Walmor J. Piccinini

(30.12.1942 – 27.10.2019) fonte Wikipedia

Li hoje na Zero Hora uma nota de falecimento de um famoso dissidente soviético que faz parte de minhas memórias. Escrevi um artigo na Psychiatry Online Brasil em agosto de 2007 sobre os abusos da psiquiatria pelos soviéticos sob o título

Abusos da prática psiquiátrica na URSS e o VI Congresso Mundial de Psiquiatria em Honolulu ((https://www.polbr.med.br/ano07/wal0807.php ))

Nota de Zero Hora

Morre em Cambridge, Inglaterra o dissidente político Vladimir Konstantin Bukovsky. Em 27.10.2019. Dissidente que denunciou abusos psiquiátricos na URSS morre aos 76 anos.

O dissidente soviético Vladimir Bukovsky, que denunciou na década de 1970 os abusos psiquiátricos contra os prisioneiros políticos na URSS, faleceu no domingo em Cambridge (Inglaterra) aos 76 anos, anunciou o Bukovsky Center.

“Vladimir Konstantinovich Bukovsky, apresentado um dia como um ‘herói de magnitude quase lendária no movimento dissidente’ pelo jornal New York Times, morreu vítima de uma parada cardíaca no hospital Addenbrooke de Cambridge, Inglaterra, às 21H46 GMT (18H46 de Brasília). Tinha 76 anos”, escreveu o Bukovsky Center em um comunicado publicado em seu site. O centro, com sede nos Estados Unidos, que divulga a obra do dissidente soviético, informou que Bukovsky tinha problemas de saúde há vários anos.

“Vladimir Bukovsky morreu. Ativista pelos direitos humanos, escritor, cidadão russo, passou 12 anos em campos e hospitais psiquiátricos e metade de sua vida exilado. O governo soviético o chamou de bruto, nós o chamamos heróis e o agradecemos”, escreveu no Twitter a ONG Memorial, principal organização russa de defesa dos direitos humanos. Bukovsky foi o prisioneiro político soviético mais famoso de sua época e um dos primeiros a denunciar a detenção psiquiátrico para os dissidentes na URSS.

Liberado em 1976, depois de passar 12 anos em campos e hospitais psiquiátricos, foi trocado pelo líder do Partido Comunista chileno Luís Corvalán, preso pela ditadura de Augusto Pinochet, e depois enviado para a Grã-Bretanha, onde morava desde então.

Após a queda da União Soviética, Bukovsky colaborou durante algum tempo com as autoridades russas. Depois se afastou da política, porém mais tarde retornou, com uma postura totalmente contrária ao Kremlin. Em 2008 não foi autorizado a disputar a presidência russa porque tinha dupla cidadania, russa e britânica, entre outras razões.

Como a história é longa sugiro que leiam meu artigo de 2007. Dele extraí a parte que nos interessa sobre Bukovsky. Os dados me foram fornecidos por psiquiatras soviéticos presentes no Congresso Mundial e que temiam pela expulsão da URSS da Associação Mundial de Psiquiatria.

 

Laudo N 3. Bukovsky, Vladimir Konstantinovich, nascido em 1942

 

Foi repetidamente examinado no Instituto Serbsky. Entre seus familiares há muitos casos de doença mental. Ele mudou seu caráter aos 12 anos de idade, aproximadamente. Tornou-se autista, língua afiada, era rude com seus professores, desligado dos seus pais. Aos 14 anos começou a ler livros de filosofia, sentia que podia sentir o humor das pessoas por intuição, acertar as idéias de outras pessoas e sentir sua essência. Após sua graduação do nível médio ele entrou na Faculdade de biologia da Universidade de Moscou, mas após o segundo semestre ele saiu, porque os estudos universitários impediam que se dedicasse completamente a sua teoria pessoal. Por volta de 1960, o “sistema” que ele elaborara e pensar por muitos anos estava totalmente concluído. Ele assumiu que tinha criado uma completa série de leis de qualidade. (a lei da summation, espirais complexas, comensurabilidade etc.), que eram, a teoria universal de exposição da interconexões internas da harmonia do indivíduo e da sociedade em todos os períodos do desenvolvimento da espécie humana. Ele raramente se encontrava em seu lar, não tinha interesse na sua família. Entretanto, ele se mostrou muito interessado em pintura abstrata, porque ele entendia que estavam próximas dos seus conceitos. Era indiferente a dinheiro, roupas elegantes e diversão. Novas informações sobre sua teoria ele escrevia em seu grande livro de notas durante a noite e não permitia que ninguém o tocasse. Ele presumia que as regularidades por ele encontradas eram as chaves para a solução de todos os problemas modernos (síntese de proteína, reação termonuclear, etc.) e mudar todos os caminhos da ciência.

