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Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2013 - Vol.18 - Nº 1

COLUNA PSIQUIATRIA CONTEMPORÂNEA

TRANSE E CULTURA BRASILEIRA. JACQUES MONGRUEL E AS ORIGENS DA PSICOTERAPIA DO TRANSE (TRANSETERAPIA) NO BRASIL

Fernando Portela Câmara, MD, PhD
Prof. Associado da UFRJ


Resumo

O valor terapêutico do transe ritual nos cultos espiritistas foi pela primeira vez observado e estudado por Jacques Mongruel, no Rio de Janeiro, que criou o conceito de transe psicautônomo. Relatamos aqui algumas notas biográficas e suas conclusões sobre a transeterapia ritual. Palavras chaves: transeterapia, transe psicautônomo, cultos espíritistas.

Summary
The therapeutic value of ritual trance in cults spiritualists was first observed and studied by Jacques Mongruel, in Rio de Janeiro, who created the concept of trance psicautonomic. We report here some biographical notes and his conclusions on ritual trancetherapy.
Keywords: transeterapia, trance psicautônomo, spiritualist cults.

 

 

O médico carioca Jacques Mongruel foi o primeiro entre nós a perceber a natureza terapêutica dos transes nos cultos espiritistas praticados no Brasil. Ele dedicou-se a estudar os transes do chamado espiritismo de mesa, pois este movimento tem uma estrutura que favorece o controle e ab-reação pelo transe.

Mongruel foi diretor médico do Hospital Santa Catarina de Alexandria, na cidade do Rio de Janeiro, uma entidade beneficente dedicada ao tratamento do alcoolismo. Ele combinava tratamento medicamentoso e psicoterapia sugestiva, tendo obtido grande sucesso. O paciente ficava internado por cerca de 60 dias e só era liberado quando, ao ser forçado a beber um gole de álcool, expressasse intensa aversão emocional e neurovegetativa. Isso mostra que Mongruel aplicava a terapia aversiva. Os pacientes recebiam tratamento psíquico, social e laborterapia, além do tratamento específico propriamente dito. Por esse hospital passaram desenhistas, pintores, escritores, arquitetos, ao lado de modestos trabalhadores e funcionários públicos, todos tratados do “vício” alcoólico. O sucesso desse tratamento lhe deu uma breve fama, tanto quanto durou o hospital, o que mereceu uma reportagem no jornal A Noite, em 1952.

Seu interesse na recuperação de alcoolistas é bem anterior e provavelmente isso o levou a estudar esses centros espíritas que tinham como parte importante de suas atividades a caridade, especialmente aos doentes mentais e alcoolistas, tendo fundado vários hospitais mantidos pela contribuição dos seguidores. Mongruel não gostava que tratassem os alcoolistas de doentes mentais, e compartilhava a noção de que os tratamentos químicos eram mais danosos para a mente do paciente do que o próprio vício. Ele considerava a reinserção social do paciente, e, sobretudo, o desenvolvimento de sua personalidade e aptidões latentes como base essencial do tratamento, uma convicção que ele formaria anos antes ao estudar os transes dos médiuns espíritas. Estes estudos surgiram de uma curiosidade ao visitar centros espíritas kardecistas levado por um amigo, também médico, que professava o credo espírita e realizava trabalhos num desses centros como clarividente. A mente investigativa de Monguel, que conhecia o hipnotismo e a reflexologia Pavloviana, logo se colocou a observar os fenômenos e anotá-los cuidadosamente.

No I Congresso Interamericano de Medicina, ocorrido no Rio de Janeiro, em 1946, Monguel apresentou uma comunicação onde ele expunha suas observações sobre o fenômeno de transe e possessão praticado ritualmente nas setas animistas brasileiras (Mongruel, 1947). Ele estudou esses transes dentro do contexto psicológico e social dos centros espíritas, seu efeito terapêutico a pessoa do médium e no desenvolvimento da personalidade, formando uma casuística significativa que lhe permitiu chegar a conclusões seguras. O trabalho de Mongruel concentrou-se unicamente nos aspectos psicoterapêuticos e fenomenológicos dos transes mediúnicos, descontextualizando-os dos aspectos doutrinários da religião, os quais têm em si um valor social significativo na regulação da conduta moral dos crentes. 

