Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Abril de 2009 - Vol.14 - Nº 4

História da Psiquiatria

PRIMÓRDIOS DA PSIQUIATRIA NO CENTRO-OESTE DE MINAS GERAIS

Nadja Cristiane Lappann Botti
Prof ª Adjunto III da PUC Minas de Saúde Mental e Psiquiatria do campus Betim. Dr.ª em Enfermagem Psiquiátrica/USP. E-mail [email protected]
Ana Carolina Henriques Oliveira Amaral de Castro
Acadêmica do 7º período de Enfermagem da PUC Minas, campus Betim.
Edson Mascarenhas Cotta
Acadêmico do 7º período de Enfermagem da PUC Minas, campus Betim.

O marco da constituição da Psiquiatria brasileira foi a criação do Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro, inaugurado em 1852, com 140 pacientes (RESENDE, 2000). Minas Gerais, a partir de 1900, tinha a sua disposição 25 leitos no Hospício para internação. No período de 1852 a 1886 foram criadas instituições psiquiátricas em São Paulo, Pernambuco, Pará, Bahia, Rio Grande do Sul e Ceará (ODA & DALGALARRONDO, 2005). Minas Gerais foi o último dos grandes Estados brasileiros a construir um hospital psiquiátrico (RESENDE, 2000). Somente em 1900 foi proposta a criação da Assistência aos Alienados no Estado, sendo em 1903 o início das atividades do Hospital Colônia de Barbacena (MAGRO FILHO, 1992).

Em Minas Gerais, entre 1900 e 1934, há sucessiva publicação de instrumentos legais alterando os nomes das instituições psiquiátricas e regulamentando o funcionamento (MORETZOMN, 1989). Em 1920, Arthur da Silva Bernardes, Presidente do Estado, afirma que o funcionamento do Asilo de Barbacena era antagônico aos princípios da Psiquiatria. Em 1922, Arthur Bernardes aprova o Decreto nº 6169 que regulamenta a Assistência aos Alienados visando melhora e descentralização dos serviços, estabelecendo a criação de novos asilos-colônias (MORETZOMN, 1989). Em 1927, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, Presidente do Estado, assina o Decreto nº 7556 criando o “Hospital Psychiatrico regional na cidade de Oliveira” (ALMEIDA, 1927). Após 10 meses da assinatura foi lançada a pedra fundamental do hospital com a presença de Djalma Pinheiro Chagas e convite solene ao “povo de Oliveira para assistir às solemnidades” (ALMEIDA, 1928).

O Hospital Psiquiátrico de Oliveira teve sua origem no prédio do ex-sanatório de tuberculoso que o Estado adquiriu pelo Banco da República (MAGRO FILHO, 1992). Este sanatório foi construído por Carlos Ribeiro de Castro, especialista no tratamento da tuberculose e adquirido em 1927 pela quantia de 35:000$000 (ALMEIDA, 1927). Nos anos de 1928 e 1929 o prédio do sanatório foi reformado para se adaptar a função de hospício, “o prédio soffrerá diversas reformas para a sua adaptação ao fim que vae agora ser destinado, obras estas que serão atacadas brevemente, sob a competente direção do engenheiro desta circumscripção, dr. José Zuquim” (ALMEIDA, 1927).

Djalma Pinheiro Chagas, idealizador do hospital e secretário da Agricultura, Indústria, Terras, Viação e Obras Públicas do Estado, designou a reforma do sanatório e a supervisão da construção a José Zuquim e Caio Líbano Soares, respectivamente. Carlos Pinheiro Chagas, irmão do referido Secretário, indicou Caio Líbano para supervisionar a adequação do hospital as exigências psiquiátricas da época (MORETZOMN, 1989).

O hospital, “elegante e majestoso”, localizava-se no bairro São Sebastião, tinha construção sólida, ampla, arejada e com “sobriedade de linhas que muito condiz com os fins a que se destinava”. Em outubro de 1928, a etapa final da construção, foi comemorada com festa, foguetes e personagens ilustres, “pelas 17 horas mais ou menos, foi a quietude e a calma habitual da nossa cidade quebrada pelo espoucar de innumeros foguetes ... estava sendo levantada a ultima parte da cumieira do grande e magestoso edificio que servirá dentro em breve para nelle funcionar o Hospital Psychiatrico de Oliveira” (ALMEIDA, 1928).

