Novembro de 2026 – Vol. 32 – Nº 11
Walmor J. Piccinini
Psiquiatra e pesquisador da história da psiquiatria brasileira
A produção psiquiátrica reunida para o ano de 2001 revela uma especialidade com interesses diversos. Os títulos registram a investigação do cérebro, a procura de tratamentos, a discussão das psicoterapias e a preocupação com as condições de assistência. As mulheres estão presentes nesses diferentes campos e têm participação expressiva entre os trabalhos de pós-graduação.
Venho procurando acompanhar essa história por meio do Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria, o IBBP. Colecionei referências de revistas, livros, teses e citações encontradas em outras publicações. Nem sempre foi possível consultar os textos integrais. Meu objetivo, nesta etapa, é registrar o que se escolhia estudar e quem participava dessa produção. A bibliografia permite reconhecer interesses e aproximações entre autores; a avaliação dos resultados de cada pesquisa depende de sua leitura completa.
A relação bibliográfica e a participação feminina
A lista atribuída a 2001 contém 676 registros. Estão representados artigos, livros, capítulos, teses, dissertações e textos de outras modalidades, publicados no Brasil e no exterior. O acervo inclui contribuições estrangeiras e trabalhos de áreas próximas à psiquiatria, como psicologia, enfermagem, saúde coletiva e história. Essas características precisam ser consideradas ao interpretar os números.
Uma contagem nominal preliminar identificou 221 nomes femininos distintos em primeira autoria. Mulheres aparecem como primeiras autoras, autoras únicas ou organizadoras principais em 255 registros, correspondentes a 37,7% da lista original. O levantamento não inclui, nesse total de pessoas, as mulheres presentes exclusivamente como coautoras. Também não permite identificar com segurança todos os nomes abreviados ou ambíguos.
Entre os 122 registros apresentados como teses ou dissertações de mestrado ou doutorado, 69 têm autoria feminina identificável, o equivalente a 56,6%. A presença das mulheres nesse segmento é compatível com a importância da pós-graduação para sua participação na pesquisa em saúde mental. Trata-se de uma proporção do acervo, que não deve ser generalizada para todos os programas brasileiros.
Os dados descrevem referências e permanecem sujeitos à revisão bibliográfica e nominal. Títulos semelhantes podem corresponder a trabalhos diferentes, assim como uma pesquisa pode dar origem a uma tese, um artigo e uma apresentação. São registros que exigem comparação antes de qualquer exclusão. Por essa razão, mantenho os 676 registros como ponto de partida, sem estabelecer aqui um total definitivo de publicações distintas.
As pesquisadoras e suas escolhas
O transtorno obsessivo-compulsivo reúne um grupo de autoras com interesses complementares. Albina Rodrigues Torres aborda o diagnóstico diferencial, a apresentação clínica e a psicoterapia grupal. Roseli Shavitt investiga a resposta ao tratamento e as formas resistentes. Maria Conceição do Rosário Campos estuda particularidades da infância e adolescência e o início precoce do transtorno. Ana Gabriela Hounie participa da discussão dos possíveis subtipos.
O livro Medos, dúvidas e manias, de Albina Torres, Roseli Shavitt e Eurípedes Miguel, dirige-se às pessoas com TOC e a seus familiares. Sua presença na relação mostra uma preocupação com a circulação do conhecimento para além dos meios acadêmicos. A família também aparece como objeto de investigação e como participante do cuidado.
Na pesquisa biológica, Tatiana Roman investiga suscetibilidade genética no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Sheila Caetano participa de estudo sobre volumes talâmicos em pacientes com transtornos do humor. Cláudia Maciel Szobot aborda a neuroimagem no TDAH. Maria Inês Lobato aparece tanto na investigação de fatores do neurodesenvolvimento na esquizofrenia quanto em estudos sobre identidade de gênero, apresentados com a terminologia diagnóstica daquele período.
Cristina Marta Del Ben participa de trabalhos sobre confiabilidade de entrevistas diagnósticas e investigação experimental do medo e da ansiedade. Denise Razzouk desenvolve uma tese sobre a construção de uma base de conhecimento para apoiar o diagnóstico dos transtornos do espectro da esquizofrenia. A informática já encontrava, assim, aplicação em perguntas clínicas específicas.
Na área de álcool e outras drogas, Sandra Scivoletto examina o atendimento de adolescentes e fatores relacionados ao tratamento. Neliana Figlie e colaboradores apresentam uma proposta de organização de serviço para alcoolismo. Margareth da Silva Oliveira investiga a intervenção motivacional em dependentes de álcool. Os interesses incluem o funcionamento dos serviços e as condições de continuidade do tratamento.
Há ainda uma produção voltada à formação profissional e à história. Agnes Olschowsky estuda o ensino de enfermagem psiquiátrica e saúde mental. Magali Gouveia Engel escreve sobre instituições e relações entre psiquiatria e feminilidade. Ana Maria Raimundo Oda examina a teoria da degenerescência e o pensamento de Juliano Moreira e Afrânio Peixoto. Cristiana Facchinetti investiga a recepção do discurso psicanalítico no Brasil.
Neuroimagem e especialização da pesquisa
A neuroimagem tem presença visível em 2001. Encontramos estudos sobre esquizofrenia, demências, transtornos afetivos, uso de substâncias e cognição. Os títulos tratam de estrutura cerebral, atividade funcional e investigação de receptores, além de discutir as possibilidades de aplicação desses métodos na prática clínica.