Qualquer tentativa de dissuadi-lo ele enfrentava com um sorriso irônico e considerava o julgamento de uma pessoa comum, incapaz de compreender a força das abstrações de Bukovski.

Quando foi examinado por um psiquiatra em 1962 o diagnóstico foi – condição paranóica de natureza esquizofrênica.

Em 1963 ele foi processado, examinado por especialistas e o quadro clínico descrito acima, foi qualificado como um estado de descompensação expressa numa personalidade psicopática. Bukovski foi considerado não responsável e encaminhado a um hospital mental.

No futuro, seu estado mental melhorou.

Em 1967 e 1971 durante repetidos exames psiquiátricos forenses no Instituto Serbsky o comitê de especialistas concluiu que Bukovsky demonstrava sintomas de compensação da condição psicopática e foi considerado responsável.

Os sintomas da sua condição metal eram tais que ficou levantada à questão de um diagnóstico diferencial entre psicopatia e esquizofrenia residual.

  1. Conversação entre E.Fuller Torey e Vladimir Bukovisky publicada em Psychology Today (Ziff-Davis Company) em junho de 1977.

 

Primeiro houve a apresentação dos interlocutores:Vladimir Bukovsky. Em 18 de dezembro de 1976 foi trocado pelo Luis Corvalan, líder comunista Chileno. Essa troca comprovava que a União soviética mantinha prisioneiros políticos.

Após sua liberação em 1976, Bukovisky que havia sido diagnosticado com esquizofrênico na União Soviética, teve um encontro com um grupo de psiquiatras Ingleses que declararam que o mesmo não era esquizofrênico e que era evidentemente sadio.

E.Fuller Torrey, hoje em dia, segundo o Washington Post, é psiquiatra mais famoso da América, lá por 1977 já era destaque.

Após obter seu A. em Religião, na Universidade De Princeton (Magna Cum Laude). Formou-se médico na MacGill University, em Montreal. Enquanto completava sua Residência em Stanford, obteve um M.A. em Antropologia. Praticou medicina na Etiópia durante dois anos, como médico do Peace Corps e, recentemente, trabalhou com médico generalista na Ilha de Pribiloft no Alaska ( Indian Health Service). Trabalhou no South Bronx, num Centro de Saúde. De 1970 a 75 foi assistente especial do Diretor do NIMH.Escreveu The Mind Gene; Wichdoctors and Psychiatrists. The Death of Psychiatry, and Why did you do that? (Após 1977 escreveu mais de 20 livros, os dois mais famosos são: Sobrevivendo à Esquizofrenia (Surviving Schizophrenia : A Manual for Families, Consumers and Providers (5th edition)) e a Praga Invisível (The Invisible Plague: The Rise of Mental Illness from 1750 to the Present

 

A entrevista:

  1. Fuller TORRREY: Como é ser um homem são num asilo de insanos?

Vladimir BUKOVSKY: Bem, eu encontrei muitas pessoas naquele lugar que eram sadias.

TORRREY. Então você era apenas um entre várias pessoas sadias no hospital mental?

BUKOVSKY. Sim, e nós constituímos um tipo de grupo para nos comunicarmos. Com os outros pacientes era impossível à comunicação, pois alguns eram muito doentes. Desse modo, aqueles entre nós, que eram sãos, formavam uma espécie de clube.

TORRREY. Um clube de pessoas sadias num asilo de insanos. Deve ter sido um grupo interessante de pessoas. Como vocês eram tratados, pessoalmente, pelos doutores de lá?

