Fevereiro de 2026 – Vol. 32 – Nº 2
Walmor J. Piccinini
Nas últimas décadas, a medicina brasileira passou por transformações profundas, muitas delas necessárias e civilizatórias. O poder absoluto do médico, típico do período anterior à Segunda Guerra Mundial, foi corretamente questionado após os julgamentos de Nuremberg, com o surgimento da bioética, do consentimento informado e da participação de múltiplos atores no cuidado em saúde. No entanto, ao desmontar o modelo antigo, não se construiu um novo contrato simbólico estável para o exercício da medicina.
O resultado é um paradoxo inquietante: o médico perdeu autoridade, mas manteve — e até ampliou — sua responsabilidade jurídica e técnica.
Na psiquiatria, esse paradoxo tornou-se particularmente agudo. A Reforma Psiquiátrica brasileira, inspirada em movimentos internacionais e em críticas legítimas ao modelo asilar, adquiriu no país um viés fortemente ideológico. O hospital psiquiátrico foi convertido em símbolo a ser eliminado; a medicação, frequentemente moralizada; e o psiquiatra, reduzido à função de prescritor periférico em equipes nas quais sua liderança clínica deixou de ser reconhecida.
A psiquiatria foi a única especialidade médica brasileira cuja principal instituição histórica foi deliberadamente desmontada por política pública, sem que uma rede substitutiva plenamente funcional fosse construída. Os CAPS, concebidos como dispositivos intermediários, passaram a ocupar o centro do sistema, muitas vezes sem estrutura adequada, sem retaguarda hospitalar e com número insuficiente de psiquiatras.
A esse processo soma-se, mais recentemente, a precarização crescente do trabalho médico. O médico tornou-se caro para gestores públicos e privados, difícil de controlar e, por isso, frequentemente substituível por arranjos mais baratos. A lógica econômica passou a orientar decisões clínicas e institucionais, com pouco espaço para a complexidade do cuidado em saúde mental.
Paralelamente, o Brasil assistiu à proliferação de escolas médicas privadas com mensalidades elevadíssimas. Jovens ingressam na medicina mediante endividamento massivo, sustentados pela promessa implícita de prestígio e retorno financeiro que já não se concretiza. O mercado de trabalho encontra-se saturado, os vínculos são precários e as jornadas, extenuantes.
Nesse cenário, começa a emergir um dado perturbador: o aumento do sofrimento psíquico e do suicídio entre médicos. Esses episódios não podem ser tratados como falhas individuais, fragilidade emocional ou falta de resiliência. Eles devem ser compreendidos como sintomas de uma falência estrutural.
A medicina contemporânea exige perfeição, disponibilidade ilimitada e tolerância cotidiana ao sofrimento, mas oferece cada vez menos reconhecimento, estabilidade e sentido. O médico, treinado para cuidar da dor do outro, encontra-se frequentemente sem espaço para elaborar a própria dor. O silêncio em torno do suicídio de médicos não é casual; ele é parte do problema.
Pensar esse fenômeno não é atacar a Reforma Psiquiátrica, a multiprofissionalidade ou a bioética. É reconhecer que transformações históricas mal elaboradas produzem efeitos humanos graves. Uma psiquiatria que adoece seus profissionais compromete inevitavelmente o cuidado que oferece a seus pacientes.
Talvez seja o momento de a psiquiatria brasileira — e a medicina como um todo — perguntar não apenas como cuidar melhor da população, mas também como não continuar perdendo seus próprios médicos no processo.
