Março de 2026 – Vol. 32 – Nº 3
Alexander Moreira-Almeida
Caio Silva de Almeida
NUPES – Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Faculdade de
Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF
Poucas obras do século XX atravessaram com tanta força os limites entre
clínica, filosofia e experiência histórica quanto Em busca de sentido, de Viktor
Frankl. Publicado após a Segunda Guerra Mundial, o livro não é apenas um
testemunho do horror dos campos de concentração nazistas, mas uma das
mais contundentes afirmações da dignidade humana diante do sofrimento
extremo. Frankl não escreve como espectador ou como intelectual utópico
elaborando teses descoladas da realidade, mas como alguém que colocou sua
teoria à prova no cenário mais radical de desumanização já produzido pela
civilização ocidental.
Psiquiatra austríaco, formado no ambiente intelectual de Viena, Frankl foi
discípulo tanto de Freud quanto de Adler. Ainda assim, rompeu com ambos ao
sustentar que nem o prazer (Freud) nem o poder (Adler) constituem a
motivação humana fundamental. Para Frankl, o eixo central da existência é a
vontade de sentido. O ser humano não vive apenas para evitar a dor ou
maximizar o prazer, mas para responder a uma pergunta mais profunda: por
que viver?
Essa concepção deu origem à logoterapia, a chamada terceira escola vienense
de psicoterapia. Diferentemente de abordagens que reduzem o sujeito a
conflitos pulsionais, condicionamentos ambientais ou circuitos neurobiológicos,
Frankl sustenta que há também, no humano, uma dimensão irredutível de
liberdade e responsabilidade. Mesmo influenciado biologicamente, socialmente
ou psicologicamente, o indivíduo não está totalmente determinado. Há sempre
uma margem última de escolha.
O campo de concentração tornou-se, paradoxalmente, o laboratório extremo
dessa hipótese. Frankl observou que prisioneiros que mantinham algum
sentido — uma pessoa a reencontrar, uma obra a concluir, uma tarefa ainda
por cumprir — apresentavam maior capacidade de resistir física e
psicologicamente aos horrores diários que vivenciavam. Quando o sentido
colapsava, a morte frequentemente se seguia em poucos dias. Não por acaso,
Frankl frequentemente afirmava que: “Quem tem um porquê enfrenta quase
qualquer como.”
Aqui reside um ponto decisivo de sua obra: o sofrimento não é, em si, redentor.
Ele só deixa de ser mero padecimento quando encontra um sentido. Nesse
momento, transforma-se em sacrifício, em resposta ativa a uma realidade que
não pode ser modificada. A liberdade humana não consiste em escolher as
circunstâncias, mas em escolher a atitude diante delas.
Frankl rejeita frontalmente a ideia de que o sentido da vida seja algo
arbitrariamente “atribuído” pelo indivíduo, como se a existência fosse, em si,
vazia. Para ele, o sentido é descoberto, não inventado. A vida interpela o
sujeito, e este responde por meio de suas decisões concretas. Trata-se de uma
verdadeira “revolução copernicana” da existência: não é o ser humano que
pergunta à vida qual é seu sentido; é a vida que pergunta ao ser humano o que
ele fará com ela. Nas palavras de Frankl: “nunca e jamais importa o que nós
ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de
nós (…) viver não significa outra coisa senão arcar com a responsabilidade de
responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas
colocadas pela vida a cada indivíduo” (p 101-102).
Essa concepção se mostra particularmente atual diante do que Frankl chamou
de vazio existencial — uma forma privada e difusa de niilismo que atravessa as
sociedades contemporâneas. Nunca houve tanta abundância material, tanto
conforto e tantos meios de sobrevivência. E, paradoxalmente, nunca se
observou tamanha prevalência de depressão, suicídio, dependência química e
apatia. “As pessoas têm o suficiente com o que viver, mas não têm nada por
que viver; têm os meios, mas não têm o sentido” (p 164).
Frankl identifica nesse fenômeno uma consequência direta de uma cultura que
nega valores transcendentes, reduz o humano a mecanismos e dissolve a
noção de responsabilidade pessoal. Na tentativa contemporânea de se buscar
eliminar culpa, elimina-se também a liberdade — mas a um preço alto demais,
o da dignidade humana. Um sujeito sem possibilidade de culpa é, em última
instância, um sujeito sem autoria sobre sua própria vida.
Contra o individualismo autocentrado tão valorizado na natualidade, Frankl
propõe a noção de autotranscendência. O ser humano só se realiza quando se
orienta para além de si mesmo — em direção a uma causa, a uma obra ou a
outro ser humano. Felicidade e autorrealização não podem ser perseguidas
diretamente; surgem como efeitos colaterais de uma vida dedicada a algo
maior. Quanto mais o indivíduo se esquece de si mesmo, mais humano e mais
realizado se torna.
Nesse sentido, Frankl antecipa achados empíricos contemporâneos. Estudos
longitudinais de larga escala sobre florescimento humano mostram que
satisfação existencial se estrutura em torno de pilares que exigem abertura ao
outro: trabalho significativo, vínculos familiares, estudo e religiosidade
(VanderWeele et al., 2025). Todos implicam sair do próprio eixo narcísico.
Outro aspecto central de sua obra é a recusa do pandeterminismo. Frankl
reconhece a influência da biologia, da história pessoal e do contexto social,
mas rejeita a ideia de que esses fatores esgotem a explicação do
comportamento humano. Em situações extremas, como o campo de
concentração, ele observou não a homogeneização moral, mas a radical
diferenciação: alguns se tornaram algozes; outros, santos. As circunstâncias
não criaram essas atitudes — apenas as revelaram. “Lá [em Auschwitz], as
‘diferenças individuais’ não se ‘apagaram’, mas, ao contrário, as pessoas
ficaram mais diferentes; os indivíduos retiraram suas máscaras, tanto os porcos
como os santos [se revelam]” (p175).
Por isso, Frankl alerta contra teorias que “desmascaram” toda virtude como
hipocrisia ou mecanismo de defesa. Muitas vezes, esse discurso serve menos
à verdade do que à necessidade de justificar a própria renúncia à
responsabilidade moral.
Por fim, Frankl insiste que a transitoriedade da vida não deve conduzir ao
hedonismo, mas à responsabilidade. Justamente porque o tempo é breve, cada
decisão importa. “O potencial humano (…) sempre permite 1. transformar o
sofrimento numa conquista e numa realização humana; 2. retirar da culpa a
oportunidade de mudar a si mesmo para melhor; 3. fazer da transitoriedade da
vida um incentivo para realizar ações responsáveis” (p161). Viver, para ele, é
assumir conscientemente a tarefa que cada situação nos impõe, aqui e agora.
O ser humano, conclui Frankl, é o ser que inventou as câmaras de gás — mas
também aquele que entrou nelas de cabeça erguida, com uma oração nos
lábios. Desde Auschwitz sabemos do que somos capazes. Desde Hiroshima,
sabemos o que está em jogo.
A pergunta permanece aberta — e inevitável: o que faremos com essa
liberdade?
Referências:
Frankl, Viktor E.. Em Busca de Sentido. 54.ed. Petrópolis: Vozes, 2021
VanderWeele TJ, Johnson BR, Bialowolski PT, et al. The Global Flourishing
Study: Study Profile and Initial Results on Flourishing. Nat Ment Health.
2025;3(6):636-653. https://doi.org/10.1038/s44220-025-00423-5
Nota: Para análises complementares sobre o pensamento de Viktor Frankl,
veja estes vídeos na TV NUPES:
Análise de “Em busca de sentido” – Viktor Frankl
https://www.youtube.com/live/fTWCUG-1CKQ
Spirituality in Viktor Frankl
https://www.youtube.com/watch?v=SO6vi8VMB80