BUKOVSKY. Eu tive sorte naquele hospital.  Não me obrigaram a tomar medicamentos.

TORRREY. Isso era incomum?

BUKOVSKY. Sim, muito. A maioria dos outros dissidentes que lá estavam, eram forçados a tomar medicamentos que os deixavam sonolentos e com dificuldades para pensar.

TORRREY. como você escapou disso?

BUKOVSKY Quando eu fui colocado no hospital, fui encaminhado a um velho psiquiatra. Eu acho que ele andava perto dos 80 anos. Após nossa primeira entrevista ele me disse que me achava bem sadio. Ele pensou que eu tinha fingido ser louco para ir para o hospital e com isso fugir de cumprir uma sentença em prisão ou algo parecido, que eu era um simulador. Tentei explicar que ele tinha entendido tudo errado, mas ele estava convicto da sua conclusão e tentou obter minha alta. Ele foi até a comissão (que determina quando o paciente pode ser liberado) e disse que eu era sadio. Isso deixou a KGB enfurecida, mas eles não sabiam o que fazer com esse velho psiquiatra que não entendia ou não queria entender que se esperava dele que me considerasse louco. De qualquer forma, ele não me dava drogas por me considerar sadio.

Torrrey. Este era o Hospital especializado em Leningrado?

BUKOVSKY Sim, bem no centro de Leningrado, próximo à estação ferroviária.

TORRREY. A Estação Finlândia, por onde Lênin retornou para liderar a Revolução?

BUKOVSKY Sim, eu poderia ouvir os trens à distância, mas havia uma grande indústria que suprimia os ruídos da estação.

TORRREY. Que ironia. Eu fico a imaginar o que Lênin diria se soubesse que a Revolução, eventualmente fizesse que você fosse colocado num hospital mental para não ser ouvido pelo povo. Quantos hospitais mentais iguais a esse que você esteve existiam na época?

BUKOVSKY Pelo menos 12. Eu não tenho certeza de quantos mais existiam.

TORRREY E, quantas pessoas sãs existiam nos asilos de insanos?

BUKOVSKY Mais de 1.000 internos, pelo menos 150 prisioneiros políticos eram perfeitamente normais.

TORRREY Isso significa que, provavelmente existam mais de 2.000 dissidentes políticos em hospitais mentais da União Soviética?

BUKOVSKY Sim,  acho que, tal número seja provável. Nós não sabemos, com certeza, quantos seriam.

TORRREY Alem do psiquiatra que estava encarregado da tua pessoa, com eram os demais psiquiatras? Eles perceberam que você não estava mentalmente doente?

BUKOVSKY Sim, certamente. Eles todos sabiam que nós éramos pessoas sãs. Muitos deles eram bem cínicos. Um deles me disse, certa vez, que o hospital onde nós estávamos era mais parecido com um campo de concentração. É nosso mini Auschwitz, disse ele. Sim, eles sabiam da verdade, muito bem, mas eles não estavam em posição de fazer alguma coisa sobre esse assunto. Eles não tinham, nem o desejo e nem a força de mudar as coisas.

TORRREY Que tipo de psiquiatras eram essas pessoas que trabalhavam num asilo de insanos com pessoas sãs? Porque eles aceitavam o emprego?

BUKOVSKY Eles provavelmente o faziam por dinheiro, ganhavam mais ali do que num hospital mental regular. Eles tinham um pagamento especial por ser um hospital especial.

TORRREY eles eram psiquiatras do Exército?

BUKOVSKY Não exatamente. Eles eram militares, mas não do Exército. Eles trabalham para o Ministério dos Assuntos Internos, que é o ministério responsável pelos hospitais psiquiátricos especiais. Hospitais psiquiátricos comuns, ficavam sob as ordens do Ministério da Saúde. Dessa forma, esses psiquiatras dos hospitais especiais tinham categorias, como capitão, major, e eram promovidos de categoria se fizessem um bom trabalho e não causassem problemas.

TORRREY E fazer um bom trabalho incluía testemunhar que indivíduos como você, que protestava contra a falta de direitos civis, era insano e devia ser mantido em hospital mental?

