Março de 2026 – Vol. 32 – Nº 3
Marco Antonio Spinelli
Nas últimas semanas fomos impactados por manchetes envolvendo
adolescentes e violência. Um cachorro conhecido e querido pela comunidade foi
espancado por um grupo de jovens e sacrificado devido à gravidade dos
ferimentos. Em outro episódio, um rapaz agrediu um adolescente que, dias
depois, faleceu em decorrência das lesões. Casos como esses provocam
indignação e mobilizam a opinião pública.
Diante de situações assim, surgem rapidamente hipóteses diagnósticas, muitas
vezes formuladas por comentaristas ou mesmo por profissionais da área da
saúde mental. Fala-se em psicopatia, em transtorno de personalidade antissocial,
em ausência de empatia. É compreensível que a sociedade busque explicações.
No entanto, é importante lembrar que diagnósticos psiquiátricos não podem ser
feitos à distância, com base apenas em relatos da mídia.
Além disso, o diagnóstico formal de Transtorno de Personalidade Antissocial só
pode ser estabelecido após os 18 anos, ainda que padrões graves de conduta
possam ser identificados na adolescência. Rotular precocemente um jovem como
“psicopata” pouco contribui para a compreensão do fenômeno e pode obscurecer
fatores mais amplos envolvidos na gênese da violência.
Isso não significa minimizar a gravidade dos atos ou diluir responsabilidades
individuais. Cada pessoa responde por suas ações. Mas também é necessário
reconhecer que comportamentos violentos não surgem no vazio. Eles se
desenvolvem em contextos familiares, sociais e culturais específicos.
Vivemos em um tempo em que a exposição digital amplifica comportamentos
extremos. A violência deixa de ser apenas um ato e passa a ser também um
espetáculo. A gravação, a circulação de vídeos e a busca por validação em redes
sociais criam circuitos de reconhecimento que podem reforçar condutas
agressivas. A construção de personas baseadas em força, domínio e humilhação
do outro encontra, no ambiente virtual, um público imediato.
Trata-se menos de uma “epidemia de psicopatia” e mais de uma cultura que, em
certos ambientes, normaliza a exibição da crueldade e a banalização do
sofrimento. Grupos que cultivam discursos de ódio e de desumanização
encontram nas redes um terreno fértil para recrutar jovens em busca de
pertencimento e identidade. A lógica do domínio — “posso fazer o que quiser
com o outro” — torna-se um marcador de status em determinados círculos.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer os avanços das últimas décadas no
campo dos direitos humanos e da valorização da diversidade. Toda
transformação social gera reações. Parte da violência atual pode ser
compreendida também como expressão de conflitos culturais e identitários que
atravessam nossa época.
Diante desse cenário, mais do que linchamentos virtuais ou diagnósticos
apressados, o que se impõe é a necessidade de uma educação digital profunda.
Não se trata apenas de controlar tempo de tela, mas de formar consciência ética
no ambiente virtual: ensinar responsabilidade, empatia, respeito à dignidade
humana e às consequências reais dos atos praticados online e offline.
A história nos mostra que sociedades podem se acostumar à desumanização
quando ela se torna cotidiana. Cabe a nós evitar que a indiferença se instale. O
enfrentamento da violência juvenil exige múltiplas frentes: família, escola,
políticas públicas, saúde mental e regulação responsável do ambiente digital.
Não se trata de demonizar uma geração, mas de reconhecer que os jovens são
particularmente sensíveis aos valores e incentivos que lhes oferecemos. Se
quisermos reduzir a violência, precisamos examinar não apenas os indivíduos
que a praticam, mas também os modelos de sucesso, poder e reconhecimento
que nossa cultura vem promovendo.