Geraldo Busatto Filho, Carlos Alberto Buchpiguel, Rodrigo Bressan, Beny Lafer e outros pesquisadores aparecem em diferentes partes desse conjunto. Jair Constante Soares e colaboradores participam de estudos internacionais sobre transtorno bipolar, incluindo investigação anatômica e mensuração do lítio cerebral.
Parte dessa concentração está relacionada a um suplemento de neuroimagem da Revista Brasileira de Psiquiatria. Outro suplemento reúne trabalhos sobre TOC. A escolha editorial de dedicar espaço a um tema aumenta sua visibilidade no ano. Esse efeito precisa ser distinguido de uma mudança na frequência dos problemas atendidos ou de um crescimento de toda a pesquisa nacional naquele campo.
A clínica e as modalidades de tratamento
O pânico recebe atenção farmacológica, psicoterápica e experimental. Antônio Egídio Nardi, Alexandre Valença, Isabella Nascimento e colaboradores investigam suas relações com a respiração. Outros trabalhos abordam benzodiazepínicos, antidepressivos, terapia cognitivo-comportamental e psicoterapia psicanalítica. Essa variedade permite acompanhar diferentes maneiras de formular e tratar um mesmo problema clínico.
As psicoterapias também são discutidas em relação à formação, à supervisão e à avaliação. Cláudio Eizirik escreve sobre psicanálise, cultura, violência e processos de avaliação. O livro O ciclo da vida humana, organizado com Flávio Kapczinski e Ana Margareth Bassols, reúne uma perspectiva psicodinâmica do desenvolvimento. Há trabalhos sobre terapia de grupo, aliança terapêutica e combinação de psicoterapia com medicamentos.
A depressão aparece associada ao envelhecimento, à menopausa, à gravidez, ao HIV e a doenças clínicas. Cláudio de Novaes Soares se ocupa das relações entre humor e ciclo reprodutivo. Osvaldo Pereira de Almeida participa de investigações sobre cognição, depressão e condições médicas no idoso. O hospital geral e suas interfaces com a psiquiatria constituem outro espaço reconhecível nessa produção.
A assistência e a vida social
A relação contém pesquisas sobre população de rua, pacientes de longa permanência, hospital-dia, moradias e integração dos serviços. Giovanni Lovisi e colaboradores investigam transtornos mentais em pessoas acolhidas em albergues e discutem as dificuldades metodológicas desse trabalho. Sylvia Gonçalves e colaboradores examinam limitações no comportamento social e a implantação de um lar de acolhimento.
As famílias aparecem em estudos sobre experiências de sofrimento e impacto econômico do adoecimento. Vera Lúcia Pepe investiga internações e reinternações psiquiátricas no Rio de Janeiro. Maria Cristina Pereira Lima e Neury Botega discutem a finalidade e o público do hospital-dia. São questões que aproximam a produção bibliográfica dos problemas de organizar e sustentar o cuidado.
O debate público encontra expressão nos títulos. Valentim Gentil discute propostas legislativas para a assistência. Luis Salvador de Miranda Sá Júnior escreve sobre a nova lei da assistência psiquiátrica. Tânia Marchewka aborda medidas de segurança e reforma psiquiátrica. A presença desses registros permite documentar o interesse nas questões jurídicas e institucionais, sem antecipar a leitura dos argumentos de cada autor.
A memória da especialidade
A história da psiquiatria também mobiliza diferentes autores. Othon Coelho Bastos Filho escreve sobre psicopatologia, José Leme Lopes e a sobrevivência dos periódicos, além de participar da discussão ética sobre pesquisa. Ronaldo Jacobina investiga a prática psiquiátrica na Bahia. William Dunningham e colaboradoras apresentam uma história da psiquiatria baiana e brasileira com atenção a Juliano Moreira.
Em meus trabalhos daquele ano, aparecem a psiquiatria brasileira na década de 1960, eugenia e higiene mental, vida associativa, publicações científicas e informática. Hoje, a reunião desses registros permite relacionar essas perguntas com as de outros pesquisadores e reconhecer trabalhos que permaneceram dispersos.
A leitura anual torna mais fácil conservar nomes, acompanhar linhas de investigação e observar o surgimento de novas perguntas. Em 2001, a participação das mulheres atravessa os laboratórios, a clínica, os serviços e a pesquisa histórica. Ao reunir suas contribuições às dos demais autores, começamos a reconhecer com maior precisão quem escrevia sobre o sofrimento mental e quais problemas escolhia enfrentar.
Fonte documental e critérios
Piccinini WJ. Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria. Relação de referências atribuídas ao ano de 2001, com 676 registros. Acervo do autor.
Análise exploratória de títulos, autorias e dados bibliográficos. Os indicadores são preliminares e se referem à lista original. A identificação nominal não equivale à verificação biográfica de todas as autoras. Primeira autoria designa a primeira posição da referência, autoria única ou organização principal, sem estabelecer o grau de contribuição individual. Não se apresenta uma classificação quantitativa dos temas nem um ranking de produtividade ou impacto. Referências semelhantes permanecem sujeitas à conferência antes de sua reunião ou exclusão.
