Fevereiro de 2026 – Vol. 32 – Nº 2
Alexander Moreira-Almeida
Professor Titular de Psiquiatria e Diretor do NUPES – Núcleo de Pesquisas em
Espiritualidade e Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF
Introdução
Lima Barreto (1881–1922) figura entre os principais escritores brasileiros do início do
século XX. Sua obra, marcada por crítica social contundente, ironia e denúncia de
mazelas de nossa elite intelectual, ganhou releituras recentes que tendem a enfatizar
narrativas heroicas: o escritor crítico silenciado, basicamente uma vítima do
preconceito racial e da patologização psiquiátrica. A leitura atenta do Diário do
Hospício e de Cemitério dos Vivos, contudo, revela um retrato mais complexo,
ambivalente e intelectualmente honesto, no qual convivem denúncia social,
autorresponsabilização, lucidez clínica e reflexão existencial sobre a loucura.
Este texto propõe uma leitura psiquiátrica e histórica dessas obras, afastando-se tanto
da romantização da doença mental quanto de interpretações simplificadoras do
alcoolismo e das internações psiquiátricas de Lima Barreto.
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Contexto biográfico essencial
Filho de pais negros e pobres, que contaram com o apoio do Visconde de Ouro Preto.
Seu pai, tipógrafo da Imprensa Nacional, chegou a administrar a Colônia de Alienados
da Ilha do Governador, até adoecer gravemente, com quadro psicótico a partir de
1902, sendo aposentado em 1903. O jovem Lima estudou no Colégio Pedro II e
ingressou na Escola Politécnica para cursar engenharia (1899–1902), formação que
abandonou após sucessivas reprovações.
Desde cedo, destacou-se como escritor, publicando obras fundamentais como
Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma
(1911) e contos célebres como O Homem que Sabia Javanês. Tentou ingressar na
Academia Brasileira de Letras por três vezes, sem sucesso, experiência que reforçou
seu ressentimento contra o que percebia como falsa erudição, conluios institucionais e
mecanismos de exclusão social.
Entre 1914 e 1920, foi internado quatro vezes em instituições psiquiátricas. O Diário do
Hospício refere-se à última internação (1919–1920), registrada ao longo de 34 dias.
Lima Barreto faleceu em casa, em 1922.
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A experiência da loucura: sem romantização
Lima Barreto não idealiza a doença mental nem nega sua gravidade. Ao contrário,
descreve a loucura como “imagem do que a desgraça pode sobre a vida dos homens”
e como uma revolta não contra indivíduos específicos, mas contra o “Irremediável”.
Reconhece o impacto devastador da doença sobre projetos de vida, dignidade e
pertencimento social: “eis em que tinham dado os meus altos projetos de menino”.
O autor observa que a loucura atinge todas as classes sociais e raças, descreve
pacientes em estados gravíssimos — alguns violentos, outros profundamente
desorganizados — e ressalta o aspecto mais perturbador da psicose: o silêncio, as
atitudes estranhas, as “manias mudas dos doidos”. Sua descrição do cotidiano
hospitalar é clínica, despojada de sentimentalismo, frequentemente desconfortável
para leituras contemporâneas idealizadas.
Lima Barreto relata dificuldades de convivência, comportamentos agressivos, insultos
racistas (p.ex.: contra negros, “galegos” ou “gringos”) entre os próprios internos, além
de aspectos desafiadores, como a frequência de pacientes que insistiam em
permanecerem nus ou se mantinham profundamente desorganizados. Longe de negar
esses fatos, ele os registra como parte da realidade do adoecimento mental grave.
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Alcoolismo, delírios e internação
O escritor reconhece explicitamente a necessidade de internação em momentos
críticos. Descreve sua primeira internação após uma semana de consumo contínuo de
álcool, marcada por terrores intensos. Em outro momento, recusa alta hospitalar por
temer recaídas associadas ao uso de bebida alcoólica.
Sua reflexão sobre a relação entre álcool e psicose é notavelmente moderna:
“Bebemos porque já somos loucos ou ficamos loucos porque bebemos?”. Lima Barreto
não se exime de responsabilidade pessoal e rejeita explicações exclusivamente
externas para sua condição. Reconhece sua “fraca vontade”, escolhas mal conduzidas
e a progressiva autodestruição associada ao alcoolismo.
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Psiquiatria, médicos e limites do saber
Apesar de críticas duras à psiquiatria de seu tempo, Lima Barreto demonstra respeito
pelos profissionais e consciência dos limites do conhecimento médico. Afirma que
classificações e termos técnicos não implicam necessariamente compreensão
profunda da loucura e expressa perplexidade diante da ausência de explicações
definitivas para sua etiologia.