BUKOVSKY. Exatamente.

TORRREY Quando você entrou pela primeira vez no Hospital Psiquiátrico Especial de Leningrado, por quanto tempo eles disseram que o manteriam lá?

BUKOVSKY Ficou claro, desde o início, que iriam manter-me o quanto quisessem. Foi-me dito que tudo dependeria da minha conduta. Seu reconsiderasse, se eu fosse bonzinho, como saber?

TORRREY Bem comportado?

BUKOVSKY É se eu fosse bem comportado me deixariam sair.

TORRREY Isso soa parecido com o que Victor Fainberg (outro dissidente Soviético) disse quando esteve no mesmo hospital que você. Ele contou que seu psiquiatra lhe disse que sua doença era ser dissidente, e logo que renunciasse às suas opiniões e adotasse as corretas, seria liberado.

BUKOVSKY Sim, é assim que funciona, mas eu jamais reconsideraria ou renunciaria às minhas opiniões.

TORRREY Eles poderiam mantê-lo por 20 ou 30 anos, se eles assim o desejassem, e se você não tivesse tido um velho psiquiatra que não colaborou com eles.

BUKOVSKY Ah sim. Eu sei de alguns que estiveram lá por mais de dez anos. É uma sentença indeterminada.

TORRREY Foi por isso que os oficiais Soviéticos o colocaram num hospital psiquiátrico em vez de uma prisão?

BUKOVSKY esse foi um motivo. Se me colocassem numa prisão, eu teria sido sentenciado para cumprir determinado período e depois seria liberado. Não haveria tanta pressão na minha reconsideração. Certamente, em alguns casos, eles aplicam nova sentença e você terá que cumprir um novo período de pena, após completar a primeira sentença, mas isso é mais difícil de realizar. É muito mais fácil afasta-lo colocando-o num hospital mental.

TORRREY Quais são as outras razões para eles utilizarem  hospitais mentais em vez de prisões?

BUKOVSKY Bem, isso desacredita a pessoa. Especialmente se for uma pessoa de destaque e que fale para o povo, isso vem a ser um grande problema para os líderes soviéticos. Por exemplo, o General Gricorenko, que foi um grande general, discursou contra a invasão da Tchecoslováquia. Isso criou um grande problema. Seria difícil leva-lo aos tribunais, então disseram que estava insano e o mandaram para um hospital mental. Assim o povo não prestaria atenção no que ele dissesse. E as pessoas compreendem que uma pessoa possa ficar mentalmente doente. É mais fácil explicar ao povo comum, o povo nas ruas.

Algumas vezes, eles colocam em hospital mental as pessoas que se expressam contra o regime, mas não há maneira de construir uma acusação contra eles, isso tornaria o julgamento muito difícil.

TORRREY É verdade que os pacientes mentais tem menos direitos que os prisioneiros civis na União Soviética?

BUKOVSKY Sim, absolutamente. Como paciente mental você não tem direito. Qualquer protesto que você faça,  eles dizem que é por causa de você ser doente mental. Qualquer coisa que você diga, vai fazer parte da sua história clínica e depois será utilizado para mantê-lo  internado indefinidamente. Qualquer coisa que você escreva, cartas ou outra coisa, vai para sua pasta e pode ser utilizada contra você. Se você reconsidera, eles dizem que isso prova que você era louco. Se você se recusa a reconsiderar, protesta, eles dizem que isso prova que você é louco. Você é que escolhe o que é melhor.

TORRREY Quando eles o pegaram pela primeira vez em 1963, você acha que eles pretendiam envia-lo para um hospital mental?

BUKOVSKY Não, eu penso que  eles queriam que eu reconsiderasse. Eles queriam que eu me tornasse um traidor e me tornar um informante sobre meus amigos. Eles desejavam certas informações, depois, provavelmente, me deixariam preso por um tempo curto. Fui colocado em confinamento solitário para que mudasse minha mente.

TORRREY Mas você não cooperou com eles, eu imagino.

BUKOVSKY Não, eu me recusei a conversar qualquer coisa com eles.

TORRREY. Isso deve tê-los deixado furiosos?

