Setembro de 2026 – Vol. 32 – Nº 9

Walmor J. Piccinini

Poucas palavras atravessaram tanto tempo na história da medicina quanto histeria. Durante mais de dois milênios ela designou manifestações tão diferentes que é legítimo perguntar se os médicos, ao longo dos séculos, estavam falando da mesma doença. Associada inicialmente ao corpo feminino e ao útero, tornou-se doença dos nervos, depois neurose, paradigma da psicanálise, transtorno de conversão e, finalmente, desapareceu como denominação diagnóstica das classificações psiquiátricas contemporâneas.

Mas terá desaparecido a histeria ou apenas o seu nome?

A pergunta é especialmente interessante porque a trajetória da histeria acompanha as mudanças da própria medicina. Poucas entidades clínicas permitem observar tão claramente as sucessivas maneiras pelas quais médicos e sociedades procuraram compreender as relações entre corpo, cérebro, mente, sexualidade e cultura.

Do útero aos nervos

A própria palavra denuncia sua origem. Hystéra, em grego, significa útero. Durante séculos, manifestações que hoje distribuiríamos por diferentes categorias médicas foram relacionadas ao aparelho genital feminino.

Seria, entretanto, uma simplificação imaginar uma teoria única da histeria transmitida intacta desde Hipócrates até o século XIX. As explicações modificaram-se profundamente. Concepções uterinas conviveram com interpretações religiosas, demonológicas, somáticas e, posteriormente, neurológicas.

Um passo importante ocorreu quando a histeria começou a perder sua condição de doença exclusivamente feminina. Thomas Sydenham, no século XVII, descreveu manifestações histéricas como capazes de imitar grande número de doenças. Gradativamente, o útero perdeu espaço para os nervos.

No século XIX essa transformação se acelerou. Paul Briquet realizou extensa descrição clínica da histeria. Mas seria Jean-Martin Charcot, na Salpêtrière, quem transformaria a velha doença numa das grandes questões da neurologia europeia.

Charcot: a histeria torna-se respeitável

Charcot procurou demonstrar que a histeria não era simplesmente fingimento, fraqueza moral ou extravagância feminina. Era uma neurose que poderia ser observada, descrita e estudada.

Na Salpêtrière eram examinadas paralisias, anestesias, contraturas, crises convulsivas e outras manifestações sem correspondência com as lesões anatômicas conhecidas. A hipnose tornou-se simultaneamente instrumento de demonstração e investigação.

Foi nesse ambiente que Sigmund Freud esteve em 1885–1886.

A passagem de Freud por Paris acabaria adquirindo enorme importância histórica. O problema colocado por Charcot era desconcertante: como poderia um paciente apresentar paralisia sem que existisse a lesão neurológica correspondente?

A resposta acabaria levando a investigação do sistema nervoso para outro território: o psiquismo.

Janet, Breuer e Freud: dois caminhos

No final do século XIX ocorre uma bifurcação particularmente importante.

Pierre Janet enfatizou os fenômenos de dissociação. Certas experiências psicológicas poderiam separar-se da consciência ordinária e adquirir relativa autonomia.

Breuer e Freud seguiram caminho parcialmente diferente. Nos Estudos sobre a histeria, de 1895, e nos trabalhos posteriores de Freud, foi se constituindo a ideia de conversão: um conflito psíquico intolerável poderia encontrar expressão através do corpo.

O sintoma não era aleatório. Possuía uma história e, dentro do modelo psicanalítico, um significado.

Nascia uma das ideias mais influentes do século XX:

o corpo podia expressar aquilo que o psiquismo não conseguia resolver.

A histeria tornou-se assim uma das matrizes da psicanálise.

Ao mesmo tempo, a bifurcação entre Janet e Freud deixaria duas descendências que permanecem reconhecíveis mais de cem anos depois: dissociação e conversão.

A expansão da histeria

Durante a primeira metade do século XX, a histeria ocupou território enorme.

Paralisias, anestesias, cegueira, crises, amnésias, fugas e sintomas corporais variados podiam ser interpretados dentro de seu universo. A literatura psicanalítica acrescentaria ainda o caráter histérico, a histeria de angústia e diferentes formulações psicodinâmicas.

As guerras trouxeram um elemento perturbador. Soldados submetidos a situações extremas apresentavam paralisias, tremores, mutismo, cegueira e outros sintomas sem lesão neurológica demonstrável. O shell shock e as neuroses de guerra ajudaram a demonstrar, entre outras coisas, que manifestações anteriormente fortemente associadas às mulheres apareciam também em homens submetidos ao trauma.

