Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Janeiro de 2006 - Vol.11 - Nº 1

Psicanálise em debate

O BICHO COZINHEIRO - Observações sobre o filme "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante" (The cook, the thief, his wife & her lover) de Peter Greenway (1989)

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

O filme "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante", que Peter Greenway realizou em 1989, bem que mereceria um revival nesses dias em que a Haute Cuisine se transformou num fenômeno midiático, dando vez ao aparecimento de uma infinidade de programas de televisão, luxuosas revistas e seções em jornais sobre restaurantes, chefs, receitas de pratos especiais, indicações de vinhos, etc.

Inegavelmente, o atual interesse na Haute Cuisine é um modismo que a coloca como mais um objeto de consumo, no mesmo nível que as grifes de roupas e acessórios. Comer no restaurante de um renomado chef é o equivalente a ter uma bolsa Louis Vuitton, um terno Armani.

Entretanto, essa atual apropriação pelo consumo não anula o reconhecimento da Alta Culinária como parte importante das produções culturais, estruturas que delimitam nosso espaço, discriminando-o da região natural onde se acomodam todos os demais viventes, os outros animais que não os humanos.

Essa discriminação é fundamental, pois compartilhamos com os outros animais a realidade irremovível de um corpo físico, cuja fisiologia impõem os atos de comer e beber, assim como as funções excretórias e sexuais. Nos animais, esses atos são regidos exclusivamente por processos naturais, no homem - o que estabelece a radical diferença - a eles se acrescentam os revestimentos simbólicos criados pela cultura.

Se essa diferença não pode ser negada, tampouco pode ser ignorada a semelhança que persiste entre nós e os animais. Os animais nos obrigam a nos confrontarmos com a realidade concreta de nossos corpos tão próximos dos seus e, mais ainda, em refletirmos sobre nossa origem comum.

A relação entre o mundo animal e o mundo humano é vista dentro de um forte contexto ideológico alimentado milenarmente pela religião. Diz ela que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Conseqüentemente, somos especiais e nada temos a ver com os demais viventes do nosso planeta. A descoberta científica de Darwin, evidenciando a evolução das espécies - como disse Freud - foi um dos três maiores golpes no narcisismo da humanidade. Ao invés de filhos de Deus, somos descendentes de macacos! Uma afirmação que ainda hoje é insuportável para grande parte da humanidade, como se vê agora nos Estados Unidos, onde larga parcela da população luta contra o ensino da teoria darwiniana nas escolas públicas e insiste em manter a explicação fundamentalista da criação divina do universo, atualizando-a com novas roupagens - a chamada teoria do "Intelligent Design".

Que isso ocorra na nação mais rica do mundo é algo assustador. Ao contrário dos paises pobres, com suas populações analfabetas e ignorantes, um país como os Estados Unidos faria supor uma população educada, em plena posse de conhecimentos científicos recebidos em suas instituições de ensino. Que não seja assim, levanta grandes questões ligadas à educação, à forma como o conhecimento é transmitido, ao poder da ideologia e da religião, às características do psiquismo humano, temas - como se vê - excessivamente extensos para serem abordados no momento.

É esse viés ideológico-religioso que nos impõe um afastamento excessivo do mundo animal, como Derrida aponta em alguns escritos como "O animal que logo sou", por mim resenhado nessa coluna num número anterior ( www.polbr.med.br/arquivo/psi0205.htm).

O reconhecimento de nossa proximidade com os animais nos deveria deixar mais solidários com suas vidas, procurando respeitá-las e preservá-las, dado que somos mais poderosos que eles, iluminados com a inteligência que lhes falta. Derrida nos diz que a forma como tratamos a vida animal no momento presente certamente deixará escandalizado o homem do futuro.

