Volume 22 - Novembro de 2017
Editor: Giovanni Torello

 

Julho de 2001 - Vol.6 - Nº 7

Artigo do mês

O Trabalho Terapêutico

Pedro Paulo Rocha*

"O trabalho afasta de nós três grandes males:
o tédio, o vício e a necessidade."

Angela era ainda bem nova, quando foi levada a algumas clínicas ou escolinhas. Logo descobrimos que existe todo um sistema sutil, ávido e ganancioso, montado visando a exploração inescrupulosa da deficiência como meio de faturar às custas do sofrimento. São os leiloeiros da miséria alheia. O fato de essas crianças serem indefesas, não poderem falar ou reclamar, propicia sobremodo o embuste, a que todos somos sujeitos, na ávida e gananciosa sociedade moderna.

Numa das clínicas, Angela tinha 3 horas diárias de trabalho, à tarde: fonoaudiologia, a.v.d. e psicomotricidade. Numa dessas tardes, Sonia ficou livre às 15 horas e pensou: porque ir para casa, se logo terei que voltar para buscá-la? Comprou uma revista e estacionou o carro quase em frente à clínica, onde ficou lendo. Pouco depois observa que a terapeuta chega à janela, em companhia de Angela. Passa-se o tempo, e a situação não muda. A terapeuta fuma cigarro após cigarro, enquanto Angela olha para o nada. Estranha terapia, que se prolongou por 45 minutos. Como seria o restante?

Durante as nossas reuniões, ouve-se casos. Fernando tem 8 anos e sua mãe o leva diariamente para ser atendido pela psicóloga. O pai é empresário, e não regateia o alto preço. Um dia, no impedimento da mãe, é ele quem o leva. A criança entra para o consultório, e a porta se fecha. Algum tempo depois Francisco Bernardes fica sem cigarros e resolve sair para comprá-los. Decide, porém, avisar a terapeuta. Abre a porta, que estava destrancada, e se depara com um estranha cena: a psicóloga tranqüilamente almoça, enquanto a criança observa, sentada num sofá. Terapia?

Um outro problema com que nos defrontamos é a crença, predominante em nossa cultura, na causa psicológica das doenças mentais. Em consequência a orientação dos trabalhos terapêuticos é bastante marcada pela influência da psicanálise. Reportemo-nos aos trabalhos de Levitt: "conclusão inevitável é que os estudos de avaliação disponíveis não fornecem base razoável para a hipótese de que a psicoterapia facilite a recuperação de doenças emocionais em crianças."

Outra não poderia ser a interpretação da psicóloga Janet Brown, do Centro Putman para crianças, em Boston, que adotava a linha psicanalítica, no qual compara resultados de psicoterapia: "É algo surpreendente que não existam diferenças significativas entre grupos, sejam quais forem as variáveis consideradas - a idade das crianças, o tempo de tratamento, a experiência dos terapeutas, o trabalho da mãe, o tratamento do pai - nada faz diferença".

O Autista é um ser isolado, que vive no seu mundo interior, tem dificuldades de se comunicar. Existe, indubitavelmente, uma falha no sistema cognitivo destas crianças, que faz com que o cérebro não tome conhecimento perfeito do que os seus órgãos do sentido captam. O primeiro passo é desenvolver este sistema cognitivo, estabelecer um canal de comunicação, abrir um elo entre o seu universo fechado e o exterior.

As chances de uma criança autista estabelecer uma boa comunicação com o mundo exterior dependem diretamente da idade em que é feito o diagnóstico e se inicie o trabalho, e da habilidade e dedicação do terapeuta. A intervenção deve ser precoce, pois hoje é sabido que o cérebro é particularmente maleável à aquisição de aptidões de comunicação durante os primeiros anos de vida. É entre um e cinco anos que o sistema cognitivo, com sua rede de neurônios cerebrais, se desenvolve mais aceleradamente. A comunicação deve se iniciar com imagens, gestos, sinais, palavras e bastante explorado o contato físico, que recebe muita ênfase na terapia do abraço (holding therapy).