Outro território começou a crescer: a psicossomática.

Franz Alexander e outros autores procuraram compreender as relações entre conflitos psicológicos e funcionamento orgânico. Termos como conversão, somatização, neurose de órgão e doença psicossomática passaram a conviver — nem sempre com fronteiras muito claras.

A histeria começava a se fragmentar.

Da neurose histérica à personalidade histérica

A literatura psicanalítica do pós-guerra produziu outra transformação.

Progressivamente, o interesse deixou de se concentrar apenas no sintoma conversivo e passou também para a organização da personalidade.

Nos anos 1950 e 1960 ganharam espaço expressões como caráter histérico e personalidade histérica. Ao conflito edipiano clássico foram acrescentadas hipóteses sobre oralidade, dependência, relações objetais precoces e processos pré-edipianos.

A discussão tornou-se cada vez mais complexa: onde terminava a neurose histérica e começava a personalidade histérica?

E, logo depois, apareceu outro vizinho incômodo: o paciente borderline.

Nos anos 1970 e 1980, parte da literatura aproximou manifestações anteriormente consideradas histéricas dos estados-limite, do narcisismo e de formas consideradas mais primitivas de organização psíquica.

Curiosamente, enquanto a teoria psicanalítica ampliava e reformulava a histeria, a psiquiatria classificatória começava a fazer o movimento contrário: desmontava a categoria.

A histeria entra no DSM

O primeiro Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, publicado pela American Psychiatric Association em 1952, nasceu num ambiente fortemente influenciado pela psiquiatria psicodinâmica.

O DSM-I utilizava a categoria dos transtornos psiconeuróticos. Entre eles estavam a reação de conversão e a reação dissociativa.

Ainda podemos reconhecer claramente os descendentes da velha histeria.

O DSM-II, de 1968, foi ainda mais explícito. Nele encontramos:

Hysterical neurosis, conversion type

e

Hysterical neurosis, dissociative type.

Foi o último DSM em que a histeria permaneceu nominalmente como neurose histérica.

1980: a morte oficial da histeria

O ponto de ruptura não é o DSM-5.

É o DSM-III, publicado em 1980.

A transformação promovida pelo DSM-III foi muito maior que uma simples mudança de nomenclatura. A classificação procurava afastar-se de diagnósticos dependentes de teorias etiológicas e estabelecer categorias definidas por critérios clínicos mais operacionalizados.

A neurose histérica desapareceu.

Mas seus pacientes não desapareceram.

Seu antigo território foi repartido.

A conversão passou para os transtornos somatoformes. A dissociação ganhou território próprio nos transtornos dissociativos. A somatização transformou-se em categoria diagnóstica. E a antiga personalidade histérica reapareceu sob outra denominação: transtorno da personalidade histriônica.

A palavra morreu; seus descendentes sobreviveram.

Talvez esta seja uma das maneiras mais interessantes de compreender o destino da histeria. Não ocorreu simplesmente a descoberta de que uma doença antiga não existia. O que ocorreu foi a decomposição de uma enorme construção clínica em diversas entidades diagnósticas.

DSM-IV: consolidando a fragmentação

O DSM-IV, publicado em 1994, conservou essencialmente essa divisão.

O transtorno de conversão permaneceu entre os transtornos somatoformes. Os fenômenos de memória, identidade e consciência ficaram nos transtornos dissociativos. O transtorno de somatização preservou outra parte da antiga tradição clínica, enquanto o transtorno da personalidade histriônica continuou no grupo dos transtornos da personalidade.

Enquanto isso, acontecia algo curioso.

A palavra histeria praticamente desaparecera da psiquiatria classificatória, mas continuava viva na psicanálise.

Dora, Anna O., Emmy von N. e os outros casos históricos eram revisitados. Discutiam-se novamente trauma, sedução, sexualidade, Édipo, relações objetais, narcisismo, gênero, transferência e contratransferência.

Psiquiatria e psicanálise pareciam estar falando línguas diferentes sobre pacientes que, muitas vezes, apresentavam fenômenos semelhantes.

DSM-5: o retorno à neurologia?

Quando o DSM-5 apareceu, em 2013, a palavra histeria já estava ausente havia mais de trinta anos.

Entretanto, ocorreu outra transformação significativa.

