Abril de 2026 – Vol. 32 – Nº 4

Beleza, Arte e Natureza: Reflexões sobre Emoção e Luto no Cinema
Cinepsiquiatria – 79ª sessão (14 de março de 2026)

Abrão Slavutzki , Euclides Gomes, Claudio Martins e Walmor J. Piccinini.

O Cinepsiquiatria é uma atividade cultural realizada mensalmente há sete anos, aberta ao público em geral, que utiliza o cinema como ponto de partida para reflexões sobre a experiência humana e os temas da saúde mental. Após a exibição de um filme previamente selecionado, psiquiatras e convidados conduzem um debate com a plateia, explorando aspectos psicológicos, culturais e sociais das narrativas cinematográficas. Ao longo de suas edições, o projeto tem reunido um público amplo e diversificado, promovendo diálogo entre cinema, psiquiatria e cultura.

A 79ª edição do Cinepsiquiatria realizou-se em 14 de março de 2026, tendo como filme em debate Hamnet. A sessão contou com comentário do psicanalista Abrão Slavutzki e coordenação de Euclides Gomes, Claudio Martins e Walmor J. Piccinini. Como tem ocorrido ao longo das últimas edições do projeto, o encontro reuniu numeroso público e provocou uma discussão rica sobre temas que atravessam a experiência humana: natureza, cultura, arte, amor, morte e luto.

O debate partiu da experiência pessoal do comentarista, que relatou ter assistido ao filme três vezes em dez dias e se emocionado profundamente em todas elas. Essa reação intensa serviu de ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre a relação entre arte e emoção. Segundo ele, a arte começa muito antes das pinturas rupestres: nasce quando os seres humanos começam a contar histórias. A narrativa oral transmitida entre gerações — presente em tradições como a Bíblia ou As Mil e Uma Noites — teria sido a primeira forma de criação artística.

O filme inicia com longas imagens da natureza em movimento, sem presença humana. A natureza aparece ali como força primária, anterior à cultura. Esta, por sua vez, é entendida como criação exclusivamente humana, cuja expressão mais elevada surge na arte e no teatro. O desfecho do filme conduz exatamente a essa dimensão cultural: a encenação de Hamlet em Londres. Em uma das cenas finais mais marcantes, Agnes estende a mão ao Hamlet em cena, gesto que parece reverberar por todo o teatro. O cineasta Jorge Furtado chegou a comentar que se trata de um dos finais cinematográficos mais poderosos que já viu.

A discussão também abordou a relação entre amor e morte. Citando Schopenhauer, lembrou-se a ideia de que “o único consolo diante da morte é o amor”. Essa perspectiva encontra eco em diferentes tradições culturais. No Cântico dos Cânticos, lê-se que “o amor é forte como a morte”. O escritor argentino Macedônio Fernández afirmou que, embora a morte seja mais forte que a vida, o amor pode vencê-la. E o poeta brasileiro Ferreira Gullar sintetizou essa ideia ao escrever que “a arte existe porque a vida não é suficiente”.

O tema do luto ocupou lugar central no debate. A arqueologia sugere que rituais funerários surgiram há cerca de 100 a 200 mil anos, quando os seres humanos começaram a sepultar seus mortos com pedras ou objetos simbólicos. Esses rituais não apenas marcam a despedida, mas ajudam a preservar a memória e a manter vivo o vínculo afetivo com aqueles que morreram.

No filme, o luto vivido por Agnes aparece como um processo profundo e prolongado. A morte do filho constitui um trauma agravado pela ausência do pai, Will, envolvido com sua atividade teatral. A criação artística — especialmente a peça Hamlet — pode ser vista como uma forma de elaboração simbólica dessa perda. O fantasma do pai na peça surge como representação imaginária do morto, expressão da memória afetiva que permanece.

A figura de Agnes ocupa posição central na narrativa. Apresentada como mulher ligada às ervas e à natureza, ela remete à antiga imagem da curandeira ou “bruxa”, personagem frequentemente marginalizada na tradição histórica. O debate destacou também o crescente reconhecimento do protagonismo feminino na cultura contemporânea e a necessidade de recuperar a presença muitas vezes esquecida das companheiras de grandes artistas.

O filme baseia-se no romance da escritora irlandesa Maggie O’Farrell, autora cuja obra aborda frequentemente os temas da morte e do luto. Na infância, ela própria enfrentou uma encefalite grave, experiência que marcou profundamente sua trajetória e a levou a descobrir na escrita uma forma de companhia e expressão. Entre seus livros destacam-se A Primeira Mão que Me Acariciou e Eu Sou, Eu Sou, Eu Sou: Dezessete Pinceladas da Morte.

Visualmente, o filme apresenta uma atmosfera densa e melancólica. Produzido por Steven Spielberg e Sam Mendes, recria uma Inglaterra úmida e sombria, quase sempre envolta em sombras e iluminada apenas por luz natural ou velas. Essa escuridão contrasta com a luminosidade final da catarse teatral.

A reação da plateia foi intensa. Muitos espectadores relataram profunda emoção durante a sessão. No debate que se seguiu, surgiram perguntas sobre experiências pessoais de perda e sobre os rituais familiares de despedida. A mediação psiquiátrica permitiu situar essas experiências dentro do processo de elaboração do luto, destacando suas diferentes fases — como negação, barganha e aceitação — e a importância dos rituais na reorganização da vida após a perda.

Ao final, algumas ideias permaneceram como síntese da discussão. A arte nasce da necessidade humana de narrar e dar sentido às experiências fundamentais da existência. O amor aparece como força capaz de enfrentar a realidade da morte. Os rituais ajudam a preservar a memória e a elaborar o trauma da perda. E o cinema, ao reunir espectadores em torno de uma história compartilhada, transforma-se em um espaço privilegiado de reflexão coletiva — uma verdadeira “dança mental” que fortalece vínculos humanos e amplia nossa compreensão da vida.

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