Janeiro de 2021 – Vol. 26 – Nº 01

Walmor J. Piccinini

Destaque no meio acadêmico, defensor do doente mental e de uma psiquiatria moderna o Professor Valentim Gentil Filho foi homenageado na Universidade de São Paulo pela sua aposentadoria. Psychiatry online presta sua homenagem ao ilustre professor apresentando-o aos nossos leitores.

Nascido em São Paulo em 21 de agosto de 1946, de uma família originada de Itápolis,SP. Sua infância sofreu uma perda substancial quando tinha dois anos de idade. Seu pai faleceu, com 48 anos de idade, e na ocasião era presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo.  Por este motivo, por suas realizações como político e a comoção por sua morte prematura, foi homenageado com seu nome sendo dado a um novo município de São Paulo que passou a ter seu nome. Desta forma existe no estado de São Paulo um município com o nome de Valentim Gentil. O nosso Valentim era o mais novo dos filhos do casal e foi criado pela mãe viúva e duas irmãs. Os irmãos eram mais velhos e já casados. Estudou num colégio de jesuítas e aprendeu sobre religião e a desenvolver um espírito crítico. Bom aluno, foi aprovado em dois vestibulares para Medicina, na Santa Casa e na USP, optou por esta última.

(clique aqui se preferir ler o artigo em PDF)

Na Faculdade de Medicina começou a se interessar por farmacologia, mais especificamente psicofarmacologia. Optou pela psiquiatria, apesar das pouco animadoras características da psiquiatria da época; não gostava da psicanálise aplicada à psiquiatria. “Seu interesse era em descobrir porque o LSD provocava alucinação, porque a Clorpromazina tirava a alucinação, porque o antidepressivo tirava a depressão, que história era essa, como você pode usar umas moléculas para mexer com o cérebro e com isso você mudar a associação subjetiva ao comportamento das pessoas.

Publicada pela USP por ocasião da sua jubilação extraímos alguns detalhes da sua vida. Valentim Gentil Filho – Linha do Tempo (banner ipq 2019 – 1.80 x 2,00 14h00.pdf (usp.br))

1930 – Criação do Instituto de Psiquiatria

1952-Inauguração do IPq

1965 – Ingresso na FMUSP

1973-Formatura na FMUSP

1973-76 PhD pela Universidade de Londres

1984 Volta ao Ipq e Fundação do AMBAM

1977-1986- Professor Assistente da Cadeira de Farmacologia do ICB-USP

1986-Professor Assistente de Psiquiatria pela FMUSP

1987 – Livre-Docência pela USP

1992-6- Chefe do Departamento de Psiquiatria da FMUSP

1994-Professor Titular de Psiquiatria pela FMUSP

1994-2006 – Presidente do Conselho Diretor do Instituo de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFRS.

2001-2004. Planejamento e execução das obras de renovação do Ipq-USP

2004-Inauguração da Ala Norte do Ipq, pós reforma

1994-2018 – Transferência de Conhecimento para a Sociedade e o                                    Impacto nas Políticas Públicas

2004-2008 – O Ipq reformado (“Esse prédio (do Ipq), quando nasceu em 1940, era uma beleza. Mas quando foi entregue, em 1952, estava superado. Tínhamos que entender um novo modelo, pois a medicina já tinha se transformado. Cada um de vocês que trabalhava aqui, cuidou dessa modernização. Foram coisas feitas por todos…)

2005 – Inauguração da Biblioteca do Ipq

2006 – Inauguração do Centro de Pesquisas Ipq- CEAPES

2008-2010 – Chefe do Departamento de Psiquiatria da FMUSP

Junto com sua atividade de professor, administrador, conferencista, teve importante papel e formar professores que hoje fazem parte da USP e de outros serviços no Brasil e exterior: “brincando com software de Indexação e genealógicos, montamos esta planilha dos alunos formados pelo Professor Valentim Gentil Filho. Soma-se a sua atividade de administrador a produção de 124 artigos publicados em Revistas, dois livros e 40 capítulos de livro. Seu currículo pode ser acessado em CV: http://lattes.cnpq.br/9771743515214749

Descendência Acadêmica de Valentim Gentil Filho

Os números indicam a corrente genealógica universitária se assim podemos denominar. 1. Valentim

  1. Orientado
  2. Orientando do Orientado e assim por diante

 

(1973 – 1976 Doutorado em Ph D. University of London, UL, Inglaterra.