O transtorno de conversão permaneceu, mas recebeu também a denominação:

Functional Neurological Symptom Disorder — Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais.

Mais importante que o novo nome foi a mudança conceitual.

A demonstração de um conflito psicológico deixou de ser requisito necessário para estabelecer o diagnóstico. O exame neurológico ganhou importância positiva: procura-se demonstrar incompatibilidade entre o sintoma apresentado e padrões reconhecidos de doença neurológica.

É uma mudança extraordinária quando observada historicamente.

Com Freud, o diagnóstico caminhara da neurologia para o psiquismo.

Mais de cem anos depois, o transtorno funcional aproxima novamente psiquiatria e neurologia.

Não voltamos simplesmente a Charcot. Neuroimagem funcional, neurofisiologia, modelos cognitivos, atenção, expectativa, emoção e processamento cerebral permitem formular perguntas que Charcot não poderia fazer.

Mas a pergunta fundamental permanece surpreendentemente familiar:

como pode existir uma alteração real da função sem a lesão estrutural que tradicionalmente esperaríamos encontrar?

Afinal, a histeria desapareceu?

Depende do que entendemos por histeria.

Se nos referimos ao diagnóstico chamado histeria, a resposta é sim. A palavra deixou a nomenclatura oficial da American Psychiatric Association com o DSM-III.

Se nos referimos aos fenômenos clínicos historicamente agrupados sob esse nome, a resposta é claramente não.

Eles estão distribuídos atualmente por diferentes territórios:

  • transtorno neurológico funcional ou transtorno de conversão;
  • transtornos dissociativos;
  • transtorno de sintomas somáticos;
  • transtorno da personalidade histriônica;
  • e, dependendo do fenômeno considerado, diagnósticos relacionados a trauma, ansiedade e outras condições.

Isso suscita uma questão histórica e epistemológica mais profunda.

O progresso consistiu em descobrir várias doenças onde nossos antecessores enxergavam apenas uma ou simplesmente mudamos a maneira de dividir o mesmo território clínico?

Provavelmente há um pouco das duas coisas.

A história da histeria recomenda prudência diante das classificações psiquiátricas. Diagnósticos são necessários. Permitem comunicação, pesquisa, prognóstico e tratamento. Mas não são objetos imutáveis da natureza. São também maneiras, historicamente condicionadas, de organizar fenômenos clínicos.

Durante dois milênios a histeria mudou de endereço inúmeras vezes: do útero para os nervos, dos nervos para o inconsciente, do inconsciente para diferentes categorias psiquiátricas e, finalmente, de volta à fronteira entre neurologia e psiquiatria.

Talvez por isso seja precipitado escrever seu epitáfio.

A histeria desapareceu como nome. Os fenômenos que lhe deram origem continuam conosco. E a velha pergunta sobre as relações entre corpo e mente permanece extraordinariamente atual.

Da histeria à fibromialgia: o corpo sem lesão?”

A ideia central poderia ser:

A história da histeria não termina necessariamente nos transtornos dissociativos ou no transtorno neurológico funcional. Ela deixa como herança uma questão muito mais ampla: como compreender o sofrimento corporal quando a intensidade dos sintomas não encontra correspondência numa lesão anatômica demonstrável? Durante diferentes períodos, a medicina respondeu a essa questão recorrendo à histeria, à conversão, à psicossomática e à somatização. A fibromialgia mostra como a questão permanece atual, embora a resposta tenha mudado. A ausência de lesão estrutural proporcional à dor já não autoriza classificá-la como psicogênica. Modelos contemporâneos procuram compreender alterações no processamento e na modulação da experiência dolorosa, superando progressivamente a velha oposição entre doença “orgânica” e doença “psíquica”.

E eu terminaria esse trecho com uma pergunta, porque ela combina muito com o caráter histórico do artigo:

Talvez a história da histeria nos tenha ensinado menos sobre uma determinada doença e mais sobre o erro de imaginar que aquilo que ainda não conseguimos demonstrar no corpo necessariamente se origina fora dele.

Charcot → Freud → psicossomática → DSM → transtorno neurológico funcional → fibromialgia,

Trabalho que deu origem a estas considerações foi publicado na Revista eletrônica

Acheronta


O discurso psicanalítico sobre a histeria,
de 1910 a
 2002; uma revisão
corpo, sintoma e caráter na história da psicanálise
Gustavo Adolfo Mello Neto

Revista de Psicoanálisis y Cultura
Número 23 – Octubre 2006
www.acheronta.org

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