Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Outubro de 2010 - Vol.15 - Nº 10

História da Psiquiatria

NASCIMENTO DO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CLÍNICA PSIQUIÁTRICA DA UFRGS

Walmor J. Piccinini

Este assunto já foi por mim abordado em várias oportunidades. Na biografia dos Professores David Zimmermann (http://www.polbr.med.br/ano04/wal0804.php) e Paulo Luiz Vianna Guedes (http://www.polbr.med.br/ano02/wal0102.php).  Retomo a história deste Curso  utilizando um discurso de paraninfo do Professor David Zimmermann onde El dá os detalhes pessoais do surgimento deste curso que formou tantos psiquiatras gaúchos e brasileiros.                                                                            

A Revista de Psiquiatria Dinâmica publicou em 1968 no seu volume VII e números 1-4 a palestra proferida por ocasião da formatura do Sétimo Curso de Pós-Graduação em Psiquiatria. Esta turma era integrada pelos residentes da Clínica Pinel e alunos do Curso da UFRGS.  Os formandos de 1967 foram: Carmen Tuma, Harri Valdir Graeff, Ildo Ely, Marlene Silveira, Matias Berdichevsky, Paulo Fonseca (orador da turma) e Themis Groisman.

 O paraninfo foi o Professor David Zimmermann que apresentou o seguinte discurso.

     O paraninfo costuma escolher um tópico para falar na solenidade de formatura. Gostaria de contar a vocês alguns aspectos da história do 1º. Curso de Pós-Graduação em Clínica Psiquiátrica e do início dos Cursos de Especialização. Como os antecedentes destes se confundem bastante com a história da minha própria formação profissional, terei de mencionar alguns aspectos de minha evolução como psiquiatra e em alguns aspectos como psicanalista.

    Com efeito, concluindo o curso médico nesta Faculdade em 1946, movido por necessidade pessoal e  estimulado pelas aulas magistrais sobre Psicanálise do Professor Celestino Prunes, dirigi-me ao Hospital São Pedro, escola para onde confluem aqueles que desejam ser psiquiatras. Algo temeroso, não cheguei a pensar logo em ser psiquiatra. Desejava isto sim, verificar se possuía ou não gosto e algum talento para tratar com doentes mentais.

    Devo assinalar que este estágio prévio e sem nenhum compromisso – apenas para ter consciência do que é psiquiatria – se constituiu, mais tarde, na primeira condição de matrícula dos cursos.

    No Hospital São Pedro mais precisamente, na Divisão Pinel, tive a fortuna de encontrar Mário Martins que estava regressando de Buenos Aires onde terminara a sua formação psicanalítica. O ano de 1947 marca não só o início da formação psicanalítica em Porto Alegre como também a introdução no nosso meio e no Brasil, de uma nova modalidade de aproximação ao doente mental, uma nova psiquiatria, a psiquiatria psicanalítica ou dinâmica.

    Acompanhei durante muito tempo o trabalho clínico diário de Mário Martins com pacientes psicóticos: sua maneira de se relacionar com os pacientes, sua técnica de conduzir a entrevista, a compreensão do material clínico e a orientação psicoterápica. Para mim, recém saído da Faculdade – lembrem-se estamos em abril de 1947 – era um mundo novo, maravilhoso, que se abria: poder entender o doente mental, suas aparentes contradições de pensamento e conduta. A falta de sentido passou a ter um sentido novo. A loucura podia ser compreendida. O complicado e ininteligível, visualizado através do novo instrumento psicanalítico de trabalho, tornava-se transparente, de clareza meridiana.

    Impressionou-me profundamente, a investigação psiquiátrica e psicanalítica levada a efeito por Mário Martins em doentes mentais epilépticos. Esta contribuição pode ser considerada modelar em muitos sentidos. Sem pressa, com verificações repetidas, a elaboração do trabalho levou mais de seis anos. Um dos aspectos chamativos desta contribuição foi à aplicação da psicanálise não só a compreensão do conteúdo do material clínico senão, também à própria orientação da investigação.

    Como verão mais adiante, a aplicação da psicanálise foi levada para a organização e estruturação do Curso, não apenas no que diz respeito ao conteúdo programático senão, também para a forma da sua realização. Mas, na Psiquiatria daquele tempo este aspecto tão positivo era apenas um núcleo que viria a se desenvolver. Não se contava ainda com as drogas tranqüilizantes nem tão pouco com a Socioterapia em suas múltiplas formas. O Número de psiquiatras era muito pequeno em relação ao de doentes. O tratamento se resumia, praticamente, na aplicação de insulinoterapia e eletrochoque.