Título: Some clinical and psychophysiological correlates of human platelet monoamine oxidase activity, Ano de Obtenção: 1976.

Orientador: Malcom Lader.

 

Na USP

1          Valentim Gentil Filho     1976 – 2020

.                       +  Mestrado

……..    2          Clarice Gorenstein        1979 –

……..    2          Roseli Gendake Shavitt 1993 –

……..    2          Márcio Antônio dos Santos Melo         1995 –

+ Doutorado

……..    2          Clarice Gorenstein        1984 –

………..             +Doutorado

………………      3          Marcio A Bernik          1995 –

…………………               +Doutorado

……………………….        4          Fábio Moraes Corregiari          2007 –

………………                  +Mestrado

……………………….        4          Nancy Weissberg Minutentag   2000 –

……………………….        4          Marcionilo Gomes Larangeiras Neto     2005 –

………………      3          Tânia Marcourakis        1996 –

………………      3          Stefania Caldeira Carvalho        2002 –

………………      3          Joel Rennó Júnior         2003 –

………………      3          Lívia Rennó      2004 –

………………      3          Daniel Fuentes  2004 –

………………      3          Antonio Pádua Serafim 2005 –

………………      3          Alessandra Fernandes Faustino 2005 –

3          Elaine Dacol Henna 2011-

3          Roseli Ferreira da Lage    2011

3          Juliana Teixeira Fiquer    2011

……..                +Mestrado

………………      3          Tânia Marcourakis        1990 –

…………………               +Mestrado

……………………….        4          Elisa Mitiko Kawamoto.           2002 –

………………                  +Doutorado

……………………….        4          Stefania Caldeira de Carvalho   2002 –

……..    2          Francisco Lotufo Neto  1991 –  (CV: http://lattes.cnpq.br/1508845387926857)

3   Sete doutorados, entre eles Tânia Maria Alves e  Alexander Moreira-Almeida

Mestrado

  1. 24 mestrados

……..    2          Eurípedes Constantino Miguel Filho      1992 –

………..             +Doutorado    16 teses até 2012

………………      3          Marcos Tomanik Mercadante   1999 –

…………………               +Mestrado

……………………….        4          Paula Jaqueline de Moura         2003 –

……………………….        4          Rodrigo Renato da Silva           2003 –

……………………….        4          Luciana Mara Cardoso Andrioti Alvez  2004 –

……………………….        4          Jussara Luongo 2004 –

……………………….        4          Márcia Santos Vedovato          2005 –

……………………….        4          Clizeide Luzia da Costa Aguiar 2005 –

……………………….        4          Márcia G. Sandoval Monteiro de   Barros           2005 –

………………      3          Roseli Gedanke Shavitt 2002 –

………………      3          Ana Gabriela Hounie    2003 –

………………      3          Maria Conceição do Rosário Campos 2004 –

………………      3          Ygor Arzeno Ferrão     2004 –

……..                            +Mestrado

………………      3          Maria Conceição do Rosário Campos  1998 –

……..    2          Laura Helena Silveira Guerra de Andrade         1993 –

………..                         +Mestrado

………………      3          Marco Aurélio Peluso   2000 –

………………      3          Sara Mota Borges Bottino        2000 –

……..                            +Doutorado

………………      3          Wang Yuan Pang          2002 –

………………      3          Marco Aurélio Peluso   2003 –

………………      3          Doris Hupfeld Moreno  2004 –

………………      3          Luiz Fernando Tófoli     2004 –

……..    2          Renato Teodoro Ramos            1995 –

………..             +Doutorado

………………      3          Roberto Britto Sassi     2003 –

……..                            +Mestrado

………………      3          Anne Kotlaresky Maia  1999 –

………………      3          André Luiz Iorio           2000 –

………………      3          Sérgio KenhaTengan   2000 –

………………      3          Célia de Oliveira           2001 –

………………      3          Camila Sotello Raimundo          2001 –

………………      3          Desiree Wolf  Celkevicius          2002 –

………………      3          Sandra Regina Bataglia 2002 –

………………      3          Marina Alves Tarsitano 2002 –

………………      3          Deise Mendes Rimi       2002 –

………………      3          Carla Lucato Pavarine de Paula            2003 –

………………      3          Paulo Eduardo Torres Tondato 2003 –

………………      3          Letícia Maria Pires de Accacio 2004 –

………………      3          Adriana Lamas Lopes   2004 –

………………      3          Patrícia Santiago           2004 –

………………      3          Sirlei Aparecida da Silva           2005 –

……..    2          Táki Athanássios Cordás          1995 –

………..             +Doutorado     (+duas teses)