Existem grandes polêmicas sobre as diversas opções terapêuticas para o autismo. É natural que as famílias e os terapeutas procurem a abordagem que lhes pareça mais promissora, ao sabor de suas inclinações, crenças ou interesses pessoais. Porém, diante de um problema tão angustiante, é necessário que aqueles que estão envolvidos com crianças autistas não se deixem impressionar por soluções milagrosas ou estapafúrdias e procurem encontrar uma solução de compromisso entre a desconfiança excessiva e a aceitação passiva, na busca de uma abordagem adequada. Tarefa que não é fácil, uma vez que muitas das opções não estão descritas ou avaliadas convenientemente na literatura disponível e existem muitas controvérsias a respeito. Situação que é bastante complicada pelo desespero dos pais, na busca de uma cura miraculosa.

Até o presente momento, nenhum das propostas terapêuticas existentes provou ser capaz de curar o autismo, um distúrbio intrigante que continua a desafiar a ciência médica. Mas tem sido possível uma considerável redução da sintomatologia e uma melhora no comportamento, facilitando a vida da família e a integração dos pacientes na sociedade. É fundamental que a abordagem não fique limitada a apenas um único processo terapêutico, mas que sejam usados diversos recursos alternativos, de forma complementar.

A Terapia Pedagógica ou educativa deve ser encarada como uma primeira opção. Uma série de avaliações práticas evidenciaram que as crianças autistas não conseguem estruturar o mundo de uma forma adequada, e daí ser necessário lhes transmitir essa estruturação por pequenas etapas, num quadro de um programa educativo compensatório, que poderíamos designar de psicopedagogia interdisciplinar. Os únicos questionamentos se limitam, de um modo geral, às divergências nas técnicas e na aplicação.

A abordagem pedagógica depende muito do pragmatismo, espírito de criatividade, experiência e bom senso do educador, e deve ser complementada com o auxílio de recursos diversos como imagens, desenhos, pinturas, música, jogos, brinquedos especiais, atividades artísticas, manipulação com massas e, ultimamente, até trabalhos com computador. O importante é estimular a criança, dar-lhe atividades, tanto físicas quanto mentais, e não deixa-la se isolar e se afundar nas estereotipias, que acabarão por domina-la, atrofiando ainda mais o seu sistema cognitivo, caso não haja uma estimulação permanente. As principais técnicas educacionais são o condicionamento ou terapia comportamental, e o método TEACCH, que vem se expandindo com relativo sucesso, nestas últimas décadas.

Uma segunda alternativa, que tem muitos defensores, é a dos suplementos nutricionais. Há anos, que adeptos da medicina ortomolecular os vêm prescrevendo, com especial ênfase nas vitaminas, como um meio poderoso de manter e recompor a saúde. O uso de vitaminas, porém, deve ser controlado porque existe o risco de intoxicação com doses muito elevadas de certas vitaminas.

Para o caso específico de autismo, tem sido muito apregoada, pelo Dr. Rimland, do Instituto de Pesquisa de Autismo (USA) a Nuthera e o DMG. A Nuthera é um complexo vitamínico, com base em altas doses de vitamina B-6 e Magnésio. Seu uso deve ser considerado e não há razão para ser evitá-lo, uma vez que a vitamina B6 está relacionada com a formação dos neurotransmissores. Os pais devem procurar, experimentalmente, a melhor dosagem, através de tentativas. É interessante recorrer a um avaliador "cego", como tal um terapeuta que tenha contato com a criança mas não tenha conhecimento da administração da fórmula, para conseguir uma avaliação descompromissada e sem influências.

Na prática, se constatou que os pais não se mostraram muito persistentes na aplicação da Nuthera. Mas a Mega Vitamina, como também é conhecida, apresentou excelentes resultados na redução da hiperatividade e dos problemas de sono de Angela. Contudo, em muitas outras crianças, que também a ela recorreram, não se notou nenhum efeito apreciável.

Com o DMG (dimetilglicina), os resultados foram ainda menos encorajadores, embora relatórios do Instituto de Pesquisa de Autismo divulguem relatórios entusiasmados. Porém inexistem estudos comprobatórios e, como resposta de correspondência dirigida aos fabricantes, indagando sobre dados da aplicação na terapia do autismo, recebemos apenas listas de preço e anúncio de outros preparados.