    Mesmo assim, meu entusiasmo, em muitos sentidos, infantil, não tinha limites. A Psiquiatria e a Psicanálise seriam as especialidades nas quais eu iria trabalhar. A meta foi tornar-me “aprendiz de feiticeiro”, como éramos chamados na época. Entretanto, para evitar o autodidatismo e ser profissional capacitado, precisava de orientação para estudar e aprender psiquiatria descritiva ou clássica. Isto na época era tarefa difícil. Lembro que Günter Wurz e eu tivemos dificuldade em obter uma orientação sistemática. Após varias tentativas frustradas pedimos ao Paulo Guedes que nos ministrasse um curso de Propedêutica Psiquiátrica.

    Faz 20 anos. Foi precisamente em dezembro de 1947, a data em que se iniciou minha amizade e colaboração com Paulo Guedes, Muito aprendi com Paulo e mais tarde já como colegas passamos a estudar juntos psiquiatria e psicanálise. Durante vários anos – sete se a memória não me falha – dedicávamos uma tarde por semana ao exame dos doentes no Hospital São Pedro. Tínhamos também uma reunião semanal destinada à discussão dos nossos resumos de textos. Como estávamos ambos em formação psicanalítica, tanto quanto nos era possível realizávamos a integração da psiquiatria descritiva com os conhecimentos psicanalíticos.

    Deste estudo e convívio nasceu o convite em 1953 para trabalhar na Cátedra de Clínica Psiquiátrica.

   Possivelmente, devido à maneira como visualizava o doente mental, em 1954, um grupo de colegas do Hospital São Pedro solicitou-me um curso de psiquiatria dinâmica que os ajudasse na preparação de um concurso que deviam realizar. Não considerei a idéia de um curso oficial, mas resolvi auxiliá-los como colega mais experimentado, a enfrentar o concurso, ministrando-lhes noções gerais de psicanálise que lhes possibilitassem uma melhor compreensão do doente mental e pudessem ser aplicados no exame clínico dos pacientes. Os seminários teóricos e práticos tiveram uma duração de cerca de três meses.

    Esta tarefa didática repercutiu favoravelmente em alguns estudantes de medicina que freqüentavam, na oportunidade, o Hospital São Pedro. Aproximaram-se mais de mim, mostrando-me freqüentemente suas observações, buscando orientação na leitura de textos, discutindo comigo suas dificuldades. A seguir, acabaram por solicitar um curso como o que eu havia ministrado para os colegas do Hospital ou, a meu critério, em moldes que lhe fossem adequados. Recordo com satisfação que dentre os estudantes o mais entusiasmado e a quem mais devo o incentivo da realização do 1º. Curso é o meu amigo Darcy Abuchaim, atualmente professor de Psicologia Médica e Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina de Pelotas.

    Apesar da insistência dos pedidos, relutei durante muito tempo em aceitar a idéia do curso. É que por um lado não me sentia seguro de poder ministrá-lo como imaginava e, por outro lado, não me sentia seguro de poder ministrá-lo como imaginava e, por outro lado duvidava que sexto-anistas de medicina ou médicos recém formados pudessem acompanhar e concluir um curso com bom nível de aproveitamento, que os capacitasse de fato ao exercício correto e seguro da especialidade. Entretanto, nas discussões que nesse ínterim os futuros alunos mantiveram comigo, a propósito do curso, me foi dado verificar que eles estavam realmente dispostos a aceitar as minhas condições de trabalho. Amadureci meu plano e concordei afinal em atender o que me pediam.

    Parece-me interessante lembrar algumas condições, pois não obstante o desenvolvimento e as várias modificações e adaptações sofridas nestes dez anos, os cursos seguem mantendo basicamente a mesma estrutura e organização inicial. Mencionarei algumas das condições e orientações. Em janeiro de 1957, após a conclusão de um curso de psicopatologia, mantive várias reuniões prévias com os primeiros futuros alunos. Disse-lhes que não iria dar-lhes um Curso de Clínica Psiquiátrica. Propus a eles que nós, alunos e professor, poderiam fazer um curso no qual todos trabalhariam em grupo com a finalidade de aprender Clínica Psiquiátrica. Estabeleceu-se assim uma relação de dar e receber entre professor e alunos, uma relação mais madura. Da mesma maneira, o acento tônico do ensino não recaía na qualidade de conhecimentos transmitidos, senão em desenvolver no aluno tanto a capacidade de aprender como a de se orientar a fim de que pudesse encontrar por si novos caminhos de progresso. Mais importante do que o professor revisar determinados tema era incrementar nos alunos a capacidade de realizar pesquisas bibliográficas e revisar artigos de revistas e monografias. Em resumo, tratou-se do mais importante difícil; criar no aluno uma consciência psiquiátrica.