………………      3          Adriano Segal   1999 –

………………      3          Sheila Seleri Marques Assunção           2003 –

……..                            +Mestrado      (13)

………………      3          Daniel Boleira Sieiro Guimarães            2000 –

………………      3          Fábio Tápia Salzano     2003 –

………………      3          Cybelle Weinberg         2003 –

………………      3          Cristiane Piconni Barros            2004 –

……..    2          Beny Lafer       1997 –

……..    2          Valeria Aparecida Franco Lauriano       1999 –

……..    2          Fernando Ramos Asbahr          1999 –

………..             +Mestrado

………………      3          Elisa Kijner Gutt           2004 –

……..    2          Hermano Tavares         2000 –

………..             +Doutorado

………………      3          Silvia Sabóia Martins    2003 –

……..    2          Silvia Sabóia Martins    2003 –

……..    2          Rodrigo Machado Vieira          2005 –

……..    2          Daniela Sabbatini da Silva Lobo            2005 –

 

Muitos dos doutores formados sob orientação de Valentim Gentil Filho tem se mostrado muito capazes na formação de outros doutores e esses por sua vez formam novos e excelentes profissionais. Esse círculo virtuoso se deve ao mérito pessoal dos candidatos e a oportunidade de crescimento oferecida por seu orientador. Essa é minha maneira de ver a formação. Curiosamente, alguns dos professores mais velhos, não se referem aos seus orientadores, presupõe-se uma geração espontânea, seriam eles autodidatas isolados num mundo acadêmico sem estímulos. Acho difícil, nos parece mais uma falta de conhecimento do que seja uma pós-graduação.

 

O Professor Valentim, ao lado de um grande esforço para melhorar as condições físicas do local de atendimento, foi percebendo que do ponto de vista político, os psiquiatras e a psiquiatria eram atacados das mais diferentes formas e resolveu ir para a linha de frente da defesa dos psiquiatras e de uma boa psiquiatria. Um artigo da época em que se discutia na Câmara novas maneiras de atender o doente psiquiátrico dá ideia do início da luta e resolvi publicá-lo na íntegra;

Por uma Reforma mais psiquiátrica (Valentim Gentil filho

Somos todos favoráveis a uma ampla reforma da legislação e do modelo assistencial em saúde mental. Não podemos aceitar, porém, o aviltamento e a tutela da Psiquiatria, características dos etos apresentados desde a Nova República (DINSMS-MS, 1985) e a I Conferência Nacional de Saúde Mental (1986).

Questões fundamentais, como a humanização do atendimento. O direito a cidadania e a reversão do modelo hospitalocêntrico, tornaram-se escudo para propostas antipsiquiátricas, que desconsideram o direito, igualmente fundamental, de acesso ao tratamento mais eficaz e ao progresso científico. Freqüentemente, seus proponentes utilizam superados referenciais sócio-genéticos e parecem supor que, uma vez doente, a pessoa deve ser apenas acolhida, reinserida socialmente, mas não pode ser efetivamente tratada nem se beneficiar da medicina.

O Projeto Delgado foi construído sobre juma distorção da ideia de proibir a construção de hospitais psiquiátricos tradicionais, manicomiais? Ele poderia ser inócuo, pois nada digno de nota foi construído neste país desde a década de 70. Entretanto, ele impediria investimentos futuros em modernos hospitais, inexistentes em nossos meio, necessários para as atividades diagnósticas, terapêuticas e de pesquisa.

Fala-se em desospitalização, mas a rede pública não tem condições para prescrever lítio, que efetivamente previne reinternações. A desculpa é que gastamos muito com os manicômios. A verdade é que o SUS pratica preços aviltantes e a capacitação da “Rede” está aquém do que nossa população necessita. Também não acho ética a estratégia de Pilatos, de devolver pacientes que necessitam de asilo às suas já tão sofridas famílias.

As leis estaduais (tão iguais que parecem clones), além de decretarem o impeachment do psiquiatra, “criminalizam” questões técnicas complexas, como a abordagem de pacientes agressivos, a esterilização de pessoas incapazes de optar por uma gravidez, a indicação de procedimentos cirúrgicos para portadores de transtornos refratários aos demais tratamentos, ou, mesmo, a Eletroconvulsoterapia. Até o CFM posicionou-se sobre isso, sem discriminar entre abuso, punição e tratamento.

