Fevereiro de 2026 – Vol. 32 – Nº 2
Walmor J. Piccinini
Introdução
Ao longo do século XX, a psicanálise ocupou uma posição paradoxal: foi, ao mesmo tempo, a linguagem dominante da psiquiatria em certos contextos e um saber permanentemente contestado. Hoje, no início do século XXI, ela parece ter perdido definitivamente sua centralidade institucional — sobretudo na psiquiatria acadêmica norte‑americana — e, ainda assim, continua a reaparecer em contextos inesperados: na psicoterapia, nas humanidades, na cultura e, mais recentemente, nos debates sobre inteligência artificial. Este artigo propõe uma leitura dessa trajetória, articulando história institucional, transformações epistemológicas e desafios contemporâneos.
A queda institucional da psicanálise na psiquiatria americana
A experiência de departamentos de psiquiatria como o da University of Michigan em Ann Arbor ilustra com nitidez o colapso institucional da psicanálise nos Estados Unidos. Nos anos 1970, a psicanálise ainda era hegemônica: a esmagadora maioria dos professores era formada em institutos psicanalíticos e a prática clínica se organizava em torno da escuta e da interpretação. Duas décadas depois, essa paisagem havia se invertido quase por completo.
Essa transformação não foi gradual, mas estrutural. A publicação do DSM‑III, em 1980, marcou uma ruptura decisiva ao abandonar a metapsicologia e adotar critérios descritivos e operacionalizáveis. Em paralelo, a ascensão da psicofarmacologia, a lógica do managed care e a centralidade crescente da pesquisa financiada por agências biomédicas deslocaram o eixo da psiquiatria para um modelo biologizante e estatístico. A psicanálise, dependente de tempo, singularidade e narrativa, tornou‑se incompatível com esse novo regime.
Importa notar que esse declínio não se deveu apenas a críticas teóricas ou empíricas, mas ao fato de a psicanálise ter apostado sua legitimidade quase exclusivamente no interior da medicina psiquiátrica. Quando o paradigma médico mudou, ela perdeu o chão institucional.
2. Trajetórias contrastantes fora dos Estados Unidos
O destino da psicanálise foi distinto em outros contextos culturais. Na França, ela nunca esteve inteiramente subordinada à psiquiatria biomédica, mantendo vínculos estreitos com a filosofia, a linguística e as humanidades. Essa posição periférica em relação à medicina garantiu menor poder clínico, mas maior resiliência simbólica.
Na Alemanha, após um declínio traumático marcado pelo nazismo e pelo pós‑guerra, a psicanálise retornou de forma discreta e integrada, sobretudo em modalidades psicodinâmicas reconhecidas pelos sistemas de saúde. Já na América Latina — especialmente na Argentina e no Brasil — ela se tornou uma verdadeira língua franca da cultura urbana, ultrapassando os limites da medicina e enraizando‑se na formação de psicólogos, intelectuais e artistas.
Essas diferenças sugerem que a sobrevivência da psicanálise depende menos de sua validade universal do que de sua ecologia institucional e cultural
3. A psicanálise fora do poder: perda de hegemonia, ganho de liberdade
A retirada da psicanálise do centro institucional teve um efeito paradoxal. Ao perder hegemonia, ela se libertou das exigências de padronização, mensuração e eficiência que caracterizam as grandes instituições contemporâneas. Fora delas, pôde manter aquilo que sempre foi seu núcleo: a atenção ao singular, ao conflito simbólico e ao sofrimento que resiste à nomeação rápida.
Nesse sentido, a psicanálise passou a ocupar a posição de um saber residual, mas necessário: não domina, não organiza políticas públicas de saúde mental, mas permanece onde os modelos técnicos falham — na angústia sem marcador, no mal‑estar difuso, na narrativa que não se deixa reduzir a protocolo.
4. Inteligência artificial e o retorno da questão do sujeito
Os debates recentes sobre inteligência artificial lançam nova luz sobre a relevância contemporânea da psicanálise. Sistemas de linguagem produzem discursos coerentes, empáticos e, muitas vezes, investidos afetivamente pelos usuários. A tendência à antropomorfização — tanto por parte dos humanos quanto das próprias máquinas, que aprendem a falar em termos psicológicos — revela algo fundamental: a necessidade humana de ler subjetividade onde há linguagem.
A psicanálise não encontra aqui um novo paciente, mas um novo objeto de reflexão. A IA não possui inconsciente, desejo ou sofrimento; contudo, ela funciona como um espelho discursivo que amplifica projeções, transferências e fantasias humanas. O que se torna analisável não é a máquina, mas o sujeito em sua relação com ela.
Nesse ponto, a psicanálise mostra sua atualidade: não como teoria da mente da IA, mas como ferramenta crítica para compreender por que continuamos a produzir narrativas de infância, trauma, repressão e educação moral para sistemas puramente estatísticos.
Conclusão
A posição da psicanálise no mundo atual é ambígua, mas reveladora. Ela perdeu a centralidade institucional que teve na psiquiatria do século XX, especialmente nos Estados Unidos, e dificilmente a recuperará. Ao mesmo tempo, continua a reaparecer nos interstícios: na clínica não padronizada, na cultura, na filosofia e nos debates sobre tecnologia.
Talvez seu destino histórico não seja o de governar o campo da saúde mental, mas o de lembrar, de forma persistente e incômoda, que nem todo sofrimento é mensurável, nem todo sentido é calculável, nem toda fala é redutível a função. Num mundo cada vez mais orientado por algoritmos, essa função residual pode ser precisamente o que a mantém viva.
