Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello

 

Setembro de 2000 - Vol.5 - Nº 9

Psicanálise em Debate

Miscelânea

Dr. Sérgio Telles

1) O Psicanalista lê o jornal
2) O Psicanalista vai ao teatro "Estórias Roubadas" ("Collected Stories")
3) O Psicanalista vai ao cinema - A Humanidade - Sylvia Loeb
4) Correspondência

a. "Toda a tripulação está morta" –"Dor dá lugar à revolta contra autoridades" – OESP – 22/8/00 – A12 e A13 –

Sendo a finalidade precípua de um submarino o desempenho bélico em missões de espionagem e suporte de poderosos armamentos, a tragédia russa nos faz pensar imediatamene na insânia da guerra, flagelo que a humanidade conhece desde seus primórdios e do qual não sabe ainda hoje como se livrar. Mas esse é um tema que, por demais vasto, não abordaremos no momento.

Ressaltaremos dois aspectos.

I) Em primeiro lugar a relutância do governo russo em solicitar ajuda. É compreensível, pois a pediria exatamente a seus inimigos em caso de guerra, a OTAN, expondo fraquezas e impossibilidades. A relutância do governo, que teria tido consequências fatais, lembra muito a atitude orgulhosa de determinados pacientes narcísicos, para quem a onipotência e a arrogância psicótica impedem o pedido e a aceitação de uma ajuda, vividas como ferida narcísica e humilhação insuportáveis.

II) Regidos por afetos e distantes da razão, nos emocionamos com a morte de nosso semelhante quando é possível nos identificar com eles e suas contingências. Por alguns aterrorizados instantes, todos nós nos imaginamos dentro daquele submarino, na escuridão e no frio, rumo a uma morte desesperada. Muitos pacientes trouxeram a imagem do submarino em suas sessões. Identificaram-se com os tripulantes, projetando neles a claustrofobia, o medo, a solidão, a angústia da morte.

Em alguns casos foi possível detectar as ansiedades mais primitivas e psicóticas, ligadas à fusão com o corpo da mãe – o submarino representaria o próprio paciente "in útero". Estes pacientes revelavam o desejo inconsciente de estar no interior da mãe, com tudo que isso implica de pulsão de morte, pois se a regressão fusional com a mãe os deixa protegidos e a salvo do perigoso mundo externo, essa mesma regressão o aprisiona mortalmente, impossibilitando-o de sair, impedindo sua autonomia e a organização de sua individualidade.

Esses pacientes me fizeram lembrar o polêmico e original livro de Sandor Ferenczi, THALASSA (Martins Fontes, 1990). Ali ele estabelece a importância do desejo de retorno ao interior da mãe, sua vinculação com os estágios mais regressivos do psiquismo e sua permanência em fantasias, no sonhar e no coito.

Diz ele: "Certos detalhes do simbolismo dos sonhos e das neuroses sugerem a existência de uma analogia simbólica profunda entre o corpo materno e o oceano, por um lado, a mãe- terra "nutriente" por outro. É possível que esse simbolismo exprima, em primeiro lugar, o fato de que o homem, enquanto indivíduo, é antes de seu nascimento um endoparasito aquático e após o nascimento, durante um bom tempo, um ectoparasito aéreo da mãe; mas também que, na evolução das espécies, a terra e o oceano desempenhavam realmente o papel de precursores da maternidade e ocupavam eles próprios o lugar de organizações protetoras, involucrando e alimentando esses ancestrais animais. Nesse sentido, o simbolismo marinho da mãe possui um caráter mais arcaico, mais primitivo, ao passo que o simbolismo da terra reproduz aquele período mais tardio (...) O material psicanalítico cotidiano também fornece exemplos convincentes do simbolismo materno da terra e da água (...) Já interpretamos o fato de ser salvo da água ou de flutuar na água como uma representação do nascimento ou do coito – interpretação aliás corrente em psicanálise (...) Cair na água é, voltamos a repetir, o símbolo mais arcaico, o do retorno ao útero materno; enquanto que ser salvo ou resgatado das águas enfatiza o episódio do nascimento, ou seja, a saída para a terra. (p. 61-62) (...) De acordo com nossa hipótese, o coito é essencialmente a descarga de uma tensão penosa e, ao mesmo tempo, a satisfação da pulsão de retorno ao corpo materno e ao oceano, ancestral de todas as mães" (p.74).

b. "MP age segundo ‘manual nazista’, diz advogado-geral – OESP – 16/8/00 – A4-5

Talvez o governo FHC tenha chegado em seu nível mais baixo neste lamentával episódio em que tenta desacreditar e desautorizar aqueles que são o único resquício de moralidade e ética públicas: os jóvens promotores. Um preposto do poder diz que os mesmos usam um "manual nazista", expondo injustamente à execração pública homens probos.