Nos países avançados os hospitais modernos tem enfermarias especializadas para problemas afins. Elas funcionam, na prática, como conjuntos de unidades psiquiátricas. Porque continuar submetendo pessoas doentes ao estresse de conviver com portadores de transtornos ainda mais graves que os seus? A própria equipe que lida bem com pacientes agitados, pode não ser a mais habilitada a atender idosos ou anoréticos, e assim por diante.

Felizmente, em 23/11/95, a Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou, por 18 votos a quatro, o substitutivo Lucídio Portella, muito mais abrangente que o Projeto Delgado. O Hospital psiquiátrico está inserido entre dez alternativas de “estabelecimentos de saúde mental”. Nossa missão, agora, será ajustar a delimitar o conceito de “hospital psiquiátrico” e seu papel no sistema de saúde mental, até para que não se confunda com instituições que não merecem este nome. Não podemos continuar a reboque da antipsiquiatria, nem sermos identificados como aliados de alguns empresários inescrupulosos. É hora de corrigir as distorções, reafirmar nossa identidade profissional e realizar juma reforma mais competente e mais psiquiátrica.

Aprovada a lei mais de acordo com a realidade brasileira, os adeptos do fechamento de hospitais  se adonaram do poder dentro do Ministério da Saúde e passaram a dirigir com a lei que não foi aprovada. Foram tempos difíceis e sempre era um prazer encontrar Valentim mostrando as facetas perversas desta conduta.

“O fechamento indiscriminado de 80% dos leitos psiquiátricos nas últimas quatro décadas no Brasil configura grave omissão de socorro”, denuncia o psiquiatra Valentim Gentil Filho, livre-docente e professor titular aposentado de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em entrevista ao Observatório Brasileiro de Informações Sobre Drogas, do Ministério da Cidadania. “Existem estados agudos ou agudizados que não podem ser atendidos em equipamentos ambulatoriais ou comunitários. Exemplos incluem crises de agitação psicomotora, agressividade, confusão mental, risco imediato de suicídio, procedimentos de diagnóstico que demandam observação ou registros prolongados, tratamentos que exigem supervisão constante, necessidades de acolhimento que não possam ser oferecidos em outros locais, estados de intoxicação requerendo cuidados intensivos, quadros fóbico-ansiosos que demandem intervenções intensivas, manifestações psiquiátricas decorrentes de doenças clínicas, entre outros.”

http://mds.gov.br/obid/entrevistas/valentim-gentil

 

“Esse prédio (do Ipq), quando nasceu em 1940, era uma beleza. Mas quando foi entregue, em 1952, estava superado. Tínhamos que entender um novo modelo, pois a medicina já tinha se transformado. Cada um de vocês que trabalhava aqui, cuidou dessa modernização. Foram coisas feitas por todos nós, em cada detalhe. Tenho certeza de que a instituição vai continuar evoluindo e atendendo às necessidades da sociedade. O que eu fiz foi seguir o exemplo do Prof. José Roberto de Albuquerque Fortes (1924-2002), no sentido de preservar a identidade dessa instituição que, em certo momento, quase desapareceu. Tem sido uma viagem maravilhosa e um campo que continua sendo construído porque ainda tem contribuições relevantes a dar à sociedade”, disse o professor Valentim.

 

Na Academia de Medicina de São Paula está publicada uma minibiografia de Valentim Gentil Filho com dados por ele fornecido: Valentim Gentil Filho nasceu em São Paulo, aos 21 de agosto de 1946. É filho de Valentim Gentil e de Rita D’Andréa Gentil. Possui a cidadania brasileira e italiana. É casado com Maria de Lourdes Felix Gentil, psicóloga, e pai de André Felix Gentil, médico, e de Flávia Felix Gentil. Valentim Gentil Filho graduou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em 1970. Fez residência no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP (1971-1973). Foi clinical assistant no Maudsley Hospital (1973-1974) e galgou a condição de Phd2 em psicofarmacologia clínica no Institute of Psychiatry do Kings College, em Londres, Inglaterra, em 1976. Fez carreira universitária no Instituto de Psiquiatria do HC da FMUSP, tornando-se livre-docente em psiquiatria, em 1987; professor associado do Departamento de Farmacologia do ICB-USP3 até 1987, e, atualmente, do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. É professor titular de psiquiatria desde 1994. Dentre outros cargos que ocupou no Instituto de Psiquiatria do HC da FMUSP salientam-se: chefe do Departamento de Psiquiatria (1992-1996 e 2008-2009) e ex- 1 Biografia e foto foram fornecidas pelo autor.

