Maio de 2026 – Vol. 32 – Nº 5

Walmor J. Piccinini


Em 1908, ao comemorar o centenário do ensino médico no Brasil, a Academia Nacional de Medicina fez mais do que celebrar uma data: tentou medir o caminho percorrido. Para assinalar a ocasião, publicou um alentado volume sobre o desenvolvimento do ensino médico e a produção bibliográfica das diversas especialidades no país. Entre elas, a psiquiatria.

O capítulo correspondente ficou a cargo de Juliano Moreira.

A escolha não poderia ter sido melhor. Juliano já era, então, uma das figuras centrais da psiquiatria brasileira, não apenas por sua atividade clínica e institucional, mas por sua visão ampla da especialidade. Ele sabia que uma disciplina não se firma apenas com hospitais, cátedras ou doentes: precisa também de memória, bibliografia e consciência de sua própria trajetória.

O volume comemorativo de 1908 é revelador. Nele aparecem, ao lado das especialidades, capítulos dedicados a males que assombravam o Brasil do início do século XX: ancilostomose, beribéri, impaludismo, febre amarela, peste, disenteria, tuberculose, envenenamento ofídico. Era um retrato de um país ainda muito marcado pelas grandes doenças infecciosas, pelas carências sanitárias e pelo esforço de organizar seu saber médico.

Na apresentação da obra, Fernandes Figueira recordava personagens e disputas do ensino médico brasileiro. Entre elas, a figura contraditória de José Correia Picanço, inicialmente celebrado como fundador das escolas de cirurgia e depois criticado por tentar preservar, em benefício próprio, o poder de distribuir diplomas. A observação de Figueira é significativa: para ele, o verdadeiro magistério só se legitimaria quando a produção científica se tornasse condição essencial da vida universitária.

Era uma defesa de algo moderno: a medicina como ciência viva, e não apenas como retórica escolar.

Nesse ambiente, o texto de Juliano Moreira adquire particular importância. Retomando observações que já fizera em 1905, ele assinalava quatro datas fundamentais para a história da psiquiatria no Brasil: a fundação do Hospício Nacional em 1841; a criação do ensino da psiquiatria em 1882; a volta do Hospício à administração do Estado, em 1890; e a promulgação da lei federal de assistência aos alienados, em 1904.

Mas Juliano não se limitou a resumir marcos institucionais. Seu gesto mais notável foi outro: procurou enumerar tudo o que se havia escrito entre nós sobre psiquiatria.

Esse levantamento, pioneiro, reuniu teses, artigos, monografias e relatórios produzidos desde 1831. Mais do que uma simples lista, ele ofereceu uma imagem concreta da formação do pensamento psiquiátrico brasileiro. Ali surgiam, em sucessão, temas que hoje nos permitem enxergar as preocupações de época: alienação mental, histeria, neurastenia, hipnotismo, epilepsia, delírio, paranoia, degeneração, responsabilidade penal, clínica dos hospícios, psicopatologia tropical, assistência aos alienados.

Lendo essa bibliografia, percebe-se que a psiquiatria brasileira do século XIX e do início do XX não era um terreno vazio nem mero reflexo passivo da Europa. Havia, entre nós, uma produção abundante, desigual às vezes, mas intelectualmente viva. As faculdades de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro aparecem ali como grandes núcleos formadores, e nomes como Teixeira Brandão, Franco da Rocha, Nina Rodrigues, Henrique Roxo, Afrânio Peixoto e o próprio Juliano Moreira ajudam a compor um panorama já bastante rico.

A lista também permite uma outra observação: a psiquiatria brasileira nasceu fortemente entrelaçada com a medicina legal, a neurologia, a clínica geral, a higiene e as discussões sociais de seu tempo. Não se tratava apenas de classificar loucuras, mas de pensar responsabilidade, degeneração, crime, sífilis, alcoolismo, histeria, raça, clima e organização institucional.

Em suma, o levantamento de Juliano Moreira mostrava que a psiquiatria brasileira já possuía uma história escrita — ainda dispersa, mas real.

Esse trabalho teve, além disso, um valor exemplar. Depois dele, outros psiquiatras se dedicaram a organizar a bibliografia nacional: Isaías Paim, com várias bibliografias temáticas; Paprocki e colaboradores, na área da psicofarmacologia; e, mais recentemente, meu próprio Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria, que buscou ampliar e atualizar esse esforço de preservação.

A comparação é eloquente. Juliano Moreira reuniu, para aquele primeiro período, pouco mais de duas centenas e meia de referências. Quando confrontei seu levantamento com o material posteriormente incorporado ao Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria, verifiquei que o mesmo recorte cronológico já permitia identificar número ainda maior de citações. Isso não diminui seu mérito — ao contrário. Mostra quanto foi pioneiro.

Juliano trabalhou quando quase tudo ainda estava por ser reunido.

Talvez seja esse o aspecto mais comovente dessa história. Em meio às urgências da assistência, às disputas institucionais, à precariedade dos serviços e às tensões doutrinárias de seu tempo, houve quem entendesse que também era necessário guardar a memória impressa da especialidade.

Sem essa memória, uma disciplina envelhece sem passado.

O centenário de 1908, portanto, não foi apenas uma comemoração do ensino médico. No caso da psiquiatria, foi também um momento de autoconsciência. Ao fazer o inventário do que já se escrevera, Juliano Moreira ajudou a dizer à sua geração — e talvez também à nossa — que uma especialidade só amadurece plenamente quando se reconhece como história.

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