Novembro de 2026 – Vol. 32 – Nº 11
Walmor J. Piccinini
Resumo
Os antidepressivos têm eficácia demonstrada no tratamento da depressão, mas o benefício médio dos ensaios clínicos não permite prever a resposta de cada paciente. Seus efeitos adversos, as dificuldades de retirada e as incertezas sobre tratamentos muito prolongados exigem acompanhamento e decisões compartilhadas. Este comentário examina as controvérsias discutidas por Roger S. McIntyre e Ronald W. Pies no Psychiatric Times e confronta seus argumentos com estudos e recomendações clínicas. Defender o acesso ao tratamento implica também reconhecer seus limites e escutar quem relata prejuízos.
Palavras-chave: antidepressivos; depressão; eficácia; efeitos adversos; sintomas de retirada; desprescrição.
O debate e a responsabilidade clínica
Em julho de 2026, Roger S. McIntyre e Ronald W. Pies publicaram no Psychiatric Times um artigo sobre dez alegações que consideram enganosas a respeito dos antidepressivos. A discussão abrange eficácia, embotamento emocional, adição, suicídio, violência, prescrição excessiva, psicoterapia, retirada e manutenção. A contribuição dos autores merece leitura, acompanhada de exame crítico de suas interpretações. [1]
A pergunta clínica envolve mais do que saber se um medicamento funciona. É necessário estabelecer para quem ele está indicado, qual benefício oferece, quais prejuízos produz e em que momento deve ser revisto. O paciente que recuperou sua capacidade de trabalhar e conviver e aquele que sofreu efeitos adversos importantes trazem experiências que precisam ser consideradas. A responsabilidade do médico inclui ambas.
Diferenças entre medicamentos
Antidepressivos constituem um conjunto heterogêneo. A escolha depende de resposta anterior, condições clínicas, interações, tolerabilidade e preferências do paciente. As recomendações CANMAT orientam uma avaliação individualizada, em vez de uma escolha baseada somente no mecanismo farmacológico. [2]
A atividade de uma substância em determinado transportador, demonstrada em laboratório, não basta para estabelecer uma vantagem clínica. Tampouco um perfil relativamente favorável para um efeito adverso autoriza apresentar o medicamento como isento de riscos. Comparações devem levar em conta a qualidade da evidência e as condições em que o tratamento será utilizado.
Embotamento emocional
A redução da intensidade das emoções pode ser vivida como perda de espontaneidade, interesse ou capacidade de sentir prazer. Em pesquisa com pacientes tratados, Goodwin e colaboradores encontraram associação entre embotamento e sintomas depressivos residuais. Como o estudo era observacional e baseado em autorrelato, não permite atribuir todo o fenômeno ao medicamento nem excluí-lo como causa. [3]
Também não demonstra que o embotamento seja o mecanismo responsável pela melhora antidepressiva. Na consulta, interessa reconstruir sua sequência temporal: estava presente antes do tratamento? Surgiu após o início ou o aumento da dose? O humor melhorou enquanto a vida afetiva empobreceu? Essas perguntas ajudam a avaliar uma queixa que não deve ser desconsiderada como preço inevitável do tratamento.
O benefício além do placebo
A metanálise de Cipriani e colaboradores reuniu 522 ensaios, com 116.477 participantes, e encontrou superioridade dos 21 antidepressivos avaliados em relação ao placebo no tratamento agudo da depressão maior em adultos. A certeza da evidência variou entre as comparações, e os ensaios foram predominantemente de curta duração. [4]
Stone e colaboradores analisaram dados individuais de 73.388 participantes de estudos submetidos à FDA. A diferença média favoreceu o medicamento em 1,75 ponto na escala de Hamilton de 17 itens. Um modelo estatístico identificou resposta grande em 24,5% dos participantes que receberam antidepressivo e em 9,6% daqueles que receberam placebo. [5]
Esses resultados sustentam eficácia, com benefício médio limitado e respostas heterogêneas. A diferença de aproximadamente 15 pontos percentuais entre os grupos não identifica antecipadamente quais indivíduos se beneficiarão. Também não autoriza concluir que somente 15% dos pacientes melhoram, nem multiplicar esse percentual pelo total de usuários e apresentar o resultado como número comprovado de pessoas com recuperação expressiva. Essa extrapolação exigiria pressupostos que os ensaios não verificaram.
A melhora no grupo placebo tampouco equivale a uma medida pura de sugestão. Inclui evolução dos sintomas e elementos do contexto de pesquisa. Por isso, dividir a melhora total em parcelas fixas, uma farmacológica e outra psicológica, oferece uma precisão que esses dados não comportam.
Adição e adaptação fisiológica
A palavra dependência costuma reunir fenômenos diferentes. Busca compulsiva da substância e perda de controle sobre seu uso não são equivalentes à adaptação fisiológica que pode produzir sintomas quando a dose é reduzida. O cuidado com antidepressivos deve explicar essa distinção sem minimizar a dificuldade de interrompê-los. [2,6]
A pessoa que sente tontura, insônia ou sensações de choque após uma redução precisa de avaliação. A ausência do padrão típico de adição não significa ausência de sofrimento relacionado à retirada. Do mesmo modo, a perda de resposta durante o tratamento exige reavaliação diagnóstica e clínica, em vez de ser automaticamente atribuída à tolerância ou à falta de adesão.
Suicídio e diferenças por idade
Pensamentos suicidas, tentativas e mortes por suicídio são desfechos distintos. Na análise de ensaios submetidos à FDA publicada por Stone e colaboradores em 2009, o risco associado aos antidepressivos variou com a idade: houve sinal de aumento de comportamento suicida em adultos com menos de 25 anos e resultados mais favoráveis nas faixas etárias superiores. [7]
Esses dados não permitem afirmar genericamente que antidepressivos provocam suicídio, nem dispensam vigilância diante de piora clínica. Estudos com poucos óbitos têm capacidade limitada para esclarecer o efeito sobre mortes por suicídio. Associações entre volume de prescrições e taxas populacionais também não estabelecem causalidade por si mesmas.
A consequência clínica é acompanhar o risco desde a avaliação inicial e durante o tratamento, especialmente quando surgem agitação, mudanças de comportamento ou piora do humor. O risco relacionado à própria depressão integra essa avaliação. A decisão deve ponderar o conjunto, sem transformar o alerta em proibição automática de tratar. [2]
Violência e explicações causais
Hall e colaboradores examinaram informações públicas sobre autores de ataques em instituições de ensino nos Estados Unidos. Não encontraram sustentação para a alegação de que a maioria havia recebido psicofármacos, nem estabeleceram relação causal entre tratamento e os ataques estudados. A investigação, porém, dependeu da disponibilidade e da qualidade dos registros públicos. [8]
O uso prévio de um medicamento, isoladamente, não explica um ato violento. É necessário considerar a condição que motivou a prescrição, a sequência dos acontecimentos e outros fatores envolvidos. Reações comportamentais suspeitas merecem investigação individual; uma explicação geral para violência em massa exige evidência de outra natureza.
Prescrição excessiva e tratamento insuficiente
O crescimento do consumo não demonstra, sozinho, que toda expansão seja inadequada. Para avaliar a qualidade da prescrição é preciso conhecer indicação, gravidade, duração, benefício e acompanhamento. A ausência de sintomas atuais pode representar resposta ao tratamento, e não erro na indicação inicial.
Por outro lado, a renovação de receitas sem revisão pode prolongar uma intervenção cujo benefício já não está claro. O NICE recomenda que antidepressivos não sejam oferecidos rotineiramente como primeira opção para depressão menos grave, salvo quando correspondam à preferência informada da pessoa. Essa orientação favorece a discussão de alternativas e o acompanhamento ativo. [6]
No Brasil, a aplicação dessa discussão pede atenção à possibilidade real de consultas de retorno, acesso à psicoterapia e continuidade da assistência. Percentuais norte-americanos não devem ser transpostos automaticamente para nossa população. Podemos discutir tanto prescrições inadequadas quanto barreiras ao cuidado sem presumir que uma situação exclua a outra.
Medicamentos e psicoterapia
A metanálise de Cuijpers e colaboradores, com 101 estudos e 11.910 participantes, encontrou maior probabilidade de resposta com tratamento combinado do que com psicoterapia ou farmacoterapia isoladamente. A combinação constitui uma opção sustentada por evidências para depressão em adultos, embora a escolha dependa da situação clínica e da preferência do paciente. [9]
Essa evidência enfraquece a ideia de uma incompatibilidade geral entre as duas modalidades. A prescrição não substitui o exame da história e das circunstâncias de vida. A psicoterapia, por sua vez, pode integrar o tratamento de quem necessita de medicação. Alívio sintomático e compreensão da experiência pessoal são objetivos que podem ser trabalhados em conjunto.
Sintomas de retirada e limites das estimativas
Henssler e colaboradores reuniram 79 estudos, com 21.002 participantes. A frequência agregada de pelo menos um sintoma após interrupção foi de 31% nos grupos que suspenderam antidepressivos e 17% nos que suspenderam placebo. Sintomas graves ocorreram em aproximadamente 3% dos que interromperam antidepressivos. A heterogeneidade entre os estudos foi expressiva. [10]
O valor de cerca de 15%, frequentemente divulgado como estimativa do componente atribuível ao medicamento, não equivale à frequência total observada. Na comparação restrita aos ensaios randomizados com grupos antidepressivo e placebo, a diferença agregada foi de 8 pontos percentuais. São cálculos diferentes, que não devem ser apresentados como intercambiáveis. [10]
Em 2025, Kalfas e colaboradores publicaram uma metanálise de 49 ensaios. Nas análises com escala padronizada, a diferença média correspondeu a aproximadamente um sintoma adicional na primeira semana entre quem interrompeu antidepressivos e os comparadores. Esse resultado descreve uma média inicial; não determina o que ocorrerá após anos de uso nem resolve a frequência de quadros persistentes. [11]
A interpretação clínica precisa preservar essas limitações. Uma média pequena pode coexistir com dificuldades importantes em parte dos pacientes. A retirada requer planejamento individual, com revisão da velocidade de redução quando surgem sintomas. Não existe prazo único adequado para todos.
Manutenção e revisão periódica
No ensaio ANTLER, 478 pacientes da atenção primária que se consideravam suficientemente bem para interromper o tratamento foram distribuídos entre manutenção e retirada. Em 52 semanas, houve recaída em 39% do grupo de manutenção e 56% do grupo de interrupção. O resultado favorece a continuidade naquela população; não estabelece necessidade de tratamento indefinido para todos. [12]
Ensaios de manutenção também exigem atenção à seleção de participantes que já responderam ao medicamento e à possível sobreposição entre retirada e retorno de sintomas. Comparações de números necessários para tratar, obtidos em populações e períodos diferentes, não demonstram que prevenir recorrências seja intrinsecamente mais fácil do que tratar um episódio agudo.
O consenso da American Society of Clinical Psychopharmacology, publicado em fevereiro de 2026, recomenda reavaliar periodicamente a utilidade dos psicofármacos e ponderar benefícios e riscos antes da desprescrição. Trata-se de consenso apoiado por revisão seletiva e método Delphi, que orienta decisões sem eliminar as lacunas experimentais. [13]
Para a prática psiquiátrica
A discussão sobre antidepressivos ganha utilidade quando esclarece decisões concretas. O paciente precisa saber por que recebeu a indicação, o que se espera melhorar e quando o resultado será revisto. Também precisa encontrar espaço para falar sobre sexualidade, vida afetiva e dificuldades de retirada.
Reconhecer a eficácia desses medicamentos exige rigor na apresentação dos benefícios. Reconhecer seus riscos exige a mesma atenção à qualidade dos dados. A confiança no tratamento se sustenta quando o médico acompanha a experiência do paciente e revê a conduta à luz do que acontece durante o cuidado.
Referências
1. McIntyre RS, Pies RW. The Top 10 Misleading Claims About Antidepressants. Psychiatric Times. 2 jul. 2026. https://www.psychiatrictimes.com/view/the-top-10-misleading-claims-about-antidepressants
2. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
3. Goodwin GM, Price J, De Bodinat C, Laredo J. Emotional blunting with antidepressant treatments: A survey among depressed patients. J Affect Disord. 2017;221:31–35. doi:10.1016/j.jad.2017.05.048.
4. Cipriani A, Furukawa TA, Salanti G, et al. Comparative efficacy and acceptability of 21 antidepressant drugs for the acute treatment of adults with major depressive disorder: a systematic review and network meta-analysis. Lancet. 2018;391(10128):1357–1366. doi:10.1016/S0140-6736(17)32802-7.
5. Stone MB, Yaseen ZS, Miller BJ, et al. Response to acute monotherapy for major depressive disorder in randomized, placebo controlled trials submitted to the US Food and Drug Administration: individual participant data analysis. BMJ. 2022;378:e067606. doi:10.1136/bmj-2021-067606.
6. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222. 2022. https://www.nice.org.uk/guidance/ng222/chapter/Recommendations
7. Stone M, Laughren T, Jones ML, et al. Risk of suicidality in clinical trials of antidepressants in adults: analysis of proprietary data submitted to US Food and Drug Administration. BMJ. 2009;339:b2880. doi:10.1136/bmj.b2880.
8. Hall RCW, Friedman SH, Sorrentino R, Lapchenko M, Marcus A, Ellis R. The myth of school shooters and psychotropic medications. Behav Sci Law. 2019;37(5):540–558. doi:10.1002/bsl.2429.
9. Cuijpers P, Noma H, Karyotaki E, Vinkers CH, Cipriani A, Furukawa TA. A network meta-analysis of the effects of psychotherapies, pharmacotherapies and their combination in the treatment of adult depression. World Psychiatry. 2020;19(1):92–107. doi:10.1002/wps.20701.
10. Henssler J, Schmidt Y, Schmidt U, et al. Incidence of antidepressant discontinuation symptoms: a systematic review and meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2024;11(7):526–535. doi:10.1016/S2215-0366(24)00133-0.
11. Kalfas M, Tsapekos D, Butler M, et al. Incidence and Nature of Antidepressant Discontinuation Symptoms: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Psychiatry. 2025;82(9):896–904. doi:10.1001/jamapsychiatry.2025.1362.
12. Lewis G, Marston L, Duffy L, et al. Maintenance or Discontinuation of Antidepressants in Primary Care. N Engl J Med. 2021;385:1257–1267. doi:10.1056/NEJMoa2106356.
13. Goldberg JF, McIntyre RS, Swartz HA, et al. Recommendations for the Deprescribing of Psychotropic Medications: A Consensus Statement From the American Society of Clinical Psychopharmacology Task Force. JAMA Netw Open. 2026;9(2):e260043. doi:10.1001/jamanetworkopen.2026.0043.
Nota de atribuição
Comentário crítico a partir do artigo de McIntyre e Pies, com consulta às fontes indicadas. Não constitui tradução integral nem republicação do texto do Psychiatric Times. Referências eletrônicas consultadas em 3 de novembro de 2026.