Numa total inversão dos fatos, onde jogam papel determinante a projeção e a denegação, isso é exatamente o que o poder está fazendo com os jóvens promotores.

c. "Clinton chega hoje à Colômbia sob protesto" – FSP – 30/8/00 – A11

"Clinton entra na ‘luta de morte’ contra o tráfico – OESP – 30/8/00 – A15

Claro que a questão do narcotráfico é extremamente grave e complexa, desde seus elementos econômicos até suas implicações morais e éticas. O narcotráfico com seus bilhões exerce um poder perverso, corrompendo e degradando as mais variadas instituições e organizações sociais. Vimos agora como Clinton se dispõe a ajudar financeiramente a Colômbia, no intuito de coibir o poder dos barões da droga. Levando em conta, como diz o jornal, que "a Colômbia fornece cerca de 90% da cocaína consumida pelos 12 milhões de americanos que usam drogas regularmente e são a principal fonte dos bilhões de dólares movimentados pelos traficantes", não deveria o esforço de Clinton centrar-se no próprio território americano, cortando o mercado consumidor? Não seria mais lógica tal medida? Estaria mais uma vez dissociando o problema, projetando-o fora, negando uma importante faceta do mesmo?

d. Freud pas mort! Sexe, éducation, travail... Depuis cent ans, la psychanalyse change notre vie – L’Express International – 3-9 aout 2000

Em matéria de capa, a popular revista francesa presta uma verdadeira homenagem a Freud e à psicanálise. Reconhece as dificuldades pelas quais passa, mas ressalta os enormes benefícios por ela trazidos, além de exibir a extraordinária influência do pensamento psicanalítico em toda a cultura ocidental deste século. Oxalá tal matéria mostre uma mudança na tendência predominante no meio "psi" hoje em dia, caracterizada pela excessiva ênfase na importância das neurociências, em detrimento da psicanálise, tida como algo "superado". Na verdade, já se detecta nos Estados Unidos uma reação neste sentido, já se esboça uma crítica a essa visão que empobrece a prática psiquiátrica, ao negar ao paciente seu mundo simbólico e representacional.

2) O Psicanalista vai ao teatro"Estórias Roubadas"

A peça "Estórias Roubadas" ("Collected Stories") de Donald Margulies, com Beatriz Segall e Rita Elmôr, mostra o desdobramento da relação que se estabelece, no correr de seis anos, entre uma escritora consagrada e uma aprendiz. Esta ocupa o lugar de secretária e confidente da primeira e termina por usar as confidências daquela na construção de seu primeiro romance. A peça fecha em pleno impasse. Não há reconciliação possível entre as duas escritoras. Uma se sente traída, a outra pensa ter dado provas de que aprendera todas as lições recebidas.

O autor usou alguns elementos de um fato real acontecido em 1993, quando o poeta inglês Sir Stephen Spender acusou o jóvem romancista David Leavitt de ter se apropriado de detalhes de sua autobiografia, publicada em 1951. Além disso, o próprio Margulies diz ter tido atritos com o famoso escritor Arthur Miller.

O embate mestre-aluna é uma ilustração do conflito de gerações, o quase sempre problemático ocaso de uma e ascenção da outra. Poderia ser visto sob o ângulo do complexo de Édipo e da estruturação da identidade: a mais jóvem, ao apropriar-se de um episódio da vida da mais velha e usá-lo como material de sua produção literária, revela sua ambivalência – está identificada com a mestra, escrevendo na primeira pessoa o episódio que não é seu, mas sabe que, ao fazê-lo, provoca inevitável rompimento na relação. Está lutando por seu próprio lugar, por sua própria identidade.

O texto completo encontra-se no livro: "O psicanalista vai ao cinema" - EdUFSCar / Casa do Psicólogo, 2004 .

3) O Psicanalista vai ao cinema

A HUMANIDADE - o filme

Sylvia Loeb

Numa pequena cidade da Normandia, um crime hediondo é cometido: uma menina de onze anos é estuprada e assassinada. Um oficial de polícia é designado para desvendar o caso. A partir deste fato, o filme nos brinda com uma amostra das misérias do mundo. Muito menos o que é mostrado na tela, muito mais o que é sentido pelo oficial.

A cidade: vazia, limitada no horizonte geográfico e na arquitetura; amesquinhada.

As pessoas: poucas falas, comunicação econômica, quase que só factual.

Trilha sonora: nenhuma.

Longas tomadas, cenas paradas, estética feia.