…perante determinados fatos como a preparação dos médiuns para o “estado de transe”, o meu procedimento foi de investigação psicológica desses comportamentos e não de explicações doutrinarias igualmente respeitável. (Mongruel, 1947)

Transes psicautônomos

Os transes observados em nossa cultura animista, que envolve diferentes orientações doutrinárias e grupos de crença (espiritismo, candomblé, umbanda, xangô, etc.) têm como fenômeno comum o que denominamos em psiquiatria de transe e possessão, uma forma de transe em que a personalidade ordinária é substituída por uma personalidade alternativa, estereotipada, com características tutelares. Mongruel denominava essa forma de transe de “transe psicautônomo de personificação verbal”, ou transes controlados pelo próprio médium. Mongruel relatou sua experiência no Congresso Internacional de Psicoterapia Folclórica, Transes Rituais e Terpsicoretranseterapia, que se realizou no Rio de Janeiro em 1984 (Mongruel, 1987).

Quanto à hipótese que adotei, eu estava consagrando a autonomia (função por leis próprias) do psiquismo humano (cérebro), o que é uma realidade, porque todos os órgãos humanos, sistemas, aparelhos, funcionam “por leis próprias”, ligados entre si pelo sistema nervoso autônomo (SNA) e periférico (SNP), quando estamos acordados (realizando-nos) ou dormindo (recuperando-nos). (Mongruel, 1987)

As observações começaram nas salas onde os médiuns trabalhadores prestavam assistência aos crentes e visitantes, realizando rituais de cura e clarividência em estado de transe. Ele notou que esses médiuns eram pessoas saudáveis, treinadas, cooperativas e benevolentes, que estavam no grupo há muitos anos, e os dirigentes dos centros eram homens e mulheres que condiziam os trabalhos igualmente em transe, em um ambiente de respeito, fé e caridade. Mongruel investigou a origem desses médiuns em nossa cultura:

…parte dos candidatos a médiuns eram sofredores por fatores pessoais ou sociais, encaminhados às “sessões de desenvolvimento”. (Mongruel, 1987)

Essas sessões de desenvolvimento espiritual consistiam no trabalho de preparação dos médiuns, geralmente padecentes para os quais a medicina não encontrava remédio e eram curados de seus problemas nessas “escolas de médiuns”. A teoria espírita que tais sofrimentos não reconhecidos pelos médicos deve-se à uma mediunidade não desenvolvida ou controlada, e a terapia, nesse contexto cultural, consiste em “desenvolver a mediunidade” como realização da missão do médium que é a de fazer alguma forma de caridade às pessoas. Semelhantes idéias observamos também nos cultos afrobrasileiros e indígenas, e parece-nos ser um principio universal no xamanismo.

Observei que os dirigentes eram bem selecionados, crentes devotados, com prática para recuperar emocionais desajustados. (Mongruel, 1987)

Quanto aos candidatos, que ele identificou como emocionais desajustados, observou:

…eram nervosos padecentes, e essa patologia cessava o progressivo autocontrole psíquico. (Mongruel, 1987)

Ele então acompanhou essas sessões de “desenvolvimento espiritual” e relatou suas observações sobre a evolução desses indivíduos de padecentes a médiuns ativos trabalhando para a comunidade atendida pelos centros espíritas respectivos.

Nas sessões rituais, ao falarem ou escreverem em transe, manifestavam equilíbrio emocional, bom senso e criatividade em vários setores culturais. O transe educado revelou-se uma manifestação cerebral natural: é psicautônomo como deduzi. (Mongruel, 1987)

Na sua comunicação em 1946 Mongruel chamou a atenção da comunidade médica internacional para as “escolas de médiuns” como uma experiência coletiva empírica que constituiu a fase pré-científica de uma psicoterapia de distúrbios emocionais. Essa psicoterapia:

…consiste em educar o paciente para o uso normal da psicautonomia, e que equivale a provocar estados semelhantes aos períodos de inspiração dos artistas ou de imaginação criadora dos sábios e inventores. Fato novo, objetivo, e de valor científico, surgiu quando presenciei dois casos em que senhor e senhora (em datas e locais diferentes), instruídos, responsáveis, bruscamente entraram em transe sem intenção, em preparo prévio, com os meios familiares diferentes. Acabaram aderindo a dois centros. Esses casos não são raros. (Mongruel, 1947)