Manifesta um niilismo terapêutico lúcido: “Até hoje, tudo tem sido em vão”, e
reconhece que decifrar plenamente o mistério da loucura pode estar “acima das forças
humanas”.
Seu retrato dos profissionais é diferenciado. Admira profundamente Juliano Moreira, a
quem atribui doçura, paciência e rara capacidade de despertar simpatia. Em contraste,
critica outros nomes relevantes da psiquiatria brasileira, como Henrique Roxo — a
quem considera livresco, presunçoso e pouco atento à realidade à sua volta: “lê os
livros … mas não lê a natureza” — e Antônio Austregésilo, descrito como
excessivamente entusiasta de novidades terapêuticas sem reflexão crítica. Ainda
assim, reconhece o bom trato recebido por médicos e enfermeiros, destacando a
paciência e o caráter quase sacerdotal da enfermagem.
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O hospital: ambivalência institucional
O Hospício Nacional é descrito de forma ambivalente. Lima Barreto denuncia
condições ruins no pavilhão de observação, superlotação e práticas coercitivas, como
o transporte em carro-forte até ao hospital. Por outro lado, reconhece qualidades
arquitetônicas, ambiente arejado, vista para o mar, acesso à biblioteca e, sobretudo,
períodos em que o hospital lhe ofereceu contenção psíquica e capacidade de
reorganização intelectual.
Em um dos trechos mais reveladores, afirma que o hospício lhe retemperava o
espírito, permitindo-lhe retomar planos de trabalho e projetos literários — uma visão
distante tanto da idealização quanto da demonização absoluta da instituição
psiquiátrica.
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Responsabilidade pessoal, sentido e fracasso
Um dos aspectos mais desconfortáveis — e talvez mais honestos — do diário é a
autoanálise implacável de Lima Barreto. Ele reconhece que sua trajetória foi marcada
por escolhas pouco hábeis: abandono dos estudos, belicosidade intelectual,
ressentimento contra pares, dificuldade de aproveitar apoios disponíveis, evitação de
vínculos afetivos duradouros e recusa de caminhos profissionais considerados
subalternos.
Seu desejo intenso de glória literária aparece como motor e armadilha. O fracasso em
se formar, o ressentimento contra instituições intelectuais e a recusa do casamento
são interpretados pelo próprio autor como elementos que contribuíram para seu
isolamento, instabilidade emocional e abuso de álcool.
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Ansiedade, herança e vulnerabilidade
Lima Barreto sugere múltiplas causas para seu sofrimento psíquico: herança familiar
(a psicose do pai), escolhas pessoais, consumo de álcool e um estado crônico de
ansiedade antecipatória. Descreve um medo constante de catástrofes domésticas —
morte do pai, falta de recursos financeiros, perda do emprego — compatível com um
quadro de ansiedade generalizada, que buscava aliviar por meio da bebida.
Sua leitura precoce de Maudsley e a consciência do risco de enlouquecer tornam
ainda mais trágica sua incapacidade de evitar o alcoolismo, fato que ele próprio
reconhece como falha grave.
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Espiritualidade, ceticismo e finitude
Embora crítico do clericalismo e educado em um “ceticismo voltairiano”, Lima Barreto
não adota um materialismo simplista. Reconhece o mistério último da existência: “as
prosápias sabichonas, todas as sentenças formais dos materialistas, e mesmo dos
que não são, sobre as certezas da ciência, me fazem sorrir”. Valoriza o trabalho
dedicado das freiras no hospital, apesar de sua postura anticlerical.
Não acredita em vida após a morte nem na eficácia da oração, o que aumenta seu
sentimento de desamparo diante da própria degradação. Em momentos de desespero,
expressa ideação suicida condicional, associada à possibilidade de novas internações.
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Considerações finais
O Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos não sustentam leituras simplificadoras.
Lima Barreto não se apresenta apenas como vítima, nem como herói trágico
idealizado. Sua grandeza reside precisamente na lucidez com que expõe contradições
pessoais, limites institucionais da psiquiatria, sofrimento psíquico real e
responsabilidade individual.
Para a psiquiatria contemporânea, sua obra permanece um documento clínico,
histórico e ético de extraordinária densidade, lembrando que a doença mental não se
deixa reduzir a slogans, romantizações ou narrativas únicas — e que compreender o
sofrimento humano exige suportar ambivalências, falhas e zonas de silêncio.
Nota: Para uma análise complementar sobre estas duas obras, veja este vídeo na TV