O (anti)heroi, Pharaon, olhar estatelado em direção a um universo que não compreende e não pode articular, sem equipamento de intermediação para falar um mundo horrendo, profundamente impactado pelos acontecimentos.

A heroína, Domino, jovem mulher bonita como as coisas da natureza bruta. Também pouco equipada para processar a complexidade de um mundo que não compreende nem aceita.

O sexo é usado por ela, mais do que por prazer, como um escape e uma catarse das angústias que a acometem.

Filme estranho que usa de imagens sexuais perturbadoras para falar de outra coisa.

Na primeira cena em que Pharaon cheira Domino na praia, à saída do forte, fecha os olhos e perde levemente o equilíbrio, pensamos tratar-se de um momento erótico, sensual. Mas o diretor não nos deixa essa saída. Há algo além, enigmático.

Quando Pharaon cheira de forma quase animal o traficante de drogas, depois sai da sala, cheira as próprias mãos, a perplexidade do espectador cresce ainda mais. Que código é esse, que usa sinais conhecidos para nos perturbar o senso? É como se fosse algo monstruoso, com todos os traços do humano, porém o produto final estranhamente desagradável, não reconhecível.

Os gestos são quase homossexuais mas definitivamente não se trata disso.

Quando Domino se oferece sexualmente a Pharaon e ele recusa, começamos a vislumbrar algo...Na cena seguinte ele se encontra em sua pobre horta, acariciando dálias vermelhas, dizendo a elas de sua beleza. De forma indizível diz a Domino a poesia e a beleza do amor, do sexo, impossível para essas pessoas.

A cena da vagina de Domino aberta para a platéia, ocupando toda a tela do cinema, num silêncio absoluto de som, é uma das mais pungentes paisagens de solidão.

Vagina vazia e desocupada de um pênis amoroso.

Vagina usada e abusada, desabitada de amor.

Amor que Pharaon tem de sobra mas não sabe como dar, nem o que fazer com o que sente.

Só sabe que sente horror. E piedade.

Um homem atacando um outro. Pharaon vê de longe, do topo de um edifício, afastado pela distância e pelo vidro da janela – impotência absoluta diante da violência do mundo.

No final do filme, quando finalmente o assassino é descoberto, o gesto de Pharaon não poderia ser outro: após um grito de susto e indignação ao reconhecer o amigo no criminoso, beija-lhe a boca, até estancar o choro convulsivo do assassino.

O segredo parece desvelar... usa o cheirar, o beijar, o tatear, de modo tosco e quase animal. É o único modo que dispõe – da forma a mais primitiva – de mostrar sua piedade.

É ele e o outro, imersos todos num mundo brutal e violento. Só o tatear instintivo, o abraço desajeitado, o beijo, o respirar um dentro do outro, para estancar a angústia pura, o desamparo abismal.

É um filme profundamente religioso.

Que fala de compaixão.

4) Correspondência

----- Original Message -----

From: Sylvia o. Loeb

To: Sergio Telles

Sent: Monday, August 21, 2000 4:11 PM

Subject: cortes

Caro Sergio

Li seus textos com muito interesse e gostaria de fazer alguns comentários.

Achei muito instigante a idéia do psicanalista que lê o jornal. É vivo, atual e nos põe em contato mais direto com o pensar do psicanalista. É onde talvez ele mostre seus valores. E é sôbre isso que gostaria de falar com você. No texto sôbre os grupos que não querem ter filhos, no 4o. parágrafo da pag. 2, me parece que você moraliza a questão: egoismo,infantilismo altruismo, mesmo narcisismo aqui, são usados como adjetivos que desqualificam a "escolha " das pessoas em questão. Ponho escolha entre aspas porque pode não se tratar de uma decisão consciente, e sim como você aponta, decisão motivada por fantasias inconscientes,etc. Imaturidade emocional também me parece uma adjetivação derrisória, aqui. Penso e acho que você também pensa que há escolhas realmente autorizadas pelo sujeito. Aliás, um pouco mais adiante, você diferencia a atitude moralista e repressora da postura da Psicanálise, a qual não deveria ser moralizante. Só que ( de novo me parece) não fica muito clara a sua posição. Imagino qual seja, mas no texto não fica clara. A questão do conflito, para mim, seria mais esclarecedora, dando o aval para que eu

possa dizer qualquer coisa em relação ao outro, pelo menos no contexto da análise.

Enfim, muita conversa para concluir que penso que possa haver uma decisão consciente de não ter filhos, que possa haver um real prazer na companhia do outro, "no kidding at all", sem que isso implique em atitudes regressivas.

