Setembro de 2026 – Vol. 32 – Nº 9

Walmor J. Piccinini

Um subtítulo possível é: “Feridas Invisíveis da FEB: psiquiatria, guerra e esquecimento dos combatentes brasileiros”.

Este ensaio examina como a experiência da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial introduziu práticas modernas de atendimento neuropsiquiátrico em contexto militar, ao mesmo tempo em que preservou interpretações constitucionais e moralizantes do sofrimento psíquico dos combatentes.

A experiência da FEB produziu uma modernização considerável do Exército brasileiro, sobretudo nos campos da organização, logística, medicina e tecnologia militar. Entretanto, seu aproveitamento institucional foi limitado pela rápida desmobilização dos expedicionários. O Estado Novo via com inquietação o retorno de homens que haviam combatido regimes autoritários ao lado dos exércitos aliados. A contradição não tardou a manifestar-se: em outubro de 1945, Getúlio Vargas foi deposto pelos próprios militares. Na psiquiatria, Mirandolino Caldas trouxe da campanha o modelo organizacional norte-americano de assistência próxima ao campo de batalha, mas sua interpretação das neuroses de guerra permaneceu marcada pelas concepções constitucionais e moralizantes da época.

A análise parte do contexto militar e político da FEB, passa pela atuação de Mirandolino Caldas e pelo funcionamento do Posto Avançado de Neuropsiquiatria, e conclui discutindo os limites institucionais, médicos e políticos do reconhecimento dado aos soldados psiquicamente feridos.

A experiência neuropsiquiátrica da FEB na campanha da Itália

O Posto Avançado de Neuropsiquiatria da FEB

A participação brasileira na Segunda Guerra Mundial produziu relatos que oscilam entre a celebração heroica e a crítica severa. Como escreveu Phillip Knightley, numa guerra a primeira vítima costuma ser a verdade. Por isso, este texto não pretende julgar a atuação da Força Expedicionária Brasileira, mas examinar um aspecto pouco conhecido de sua história: o atendimento aos soldados que desenvolveram transtornos mentais durante a campanha da Itália.

O Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália em agosto de 1942, depois do afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães. A Força Expedicionária Brasileira foi oficialmente criada em 1943, e seu primeiro contingente desembarcou na Itália em julho de 1944.

A FEB reuniu aproximadamente 25 mil homens, muitos deles recrutados entre camadas pobres da população. Parte significativa apresentava baixa escolaridade e problemas de saúde, como desnutrição, verminoses e doenças dentárias. O treinamento fora insuficiente, os equipamentos eram inadequados e boa parte dos oficiais ainda seguia concepções militares anteriores à guerra moderna. Ao chegar à Itália, a tropa precisou adaptar-se rapidamente à organização, ao armamento, à logística e aos métodos do Exército norte-americano.

Apesar dessas limitações, os soldados brasileiros demonstraram coragem e capacidade de aprendizagem. A FEB permaneceu 239 dias em combate, participou de operações importantes, conquistou Monte Castelo e Montese e recebeu a rendição de numerosas tropas alemãs e italianas em Fornovo di Taro. Seu desempenho foi obtido à custa de mortos, feridos, mutilados e homens psicologicamente afetados pela guerra.

Uma lembrança familiar ajuda a aproximar essa história da experiência concreta dos homens recrutados. Meu pai, então com 21 ou 22 anos, foi selecionado na região de Encantado e Roca Sales, no Rio Grande do Sul, e enviado a Santa Maria, onde aguardaria o embarque. Uma determinação posterior dispensou os homens casados e com filhos. Como eu já havia nascido, ele costumava dizer que, ainda criança, eu o salvara de ser enviado à guerra.

Mirandolino Caldas

O atendimento aos combatentes com transtornos mentais ficou sob a responsabilidade do capitão médico Mirandolino Caldas. Antes da guerra, ele já possuía participação expressiva na psiquiatria brasileira. Fora secretário-geral da Liga Brasileira de Higiene Mental e, a partir de 1930, coeditor dos Arquivos Brasileiros de Higiene Mental. Convivera, portanto, com Juliano Moreira e outras figuras importantes da psiquiatria daquele período.

Nomeado capitão médico da reserva em 1943, foi convocado para o serviço ativo em julho de 1944. Chegou à Itália em agosto e serviu inicialmente no 38º Hospital de Evacuação do Exército norte-americano. Em setembro daquele ano, recebeu a incumbência de organizar e dirigir o Posto Avançado de Neuropsiquiatria da FEB, o PANP. Permaneceu em sua chefia até junho de 1945, quando o posto foi extinto com o término da guerra na Europa.

Mirandolino descreveu essa experiência no livro O Posto Avançado de Neuro-Psiquiatria da F.E.B.: Pré-FEB, FEB, Após-FEB, publicado em segunda edição no Rio de Janeiro, em 1950. A obra reúne relatórios, observações clínicas, diagnósticos e dados estatísticos sobre os militares atendidos.

Uma psiquiatria próxima da frente de combate

Antes da guerra, a assistência psiquiátrica brasileira permanecia concentrada nos grandes hospitais. Não existia um sistema regular de formação de especialistas. O Serviço Nacional de Doenças Mentais, criado em 1941, promovia cursos e procurava orientar a assistência, mas a formação sistemática por meio de residências somente se consolidaria posteriormente.

A guerra obrigou os psiquiatras a trabalhar fora dos muros hospitalares. O objetivo já não era manter o doente internado por longos períodos, mas reconhecer precocemente as reações psicológicas, tratá-las perto da frente e, quando possível, devolver rapidamente o combatente à sua unidade.

O Posto Avançado brasileiro seguiu o modelo norte-americano. Suas atribuições compreendiam o recebimento dos combatentes com sintomas neuropsiquiátricos, a observação e o tratamento precoce, a permanência habitual por até cinco dias e, excepcionalmente, por até dez. Os casos que não apresentassem recuperação seriam evacuados para uma seção brasileira anexa a um hospital militar.

Esse sistema representava uma mudança considerável em relação à psiquiatria asilar: deslocava o atendimento para perto da frente de combate, reduzia o tempo de permanência e vinculava o tratamento à recuperação funcional do soldado. Mirandolino também propôs um Serviço Avançado de Medicina Psicológica, que incluiria, além do posto de atendimento imediato, um campo de treinamento e reabilitação e um repousário para observação, recuperação e prevenção.

Em determinados casos, sua proposta aproximava-se do que hoje chamaríamos de exposição gradual. Um soldado que desenvolvera fobia de metralhadora, por exemplo, não deveria regressar diretamente ao combate nem permanecer num hospital cercado de mutilados. Deveria recuperar-se progressivamente, voltando a ter contato controlado com a arma e seu ruído antes de retornar à frente.

Os soldados psiquicamente feridos

Entre setembro de 1944 e maio de 1945, o PANP registrou 384 admissões, correspondentes a 350 primeiras internações e 34 readmissões. O maior movimento ocorreu entre dezembro de 1944 e março de 1945, período de combates particularmente difíceis.

Os diagnósticos mais frequentes foram estados de ansiedade, manifestações histéricas, organoneuroses e fobias relacionadas ao combate. Foram registrados 102 casos de ansiedade, 33 de ataques histéricos, 33 de fobia de obuses, 20 de fobia da frente, oito de fobia de metralhadora e quatro de fobia de tiros. Também aparecem exaustão, alcoolismo, depressão, confusão mental, epilepsia, esquizofrenia e diferentes formas de simulação.

A terminologia revela os limites da psiquiatria daquele período. Ao lado de quadros claramente relacionados à experiência traumática, surgem categorias como “sentimento de inferioridade”, “personalidade psicopática”, “esquizomania” e “deficiência mental-inversão sexual”. A presença de numerosos diagnósticos de simulação mostra que o sofrimento do combatente podia ser traduzido em suspeita moral: fraqueza individual, falta de caráter ou tentativa deliberada de escapar do combate.

Mirandolino incorporou dos norte-americanos a organização do atendimento próximo à frente, a intervenção precoce e a recuperação funcional como objetivo imediato. Entretanto, sua interpretação dos transtornos permaneceu parcialmente vinculada à psiquiatria constitucional e à higiene mental. Modernizaram-se o local, o tempo e a logística do atendimento mais depressa do que a compreensão do trauma de guerra.

Os prontuários agravavam o problema. Muitas vezes, o diagnóstico era registrado apenas pelo número “631”, correspondente a “neurose de guerra”, sem descrição das circunstâncias que haviam provocado o colapso. Desapareciam, assim, a explosão da granada, o fogo da metralhadora, a morte dos companheiros, o medo e o despreparo do combatente. A classificação transformava uma experiência humana extrema numa designação burocrática.

Guerra, psiquiatria e responsabilidade do Estado

Grande parte dos expedicionários não sabia explicar por que o Brasil participava da guerra. Mirandolino registrou que aproximadamente metade dos soldados examinados não conhecia os motivos do conflito. Para ele, a ausência de uma finalidade compreendida enfraquecia a disposição para enfrentar os perigos do combate.

Essa observação era pertinente, mas podia conduzir a uma interpretação injusta. As neuroses não decorriam apenas da falta de motivação, da fragilidade constitucional ou de características anteriores do soldado. Também podiam expressar os efeitos do recrutamento, da preparação deficiente, do armamento desconhecido, das falhas de comando e da exposição prolongada à violência extrema.

Atribuir o adoecimento exclusivamente ao indivíduo permitia ao Estado e ao comando militar afastarem sua parcela de responsabilidade. Homens retirados de suas famílias, lavouras e empregos, treinados precariamente e enviados a uma guerra que muitos não compreendiam, podiam acabar classificados como desajustados, psicopatas ou simuladores.

A experiência da FEB também encerrou uma contradição política. Soldados brasileiros combateram regimes autoritários na Europa enquanto o Brasil ainda vivia sob a ditadura do Estado Novo. Seu retorno representava um problema para Getúlio Vargas: aqueles homens haviam convivido com o Exército norte-americano e lutado, ao menos simbolicamente, em nome da democracia. A rápida desmobilização da FEB deve ser compreendida também nesse ambiente de inquietação política. Vargas foi deposto pelos militares em 29 de outubro de 1945, e uma nova Constituição seria promulgada em 1946.

Considerações finais

A Segunda Guerra Mundial contribuiu para modernizar o Exército brasileiro em organização, logística, armamento, engenharia e medicina. Na psiquiatria, mostrou que os transtornos mentais podiam ser atendidos fora dos grandes hospitais e que a intervenção precoce favorecia a recuperação. Essa modernização, porém, permaneceu incompleta: mudou-se a forma de atender, mas não se abandonou inteiramente a tendência de responsabilizar o próprio soldado por seu sofrimento.

O Posto Avançado de Neuropsiquiatria representou uma inovação importante, embora limitada pelas concepções psiquiátricas de sua época. Mirandolino Caldas aprendeu com os norte-americanos a organizar um serviço ágil, próximo da frente e orientado para a recuperação. Não abandonou inteiramente, porém, a tendência de localizar no indivíduo — em sua constituição, personalidade ou moral — a principal explicação para o sofrimento.

A história desses combatentes recorda que uma guerra não produz apenas mortos, feridos e mutilados visíveis. Produz também homens atingidos em sua vida psíquica. Alguns conseguiram regressar às suas unidades; outros carregaram por toda a vida as marcas de uma experiência que a medicina e o Estado nem sempre souberam reconhecer.

A volta dos expedicionários expôs a contradição política produzida pela guerra. Em 18 de julho de 1945, o primeiro contingente da FEB desfilou pela Avenida Rio Branco diante de uma multidão. Pouco antes, entretanto, o desembarque aéreo do general Mascarenhas de Moraes fora transferido do Aeroporto Santos Dumont para a distante Base Aérea de Santa Cruz, reduzindo a possibilidade de uma recepção popular ao comandante vitorioso. A FEB já começara a ser desmobilizada quando seus homens ainda estavam na Itália, e essa pressa revela o receio do governo Vargas diante do prestígio político de combatentes que regressavam de uma guerra contra o fascismo. Terminadas as homenagens, muitos soldados foram devolvidos abruptamente à vida civil, sem trabalho, assistência médica ou acompanhamento dos traumas de guerra. Os direitos concedidos posteriormente foram fragmentários e tardios; um reconhecimento mais abrangente somente chegou com a Constituição de 1988, quando muitos veteranos já haviam morrido.

A história nem sempre se oferece em documentos claros e concordantes. Muitas vezes, precisa ser reconstruída como investigação: confrontando registros oficiais, memórias pessoais, depoimentos, silêncios e versões interessadas. Os documentos informam o que foi determinado, mas raramente revelam por que foi determinado. A memória, por sua vez, pode deslocar nomes, datas e lugares, embora preserve o sentido essencial do acontecimento. Cabe ao historiador corrigir o detalhe sem desprezar a verdade humana que a lembrança conservou.

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