Janeiro de 2026 – Vol. 32 – Nº 1
Autor:
Humberto Müller Martins dos Santos
Médico Psiquiatra; Mestre em Ciências Aplicadas à Atenção Hospitalar (HUJM/UFMT);
Doutorando em Bioética (FMUP/Portugal)
E-mail: [email protected]
Santa Dimpna (ou Dymphna) é tradicionalmente reconhecida como uma figura histórica e simbólica associada ao cuidado das pessoas em sofrimento psíquico, ocupando lugar singular na interface entre espiritualidade, história da medicina e saúde mental. Sua hagiografia, datada da Alta Idade Média, descreve uma trajetória marcada por violência, martírio e proteção dos vulneráveis, elementos que contribuíram para sua posterior associação com os transtornos mentais. Ao longo dos séculos, o culto a Santa Dimpna esteve particularmente ligado à cidade de Gheel (atual Geel, na Bélgica), onde se desenvolveu um modelo comunitário de acolhimento de pessoas com transtornos mentais, frequentemente citado na literatura como um precursor histórico de abordagens humanizadas no cuidado psiquiátrico (PORTER, 2002; FARMER, 2011). Nesse contexto, a figura de Santa Dimpna ultrapassa o âmbito estritamente religioso, constituindo-se como objeto relevante de análise histórica, ética e cultural acerca das formas pelas quais as sociedades lidaram com a loucura, o sofrimento psíquico e a dignidade humana antes do advento da psiquiatria moderna.
Segundo a tradição hagiográfica medieval, Santa Dimpna teria nascido no século VII, na Irlanda, filha de um rei pagão e de uma rainha cristã de origem nobre e profundamente religiosa. A morte precoce da mãe teria exercido impacto decisivo sobre o equilíbrio emocional do pai, descrito nas fontes como progressivamente instável e profundamente afetado pela perda. Incapaz de elaborar o luto, o rei teria desenvolvido comportamento obsessivo e inadequado em relação à filha, motivado tanto pela semelhança física de Dimpna com a mãe quanto pela recusa da jovem em aceitar imposições incestuosas que contrariavam sua fé e autonomia. Esse contexto de sofrimento, violência e ruptura moral constitui elemento central da narrativa hagiográfica e é frequentemente interpretado por historiadores como uma representação simbólica das relações entre poder, trauma e desordem psíquica na sociedade medieval (BOLLANDUS et al).
Diante da perseguição paterna, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada do sacerdote Geroberno (ou Gerebernus), seu confessor e conselheiro espiritual, além de alguns servos. O grupo teria se estabelecido na região de Gheel, onde Dimpna passou a dedicar-se a práticas de caridade, assistência aos pobres e cuidado dos enfermos, especialmente daqueles considerados “mentalmente perturbados” segundo as concepções da época. A presença de Geroberno reforça a dimensão eclesial da narrativa, evidenciando o papel da Igreja como instância de mediação, proteção e acolhimento frente à violência e ao sofrimento, aspecto recorrente na construção simbólica das santas virgens mártires.
A perseguição, contudo, teria continuado, culminando na localização de Dimpna por seu pai, que ordenou sua execução após a recusa definitiva da jovem em retornar à Irlanda e submeter-se às suas exigências. Geroberno teria sido morto primeiro, seguido do martírio de Dimpna, tradicionalmente descrito como decapitação. A morte violenta de ambos consolidou o culto local e contribuiu para a posterior veneração de Dimpna como mártir cristã. Ao longo dos séculos, sua história passou a ser associada de modo particular ao cuidado dos doentes mentais, não apenas pelo sofrimento psíquico presente em sua narrativa familiar, mas também pela tradição de acolhimento comunitário que se desenvolveu em Gheel, tornando-a figura simbólica relevante na história do cuidado humanizado em saúde mental.
A narrativa hagiográfica de Santa Dimpna revela, de forma implícita, o cenário de profunda desassistência em saúde mental característico da Alta Idade Média. À época, o sofrimento psíquico era compreendido predominantemente sob lentes morais, religiosas ou sobrenaturais, inexistindo estruturas institucionais destinadas à avaliação, ao cuidado ou à proteção de indivíduos acometidos por transtornos mentais graves. O comportamento do pai de Dimpna, descrito como progressivamente desorganizado, obsessivo e violento, ilustra não apenas um quadro compatível com sofrimento psíquico intenso, mas também a absoluta ausência de mecanismos sociais, médicos ou jurídicos capazes de intervir de forma terapêutica ou protetiva. A falta de assistência tanto ao pai quanto à própria Dimpna evidencia um contexto em que a vulnerabilidade psíquica permanecia invisibilizada, culminando em desfechos trágicos que hoje seriam potencialmente evitáveis à luz do conhecimento psiquiátrico contemporâneo.
Embora separados por séculos de avanços científicos e tecnológicos, os paralelos com a realidade atual são inquietantes. Em muitas regiões do mundo — inclusive em sistemas de saúde formalmente estruturados — pessoas com transtornos mentais graves continuam enfrentando barreiras significativas de acesso ao cuidado, caracterizadas pela escassez de leitos psiquiátricos, insuficiência de serviços comunitários, fragmentação da rede assistencial e persistência do estigma. A desinstitucionalização, quando não acompanhada de políticas públicas eficazes e de suporte contínuo, tem contribuído para a marginalização de indivíduos em sofrimento psíquico, frequentemente expostos à violência, ao abandono social e ao agravamento de seus quadros clínicos (OMS, 2022). Nesse sentido, a história de Santa Dimpna adquire relevância ética contemporânea, ao evidenciar que a negligência estrutural no cuidado em saúde mental — ontem como hoje — compromete a dignidade humana e os direitos fundamentais das pessoas acometidas por transtornos mentais.