BUKOVSKY Sim, e depois de tentarem por meses, eles desistiram e me encaminharam para a psiquiatria. Isso foi o fim do meu caso do ponto de vista legal. Depois disso eu me tornei apenas um paciente psiquiátrico

TORRREY Eles o diagnosticaram como esquizofrênico, está correto?

BUKOVSKY Com esquizofrenia do tipo continuado. Mas alguns psiquiatras disseram que o diagnóstico de esquizofrenia estava errado e que, na verdade eu tinha um desenvolvimento paranoide da personalidade. Eles não conseguiam se decidir entre esses dois diagnósticos.

TORRREY Eu estive na União Soviética duas vezes e estou familiarizado de como a esquizofrenia é classificada por lá.  A esquizofrenia do tipo continuado seria a que começa lentamente.

Isso seria especialmente verdadeiro para o tipo lento, sem energia, que se arrasta, nos quais se diz que a pessoa somente tem leves mudanças de personalidade nos seus estágios iniciais.

BUKOVSKY A maioria dos prisioneiros políticos são diagnosticados como esquizofrênicos. Qualquer coisa que façam, qualquer protesto, mesmo uma greve de fome é considerada prova que confirma o diagnóstico.

TORRREY. G.V. Morozov, o chefe do Instituto Serbsky, chegou mesmo a escrever que a argumentatividade é um importante sintoma da esquizofrenia.

BUKOVSKY. Sendo assim, eu imagino que essa seja uma doença bastante comum nos Estados Unidos. Se essa for à definição.

TORRREY. O homem que é o responsável pela classificação da esquizofrenia na União Soviética é o professor Snezhnevsky do Instituto de Psiquiatria de Moscou. Ele é aquele que afirmou que alteração de conduta na adolescência ou mesmo mais cedo, é muitas vezes de uma esquizofrenia inicial, especialmente se existir história de doença mental na família.

BUKOVSKY Eu li alguns trabalhos de Snezhevisky. Ele é um o maior psiquiatra que atua atrás dos panos, que acha que os dissidentes devam ser diagnosticados como doentes mentais e descartados.

TORRREY Você acredita que ele desenvolveu suas teorias da esquizofrenia para acomodar as necessidades do estado, ou que ele foi selecionado porque suas teorias eram convenientes?

BUKOVSKY Provavelmente essa última hipótese, um tipo de seletividade. Sobrevivência da teoria mais conveniente, um modo de dizer. Num estado socialista, supõe-se que seja perfeito e então, por definição não há condições sociais que possam criar verdadeiros dissidentes. Por essa razão, o dissidente deve estar louco. A lógica é bem clara.

TORRREY Algumas pessoas escreveram que a União Soviética tem uma longa história de chamar dissidentes como loucos, e que isso foi utilizado até pelos Czares. Por exemplo o Czar Nicholas chamou o filósofo Chaadev de louco, isso há cem anos atrás, porque Chaadev o desagradou.

BUKOVSKY. Para começar, Chaadev nunca foi colocado num hospital mental. Foi só uma declaração de que ele estava louco.

TORRREY Então, quando começou essa prática, agora generalizada, na União Soviética?

BUKOVSKY Começou sob Stalin. Porém, naquela época existiam apenas dois hospitais mentais para dissidentes, em Leningrado e Kazen. Stalin, não precisava muito. Ele podia destruir as pessoas se assim o desejasse. Em casos que a pessoa fosse proeminente, ele podia utilizar o hospital mental.

TORRREY E o que aconteceu depois de Stalin.

BUKOVSKY É interessante. Havia um velho membro do Partido Comunista, chamado Sergei Pisarev que era membro da Comissão Central do Partido. Ele preparou um relatório que dizia que as acusações contra os médicos judeus, preparada por uma comissão de investigação em 1952 eram infundadas e entregou o relatório para Stalin. Duas semanas depois Pisarev foi colocado num hospital metal e declarado insano. Em 1956, após a morte de Stalin, ele deu um jeito de ser reabilitado. Ele conseguiu até que os psiquiatras reconsiderassem seus diagnósticos e que ele era são. Ele conheceu o chefe do comitê para reabilitação e o persuadiu que uma investigação deveria ser feita sobre o abuso da psiquiatria. Essa  foi a idade dourada, depois da morte de Stalin quando tais coisas foram possíveis. Ele teve sucesso em criar tal comissão. Eles investigaram os dois hospitais e concluíram que houve abuso psiquiátrico e conseguiu que muitas pessoas fossem liberadas.

