Janeiro de 2026 – Vol. 32 – Nº 1

Walmor J. Piccinini

Todos os anos, os dicionários Oxford e Merriam-Webster elegem suas Palavras do Ano. O gesto parece simples, mas funciona como uma espécie de exame clínico da cultura. Cada escolha revela algo sobre a maneira como vivemos, falamos e tentamos compreender o mundo que nos cerca.

A Oxford privilegia o vocabulário que nasce da internet e do comportamento contemporâneo: selfie, rizz, brain rot, rage bait. São palavras que capturam hábitos, humores e identidades moldadas nas redes sociais. A Oxford mostra como nos expressamos.

A Merriam-Webster segue outro caminho. Suas escolhas refletem os termos mais buscados no dicionário por pessoas que tentam entender um mundo em crise: gaslighting, justice, pandemic, deepfake, authentic. A MW revela o que nos inquieta.

Colocadas lado a lado, as duas listas formam um retrato nítido do nosso tempo:

  • a Oxford registra a superfície vibrante da cultura digital;
  • a Merriam-Webster revela o subterrâneo das dúvidas, tensões e ansiedades contemporâneas.

Prestar atenção a essas palavras é reconhecer que a linguagem continua sendo nosso melhor instrumento de diagnóstico cultural. Ela mostra o que celebramos, o que tememos e onde sentimos que o mundo está mudando. As Palavras do Ano, no fundo, contam a história de cada um de nós.

Rage bait”: a Palavra do Ano da Oxford

Eleita pela Oxford em 2025, rage bait pode ser traduzida como “isca de raiva”. O termo descreve conteúdos online criados deliberadamente para provocar indignação, fúria ou choque emocional, com o objetivo de aumentar engajamento, comentários e compartilhamentos.

São títulos, postagens ou vídeos que exploram emoções negativas — muitas vezes de forma sensacionalista ou parcial — para atrair atenção. Um exemplo típico é uma manchete que sugere uma injustiça extrema ou uma provocação moral, levando o leitor a reagir impulsivamente antes mesmo de verificar o conteúdo.

A escolha de rage bait reflete a centralidade das redes sociais na comunicação contemporânea e a crescente instrumentalização das emoções como moeda de visibilidade. Mais do que um modismo linguístico, o termo expõe um traço marcante do nosso comportamento digital

Similar Posts