(Academia de Medicina de São Paulo Fundada em sete de março de 1895 www.academiamedicinasaopaulo.org.br presidente do Conselho Diretor (1994-2006), sendo membro titular desse conselho desde então. Valentim Gentil Filho ingressou como membro titular da Academia de Medicina de São Paulo, em 30 de junho de 1992, sendo o primeiro ocupante da cadeira no 15 desse sodalício, cujo patrono é Mário Yahn.)

O psiquiatra Valentim Gentil Filho analisa, brilhantemente, o atual cenário da psiquiatria no Brasil e no mundo. (https://holiste.com.br/noticias-a-depressao-foi-descrita-desde-o-velho-testamento/)

O Roda Viva recebeu, no dia 4 de novembro, o psiquiatra Valentim Gentil Filho, para falar sobre ansiedade, depressão, uso de medicamentos e os avanços e desafios da psiquiatria nos dias de hoje.

O estudioso, que costuma dizer que cérebro humano é “o ápice da perfeição” explica que essa uma máquina quase perfeita também está sujeita a certas avarias.

“Em termos de reestruturação da matéria, de fato a gente não conhece nada mais sofisticado com 100 bilhões de células, e cada uma delas podendo estabelecer mil conexões, usando uma infinidade de substâncias químicas. E cada vez que essas substâncias químicas chegam aos receptores provocam uma cadeia de outras reações químicas, que acaba transformando inclusive a composição do neurônio que receber a reação. Uma estrutura tão sofisticada, ao longo de 80 anos de vida, inevitavelmente está sujeita a intempéries e avarias. Nós nos submetemos a todo tipo de agressão e apesar disso continuamos operacionais. Se fosse uma máquina não resistiria muito”.

Atualmente, cerca de 23 milhões de pessoas sofrem de algum transtorno mental no Brasil, número que corresponde a 12% da população.

O psiquiatra explica que a depressão é o nome dado para algumas síndromes. Segundo ele, a tristeza é apenas uma das manifestações desse transtorno mental. “Basicamente a depressão é uma alteração sistêmica de ineficiência de processamento”.

Valentim ressalta que a depressão foi descrita desde o Velho Testamento, na Bíblia, só que existem muitas síndromes, muitas formas de ver a depressão e algumas conceituações são mais recentes. “Houve uma expansão no conceito de depressão, não ficamos naquelas síndromes clássicas. Nós temos hoje algumas formas de depressão reativa, que passam a ser reconhecidas como formas de depressão sazonais, que não eram bem identificadas e que a gente sabe que existe”.

Segundo o estudioso, teve uma na conceituação de depressão. Essa população pede ajuda e só um terço recebe efetivamente. E o volume é crescente. Com isso cresce também o mercado de antidepressivos. No entanto, o psiquiatra ressalta que a questão maior é: Será que todo mundo precisa ser tratado com medicação? Valentim diz que há casos em que a psicoterapia pode ser muito eficaz. O psiquiatra ressalta ainda que seja preciso pensar também no que pode ser feito como prevenção. “Quais coisas a gente faz que deflagram a depressão? Nós ainda não temos programas de prevenção”.

Valentim diz que a indústria farmacêutica encontrou moléculas diversas capazes de serem mais eficazes nesses diversos casos do que o placebo, que é uma substancia inerte.

“O que temos hoje são 30, 40 moléculas antidepressivas. E é claro, que por razões econômicas, os medicamentos mais recentes têm mais publicidade. O que está acontecendo hoje é que não existe mais perspectiva de lançar novas moléculas nos últimos anos. As linhas de produção estão secas, muito poucas moléculas vão aparecer. No entanto, as já lançadas são mais eficazes do que placebo, alguns funcionam mais em determinadas situações do que em outras”.

Valentim Gentil Filho fez Medicina na Universidade de São Paulo e doutorado no Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres. Professor titular da Faculdade de Medicina da USP, ele é um dos mais influentes profissionais da moderna psiquiatria brasileira.

