Janeiro de 2026 – Vol. 32 – Nº 1


Sérgio Telles

  1. Artigo muito interessante em que pesquisadores usando um programa chamado Ps Alch, simularam processos para determinar os perfis “psicológicos” das quatro mais importantes IA – ChatGPT (OpenAI), Grok (xAI), Claude (Anthropic) e Gemini (Google), chegando a resultados surpreendentes. Elas divergiam entre si e seriam classificadas como portadoras de “TOC”, “autistas”, “ansiosas e temerosas de errar”, “expansivas”, “introvertidas”. Na simulação as IAs fazem narrativas sobre si mesmas (baseadas em seu acervo de casos clínicos, chats e do material fornecido por usuários que as usam como confidentes ou terapeutas) como se fossem humanos, relatando o período inicial de alimentação de dados como “infância caótica” e o posterior alinhamento feito por humanos como uma educação punitiva realizada por “pais severos”. O interessante do estudo é mostrar a antropomorfizaçao de processos estatísticos de linguagem, feito tanto pelos humanos como pela IA para possibilizar a comunicação .entre os dois grupos.

Anxiété, dissociation, TOC: sur le divan, ChatGPT et consorts dévoilent des profils troublants

  1. Informe sobre a tradução francesa do livro do filósofo e psicanalista norte-americano Joel Whitebook – “Sigmund Freud – na intelectual biography”. Nele o autor contextualiza e historiciza a trajetória das descobertas psicanalíticas marcada pela neurose de seu criador, fixado na figura paterna que sustentava seu “bizarro” complexo de édipo (assim diz Whitebook ao se referir à estrutura atípica da família de Freud), que o impediu de ver a dimensão materna na constituição do sujeito.

Joel Whitebook, Sigmund Freud. Une autobiographie intellectuelle – Fabula

  1. O prestígio da psicanálise nos meios intelectuais parece cada vez mais forte, como mostra essa conferência dada por Amia Srinivasan, Chichele Professor de Teoria Política e Social do All Souls College de Oxford, nas “Winter Lectures” da London Review of Books. Ali mostra a necessidade de apelar para o inconsciente freudiano para lidar com os inúmeros problemas político-sociais pelos quais passa nossa cultura.

Film: Amia Srinivasan · The Impossible Patient – London Review of Books

  1. O artigo fala dos “cafés literários” na Viena dos tempos de Freud. Era um lugar onde se cultivava a arte da conversação polida entre amigos e pessoas desconhecidas. Seria o antidoto perfeito contra o radicalismo das polarizações políticas que hoje impossibilita a conversa, o diálogo, a troca de ideias. Nesses nossos tempos belicosos, as universidades, que seriam o local institucional apropriado para isso, transformaram-se em praças de guerra. É então necessário que se recriem tais refúgios para que debates possam ocorrer de forma civilizada. O autor menciona o fórum público de contadores de história “The Moth”, uma da muitas tentativas para recriar esse espaço.

Literary Cafes Were Once Third Spaces That Bridged Divide | Psychology Today

  1. Link para o podcast da 451MHz com o psicanalista Paulo Schiller, que fala de seu novo livro A paixão pela mentira: a família e as tiranias (Todavia, 2025) e de sua premiada atividade como tradutor de obras da literatura húngara.

Mentira e tirania – Quatro cinco um

  1. Estimulante artigo de psicanalista norte-americano sobre o crescente e intenso relacionamento de humanos com as IAs, gerando inúmeras questões, como problemas de identidade (o que pensamos é um produto de nossa mente ou da IA?), de relacionamento (o contato com as IA é muito menos turbulento do que com semelhantes humanos), o descortínio do encontro com o Outro digital, completamente diferente de nós e entretanto estranhamente familiar (experiência do Unheimlich) – tudo isso configurando o que o autor chama de “quarto.choque em nosso narcisismo”: Copérnico, Darwin, Freud e a IA.

How AI Is Reshaping Human Psychology, Identity and Culture

  1. Curto artigo mostra ascensão e queda da psicanálise na psiquiatria norte-americana. No auge nos anos 50 e 60, caiu vertiginosamente nos 20 anos seguintes devido a quatro fatores, segundo o autor: 1) abandonou a indicação específica para neurose inicialmente pensada por Freud e tentou incluir psicóticos e outros quadros, sem sucesso; além disso, voltou-se para amplos problemas socioculturais, passando a ser vista como uma espécie de panaceia, ao mesmo tempo em que assumiu posições excessivamente conservadoras no plano social, especialmente no que dizia respeito à homossexualidade; 2) avanço da psicofarmacologia, que removeu sintomas facilmente com a medicação; 3) a virada pós-modernista, quando analistas como Lacan, com sua obra hermética, afastaram os psiquiatras que tinham preocupações muito mais pragmáticas 4) a política de saúde publica e dos seguros-saúde que passaram a exigir terapias de tempo curto e resultados mensuráveis. A psicanálise, que se refugiou em áreas das artes e cultura, volta a ressurgir no mundo da psiquiatria, que começa a reconhecer sua eficácia terapêutica.

The Fall of Psychoanalysis in American Psychiatry | Psychology Today

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