Embora as observações de Mongruel já sejam de 60 anos atrás, continuam atualíssimas tendo sido confirmadas por Akstein (1975) e Câmara (2005) em períodos posteriores. Ele ressaltou que os transes psicautônomos cumpre uma dupla finalidade, a primeira descarregando a tensão emocional:

[as explosões emocionais que surgem no transe externam] causas de conflitos íntimos, depois do que resulta grande alívio aos pacientes. [] [os principais beneficiários dessa terapia seriam] os inadaptados aos choques e torturas da existência, sofredores pela emoção, os quais formam legião interminável. (Mongruel, 1947)

Essas descargas vão gradualmente decrescendo em intensidade e duração, e por fim o paciente recobre o equilíbrio emocional e psicofísico, portanto, um processo dessensibilizador.

A segunda finalidade dos transes psicautônomos consiste em usá-lo para desenvolver a personalidade. O ambiente deve ser propício à livre expressão das pessoas, permitindo que elas assumam o estado de atenção introspectiva em relaxamento, deixando progredir interiormente os estímulos iniciados por fatores morais, estéticos ou intelectuais, falando livremente o que vão pensando e sentindo, se o desejarem, ou escrever, pintar, discursar sem que nada restrinja a sua liberdade de fazer o que desejar ou ficar quieto se isso for o que deseja para o momento. O psicoterapeuta ajudará o indivíduo a elaborar seus conteúdos intelectuais e afetivos. Desse modo o terapia pelo transe psicautônomo é uma psicoterapia ativa, semelhante á hipnossíntese de Conn.

A maioria dos alunos, em certa fase do adestramento, por momentos, sob o império da emoção, pode sentir chegar à consciência uma ideia nova, uma solução desejada, uma intuição elevada (falando, escrevendo, etc.), estados psicológicos estes (psicautônomos) semelhante aos períodos de inspiração dos artistas ou de imaginação criadora dos sábios e inventores. Durante os exercícios o aluno aprende a libertar-se de suas inibições, habituando-se a sondar em si mesmo idéias de que a princípio quase não se julgava capaz. (Mongruel, 1947)   

A atenção introspectiva que Mongruel se refere é a auto-absorção da mente em uma ideia ou situação a resolver. Esta condição foi denominada de monoideísmo por Braid, ao perceber que ato mental era a base de toda indução hipnótica. “A concentração em uma única idéia cria a sua realidade”, poderia ser assim definido o monoideísmo.

A educação da psicautonomia tem por objeto despertar favoráveis processos intelecto-afetivos, bons impulsos desde logo aproveitados na medida possível, no duplo sentido mental e moral, respeitados talentos ou vocações individuais. (Mongruel, 1947)

Vemos assim que Mongruel é um pioneiro não apenas na transeterapia como colocou esta modalidade terapêutica como uma psicoterapia ativa, isto é, onde o terapeuta é apenas um orientador e o paciente faz a sua própria terapia.

Aspectos sociais do transe psicautônomo

A denominação de transe psicautônomo aplica-se não apenas aos transes mediúnicos nas condições descritas por Mongruel, mas também aos transes auto-hipnóticos e certas formas de êxtases artísticos e religiosos, excluindo-se destes últimos aqueles decorrentes de manifestações histéricas como no caso de catalepsias e estigmas. Muitos desses transes são formas de transe e possessão que, no caso dos médiuns, são aqueles transes onde se pratica a escrita automática, a pintura automática, a fala impulsiva, e outras manifestações de estados segundo de Azam.

Jacques Mongruel descreveu e estudou empiricamente os transes rituais praticados de forma controlada em centros espíritas, nas chamadas “escola de médiuns”. Nessas escolas, padecentes nervosos que compartilham a crença espírita ou são encaminhados para as “sessões de cura” desses locais, se forem tidos pelo diretor do centro como médiuns potenciais necessitando de “desenvolver a mediunidade”, passam por sessões de “desenvolvimento” pela prática de transes rituais supervisionados. Esta educação do transe constitui em si mesmo um fator terapêutico, dessensibilizador, pois, baseai-se no progressivo treinamento do autocontrole psíquico.

