Volume 16 - 2011
Editor: Giovanni Torello

 

Maio de 2011 - Vol.16 - Nº 5

Psicanálise em debate

UM ASSUNTO ESPINHOSO

Sérgio Telles
psicanalista e escritor

O nazismo e Hitler fizeram coisas abomináveis, imperdoáveis, que merecem a permanente execração de todos. A gravidade da catástrofe por eles provocada – cuja expressão maior é o Holocausto - é tão grande, que se discute se o trauma dela decorrente é passível de representação ou não. Deveria a catástrofe ficar em seu estado bruto, permanentemente a nos interrogar ou deveríamos tentar representá-la, simbolizá-la? A dúvida decorre do temor que a grandeza da tragédia acontecida seja banalizada e diluída, que se desvaneça  a memória dos milhões vitimados. Vem daí a não aceitação de qualquer manifestação sobre ela que não seja sua explicita condenação, a intolerância com piadas e brincadeiras, entendidas como ofensivas e desrespeitosas. 

Temos dois exemplos recentes disso. Um, as fortes reações à piada do comediante Danilo Gentili sobre o metrô em Higienópolis, que o levaram a pedir desculpas e cancelar o lançamento de seu programa na TV porque os convidados se recusaram a comparecer. Outro, o ocorrido com Lars von Trier, considerado “persona non grata” e em seguida “expulso” do Festival de Cannes após ter dito numa entrevista, em tom de brincadeira, que era nazista e que entendia Hitler.

Colocada no contexto adequado, a punição de Lars von Trier revela aspectos até então inadvertidos da questão.

Frente ao nazismo e a Hitler, a França gostaria de ser vista como o país da Resistência, cheia de heróicos maquis a desafiarem os alemães, uma imagem grandiloqüente forjada por De Gaulle que  esconderia a vergonhosa realidade do colaboracionismo oficial e de grande parte da sociedade, a tranqüila submissão ao III Reich por parte de Pétain e seu governo de Vichy. O exemplo mais chocante da colaboração se deu quando, por iniciativa das autoridades francesas e não por exigência dos alemães, cerca de 13 mil judeus foram confinados no Vèlodrome d´Hiver e de lá enviados para os campos de extermínio, fato só reconhecido pelo estado francês em 1995, por Jacques Chirac. 

No começo deste ano, Alexandre Jardin, neto do prefeito de Paris na época da ocupação alemã, lançou pela Editora Grasset o livro “Des gens trés bien” (algo como “Pessoas de bem”). Ali ele diz que o avô colaborava sem nenhum constrangimento com as autoridades nazistas, um comportamento aceito e compartilhado por todos a seu redor. O livro tem vendido aos milhares e suscitado grande celeuma, alimentando a curiosidade de muitos em relação ao secreto passado político de seus familiares.

Efeitos do colaboracionismo no psiquismo dos franceses foram detectados por Roland Barthes, em “Sabão em pó e detergentes”, um texto curto e perspicaz publicado em seu “Mitologias”. Ali relata que, no pós-guerra, a França foi tomada por uma febre de limpeza e higiene, comandada por fortes campanhas publicitárias de produtos de limpeza. Usando a semiologia e recursos da psicanálise, Barthes analisa a retórica destas campanhas e conclui que seu sucesso se devia ao fato de expressarem elas o desejo coletivo inconsciente de eliminar a sujeira da guerra da Argélia e, mais negado ainda, as impurezas da colaboração com os nazistas, fatos que enodoavam o orgulho nacional.

A atitude do Festival de Cannes com Lars von Trier fica ainda mais sintomática, quando se sabe que em 1956 o filme “Nuit et Bruillard”, de Alain Resnais, foi censurado pelo governo francês e impedido de concorrer naquele Festival, sendo exibido numa mostra paralela, justamente por denunciar o colaboracionismo.

Frente a estes fatos, fica então a pergunta – o rigor no julgamento de Trier deveu-se ao respeito às vitimas da catástrofe ou era uma forma de reforçar a repressão do passado colaboracionista, evocado nas falas brincalhonas de Trier, de “ser nazista” e “entender Hitler”?

É preciso então estar atento a esta possibilidade, e estar alerta contra outra difundida falácia, que é o  atribuir todos os crimes nazistas à pessoa de Hitler, que fica demonizado.  Por mais assustador que seja, é necessário lembrar que, direta ou indiretamente, milhões de alemães, austríacos e europeus de vários outros países expressaram concordância, simpatia e admiração pelo nazismo e suas promessas de eliminar o comunismo e implantar o domínio de uma raça superior. É por isso mesmo que falar sobre o assunto é problemático não só na França, pois em muitos países da Europa paira ainda a lembrança  reprimida da colaboração. E é justamente esta a questão mais importante levantada pelo nazismo: como entender que milhões de pessoas embarcaram numa ideologia delirante que prometia a constituição de uma raça superior, tendo como correlato a eliminação das raças tidas como inferiores.

O nazismo ainda hoje levanta enigmas para nossa compreensão e não temos alternativas a não ser tentar resolvê-los. Só podemos fazer isso se representarmos e simbolizarmos a catástrofe, sem temer desmerecê-la com isso. Em assim fazendo, se lhes dissolve a aura de inacessibilidade, revelando-se então seus contornos reais e humanos, devolvendo-nos a capacidade de compreender e agir. Ou seja, é importante, por um lado, conhecer a psicopatologia de Hitler e, por outro, tentar entender o fascínio que a ideologia nazista despertou em tanta gente.

Sobre Hitler há inúmeras biografias publicadas. Aos interessados, sugiro a leitura de seu perfil psicológico feito em plena guerra por um professor de psiquiatria a pedido da OSS (Office of Strategic Services, serviço de inteligência dos Estados Unidos) atualmente depositado na Universidade de Cornell e disponível em  http://library.lawschool.cornell.edu/WhatWeHave/SpecialCollections/Donovan/Hitler/index.cfm.

Quanto à ideologia nazista da raça superior, pergunto-me se ela não revela, levado às ultimas conseqüências, o desejo narcísico de negar nossas impurezas, nossas deficiências, nossa feiúra física e moral, todas as nossas taras que, por não as aceitarmos em nós mesmos, terminamos por projetar no outro. A fantasia de uma raça superior seria o patamar mais avançado e radical desta idéia, a criação de homens sem nenhuma jaça, definitivamente livres de todas as limitações próprias de nossa sofrida humanidade. Se assim for, o que vai impedir a sedução da ideologia da raça pura é sua análise, é mostrar como ela atende a irrealísticas exigências narcísicas de perfeição, fruto da intolerância com as falhas e erros que são de todos nós, seres humanos. 

(*) Publicado no Caderno 2 de jornal “O Estado de São Paulo”, em 28/05/2011


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