Se em momentos anteriores da história os homens caçavam para se alimentar, atualmente ainda precisamos mesmo assassinar os animais para sobrevivermos? - pergunta Derrida. Matamos os animais porque efetivamente deles precisamos como suporte nutritivo para nossa sobrevivência, ou os matamos por não tolerarmos ver a semelhança que existe entre eles e nós, percepção que abala nossas crenças religiosas num Deus Pai todo poderoso? Matamo-los por rejeitarmos nossa corporeidade, especialmente por rejeitarmos nossa sexualidade? Ou o assassinato deles é o correlato da nossa própria violência e destrutividade humanas, que - ao serem exercidas -curiosamente são denominadas de animalescas ou bestiais, quando na verdade são efetivamente humanas, dado que os animais nunca exercem tal tipo de conduta? Matamos os animais da mesma forma que matamos outros homens, enxergando neles aquilo que nos é intolerável em nós mesmos, extravasando sobre eles nossa pulsão de morte?

Essas candentes questões têm inúmeros desdobramentos éticos e, se levadas às últimas conseqüências, implicariam, entre outras coisas, numa reavaliação profunda de nossos milenares hábitos alimentares. Assim, se o ato de comer nos aproxima dos animais, também deles nos distancia pelo revestimento simbólico com o qual o envolvemos. Ao invés de matarmos a presa e a devorarmos crua como os animais, a cultura estabelece uma série de regras e normais para a matança dos animais e a forma de cozinhá-los e comê-los. É por isso que a Haute Cuisine se constitui uma importante expressão cultural.

Com Freud, a questão do funcionamento fisiológico do corpo adquire uma dimensão psíquica e inconsciente. As funções alimentícias, excretórias e sexuais e seus órgãos específicos - a boca, o ânus, a vagina e o pênis - adquirem uma outra conotação. Serão entendidos como o substrato orgânico de complexos processos psíquicos consciente e, especialmente, inconscientes. Boca, ânus, vagina e pênis passam a ser "zonas erógenas", privilegiadas regiões de do corpo das quais parte a "pulsão" em busca de sua satisfação num "objeto" específico. Desta forma se estabelecem as "fases de evolução da libido (pulsão)" - oral, anal, fálica e genital -, com seus respectivos objetos e formas especificas de relação.

As relações entre o corpo e o psiquismo descritos dessa forma padecem de um certo biologismo que é contrabalançado quando lembramos que as "zonas erógenas" são também áreas do corpo onde se dão as trocas entre o interno e o externo, entre o sujeito e o outro. Dessa maneira, as "fases de evolução da libido" perdem o automatismo maturacional característico dos processos orgânicos e fisiológicos, desde que são inteiramente mediatizadas pelo desejo do outro. Dizendo de outra forma, as diversas fases instalam-se ou não, evoluem ou regridem em função da relação da criança com o adulto que exerce a função materna.

A primeira comida, o leite materno, estabelece a ligação primária do bebê com o seio da mãe. As fantasias inconscientes próprias destes momentos que configuram a fase oral são coloridas pelos afetos de amor e ódio. Se predominam os afetos amorosos, a relação com a mãe é vivida como uma incorporação que reestabelece a fusão desejada com o objeto amado. Se prevalecem os afetos de ódio, a relação com a mãe é vivida de forma terrorífica, canibalística. A criança fantasia devorar a mãe ou ser por ela devorada.

A oralidade é o modelo dos processos psíquicos de incorporação, introjeção, identificação. Ela predomina, evidentemente, nos momentos mais arcaicos da vida psíquica, aqueles referentes à relação de exclusividade com a mãe. Mas também está presente posteriormente, como no banquete totêmico, descrito por Freud como o protótipo da introjeção da figura do pai.

De alguma forma, todos esses temas estão presentes em "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante", de Greenway.

Ali vemos o mafioso Spica se apossar, através da intimidação violenta, do refinado restaurante francês que costumava freqüentar - o La Hollandaise, regido pelo chef Richard. Spica quer-se fazer passar por cavalheiro sofisticado, mas faz exibições de uma brutalidade "animal", "bestial" - entenda-se estritamente humana - que tem por alvo, muitas vezes, sua mulher Georgina.

Entre os comensais do restaurante está Michael, suposto ginecologista proprietário de um depósito de livros, que chama a atenção de Georgina pelo contraste que estabelece com Spica. Distante do alarido incessante e ameaçador instalado por Spica, Michael está em silêncio, a ler calmamente um livro.

Georgina e Michael iniciam um caso amoroso no próprio restaurante, acobertados pelo chef Richard.

O texto completo deste artigo está no livro "O psicanalista vai ao cinema II", da Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2008.


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