    Outro problema foi o da orientação que se imprimiria ao Curso. Não obstante ser desejável estudar teoricamente as principais escolas psicológicas e psiquiátricas, o médico no trato do seu doente, não pode ter simultaneamente muitas orientações básicas. Ensinar ao aluno várias orientações no atendimento do seu paciente constitui-se em um processo de dissociação de sua mente, o mesmo que criar uma verdadeira Torre de Babel.

Assim sendo, concomitantemente ao estudo dos aspectos da psiquiatria descritiva, o curso teve embasamento psicodinâmico ou orientação psicanalítica. O conteúdo do programa foi psiquiatria descritiva e dinâmica, mas o principal trabalho centrou-se na fusão de ambas. Deste modo, introduzi em nosso meio a sistematização das novas normas técnicas de entrevista psiquiátrica e de exame do paciente, modificando o modo de redação das observações. A conseqüência foi à possibilidade de obter histórias clínicas que permitiam uma compreensão genética e dinâmica do caso, bem como uma avaliação transferencial e contra-transferencial.

Modificou-se também a técnica de ensinar: o meio habitual de transmitir conhecimentos, na época, eram as aulas, que foram substituídas pelos seminários – sistematicamente usados no estudo de psicanálise. As dificuldades que eventualmente surgiam nos seminários eram resolvidas mediante a aplicação dos conhecimentos da psicoterapia analítica de grupo.

    O programa foi dirigido entre os alunos que, devidamente orientados, realizaram trabalhos completos sobre cada ponto da matéria,

. Estes trabalhos eram distribuídos entre todos os participantes e discutidos em seminários onde todos faziam comentários, traziam contribuições pessoais ou pediam esclarecimentos. O papel do professor era mais de coordenador e moderador das discussões que se seguiam. A introdução dos conhecimentos e técnicas psicanalíticas no atendimento, o doente foi valorizado como pessoa. Ensinou-se aos alunos a conversarem e se entenderem com os pacientes. Em conseqüência passaram a ter maior convivência com os seus pacientes. Entretanto, só na Divisão Melanie Klein, inaugurada em novembro de 1961, oferecendo condições materiais adequadas, foi possível aos futuros psiquiatras conviverem com os doentes; praticarem esportes, comerem, realizarem festas etc., tudo em conjunto. A orientação psicanalítica da Divisão Melanie Klein passou a ser aplicada não só no atendimento individual dos pacientes como também na própria organização e funcionamento do Serviço, constituindo-se em elemento de valor terapêutico, - base da Socioterapia.

    Em outubro ou novembro de 1957, aproximando-se o término do curso, os alunos pediram outro. Desta forma, em prosseguimento ao 1º. Curso de Aperfeiçoamento seguiu-se o 1º.

Curso de Especialização. Mais tarde foi acrescentada formação em Psicoterapia.

A estes foram acrescentados cursos auxiliares que aqui vão relacionados:

Anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso, ministrado por Cláudio Fichtner.

Anatomia Patológica, por Raul Krebs.

Eletroencefalografia, por Clara Costa.

Laboratório, por Carlos Candal dos Santos e Jaime Jeffman.

Oftalmologia, por Mário Azambuja.

Neurologia, por Celso Aquino e colaboradores.

Radiologia, por Darcy Ilha.

Psiquiatria Forense, por Roberto Pinto Ribeiro e José Maria S. Wagner.

Testes Psicológicos, por Luiz Carlos Meneguini.

Posteriormente, como é natural, os Cursos sofreram modificações, especialmente quanto ao número de professores. Em 1964 foi convidado a participar no ensino dos Cursos de Pós-Graduação o professor Marcelo Blaya.

Atualmente todos os outros professores da Cadeira de Clínica Psiquiátrica: Manuel Albuquerque, Isaac Pechansky e Ellis D. Busnello colaboram de modo eficiente no ensino dos Cursos de Pós-Graduação. Além disso, também participam do treinamento psiquiátrico os assistentes da Divisão Melanie Klein, os Drs. Odon Cavalcanti e Ronaldo Moreira Brum.

Nota final. Na mesma revista podem ser encontradas outras notas bem humoradas e afetivas comemorando a formatura de mais uma turma de “psiquiatras dinâmicos”. Essa também foi a primeira e última turma conjunta dos residentes da Pinel e do São Pedro. A turma seguinte a que pertenci, embora continuasse sendo oficialmente da Faculdade de Medicina da UFRGS,  era dividida em dois núcleos, o da Clínica Pinel de Porto Alegre e a da Divisão Melanie Klein do Hospital Psiquiátrico São Pedro.


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