A medicação é um outro recurso, frequentemente usado. Sem dúvida, é necessária para colocar alguns paciente sob controle, diante de alguns sintomas mais graves, principalmente em casos de agressividade ou convulsões. Porém acredito que existe uma tendência a abusar de certas drogas neurolépticas, cujos efeitos colaterais sempre são terríveis e nunca contribuem para uma melhoria efetiva, além de poderem provocar dependência. O efeito pode ser contraditório e até paradoxal, variando de paciente para paciente, pois nem todos respondem da mesma forma. É um recurso muito usado em clínicas ou internatos, para que o paciente não dê muito trabalho. As drogas apenas dopam o paciente e o tornam mais controlável, enquanto perdura o seu efeito. Na minha opinião e como resultado da minha experiência, deve-se evitar o seu uso pois os efeitos colaterais são desastrosos. Muitas destas drogas provocam, de imediato, uma amenorreia, que pode se prolongar por vários meses, após a suspensão do medicamento. Desencadeia, portanto, um distúrbio hormonal. Um dos medicamentos recomendados por Temple Gradin, uma autista de alto nível intelectual, portadora de Síndrome de Asperger, é o Tofranil, indicado para alguns casos de depressão e agressividade. Reporta ela que aliviava a sua tensão. Contudo, sua bula já assusta, pois revela que provoca baixa plaquetária no sangue, sonolência, fadiga, inquietação, confusão, delírios, desorientação, alucinações, ansiedade, agitação, vertigens, sedação, etc. Este medicamento foi aplicado em Angela, a nossa revelia, sob prescrição de um neurologista. A consequência foi ela, depois de alguns meses, sofrer reações tão violentas e graves que exigiu internação num CTI. Convém, portanto, ter toda a cautela, na administração de quaisquer destas drogas e usá-las, se necessário, em doses mínimas.

Um medicamento que tem sido muito apregoado, para reduzir a auto-agressividade e o isolamento é o Naltrexone (Anne Walters - Journal of Autism nº 2 Vol. 20), que bloqueia os opiáceos que são produzidos pelo organismo. Há diversas teorias sobre a participação dos níveis inadequados de opiáceos, no autismo.

A cada dia surgem novas descoberta. A mais recente, publicada no Brown University Child and Adolescent Psychopharmacology Update em setembro de 1999, relata que Famotidine, um pepcídio usado para tratar úlceras pépticas, provocou melhoras em pacientes autistas. Um estudo da Dra. Linda A. Linday, em nove pacientes autistas entre 4 e 9 anos, apresentado no Encontro anual da Associação Americana de Psiquiatria, revelou que quatro dos jovens (44%) apresentaram melhoras com este tratamento. Uma amostragem muito reduzida, para permitir conclusões seguras.

Ultimamente surgiram também muitas expectativas com o uso de Secretin, um hormônio polipeptídio, envolvido no controle da função gástrica. Segundo os proponentes da teoria do autismo como decorrência de excesso de opiáceos no cérebro, o Secretin provocaria reações que neutralizariam este efeito.

Uma outra forma proposta para diminuir os problemas potenciais causados por estes peptídeos prejudiciais, seria a dieta. A intervenção dietética tem sido muito recomendada, ultimamente, não só para autistas mas, de um modo geral, para todos, independente de idade e situação. Diversos estudos realizados têm demonstrado a estreita relação entre a alimentação e a saúde. Do que tem resultado uma verdadeira corrida aos ditos "alimentos naturais" e sem agrotóxicos.

Atualmente ninguém ignora que alimentos ricos em gorduras saturadas é responsável, em grande parte, por males cardíacos e coronarianos. E quanto ao cérebro? Muitas pessoas são alérgicas a determinados tipos de alimentos, que poderiam afetá-las, mentalmente. Isto é indiscutível em pacientes com fenilcetonúria, um distúrbio metabólico diante do qual uma dieta adequada, desde tenra idade, possibilita evitar a instalação de distúrbios mentais. Conservantes, empregados em alimentos industrializados, têm sido apontados como responsáveis pela hiperatividade. Um dos alimentos que tem sido muito criticado é o leite de vaca, cujo consumo é condenado por diversos nutricionistas. Existem diversos estudos sobre a intolerância a vários alimentos e produtos químicos, que são apontados, em muitos casos, como responsáveis por provocar ou agravar distúrbios de comportamento.

De um lado existe o forte efeito da propaganda que, na busca de lucro fácil, sempre atropelando as boas intenções, nos pressiona a consumir alimentos inadequados ou até prejudiciais. Do outro lado, tem surgido, nestes últimos anos, uma forte reação da sociedade, que resultou na criação de diversas organizações mundiais dedicadas a discutir este tipo problema. Destas poderíamos citar, nos EUA, a Feingold Association, a Analytic Research Labs (Phoenix), e a Practical Allergy Research Foundation (Buffalo). Todas elas dispõem de considerável literatura sobre os desequilíbrios nutricionais, porém nenhum relativo ao autismo.

A Integração Sensorial é um recurso que tem sido bem aceito e considerado como extremamente útil em alguns casos, como uma terapia complementar, uma vez que o autista, de uma forma geral, apresenta uma reação sensorial bastante anômala. Embora inexistam regras fixas para se realizar essa tarefa, pois cada criança responderá de forma individual, são bem conhecidas técnicas de abordagem que produzem resultados, como as indicadas por Tansley no seu livro Treinamento e Percepção. Segundo seu trabalho, direcionado para a criança deficiente, é importante o desenvolvimento do esquema corporal, em que a criança deve tomar consciência tátil e visual do seu corpo. Devem ser feitos exercícios visando estimular o tato e os demais órgãos do sentido. Temple Gradin defende a sua aplicação e até desenvolveu uma máquina que denominou "Squeeze Machine", como uma forma mecânica de estimulação tátil, que descreveu em seus trabalhos.

A Terapia do Abraço (holding therapy) é realizada envolvendo o paciente em abraços forçados que, teoricamente, passariam pelas fases de aceitar, resistir e aquiescer. O objetivo é forçar um contato corporal até torná-lo aceitável, de forma a vencer a tendência natural do autista ao isolamento. A Sra. Gerlach, autora do Autism Treatment Guide, supõe que a "holding therapy" possa representar uma versão um tanto exagerada da Integração Sensorial. Este é um recurso que pode apresentar alguns benefícios e para o qual não existe nenhuma restrição, sob o ponto de vista terapêutico. Muito ao contrário, pesquisas atuais demonstram que o contato físico entre o bebê e sua mãe, pode ter efeitos profundos, não só psicológicos mas principalmente fisiológicos. A Dra. Tiffany M. Field, pediatra e psiquiatra da Universidade de Medicina de Miami verificou que bebês que recebem 3 ou mais períodos de 15 minutos diários de contatos e carícias, inclusive crescem mais dos que os que não recebem. Estudos feitos com ratinhos mostraram que as taxas hormonais ficam abaixo do normal, quando eles são afastados de suas mães.

A terapia do abraço, aliás, tem sido usada, pelos psicanalistas, como um pretexto para justificar a teoria psicogênica, da qual muitos deles não desistem. Alegam, tentando explicar a mecânica deste processo, que o relacionamento com a criança autista não se estabelece devido à reciprocidade social, pois ela se isolaria num processo defensivo diante da constatação de ser rejeitada. Esta é uma mera especulação que não deve ser considerada.

Um outro caminho que deve ser olhado com respeito, embora mais indicado para crianças com problemas motores, é o indicado por Doman e trazido para o Brasil pelo Dr. Veras, já falecido, e aplicado na Clínica N.Sra. da Glória, no Rio.

Não deve ser esquecida a importância das atividades físicas, na nossa saúde física e mental. O efeito dos exercícios sobre o corpo e a mente são conhecidos desde a antiguidade, sob o lema "Mens Sana in Corpore Sano". Pesquisas realizadas com pessoas autistas mostraram que vigorosos exercícios físicos podem diminuir as estereotipias e comportamentos perturbados (McGimsey & Favell, 1988; Walters & Walters, 1980).São altamente recomendáveis caminhadas, jogos e, principalmente, natação pois a criança autista tem uma enorme atração pela água. Muitos estudos já demonstraram que a atividade física reduz a depressão e a ansiedade, acalma e relaxa. É sabido que estimula o metabolismo orgânico e mental de todos, sejam normais ou deficientes. Em especial, reduzem as estereotipias e retiram o autista do seu isolamento num mundo a parte, obrigando-o a prestar atenção no que está fazendo. Este princípio, criado e desenvolvido pela Dra. Kitahara foi, aliás, adotado com bastante sucesso pela Escola Higashi, no Japão, tão famosa pelos excelentes resultados obtidos, que muitas famílias americanas levarem seus filhos para lá. É interessante se observar que a Dra. Kitahara era advogada, e não uma especialista da área.

