Setembro de 2022 – Vol. 27 – Nº 9

Walmor J. Piccinini

Em agosto de 2000, convidado Giovanni Torello, comecei a escrever regularmente uma coluna de história. Quando desanimava aparecia um leitor que declarava apreciar meus escritos. Na Internet, onde muitas vezes a turma do “copypaste” não registra a origem eu lia trechos e às vezes artigos inteiros de minha autoria sendo publicado em blogs e sites. Isso nunca me aborreceu, ao contrário, achava interessante que determinado assunto tivesse despertado interesse. Uma revista científica pressupõe artigos de conteúdo e que passem por peerreview. Descobri uma nova realidade, apenas dez por cento dos artigos contribuem de alguma forma para o progresso da ciência (Why Research Findings Are Usually Wrong By: John Hardie BDS, MSc, PhD, FRCD(C)2012-09-01), os demais são escritos para cumprir exigências do orientador ou para justificar verbas recebidas para pesquisa. Diante desta realidade, resolvi entremear artigos sobre a história da psiquiatria com pensamentos sobre a mesma que chamarei de crônicas.

Vou começar fazendo uma revisão sobre a história do pensamento psiquiátrico através dos tempos.

Vamos começar com os gregos, que atribuíam a loucura como sendo uma artimanha dos deuses. O Professor Cláudio Moreno em Tróia: O romance de uma guerra (L&PM, 2004) nos transmite a ideia de como os deuses e deusas brincavam com os simples mortais. O episódio do grande rei e guerreiro Ajax é elucidativo. Considerando-se o maior guerreiro grego depois de Aquiles, com a morte deste, esperava ser o herdeiro das armas do grande guerreiro. Preterido em favor de Ulisses, foi punido por seu desrespeito a Zeus. O castigo foi infligido por Atena que o enlouqueceu. “Imaginando que atacava os traiçoeiros Agamenon e Ulisses, atacou com sua espada o gado e carneiros de reserva. Na fúria, além do gado, destroçou um carneiro e feriu outro”. Ao acordar, Atena lhe devolveu a lucidez, se deu conta do que tinha feito e arrasado, jogou-se sobra à própria espada. Atribuir aos deuses pensamentos e condutas tresloucadas era comum nas explicações de condutas inaceitáveis.

Este tipo de justificativa perdura até hoje, diante de um ato abominável, o perpetrador chora e diz não saber como aquilo aconteceu. Isso mereceria um tratado por si só, mas vamos adiante. Dois outros gregos são os responsáveis por uma dicotomia que até hoje perpassa os textos psiquiátrico e serve de motivo para desavenças intermináveis. Tudo aconteceu por volta de 465 a.C. não sei se chegaram a frequentar os mesmos ambientes, mas nesta época Platão defendia a ideia da alma, do espírito que era prisioneiro do corpo e sofria as mazelas deste. Já Hipócrates defendia que as doenças eram de causas naturais e propunha tratamentos específicos para estes males. Não preciso lembrar que até hoje a dicotomia entre os seguidores da ideia do psiquismo como algo etéreo, contrapõe aos descendentes de Hipócrates que buscam com afinco as falhas do corpo que levam a doença.

Fazendo uma viagem extremamente rápida de 500 anos, chegamos aos romanos, a Galeno que resgatou a teoria dos humores e a Moral cristã que revigorou à sua maneira as ideias platônicas.

É interessante notar que as duas formas de pensar seguiam diferentes caminhos. No mundo ocidental a ideia da alma foi acompanhada pelas teorias das possessões e do pecado. No mundo islâmico, a medicina seguia os ensinamentos de Hipócrates em busca de causas naturais.

