Sérgio Telles

 

Obcecada por sexo, Adèle não consegue exercer seu papel de mulher de um médico de classe média alta e mãe de um filho pequeno, muito menos realizar seu trabalho como jornalista. Todo seu tempo e energia são tragados pela ninfomania que a domina e consome.

Ela despreza os valores “burgueses” do seu entorno social. Coloca-se de maneira superior frente as esposas dos amigos do marido, que falam de reformas de casa e empregadas árabes que cumprem o jejum do Ramadã. Ignora o entusiasmo dos colegas com importantes acontecimentos políticos no Marrocos, que poderia estar cobrindo caso se empenhasse para tanto.

Embora aborde a sexualidade de Adèle de forma crua e direta, a autora deixa que uma torrente de clichês se infiltre na caracterização de sua personagem principal, que também padece de rala densidade psicológica. Pouco se sabe do que a teria levado a tal condição. Lá pelas tantas somos informados de que ela vem de uma família humilde, seu pai é um imigrante marroquino, sua mãe é vulgar e grosseira. Explicaria isso sua atitude arrogante e impostada, a forma ressentida e raivosa com a qual encara o mundo?

O livro retrata de forma superficial duas graves patologias, a ninfomania de Adèle e o masoquismo do marido, que deseja curá-la com o amor que lhe devota. Ele a vê como doente, opinião com a qual a autora não parece concordar muito, dado que a conduta de Adèle é apresentada mais como um insolente desafio às convenções sociais do que manifestação de sofrimento psíquico com sérias implicações autodestrutivas.

“No jardim do ogro” é um produto bem-acabado da indústria cultural, com seus capítulos curtos e bem montados, feitos para serem lidos com facilidade e prontamente esquecidos. É um bom passatempo, algo como os seriados da Netflix, que fazem o espectador ficar mesmerizado durante horas frente à televisão, consumindo compulsivamente um episódio atrás do outro (o chamado binge watching) para, no final, perceber que nada ficou daquilo, tudo se desvaneceu, restou apenas a sensação de tempo perdido. Não há o persistente remoer que a obra de arte provoca naquele que dela se aproxima.

A impressão de vacuidade e gratuidade do livro se modifica ao sabermos que a autora é uma mulher proveniente da cultura islâmica – reduto inabalado do patriarcado e machismo. Que ela fale abertamente do desejo feminino e descreva de forma desabrida a atividade sexual intensa e sem peias de uma mulher, confere ao livro uma faceta política, é uma afirmação feminista. O título do livro já revela tais implicações. O ogro é uma figura que representa a violência e a estupidez masculina. Que ela exista nos contos de fada europeus, mostra que o abuso do poder dos homens não é privilégio dos países muçulmanos, mas um traço universal. E é curioso como Leila Slimani trata esse fato. Se por um lado, o comportamento de Adèle é uma estridente recusa em assumir o papel de “boneca no jardim do ogro”, em determinado momento afirma justamente o oposto, ao dizer que quer ocupar tal lugar (p. 7).

Esse novo e necessário enfoque não contradiz necessariamente a impressão inicial causada pelo livro. Antes nos atínhamos a um enfoque puramente literário, agora a ele acrescentamos fatores extraliterários, políticos e culturais, fazendo mover o prato da balança.

Se o livro de Leila Slimani ganha fôlego com o politicamente correto, isso altera a dimensão propriamente literária do mesmo? E o que seria o “propriamente literário” num texto dito de literatura? O “propriamente literário” excluiria a dimensão político-social? Seja qual for a resposta para essas questões complicadas e inesgotáveis, ela implica a maneira específica com que a literatura usa a linguagem. Afastando-se da manifestação utilitária própria da informação e da comunicação, a literatura capitaliza e magnifica a ambiguidade simbólica da linguagem, que diz e desdiz todas as coisas de mil formas diferentes, o que permite a criação de sentidos múltiplos e superpostos, compactados em enunciações que podem muitas vezes expressar verdades universais que atingem o âmago afetivo daquele que as lê. Além do mais, a literatura envolve o uso adequado de tropos, ritmos e formas narrativas. Com isso retornamos a Leila Slimani, que, apesar das dificuldades já mencionadas, demonstra habilidade na armação do arcabouço de seu romance, fazendo eficientes deslizamentos narrativos, movendo com habilidade seus personagens no tempo e no espaço, motivo da facilidade com que a lemos.

Tal como sua personagem Adèle, a escritora Leila Slimani é franco-marroquina de 39 anos e esteve recentemente na FLIP. Esse seu primeiro livro foi indicado para o Prêmio de Flore 2014 e vencedor do Prêmio La Mamounia (famoso hotel de luxo de Rabat) em 2015. Seu segundo livro – “Canção de Ninar” – ganhou o prestigiado Prêmio Goncourt 2016. Ambos foram publicados no Brasil pela Tusquet, com o apoio do governo francês. Os muitos prêmios recebidos decorrem do valor literário ou da força do politicamente correto? Mas aí já entramos numa outra história, a dos prêmios literários.

(*) Publicado no jornal “Valor Econômico” em 28/06/2019

Similar Posts