Sob a perspectiva da bioética contemporânea, a história de Santa Dimpna pode ser reinterpretada como exemplo emblemático da violação de princípios fundamentais que orientam o cuidado em saúde mental. A ausência de assistência adequada ao sofrimento psíquico evidencia a negação prática dos princípios da beneficência e da não maleficência, uma vez que nenhum cuidado terapêutico foi ofertado e o dano acabou por se concretizar em violência extrema. Ademais, a inexistência de estruturas protetivas reflete a negação da autonomia e da dignidade das pessoas acometidas por sofrimento mental, frequentemente reduzidas a objetos de controle familiar, religioso ou político. Embora tais eventos se inscrevam em contexto histórico distinto, eles expõem dilemas éticos universais e persistentes relacionados à responsabilidade coletiva frente à vulnerabilidade psíquica.
Do ponto de vista dos direitos humanos, a persistente desassistência em saúde mental configura afronta ao direito fundamental à saúde, consagrado em documentos internacionais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e reafirmado por diretrizes contemporâneas da Organização Mundial da Saúde. A negligência estrutural, traduzida pela insuficiência de serviços e pela precariedade das políticas públicas, perpetua ciclos de exclusão, sofrimento e violação de direitos básicos. Nesse sentido, Santa Dimpna transcende sua dimensão hagiográfica, tornando-se símbolo ético e histórico da necessidade de um cuidado psiquiátrico que seja simultaneamente técnico, humanizado e orientado pela proteção da dignidade humana.
À luz dessa análise histórica e ética, Santa Dimpna assume relevância que ultrapassa o âmbito estritamente religioso, consolidando-se como marco simbólico na história do cuidado às pessoas em sofrimento psíquico. Sua trajetória, associada à tradição de acolhimento comunitário desenvolvida em Gheel, evidencia uma das primeiras experiências sistematizadas de cuidado humanizado aos doentes mentais. Ao mesmo tempo, a permanência de sua devoção ao longo dos séculos revela o papel social da fé como elemento mobilizador de solidariedade, compaixão e defesa da dignidade humana. Assim, a figura de Santa Dimpna convida à reflexão contemporânea sobre a necessidade de integrar ciência, ética e valores humanísticos na construção de modelos de atenção em saúde mental que reconheçam plenamente a dignidade e os direitos das pessoas acometidas por transtornos mentais.
Referências Bibliográficas
BOLLANDUS, J; et al. – Acta Sanctorum Maii. Bruxelas.
FARMER,D. (2011) – The Oxford Dictionary of Saints. Oxford. Oxford University Press.
PORTER,R. (2002) – Madness: A Brief History. Oxford. Oxford University Press.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. (2022) – World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Geneva.
Comentário Editorial
Comentário Editorial
Santa Dimpna, Violência de Gênero e os Limites Históricos do Cuidado
A figura de Santa Dimpna atravessou os séculos como símbolo de acolhimento aos que sofrem psiquicamente e como inspiração para uma das experiências mais singulares de cuidado comunitário em saúde mental, a tradição de Geel. Contudo, a releitura proposta neste artigo nos convida a ir além da hagiografia e a confrontar o núcleo traumático de sua história: a violência sexual, o abuso de poder patriarcal e o feminicídio.
Dimpna não foi apenas uma santa nem apenas uma mártir. Foi, antes de tudo, uma jovem em fuga de uma situação extrema de coerção sexual exercida pelo próprio pai — figura máxima de autoridade familiar e social em seu contexto histórico. Sua morte por decapitação não pode ser compreendida apenas como perseguição religiosa, mas como a expressão última de uma violência de gênero absoluta, sem instâncias eficazes de contenção ou proteção.
Essa constatação desloca o significado histórico de Dimpna: ela deixa de ser apenas padroeira da loucura para tornar-se também testemunho silencioso da falência das estruturas familiares, jurídicas e sociais diante da violência masculina. O cuidado em saúde mental que simbolicamente nasce de sua memória emerge, assim, não apenas como gesto de caridade, mas como resposta tardia a um fracasso ético anterior.
Ao aproximar essa narrativa do cenário contemporâneo, o artigo toca em uma ferida ainda aberta. Vivemos, em pleno século XXI, uma epidemia de feminicídios. As trajetórias se repetem de forma inquietante: o agressor é íntimo, a ameaça é conhecida, a vítima busca proteção — e as instâncias que deveriam interromper o ciclo de violência frequentemente falham. A diferença fundamental é que hoje não podemos alegar desconhecimento nem ausência de recursos institucionais.
Sob essa perspectiva, o sofrimento psíquico feminino não pode ser reduzido a categorias diagnósticas descontextualizadas. Muitas vezes, ele é a expressão subjetiva de contextos persistentes de dominação, medo e desamparo. A história de Santa Dimpna, relida criticamente, revela que saúde mental e violência de gênero são dimensões inseparáveis de um mesmo problema ético e social.
Este comentário editorial propõe, portanto, que a atualidade de Santa Dimpna resida justamente em seu caráter incômodo. Ela nos obriga a perguntar não apenas como cuidar melhor do sofrimento psíquico, mas como prevenir as violências que o produzem. Quantas Dimpnas modernas continuam a morrer diante de opressores masculinos conhecidos, previsíveis e, ainda assim, não contidos?
Ao trazer essa pergunta para o presente, o artigo cumpre uma função essencial da bioética e das humanidades em saúde: lembrar que o cuidado não começa no tratamento, mas na proteção do vulnerável. E que toda história do cuidado que ignore essa dimensão corre o risco de transformar a memória da vítima em mero consolo simbólico, em vez de alerta moral.