A bancada de entrevistadores foi formada por Fernanda Bassette (repórter de saúde do jornal O Estado de São Paulo), Ulisses Capozzoli (editor-chefe da Revista Scientific American Brasil), Paulo Saldiva (professor titular da Faculdade de Medicina da USP, especialista em poluição atmosférica), Aureliano Biancarelli (jornalista da área de saúde) e Luciana Saddi (psicanalista, escritora e blogueira da Folha de São Paulo). O programa ainda teve a participação do cartunista Paulo Caruso

Comentário Final

Com a Internet, as Redes Sociais, as publicações online não existe mais segredos, tudo é compartilhado e acessível com um smartphone ou com um computador com acesso à internet. Isto pode ser terrível, pois nem todos podem filtrar o que está divulgado online. É relativamente fácil construir uma boa imagem de uma pessoa, ou só salientar aspectos negativos. Meu objetivo com estas entrevistas em que nem conversei com o entrevistado é montar um quebra cabeça tendo por base as informações online. Um critério base para esta minha tarefa é que não escrevo sobre pessoas que não gosto e admiro. Pensando bem, são raras as pessoas que me desagradam, e isto não me causa sofrimento.

Resolvi escrever sobre Valentim Gentil Filho por ser um admirador do seu trabalho em defesa de uma psiquiatria ética e científica. Ele faz parte de uma geração de pioneiros que foi em busca de formação no exterior e trouxe a modernidade para o nosso meio. Não pensem que foi fácil, surgiu de surpresa num ambiente universitário que tivera a influência de uma liderança incontestada por cerca de 50 anos. Como ele conseguiu furar o sistema é tema lendário, nem cabe lembrar. O fato é que o jovem Valentim foi guindado a titular da mais prestigiosa faculdade de medicina do país e isto teve influência sobre a psiquiatria brasileira. Para alguns, a psicofarmacologia passou a dominar a psiquiatria brasileira, João Romildo Bueno no Rio de Janeiro e Valentim Gentil Filho em São Paulo. O sul psicanalítico sempre recebeu muito bem o jovem professor e por votação de todos os associados o elegeu professor Honorário da Sociedade de Psiquiatria que hoje leva o nome de Associação Psiquiátrica do Rio Grande do Sul. Quem sabe o fato de ser casado com uma psicanalista tenha sido seu salvo conduto para visitar as terras do sul. Ou tudo é fantasia e foi recebido de braços abertos por todos devido aos seus méritos com acadêmico professor. Numa época que saíamos dos grandes hospitais e havia um clamor para fechá-los, tornou-se o defensor de uma psiquiatria moderna, propondo ambulatórios especializados e mostrando que o doente mental era complexo e que precisava receber cuidados específicos. Um doente de ansiedade é diferente de um esquizofrênico, de um alcoolista ou de um portador de TOC e assim por diante. Este trabalho de assistência especializada recebia o contraponto de forças poderosas que se organizavam em Brasília em torno do Ministério da Saúde. Desde o debate sobre o Projeto Delgado em que de início foi apoiado por muitos psiquiatras, se levantou a voz de Valentim mostrando que o que objetivavam era a destruição da psiquiatria e do psiquiatra. Suas posições claras e fundamentadas passaram a receber apoio de muitos psiquiatras e a partir de 2010 surgiu nova liderança dentro da ABP que encampou estas e outras bandeiras. Quem não lembra “Omissão de Socorro” que até resultou em filme em que Valentim com uma lógica precisa desnudava o abandono do doente mental. O crescimento da massa crítica de novos pensadores e novos professores nos diferentes departamentos de psiquiatria foram transformando a psiquiatria brasileira e neste aspecto a atuação de Valentim Gentil Filho foi didática e exemplar. Ele se tornou a figura a ser atacada. Ele se tornou o símbolo da utilização de medicamentos e de novas abordagens em psiquiatria. Presença imprensa escrita, na TV, em podcasts etc. dava uma face à ser odiada pelos chamados reformistas da psiquiatria. Hoje a situação está um pouco mais clara, mas defender ciência e uma psiquiatria científica parecia coisa do demônio, coisa de reacionário. Com a sua aposentadoria da USP, longe de um descanso de um guerreiro, abrem-se novas possibilidades de atuação. Pelas suas demonstrações demonstra uma energia positiva e uma vontade inabalável de continuar trabalhando pela nossa psiquiatria.

Referências:

https://www.polbr.med.br/ano07/wal0707.php Genealogia da Pós-Graduação na USP (2007).

Plataforma Lattes.

 

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