Março de 2026 – Vol. 32 – Nº 3
Graziela Stein
Médica Psiquiatra e Conselheira Empresarial em Saúde
Setembro Amarelo é uma campanha fundamental para a conscientização sobre saúde
mental e prevenção do suicídio. Contudo, quando olhamos para o ambiente corporativo,
reduzir o cuidado com a saúde mental apenas a uma palestra, especialmente em setembro, é
um erro comum.
A NR-1 vai muito além desse movimento simbólico: ela estabelece bases legais para que as
empresas assumam certa responsabilidade, de forma contínua, sobre aspectos da saúde
mental de seus trabalhadores.
Da Conscientização à Obrigatoriedade Legal
Enquanto Setembro Amarelo desperta empatia e atenção temporária, a NR-1 exige medidas
práticas e obrigatórias. Ela determina que toda organização implemente um sistema de
gestão e cuidado de saúde mental, incluindo a análise de riscos psicossociais. Assim, não se
trata apenas de sensibilizar, mas de cumprir um dever legal, o que pode proteger vidas e
promover saúde de forma mais sustentável, mas pode também gerar provas negativas
contra a própria empresa, prejudicando a todos se ocorrer de forma mal aplicada.
De Evento Isolado para Política Contínua
Uma única palestra tem valor simbólico, mas a NR-1 estabelece que o cuidado deve ser
permanente. As empresas precisam estruturar planos de ação, monitorar riscos, treinar
líderes e revisar suas práticas continuamente. É uma mudança de paradigma: saúde mental
deixa de ser um tema de ocasião e passa a integrar a rotina organizacional. Algo muito bem
vindo, desde que bem aplicado e com foco em construir uma cultura forte e não contra a
empresa.
Do Simbólico ao Estratégico
Setembro Amarelo traz emoção e consciência social. A NR-1, por sua vez, traduz essa
consciência em exigência e necessidade de estratégia. Quando incorporada à governança e
ao compliance, a saúde mental se torna um fator extremamente positivo, impactando
indicadores como absenteísmo, presenteísmo e turnover. Portanto, cuidar da saúde mental
também é cuidar da sustentabilidade financeira da empresa e de sua reputação (quando
deixa de ser vista como responsável ou causadora dos problemas e se posiciona como aliada
na promoção de saúde).
Do Discurso ao Resultado
Palestras pontuais podem gerar impacto momentâneo, mas raramente entregam resultados
concretos. A NR-1 exige registros, indicadores e avaliações consistentes. Ela transforma
boas intenções em políticas verificáveis e mensuráveis, gerando resultados reais para
empresas e colaboradores, que podem ser tanto positivos quanto negativos, dependerá
como essas avaliações sejam aplicadas e o que será feito posteriormente a partir disso.
Integração Entre Lei e Cultura
O ideal é que as empresas unam o melhor dos dois mundos: usar as exigências do governo
mas com foco em trazer benefícios para as empresas. Ao desenvolver treinamentos e
programas de promoção de saúde mental de modo sustentável e justo, o que começa como
uma norma política se transforma como parte da cultura organizacional e da estratégia
empresarial.
Conclusão
A NR-1 é muito mais do que uma palestra sobre Setembro Amarelo. Ela é a garantia de que a
saúde mental seja tratada como prioridade contínua, com impacto legal, estratégico e
cultural. Ao assumir esse compromisso, as empresas não apenas cumprem a lei, mas
também protegem pessoas, fortalecem sua reputação e garantem sustentabilidade no longo
prazo.
Entretanto, aplicada de forma leviana, ou por pessoas que não entendem de fato sobre
saúde mental e suas peculiaridades, pode agravar os problemas da empresa e do
trabalhador.
Ressalto ainda, o convite para olharmos a saúde mental é transformar a NR-1 em força na
prática da cultura, promovendo ainda mais consciência, combatendo preconceitos e
desenvolvendo uma sociedade mais saudável.
Entretanto, para tal é preciso olhar o indivíduo como um todo e não apenas de forma
isolada no seu ambiente de trabalho.
A NR-1 vai exigir mudanças e certamente, ainda mais Inteligência Emocional e expertise na
gestão de pessoas.
