Março de 2026 – Vol. 32 – Nº 3

Sérgio Telles

  1. O artigo de Christopher L. Schilling, argumenta que significativa parcela da psicologia acadêmica e clínica nos Estados Unidos se afasta de princípios profissionais e científicos, tornando‑se cada vez mais ideologizada. O caso mais emblemático está ligado à radicalização das disputas entre palestinos e judeus em Gaza, que repercutiu diretamente na American Psychological Association, sob a gestão polêmica de Lara Sheehi, acusada de antissemitismo. O texto aponta ainda para a figura de influenciadores digitais, que misturam linguagem terapêutica com analogias políticas, exemplificada na figura de Gabor Maté, que tem quase cinco milhões de seguidores no Instagram. O autor do texto afirma que isso faz com que a psicoterapia abandone o cuidado clínico e se transforme num meio de militância política. Para ele, atualmente na psicologia norte-americana há mais oferta (excesso de profissionais) do que demanda (falta de clientes), o que incentiva nos psicólogos a busca por relevância política como forma de distinção, a adoção de discursos radicais como forma de reforço identitário.

The Derangement of American Psychotherapy – Minding The Campus

  1. “UberTherapy and the Enshittification of our Relational Lives: Part 1”, publicada no “Mad in America”, é uma entrevista muito interessante com a pesquisadora Elizabeth Cotton, que mostra como a lógica da economia de plataformas está modificando — e deteriorando — o trabalho terapêutico e as relações humanas. Cotton argumenta que a digitalização da saúde mental está levando para a psicoterapia o mesmo modelo de negócios que visa antes de tudo a redução de custos através da precarização, padronização extrema, priorização da velocidade em detrimento da profundidade e transformação da relação terapêutica em um produto de consumo, avaliável por “likes” ou “estrelas”. Faz-se terapia como se pega um Uber para se deslocar na cidade.

UberTherapy and the Enshittification of our Relational Lives: Part 1 of our Interview with …

  1. Obituário da psicanalista norte-americana Elise Snyder, falecida aos 91 anos em janeiro desse ano. Seu grande feito foi a fundação em 2001 da instituição China American Psychoanalytic Alliance, que, de forma ousada e pioneira, usou os recursos da internet (tele e videoconferência) para formação e treinamento de profissionais chineses com psicanalistas norte-americanos. Enfrentou muitos obstáculos na China, em função de preconceitos contra a psicanálise e a doença mental, e nos Estados Unidos, pois então não se acreditava ser possível fazer analise on line, opinião completamente descartada depois da pandemia nos anos 2020.

In Memoriam: Elise Snyder, MD, A Legacy of Mentoring to Psychotherapists in China

  1. Interessante entrevista de jornal israelita com Nina Karjnic, psicanalista lacaniana eslovena, que fala sobre as interferências da ideologia política na prática da psicanálise em sua tumultuada região (antiga Iugoslávia), especialmente a partir do colapso do socialismo e a instauração do processo de privatização capitalista que se seguiu. Nesse contexto, faz severas críticas a Slavov Zizek, que a seu ver tomou partido das “privatizações de esquerda”, segundo Karjnic, berço de abusos e corrupções.

Nina Krajnic Interview | Alexandre Gilbert #315 – The Blogs

  1. A Haute Autorité de Santé (HAS), órgão máximo da saúde pública francesa, publicou recentemente (12/02/2026) novas diretrizes classificando a psicanálise como uma abordagem “não recomendada” no tratamento do autismo, por apresentar “nível insuficiente de evidência científica”. Antes, ela era descrita apenas como “não consensual”. Agora, é formalmente relegada a um papel secundário. A decisão provocou protestos, dando prosseguimento a uma polêmica que existe há bastante tempo naquele país.

Autism in France: Psychoanalysis officially ruled out by the High Authority for Health

  1. O artigo mostra que, embora Freud quase não cite Cervantes em sua obra, sua formação intelectual juvenil foi marcada pelo projeto de ler DON QUIJOTE no original, que o motivou a criar a “Academia Española”, uma “sociedade secreta” com seu amigo Eduard Silbestein. Essa leitura teria despertado em Freud o interesse sobre loucura, fantasia, realidade e subjetividade, temas que mais tarde se tornariam centrais na psicanálise.

When Freud met Cervantes – Royal European Academy of Doctors

  1. Entrevista com Juliet Mitchell, feminista e psicanalista, que com seu livro Psychoanalysis and Feminism, publicado em 1974, reverteu a onda antifreudiana que dominava o movimento feminista naquele momento.

Juliet Mitchell, second wave seer – Prospect Magazine

  1. Jó, homem justo e cumpridor das leis, duvida da justiça divina ao sofrer inesperadas desgraças, vistas por seus amigos como merecida punição por seus pecados. Calcado nesse mito, os autores discorrem sobre perda, trauma, luto, raiva e revolta – sentimentos a serem elaborados no espaço terapêutico.

Loss, Trauma, and the Book of Job | Psychology Today

  1. O artigo de Henry Clements, intitulado “God and the Unconscious” e publicado na Los Angeles Review of Books, apresenta o livro “Clouds: Between Paris and Tehran” (2025), de Joan Copjec, que aponta afinidades profundas entre a psicanálise freudiana e a filosofia islâmica.

God and the Unconscious | Los Angeles Review of Books

  1. O artigo mostra que a psicanálise passa no momento por um ressurgimento cultural e intelectual. Até recentemente marginalizada em muitos círculos científicos, ela volta ao centro das discussões por propiciar ferramentas que permitem a compreensão do trauma, da repressão, do medo, da perda e dinâmicas de poder — temas que se intensificam em contextos políticos autoritários e em um mundo transformado pela tecnologia.

Why Sigmund Freud is making a comeback in the age of authoritarianism and AI – MSN

  1. Uma breve e elogiosa resenha do livro “Análise” de Vera Iaconelli.

Do romance familiar à escrita criativa: comentários sobre “Análise”, de Vera Iaconelli

  1. “Incredible Prophecies, Sick Truths”, é o título da resenha publicada na Los Angeles Review of Books do novo livro de Arundhati Roy, “Mother Mary Comes to Me” (2025), de Ankhi Mukherjee. O texto mostra como o mito de Édipo permanece vivo na literatura e na psicanálise, funcionando como um referencial para compreender relações familiares, traumas e processos de subjetivação.

Incredible Prophecies, Sick Truths | Los Angeles Review of Books

  1. Agraciado com o prestigioso Prêmio Gradiva, um novo documentário sobre Freud.

Achievement for a new film: ‘Outsider. Freud’ wins 2025 Gradiva Award – JNS.org

Similar Posts