a adotar uma avaliação individualizada, porque a suspensão automática também pode trazer problemas, como descontrole do diabetes, e não elimina necessariamente todo o risco de conteúdo gástrico residual.

No Brasil, o posicionamento conjunto de 2026 da Sociedade Brasileira de Diabetes, da Sociedade Brasileira de Anestesiologia e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica recomenda preparo antes de sedação ou anestesia geral, com dieta líquida nas 24 horas anteriores e jejum de 8 a 12 horas, individualizado. Quando disponível, a ultrassonografia gástrica à beira do leito pode ajudar a estimar a presença de conteúdo residual.

A suspensão por sete dias para medicamentos de longa duração, ou por um dia para os de curta duração, é reservada principalmente aos pacientes com fatores de risco para broncoaspiração, aos que estão aumentando a dose ou aos que ainda não alcançaram estabilidade terapêutica. Mesmo nesses casos, a decisão deve ser coordenada com o médico assistente, sobretudo quando o medicamento é usado para diabetes.

Para a ECT, que muitas vezes é realizada duas ou três vezes por semana, protocolos rígidos tornam-se ainda mais difíceis. Suspender repetidamente um medicamento semanal durante toda a série pode afetar o controle metabólico. A solução não está numa regra isolada, mas na comunicação entre psiquiatria, anestesia e o profissional responsável pelo tratamento do diabetes ou da obesidade.

Uma orientação prática

Antes de cada série de ECT, a equipe deve registrar:

qual agonista de GLP-1 ou coagonista GIP/GLP-1 o paciente utiliza;

a dose, a frequência e a data da última aplicação;

se o tratamento foi iniciado recentemente ou está em fase de aumento da dose;

a presença de náuseas, vômitos, refluxo, distensão ou plenitude gástrica;

diabetes, gastroparesia, obesidade e outros fatores de risco;

a conduta definida em conjunto com a anestesia e, quando necessário, com o médico assistente.

Pacientes com sintomas gastrointestinais importantes, suspeita de estômago cheio ou gastroparesia exigem avaliação individual. Conforme a urgência clínica, a sessão poderá ser adiada ou realizada com precauções anestésicas adicionais. Não cabe ao paciente suspender o medicamento por conta própria.

Conclusão

Três conclusões ajudam a desfazer a confusão.

Primeiro, existem medicamentos psiquiátricos administrados por vias injetável, intravenosa ou intranasal, mas isso não transforma a “psiquiatria injetável” em uma nova disciplina. O que legitima um tratamento é a relação entre indicação, mecanismo, evidência, segurança e acompanhamento clínico — não a via de administração.

Segundo a ECT é um procedimento de neuromodulação. Os medicamentos injetados durante sua realização pertencem à anestesia e à segurança do procedimento; não explicam seu efeito terapêutico.

Terceiro, as canetas emagrecedoras não diminuem, até onde se sabe, o efeito da ECT, mas podem alterar o risco anestésico por retardarem o esvaziamento gástrico. Elas não impedem automaticamente o tratamento. Exigem triagem, comunicação entre as equipes e conduta individualizada.

Em medicina, novidades reais existem. Mas uma palavra nova, uma seringa ou uma promessa de rapidez não bastam para demonstrar progresso.

Referências essenciais

Sociedade Brasileira de Diabetes, Sociedade Brasileira de Anestesiologia e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica. Rastreamento e controle da hiperglicemia no perioperatório. Diretriz SBD 2026.

American Society of Anesthesiologists e sociedades participantes. Multi-society clinical practice guidance for the safe use of GLP-1 receptor agonists in the perioperative period. 2024.

Food and Drug Administration. Informações regulatórias sobre Spravato (escetamina).

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