TORRREY Então isso piorou de  novo?

BUKOVSKY Sim, especialmente sob Krutschev. Depois se tornou prática comum e novos hospitais foram abertos.

TORRREY Então, por volta de 1963, ano em que você foi preso, era comum rotular pessoas sãs como insanas e coloca-las onde ficassem longe das vistas.

BUKOVSKY Sim, eu não fui o único, a única maneira que fui único, foi de poder estar aqui podendo falar sobre o assunto. Existem centenas de dissidentes nos hospitais mentais nesse exato momento em que estamos conversando.

TORRREY. Quando você estava em Perm, no campo de trabalho com Semyon Gluzman, o jovem psiquiatra, que publicamente disse que o General Grigorenko não estava mentalmente doente e por isso foi colocado na prisão, vocês escreveram juntos o “Manual de Psiquiatria para Dissidentes”. Eu o li alguns meses atrás e fiquei profundamente impressionado por ele, impressionado que as pessoas necessitem o manual para se defenderem contra a profissão de minha escolha pessoal. É um documento excelente. Como vocês conseguiram escreve-lo enquanto no campo de trabalho?

BUKOVSKY Nós o colocamos juntando palavras e frases. Nós tínhamos um pequeno simpósio onde nos encontrávamos sob a desculpa de ter um chá. Nos costumávamos sentar quietamente, num círculo, e um de nós que tinha preparado um relatório, o distribuía e, então, nós o discutíamos. Nós começamos a fazer isso porque algumas das pessoas no campo de trabalho necessitavam de auxílio para se defender dos psiquiatras. Mesmo que tivesse sido sentenciados a prisão, quando completavam o tempo, eram levados a um psiquiatra, declarados insanos e encaminhados a um hospital mental. Dessa forma nossas informações tinham um valor bem prático.

TORRREY Como vocês conseguiram leva-lo para fora do campo de trabalho?

BUKOVSKY As pessoas começaram a dizer que o “Manual” seria útil para outros também. Por isso nós tratamos de contrabandeá-lo para fora. Na primeira vez que tentamos, nós falhamos e as autoridades o confiscaram. Na segunda vez, nós tivemos sorte e conseguimos. Tudo tinha que ser feito secretamente.

TORRREY A KGB deve ter ficado furiosa contigo?

BUKOVSKY Mesmo agora, eles continuam a fazer ameaças de começar um novo processo criminal contra Gluzman. Eles estão ameaçando de sentencia-lo por mais anos na prisão. Apenas a agitação dos ocidentais sobre sua situação que tem impedido que isso aconteça.

TORRREY Como os ocidentais podem auxiliar os dissidentes na União soviética? Como podemos auxiliar para que direitos civis básicos sejam observados? Devemos cortar completamente o contato com os profissionais russos?  Devemos evitar congressos em que eles comparecem?

BUKOVSKY Eu me oponho a um completo boicote. Em vez disso, vocês devem realizar um boicote seletivo e manter contato com os bons psiquiatras que lá existem. Por exemplo, você não deve ter nada com Snezhevsky; ele  é um criminosos e você nunca deverá sentar na mesma mesa que ele. Seu Instituto Nacional de Saúde Mental não deve lidar com ele como estão fazendo. Eles apenas estão apoiando um criminoso e tornando-o respeitável.