Como recursos terapêuticos complementares de grande importância, não poderia deixar de citar a musicoterapia. A música, cujo efeito sobre a mente é inegável, e é muito empregada em técnicas de relaxamento, apresenta a vantagem de ser muito apreciada pelos autistas. É importante citar que se conhece alguns casos de pacientes desta síndrome que revelaram uma surpreendente aptidão musical, e aprenderam até mesmo a tocar piano sem nunca terem recebido aulas. Um destes casos, bastante documentado, é de um jovem que não se comunica, mas é capaz de reproduzir qualquer música que ouça uma única vez. Ninguém conseguiu encontrar uma explicação para tal feito.

É muito importante destacar que o trabalho terapêutico não deve ser feito em regime ambulatorial, como muitos insistem, porque exige uma equipe multidisciplinar integrada e atuante, que estimule a criança de uma forma intensa e continuada, durante várias horas por dia. É indispensável que o ambiente seja bastante organizado e bem estruturado. O ideal é que se disponha de amplas áreas verdes e seja proporcionado o contato com pequenos animais. Um cão de pequeno tamanho, de uma raça brincalhona como o poodle, por exemplo, e que seja criado com a criança para poder aceitá-la, contribui muito para tirar a criança do seu isolamento.

Finalmente é, ainda, oportuno observar que existe a crença, infundada, de que a institucionalização do jovem, num regime de internato, apresenta resultados desfavoráveis, devido ao afastamento do aconchego materno. No "Hilda Lewis House", em Camberwell, perto de Londres, as crianças só são recebidas sob a condição de os pais aceitarem ser integrados nos programas de treinamento. Segundo eles, o objetivo principal é assumir temporariamente a criança, enquanto os pais não conseguem fazer face à crise de comportamento.

Este é, contudo, um conceito de origem psicanalítica e bastante controverso. Algumas mães conseguem enfrentar o problema com bastante desenvoltura. Nestes casos a participação dos pais é de extrema importância. Porém, nem sempre a mãe tem estrutura para enfrentar tal situação. Sonia, por exemplo, entrava em depressão e desespero, sem conseguir dar uma contribuição positiva para o trabalho terapêutico. Em alguns casos, a criança autista tem um comportamento tão comprometido que, se a mãe não for muito forte, psiquicamente falando, isto pode provocar uma completa desestruturação familiar, como prejuízos globais para todos. Nesta situação é altamente recomendável o internamento em uma clínica especializada. Esta solução é preconizada pela Dra. Kitahara, da Escola Higashi. Segundo ela, a presença permanente de uma criança altamente perturbada, no seio da família, provoca uma total desestruturação e prejudica, em especial, seus irmãos. A minha experiência me leva a concordar com ela.

É preciso considerar, também, que muitas mães se deixam dominar, compreensivelmente, por um sentimento de superproteção e até interferem na terapia, prejudicando o trabalho terapêutico dos profissionais, agravando a problemática. Esta atitude, aliás, não se aplica somente aos casos de crianças com distúrbios de comportamento. Muitas mães estragam seus filhos, mesmo quando eles são normais. Toda criança precisa de limites, seja normal ou não. Quando a mãe não se conscientiza desta necessidade, ela mais atrapalha do que ajuda.

Nós não tínhamos, então, nenhuma experiência e muito do que fizemos foi tateando no escuro ou pela casualidade. Não é difícil descobrir que a socialização é extremamente importante. Ensinar o autista a conviver e brincar com outras crianças é uma contribuição de enorme valia. Aliás é de se notar que ninguém se entende melhor com uma criança, do que outra criança. Mas esta convivência, esta participação na sociedade, se defronta com uma enorme barreira. A barreira do preconceito e da discriminação, que precisa ser vencida.

Como se pode imaginar, é todo um trabalho complexo, difícil, de resultados lentos e bastante caro, o que pode tornar difícil ou até impossível, para muitos, uma terapia adequada.

 

(Do livro "A Saga do Autismo" de Pedro Paulo Rocha – Fundador da APARJ e da ABRA e presidente da APARJ) Reprodução autorizada desde que seja citada a fonte e o autor.


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