Falando do filme " Sicília", gostei muito das suas considerações, a não ser, novamente, a questão da moralização do amor em relação aos pais. E se depois de uma profunda desidealização eu chegar à uma conclusão consciente de que meu pai ou minha mãe ou quem quer que seja de sagrado, não merece meu amor? Você não pensa isso possível?

Senti no filme a violência das forças da natureza, ou do agreste da paisagem da Sicília, no diálogo entre a mãe e o filho. Poucas vêzes vi no cinema cena de maior violência. No texto sôbre o "Crônicamente Inviável", gostaria de ouvir você falando pelo afirmativo, mais do que pelo interrogativo. A cena final, para mim, é de um profundo desrespeito pela miséria alheia. A pessoa pode ser pobre, miserável, morta de fome, humilde, desgraçada, mas não necessariamente ingênua. O diretor desqualifica tudo e todos (o assunto dos sem-terra é tratado de forma patética e arrogante), a não ser ele mesmo, com sua crítica "inteligente". Concordo com você que ele põe o dedo na ferida, e que o mal- estar tem a ver com o reconhecimento de que, de algum modo, estamos lá. Mas me recuso a partilhar de sua opinião de que somos todos cínicos e mal intencionados.

Espero novos comentários do analista que vai ao cinema e que lê jornais.

Sylvia

Cara Sylvia,

Agradeço a leitura atenta da coluna e suas pertinentes observações.

Você levanta pontos importantes quando fala dos valores do psicanalista. Vou então comentar um pouco sobre esse problema mais abrangente e depois me deterei em alguns aspectos específicos, onde você detecta a suposta influência deletéria destes meus valores.

A questão dos valores do analista se revela em sua dimensão quando lembramos que ele deve ter uma neutralidade frente ao paciente, devendo ficar isento em relação a suas crenças e convicções.

Por outro lado, é verdade que - sendo o analista um ser humano - terá ele também suas crenças e convicções, sejam elas politicas, religiosas, estéticas, etc. Assim, o que foi dito para as escolhas conscientes do paciente é válido também para ele, analista. Ou seja, suas crenças e convicções estão também enraizadas em desejos inconscientes.

Em termos ideais, o analista deveria estar alerta para este fato e mantê-lo em permanente auto-análise, fazendo com que suas escolhas (crenças e convicções) obedeçam, na medida do possível, a pressupostos racionais e objetivos, distantes da fantasia infantil inconsciente. Isso deveria possibilitar uma maior flexibilidade em relação a elas, uma tolerância com a divergência e discordância, uma atitude não radical ou fanática – essa sim sempre evidenciando, de forma indiscutível, poderosos componentes inconscientes em jogo.

Ao abordar a questão dos casais que não querem ter filhos, "no kidding", você julga discernir uma postura "moral" em minha argumentação. Vejo que apesar de ter tido o cuidado de mencionar tal risco e procurar nele não incidir, a formulação que dei ao texto dá margem a tal interpretação.

O exemplo citado mostrava um adepto do "no kidding" apontando as preocupações de um pai, que fazia uma série de atividades centradas no filho (férias, compras, investimento de tempo e dinheiro), ao que ele próprio se contrapunha, afirmando dedicar seu tempo e dinheiro consigo mesmo (férias nos mares do Sul, aquisição de máquinas potentes, etc).

O que fiz foi denominar aquelas atitudes, caracterizando uma como altruísta ou "objetal" (por estar voltada paro o outro, no caso o filho), enquanto a outra seria "narcísica" (por estar voltada para o próprio sujeito). O intuito não era desqualificar ou julgar moralmente e sim analisar. Acho, e acredito que você também pensa assim, que as escolhas do sujeito serão tanto mais "autorizadas" quanto menos comportem de dissociação e denegação de sua realidade psíquica.

Quanto ao filme "Gente da Sicília", você tem toda razão no que diz respeito ao aspecto mais amplo da questão. Claro que depois do processo de desidealização dos pais, uma pessoa pode perfeitamente chegar a conclusão que eles não são merecedores de seu amor e sim do ódio ou qualquer de seus correlatos. Quando mencionei o "amar ainda mais depois da desidealização", referia-me especificamente ao personagem do filme, que me pareceu, depois de tudo o que descobriu, continuar numa atitude amorosa para com a mãe.

Entendo sua irritação com o "Crônicamente Inviável". De fato ele é um tanto tendencioso, talvez pessimista demais. Pessoalmente, neutralizei esse negativismo passeando pela Mostra do Descobrimento, no Ibirapuera. Ali reencontrei a multifária face do nosso povo, nossa rica tradição, nossa criatividade, nossa imensa força. Sinto o mesmo nos espetáculo de dança e música de Ivald Bertazzo. São dois lugares onde se vê a outra face da moeda exibida por Bianchi.


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