O que você deve fazer é contatar com os bons psiquiatras Russos, aqueles que não permitirão serem prostituídos. Por exemplo, Professor Melekhov e o Professor Lukomsky, ambos participaram da comissão de 1971 que devia decidir se eu era insano ou não. Ambos agiram com extrema honestidade, mesmo sofrendo pressão óbvia das autoridades Soviéticas. E existem também, jovens psiquiatras que se recusam a abusar de sua profissão. Para confirmar esse fato, quando fui preso em 1965, primeiramente fui levado à enfermaria do Hospital da Cidade de Moscou de número 13. Ali fui examinado por dois jovens psiquiatras, Dr. Arkus e Dumbrovich, e declarado são. A KGB ficou furiosa e fui levado para outro hospital onde também fui considerado são. Ficou difícil para eles me declararem insano quando duas equipes psiquiátricas tinham me declarado são, por isso me mantiveram preso por oito meses.

O que você deve fazer é convidar doutores como Melekhov, Lukomsky, Arkus e Dumbrovich para seus congressos no Ocidente. Publicar seus artigos. Visitar a enfermaria psiquiátrica do Hospital Municipal 13, quando você visitar Moscou. Não corte todos os contatos, apenas corte seletivamente.

TORRREY Isso soa como se devêssemos fazer uma lista negra dos psiquiatras Soviéticos que se comprometeram com o regime e não participar de encontros com eles ou convida-los.

BUKOVSKY. Correto. E no topo da lista você deve colocar Snezhnevisky, Morozov e Lunts, mas existem muitos outros.

TORRREY E nas nossas visitas à União Soviética fazer um esforço de encontrar psiquiatras que não estejam nessa lista negra.

BUKOVSKY Sim. Vocês não vão ter muita ajuda da Intourist, mas isso pode ser feito.

TORRREY Eu sei que os psiquiatras na Inglaterra lhe deram mais apoio que os psiquiatras dos Estados Unidos. Por exemplo, quando você enviou as seis histórias clínicas para o exterior em 1971, foram apenas os psiquiatras ingleses que os avaliaram. O que você sentiu quando ouviu que a Associação Psiquiátrica Mundial, nos seu encontro do México em 1971, ignorou seu pedido? Você ficou desapontado e com raiva?BUKOVSKY Nós somos todos humanos e todos somos objetos de pressão. Na Cidade do México, houve grande pressão para que os psiquiatras nada fizessem. E assim, nada foi feito. Vocês estavam todos com medo de ofender Snezhnevsky. Foi triste sim.

TORRREY Alguns entre nós, incluindo eu mesmo, tem medo que a psiquiatria também pode ser objeto de abuso em larga escala nos Estados Unidos. Como podemos prevenir que isso aconteça por aqui?

BUKOVSKY A melhor maneira de lutar numa guerra, é lutar no território estrangeiro. Você pode prevenir que isso aconteça aqui, lutando contra os abusos da psiquiatria em qualquer lugar.

TORRREY Eu suspeito que em todos os países existam psiquiatras que possam permitir que eles mesmos e sua profissão sejam prostituídos, dependendo das circunstâncias, e que em cada país existam seus Lunts e seus Morozovs prontos para realizar seu trabalho se lhes for concedida à oportunidade.

BUKOVSKY Certamente isso pode acontecer. Veja a França de 1941. Ali estava um país que supostamente amava a liberdade. Você conhece a Revolução Francesa. E veja o que aconteceu, muitas pessoas tropeçavam entre si na sua pressa em colaborar com o inimigo, oferecendo-se para serem usadas.

TORRREY Se não lutarmos contra o abuso da psiquiatria na União Soviética e outros locais, quais serão as conseqüências?

BUKOVSKY Se o abuso começar no seu país, então será muito tarde. Se você tentar lutar depois que começar, eles provavelmente o chamarão de insano e o afastarão.

O mundo dá muitas voltas e o ser humano é muito complexo. Bukovsky que vivia em Cambridge Inglaterra foi processado por possuir grande quantidade de material pornográfico infantil.  A notícia é devastadora. “Um discidente russo acusado de produzir e possuir milhares de fotos indecentes de crianças é muito doente para enfrentar julgamento, segundo decisão do Juiz do caso. Vladimir Bukovsky (75) nega as acusações, mas o Tribunal de Cambridge aceitou as acusações. No segundo dia do julgamento ele foi interrompido devido ao internamento do acusado num hospital com pneumonia. O julgamento nunca mais foi retomado devido as péssimas condições de saúde do acusado.

 

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