Julho de 2026 – Vol. 32 – Nº 7

Walmor J. Piccinini

Meu caro jovem colega,

Escrevo-lhe não do centro das decisões, mas da margem tranquila onde o tempo já desacelerou. Há um privilégio curioso na aposentadoria parcial: ver o movimento sem ser arrastado por ele.

Você inicia sua vida profissional em uma era de máquinas inteligentes, protocolos refinados e algoritmos capazes de sugerir diagnósticos em segundos. Terá à sua disposição instrumentos que minha geração sequer imaginava. Não despreze esses recursos. Eles são fruto da criatividade humana e carregam esforço de muitas décadas.

Mas permita-me dizer algo que talvez não encontre nos manuais.

A medicina não nasceu da máquina.
Nasceu do encontro.

Antes de qualquer exame, antes de qualquer imagem, antes de qualquer marcador biológico, houve um ser humano sentado diante de outro, tentando compreender o sofrimento que lhe era confiado.

Guarde isso.

Você será pressionado a ser rápido. A ser eficiente. A cumprir metas invisíveis. Haverá telas entre você e o paciente. Haverá formulários que disputarão sua atenção. Haverá gestores que falarão de números.

Escute os números.
Mas não se torne um deles.

Especialmente se escolher a psiquiatria — ou qualquer campo que toque a interioridade humana — lembre-se de que o sofrimento não é apenas um conjunto de critérios diagnósticos. Ele é história, contexto, silêncio, vergonha, esperança.

Nenhum algoritmo percebe o instante em que um paciente decide confiar-lhe algo que nunca disse a ninguém. Esse momento não aparece nos registros eletrônicos. Mas é ali que a medicina acontece.

Não tema a tecnologia. Aprenda a utilizá-la com competência. Mas não delegue a ela aquilo que é exclusivamente humano: a responsabilidade de tolerar a incerteza sem abandonar a compaixão.

Haverá dias em que você se sentirá cansado. Talvez até esvaziado. Perguntar-se-á se ainda é possível exercer a medicina com sentido. Quando isso ocorrer, volte ao essencial: um rosto, uma história, uma escuta atenta.

Os momentos mais significativos da vida profissional raramente aparecem nas estatísticas. Quase sempre acontecem em silêncio, quando alguém, sentado à sua frente, decide confiar-lhe algo que nunca havia dito a ninguém.

A técnica evolui.
Os sistemas mudam.
As modas científicas passam.

O que permanece é a necessidade humana de ser reconhecido em sua dor.

Se um dia sentir que está se tornando apenas executor de protocolos, faça uma pausa interior. Pergunte-se por que escolheu esta profissão. A resposta talvez não esteja nos currículos, mas na memória de algum encontro que o marcou profundamente.

Não permita que o cinismo substitua a lucidez. A maturidade profissional não é endurecimento; é profundidade.

E lembre-se: a medicina é uma ciência aplicada ao mistério. Não resolvemos o enigma humano; aproximamo-nos dele com respeito.

Se um dia, ao final de muitos anos de prática, você perceber que se recorda mais dos rostos do que dos diagnósticos, mais das histórias do que dos códigos, não se preocupe. Isso não será falha científica. Será sinal de que permaneceu humano.

Com estima serena,

Um colega de outra etapa da jornada

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