No Renascimento, começo da moderna ciência, a concepção religiosa atingiu um paroxismo com a caça às bruxas e a fogueira. A Reforma de Lutero tornou-se uma ameaça a Igreja Católica que reagiu com a caça aos hereges. Estranhamente, nos livros de história, é dado pouco destaque a Peste Negra, a maior tragédia que se abateu sobre o ocidente em todos os tempos. Cerca de um terço da população da Europa morreu devido a esta peste. O livro de Daniel Defoe, o diário da peste, faz um relato de como a peste se espalhou nas diferentes paróquias londrinas. Um fato que chama a atenção é de que, quando alguém de uma família aparecia doente, toda a família era impedida de sair de suas casas e, geralmente, todos morriam. A partir da peste negra surgiram os conceitos de quarentena e de hospitais para combater a praga. A ignorância em relação ao agente causador e a noção de contágio levaram a inúmeras tragédias. No Brasil há relatos de um batalhão de soldados que foi internado numa Santa Casa de Salvador, cheia de variolosos e morreram todos, Em Pernambuco há relatos de doentes mentais tratados no meio de doentes infectados ocasionando alta mortalidade. A ideia de hospital como lugar para morrer ficou claramente marcada na mente das populações.

A dualidade alma/mente e corpo seguiu seu caminho. No século XVIII, pelo menos na Inglaterra e França proliferaram as “mad houses”, algumas dirigidas por médicos, a maioria por charlatães e os tratamentos visava enfraquecer a besta fera que habitava o indivíduo. Os tratamentos eram cruéis, os doentes passavam fome para ficarem enfraquecidos, eram acorrentados e/ou presos em camisas de força. Como reação a estes tratamentos brutais começou uma Reforma Psiquiátrica, Tuke na Inglaterra, Pinel na França e Chiaruggi na Itália.

Foi criada a Terapia Moral que seguia a linha dos cuidados humanos, sem se fixar em tratar doenças. Paralelamente desenvolveu-se uma incipiente psiquiatria dedicada a descoberta de uma causa orgânica para a doença mental. No início foram grandes vitórias, descoberta da Doença de Alzheimer, da Paralisia Geral e de alterações anatômicas relacionadas a um sintoma, área de Broca, doença de Wernicke.

Podíamos dizer que a psiquiatria do cérebro tinha seu quartel general na Alemanha, tudo começou com Griesinger e atingiu o apogeu com Kraepelin.

Pode parecer estranho, mas dessa escola alemã saíram grandes nomes que alternaram posições no campo neurológico e no psiquiátrico. Temos Freud que começou como neuropatologista e depois criou uma teoria própria. Jaspers estabeleceu uma ponte entre as duas maneiras de pensar. Pavlov desenvolveu a ideia dos reflexos condicionados. Não preciso dizer que este pessoal não necessariamente era ligado por alguma forma de amizade. Jaspers não aceitava Freud que por sua vez admirava Kraepelin, mas não aceitava suas ideias e Pavlov que desconsiderava todos.

No século XX tivemos o desenvolvimento da antipsiquiatria dentro da linha platônica e grandes questionamentos sobre a psiquiatria orgânica.

No século XXI vamos observando uma tentativa de retorno à terapia moral e afastamento dos psiquiatras do cuidado com os doentes e por outro lado grandes desenvolvimentos na psiquiatria biológica com o estudo das imagens cerebrais, da Genética e da Psicofarmacologia.

 

Uma curiosidade

Tempos atrás li uma notícia em ZH em que o entrevistado relatava a descoberta de uma barcaça prisão no fundo do Guaíba. Fiquei matutando, por que uma barcaça prisão se existia o Presídio da Ilhas das Pedras e o Presídio Central no Centro da cidade? Aí me lembrei na minha pesquisa na Biblioteca da Assembleia Legislativa onde descobri relatórios dos primeiros diretores do Hospício São Pedro. Já citei que os positivistas adoravam registros estatísticos e consideravam o positivismo uma ciência. Num dos relatórios li a referência de uma barcaça de quarentena que ficava no meio do Guaíba. O porto da capital era muito concorrido e vinham navios com passageiros e tripulações de todo mundo. Com eles chegavam peste, a varíola, a sífilis e outras moléstias infecto contagiosas. Tentando conter a chegada destas doenças, muitos marinheiros e passageiros contaminados eram mantidos em cativeiro naquela barcaça. Pode ser tudo fantasia minha, mas as informações prestadas ao Secretário da Saúde continham esta informação. Outra informação é que o Hospício ficava a uma légua do palácio do governo, o que naquela época era uma distância respeitável, como consequência o diretor morava no Hospício ou perto dele. Outro fato é que seu salário só era menor que o do Governador.

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