O candidato melhora seu distúrbio emocional e passa a ter maior controle de si mesmo, o que constitui, por si só, o objetivo de toda psicoterapia (Câmara, 2005). Entretanto, a educação do transe progride para o desenvolvimento de faculdades criativas latentes tais como desenho, pintura, música e letras, imitando a arte de algum suposto artista ou escritor morto. Essa produção de médiuns, aliás, são famosas no Brasil e disputadas. Títulos de livros psicografados constituem o maior volume de vendas no país (as livrarias espíritas não entram nas listas dos jornais), muitas músicas populares do nosso folclore são produto de transes criativos, etc.

Quando essas manifestações ocorrem espontaneamente, tais pessoas, que freqüentemente professam a crença espírita, são convidadas a entrarem para um centro. O transe é o meio mais natural para isso, uma via para desreprimir aptidões latentes e desejadas. A liberação de potenciais criativos resulta de um impulso no desenvolvimento da personalidade, e assim é uma terapia autêntica que leva o indivíduo a um novo estado do ser, o estado real no qual se via impedido e é causa de neuroses.

O autor deste artigo acredita que os centros espíritas e afro-brasileiros poderiam prestar uma assistência muito mais ampla à saúde mental das comunidades em que estão inseridos, se orientados para o seu valor terapêutico auxiliar na saúde mental coletiva. A colaboração de psiquiatras com conhecimento e experiência nas técnicas indutoras de transes e seu controle, em parceria com essas instituições populares, provavelmente reduziria de modo significativo os custos da saúde mental ampliando o acesso da população.

Conclusão

Os transes mediúnicos, sejam as formas estáticas ou trofotrópicas do espiritismo de mesa e possessão pelo espírito santo dos cultos neopentescostais, sejam as formas cinéticas ou ergotrópicas do candomblé, umbanda e outros cultos afro-brasileiros, tem como mola impulsora fixações místicas religiosas. A descarga da tensão emocional reduzindo a estase hipotalâmica possibilita o autocontrole e a remissão de sintomas psiconeuróticos e psicossomáticos. Em outras palavras, o benefício terapêutico dos transes psicautônomos não decorre de elementos místicos religiosos, mas do transe em si mesmo enquanto fenômeno psicofisiológico (Câmara, 2005).

Em um ambiente controlado de um setting terapêutico a ideação mística pode ser substituída por absorção da atenção em certas vivencias ou sensações, atingindo-se um estado de transe psicautônomo orientado para propósitos terapêuticos, autocontrole, desenvolver certos setores da personalidade e o desempenho em tarefas específicas. Técnicas de auto-hipnose individual ou em grupo como o treinamento autógeno de Schultz (Câmara, 2006) e a hipnossíntese de Conn (1956), para citar as conhecidas do autor, são eficazes e estruturadas para a clinica psicoterapêutica, sem compromisso ideológicos ou religiosos.

Referências

Akstein, D. Hipnotismo, eus aspectos médico-legais, morais e religiosos, Rio de Janeiro: Ed. Hypnos, 1975.

Câmara, FP. Psiquiatria popular brasileira: a função reguladora do transe, Psychiatry On-line Brasil, 2005; 10(5), disponível em http://www.polbr.med.br/ano05/mour0505.php   (acessado em 30/12/12)

Câmara FP. Treinamento autógeno simplificado: um método de terapia integral, Psychiatry On-Line Brazil, 11(07), 2006, disponível em http://www.polbr.med.br/ano06/artigo0706.php (acessado em 30/12/2009).

Conn, JH. Hypnosis as a dynamic psychoterapy. Sinai Hospital Journal, 2: 14-32, 1956

Mongruel JL. O “transe” de personificação verbal e a hipótese de “psicautonomia”, Anais do I Congresso Interamericano de Medicina, Rio de Janeiro, 7 a 15 de setembro de 1946, sessão Temas Livres, volume 2, 1947.

Mongruel JL. Transes psicautônomos, Rev. Brasileira de Hipnose, 1987; 8: 60-6.

Reportagem “Beba! É só um trago, por favor”, jornal A Noite, edição de sexta-feira, 12 de dezembro de 1952, p. 8. Disponível em

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=348970_05&pagfis=16125&pesq=&esrc=s   (acessado em 20/12/12)


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