A inauguração do Hospital Psiquiátrico, em janeiro de 1931, teve a presença de comitiva de autoridades; “dr. Levindo Coelho, secretario da Educação e Saude Publica; dr. Djalma Pinheiro Chagas, ministro do Tribunal Especial; dr. Leopoldo Dias Maciel, representante do sr. presidente do Estado; dr. Eduardo Amaral, representante do sr. dr. Secretario da Agricultura; dr Carlos P. Chagas, director do Serviço de Industria Pastoril; dr. Mario Telles, chefe do serviço zootechinico do Ministerio da Agricultura; cel. Luiz Fonseca, da Força Publica do Estado; dr. Pedro Magalhães, chefe de linha da Estrada de Ferro Oeste de Minas; dr. Caio Líbano Noronha, director do Instituto Raul Soares, de B. Horizonte e ... innumeras pessoas do povo” (ALMEIDA, 1931).

A inauguração contou com festa “espoucar de foguetes e aos sons festivos da musica, executada pela banda local. Terminada a cerimônia da inauguração foi em seguida offerecisa pela prefeitura as altas autoridades e demais pessoas um taça de champagne”. Também foi realizada missa pela comunidade para comemorar a inauguração e o fim da Revolução de 30. José Cezarini, diretor do hospital, fez discurso de inauguração: “proferindo um vibrante discurso, no qual não se sabia o que mais admirar, si a belleza da phrase ou a justeza dos conceitos emittidos” (ALMEIDA, 1931). A estrutura física do prédio apresentava-se em consonância com a ciência e o modelo de tratamento psiquiátrico na época: “o Hospital Neuro-Psychiatrico possue salas de operação bem instaladas, onde o distincto cirurgião poderá desempenhar os trabalhos concernentes à sua especialidade, com todo conforto, exigencias technicas e de asepsia” (ALMEIDA, 1930).

O hospital foi inaugurado com moderno laboratório de análises clínicas e gabinetes de Raios X. O laboratório era dirigido pelo médico e químico alemão Von Ruthland que chegou ao Brasil após a primeira “Grande Guerra” (ALMEIDA, 1930); o gabinete de Raios X era dirigido pelo Major Albergaria, farmacêutico-radiologista do Hospital Militar de Belo Horizonte (MORETZOMN, 1989). Compondo o quadro de profissionais encontram-se “os illustres clinicos drs. Alberto de Andrada Machado e João Albino de Almeida, recentemente nomeados alienista e cirurgião do Hospital Neuropsychiatrico de Oliveira” (ALMEIDA, 1930). O hospital de tamanho médio, novo, bem construído e, para a época, bem equipado, passou a receber pacientes do sexo feminino, inidgentes, da região e também aqueles transferidos do Instituto Raul Soares (MORETZOMN, 1989).

Caio Libano, responsável pela supervisão da construção do prédio, foi nomeado “para o cargo do director do Hospital Psychiatrico” pelo governo do Estado (ALMEIDA, 1930). Era reconhecido como “proficional competente e um cavalheeiro distincto... com innumeros predicados mores e intelectuaes” (ALMEIDA, 1930). Considerado uma das maiores expressões da Neuropsiquiatria de Minas Gerais, assumiu a regência da Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina devido ao afastamento de Washington Pires para assumir o cargo de Ministro da Educação e Saúde no governo de Getúlio Vargas (GUSMÃO, 2006; MENDONÇA et al, 2006). Apesar de ter sido nomeado diretor, ele não foi empossado, devido sua transferência para Belo Horizonte a fim de ocupar a vaga ocorrida com o falecimento de Alexandre Drummond diretor do Instituto Raul Soares. Para substituí-lo foi nomeado, em 1930, José Cezarini, tornando-se então, o primeiro diretor efetivo do Hospital Psiquiátrico de Oliveira e permanecendo até 1933 (MORETZOMN, 1989). O Hospital Psiquiátrico de Oliveira, a partir do Decreto n° 9817 de 1931, passa a chamar-se ‘Hospital Djalma Pinheiro Chagas’, em homenagem ao idealizador do Hospital (MORETZOMN, 1989).

Destarte a construção do Hospital Psiquiátrico de Oliveira institucionaliza a assistência psiquiátrica pública e científica do centro-oeste mineiro a partir de um misto de injunções históricas locais e estaduais que se retroalimentam com as necessidades econômicas, políticas e sociais imanentes à superlotação do Hospital Colônia de Barbacena e à conseqüente estratégia de descentralização da assistência psiquiátrica mineira.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, J.P. Drs. Alberto de Andrade Machado e João Albino de Almeida. Gazeta de Minas, Oliveira, 01 jun. 1930. Número 22, p. I 

ALMEIDA, J.P. Hospital Psychiatrico de Oliveira. Gazeta de Minas, Oliveira, 08 maio 1927. