Setembro de 2021 – Vol. 26 – Nº 09

Professor João Romildo Bueno

Apresentação

Escrevi vários artigos sobre e com o Professor João Romildo Bueno que podem ser vistos na Psychiatry online Brasil: 1-JOÃO ROMILDO FANUCCI BUENO (1938-)(Publicado em 2017). (João Romildo Fanucci Bueno (1938-) (polbr.med.br)) Junho de 2017 – Vol.22 – Nº 6

  1. JOÃO ROMILDO FANUCCI BUENO (1938-2019) – Psychiatry on line brasil (polbr.med.br)JOÃO ROMILDO FANUCCI BUENO (1938-2019)
  2. DESCENDÊNCIA UNIVERSITÁRIA DE JOÃO ROMILDO BUENO – Psychiatry on line brasil (polbr.med.br)
  3. Poesia dedicada ao Professor João Romildo Bueno que nos deixou em 17 de agosto e que recebeu expressivas homenagens no Congresso Brasileiro de Psiquiatria do Rio de Janeiro POESIA DEDICADA AO PROFESSOR JOÃO ROMILDO BUENO – Psychiatry on line brasil (polbr.med.br)

Graziela Stein de Vargas é psiquiatra em Porto Alegre e foi muito feliz ao retratar nosso eminente professor.

Cheira à Buenos Aires, à Rio, à Minas Gerais

Mas também cheira à Porto Alegre, São Paulo, Lisboa e muitos outros lugares

Cheira a limão

Não por ser cítrico

Mas pela acidez de suas doces palavras

E digo doces

Apesar da aparente ambiguidade

Porque no máximo ele era agridoce

Ainda que sua doçura parecesse muitas vezes imperceptível

Pois se dizia rebelde e muitas vezes se comportava de maneira ácida

Suas palavras

Nem sempre suaves e muito menos acolhedoras

Escondiam o real aventureiro e humilde do próprio saber

Nunca trilhou o caminho do descobrir e encobrir

Ao contrário, sempre esteve aberto o eterno libertino

Eu diria explícito

Entretanto, foi mestre no caminho do saber

E percebeu que saber não é possuir, mas entregar-se

Em sua estrada entregou-se à vida

Às paixões

Aos amigos

Aos sabores e saberes

Aos dissabores e aos inimigos

Ainda que nada simples

Eu diria complexo

Era ultrajantemente interessante

Possuidor de jargões e neologismos

Por hora doce

Por outras vezes ácido aos ouvidos

Mas sempre autêntico

E por assim o fazer parecia mais ser um menino rebelde

Um doce menino

Que jamais envelheceu

Que nunca soube antes o que é cansar dos outros

Desconheceu o verbo esquecer

E muito menos o verbo emudecer

Cabe agora dizer-te

Tu não jazes

Ao contrário, tua consciência viva faz dentro de cada um de nós

As mesmas provocações

E seguirás assim

Portanto, para sempre em nossos corações

Nosso doce e velho menino

Cabe agora dizer-te

Não te esqueceremos jamais

[23:38, 28/10/2019] Graziela: Se chama Romildo Bueno…

  1. HOMENAGEM A UM GRANDE PSIQUIATRA BRASILEIRO E COLABORADOR DO PSYCHIATRY ONLINE BRASIL – Psychiatry on line brasil (polbr.med.br)
  2. MEMÓRIA DOS AMIGOS DA ABPD PARA JOÃO ROMILDO FANUCCI BUENO – Psychiatry on line brasil (polbr.med.br)

 

Memória e História

 

CAPÍTULO I

 

A FILHA DA REVOLUÇÃO”

 

                                                                 Moi je t’offrirai des perles de pluie

                                                                 venues du pays où il ne pleut pas…

                                                                                   (Jacques Brel, 1959)

 

     A ABP, de forma injusta e afastada da história foi acusada de ser uma das “filhas da revolução” … ledo engano … vejamos as condições da saúde no país nos idos de 1966…

– SAÚDE PUBLICA : As condições da saúde pública à época fundamentavam-se nos “institutos de aposentadorias e pensões” pertinentes a cada categoria profissional : IAPC, IAPB, IAPI,CAPFESP,INSITUTO NACIONAL DOS SERVIDORES DO ESTADO  e similares … isto é, cada “corporação” tinha o seu próprio “instituto” devidamente “paternalizado” pelo ESTADO e financiado pelo famigerado IMPOSTO SINDICAL que surrupiava silenciosamente UM DIA do trabalho de cada brasileiro.

Um passo atrás na história: os movimentos sindicais floresceram a partir da “comuna de Paris” em 1842.

Antes haviam as “ligas”, as “hansa”, as gülden” que eram associações dos “patrões” e tinham como objetivo “explorar” a força de trabalho.

Com a aparição dos “conselhos de fábrica” a situação começou a se complicar: os operários burgueses iniciavam seu movimento contra a exploração. E o “movimento” cresceu ameaçadoramente…

A primeira guerra mundial, conseqüência de um conflito industrial movido pela disputa de mercado, interrompeu o movimento sindical.

A partir de 1920 o sindicalismo renasceu e foi engrossado pelas “suffragettes” que lutavam pelos direitos das mulheres (… o de votar e de poder trabalhar…)

Infelizmente, de 1922 em diante, o “totalitarismo” entrou em voga: Stalin na Rússia, Salazar em Portugal, Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, Franco na Espanha, Quisling na Noruega etc. e aí o “sindicalismo” ficou sob as asas do estado.

No Brasil com a promulgação da CLT em 1942, criou-se o “peleguismo sindical” de Getúlio Vargas que, por ironia tinha como máximo representante e beneficiário o

“Joaquinzão”, um comunista histórico do “velho partidão”.

Esta era a situação vigente quando se decidiu pela criação da ABP…

ÁREA MÉDICA – Em 1966 havia uma confusão urbana, suburbana e provinciana na área médica do setor saúde. Existia um Sindicato dos Médicos, tão “pelego” quanto os outros, uma Associação Médica Brasileira que se propunha “civilista” e o novel sistema CFM-CRMs. Em 1958, Juscelino Kubitschek, ressuscitou o Conselho Federal de Medicina, autarquia criada por Getúlio Vargas e não colocada em prática para preservar o Sindicato dos Médicos – mantido como seus similares pelo imposto sindical – pior para os médicos…. Em nome de uma pretensa vantagem de poder “acumular” duas matrículas em serviço público, os “doutores médicos” passaram a pagar por duas “autarquias – cabides – de – emprego” o sindicato e, para “exercer” a profissão o “conselho”.

A AMB ficaria sem função, destinada a ser uma réplica plebéia da Academia Nacional de Medicina … situação transitória … o grupo liderado por Kassab, Proença, Megre Velloso logo conseguiria reverter a situação através convênio CFM-AMB para a concessão de “título de especialista” em área médica.

Especialidades médicas sempre existiram e foram até motivo de ária em ópera de Rossini : barbiere, parruchier, chirurgo e botanico …o “Barbeiro de Sevilha” por ser cirurgião e “botânico” ( podia prescrever fitoterápicos…), seria o nosso “clínico geral”… o que não existia – e não existe em pindorama – é a regulamentação de especialidades médicas. Explico-me melhor: no Brasil as especialidades médicas são “criadas” pela AMB e para serem exercidas dependem de registro no sistema conselhal CFM-CRMs o qual, por sua vez, E por convênio, delega à AMB a aferição das capacidades para exercício das ditas especialidades: um “sistema” mais “circular” que a “quadratura do círculo”. E foi neste contexto que “nasceu” a ABP…

MEDICINA PRIVADA – A “Medicina” tal qual o “Sacerdócio” foi uma atividade privada mantida por uma corporação… o tal de “espírito de corpo -esprit de corps” tão caro aos “militares”. Em 1964 só foi mantido o esprit de corps dos militares… os outros submergiram…

Hospitais beneficentes, benemerentes, Santas Casas, de “utilidade pública” sempre complementaram a rede de saúde “oficial” com apenas um pequeno detalhe: os hospitais públicos, oficiais, estatais sempre eram a referência na QUALIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS, exatamente o oposto do que agora acontece com o SUS…

Entre 1964 e 1969 promoveu-se uma revolução na área médica: a unificação e a ESTATIZAÇÃO dos antigos institutos de aposentadoria e pensão corporativistas, estes IAPs eram mantidos por “terços” : um pago pelo trabalhador, um pago pelo patronato e o último pago pelo ESTADO… com a unificação patrões e empregados continuariam a pagar e o estado – com seu “terço” jamais cobrado – seria o único “gestor”. Na cabeça dos tecnocratas, isto resultaria em enorme economia para … o ESTADO, o que se comprovou como absolutamente verdadeiro. Sucateava-se a rede pública e os “serviços” seriam comprados à rede privada segundo uma “tabela de custos” elaborada em conjunto pelas partes interessadas… Quando se completou o processo em 1974 o INPS pagava mais à rede privada que o total gasto na rede pública…

Na chamada “saúde mental” os hospitais públicos passaram à categoria de “depósitos de doentes” e a rede privada criava novidades como o “leito-chão”, o “sistema de pronto-atendimento” que equivalia a dar licenças de fim de semana para pacientes em remissão e internar alcoólatras, mendigos, epilépticos e “loucos de qualquer natureza” por 72 horas … e tudo pago pela previdência … FOI NESTE SISTEMA QUE A ABP FLORESCEU….

A ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA – ABP – A decisão de se “separar” a PSIQUIATRIA de disciplinas correlatas e torná-la “especialidade médica oficial” foi amadurecida a partir de 1958 quando Leme Lopes assumiu a cátedra na Faculdade Nacional de Medicina.

Leme Lopes não pertencia à linha de “medicina legal” representada por Heitor Carrilho, Pacheco e Silva Alves Garcia e mesmo Nobre de Mello, achava que a psiquiatria tinha pontos comuns com a neurologia e quase nada tinha a ver com a “higiene mental” – matéria mais afeita aos pedagogos – filiava-se ao pensamento de Henri Ey, Lopez-Ibor (pai), Barahona-Fernandes, Jean Delay, Kielholz, Angst, Meyer-Gross e Roth que acreditavam ser a psiquiatria uma “matéria médica autônoma”.

Católico convicto, Leme Lopes opunha-se a qualquer movimento ligado à “eugenia” e, apesar de diferenças de crença e de se opor ao movimento maçom que contava com muitos adeptos entre psiquiatras tupiniquins, liderou a ideia de se criar uma associação que congregasse psiquiatras brasileiros. Tarefa árdua já que à época existiam várias “correntes” na psiquiatria brasileira (parênteses …  de acordo com Nobre de Mello, ao fim e à medida no Brasil só havia “duas correntes de psiquiatria: a ‘cento-e-dez’ e a ‘duzentos-e-vinte’ ).

Começou por colocar a psicanálise dentro do IPUB e, a seguir, criou a regência de “Psicologia Médica” (que me perdoe o pessoal de Ribeirão Preto, mas o “primeiro professor da disciplina de Psicologia Médica” foi E. Portella Nunes, em 1959. Rodriguez e Davanzo começaram com a ideia do departamento na USP-Ribeirão Preto antes, em 1956, mas uma “disciplina independente” de Psicologia Médica começou a funcionar com Leme Lopes…), a seguir convidou Caruso Madalena e Ulysses Vianna Filho para participarem do “novo IPUB”.

Em 1965 participou em Fortaleza do Congresso da SBNPHM que julgou viável a criação de uma “ABP” no ano seguinte.

 

 A ABP NASCEU COMO ÓRFàDA REVOLUÇÃO E NÃO COMO SUA FILHA…

 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA – …o começo é sempre difícil … congregar a psiquiatria “oficial” – representada pela DINSAM -; os adeptos da “medicina legal” – Pacheco e Silva, Alves Garcia, Raul Bittencourt -; professores universitários – a grande maioria dos “notáveis” -; a psiquiatria “privada” – donos de importantes nosocômios nestes brasís -; jaspersianos como Nobre de Mello, “kleistianos” como Aníbal da Silveira, psicanalistas como Mendonça Uchoa, Walderedo e os kleinianos gaúchos representados pelos Guedes foi uma tourada

a las cinco de la tarde, digna de um Manolete…

Optou-se por um regime “colegiado” – teoricamente acomodando “todos os iguais”, só que a academia era “mais igual” que os outros grupos…

De saída, sabendo da impossibilidade de se manter o “sistema” Leme Lopes acenou com uma reforma de estatutos… a reforma de 1969…

Passou-se para a “fase assembleísta”: presidente com mandato de dois anos, eleito pelos delegados das federadas fundadoras (na prática, seus presidentes), cada federada tinha direito a um voto….

Rubim de Pinho, o último presidente do “sistema conselhal” foi eleito como primeiro presidente do novo sistema, seu mandato durou três anos…

Por esta época surge na ABP o movimento auto-denominado de “jovens turcos” do qual participavam Othon Bastos, Marcos Ferraz, Luiz Salvador, William Dunningham,, Luiz Cerqueira (já não tão jovem…) com o objetivo de tornar a ABP mais representativa, filiando psiquiatras de todos os estados, acabar com a concepção de que somente professores universitários podiam ser presidentes da ABP…novas reformas de estatutos no horizonte próximo …

David Zimmermann assumiu a presidência afinado com estes propósitos: criou uma comissão de reforma de estatuto da qual participaram Ulysses, Hans Ingomar Schreen, Othon Bastos e tantos outros. Um anteprojeto foi elaborado entre 1975/76, enviado para discussão por todas as federadas (daí nasceu o conceito do Davizão de “federada ativa”: aquelas federadas que não respondiam ao envio do anteprojeto eram consideradas “inativas” já que nem para isto se reuniam…).

Zimmermann também criou o “Boletim de Psiquiatria” cuja edição foi entregue ao promissor psiquiatra Márcio Versiani.

Em uma reunião no Recife, na presença de Ulysses, Lucena, Galdino, Othon e, creio de Salvador este cansativo beletrista, recém chegado do simpósio “Schizophrenie Heute” realizado em Berlin propôs que o agonizante “Boletim de Psiquiatria” passasse a denominar-se PSIQUIATRIA HOJE …para seu pasmo, a ideia foi aceita por unanimidade (será?…)

Quem desejar conhecer a existência dos “jovens turcos” deve procurar a coleção de PSIQUIATRIA HOJE, a minha deixei com o Vanor que a guardou na “banheira” da sede da Alcindo Guanabara e que talvez esteja no “arquivo morto” da ABP…

 

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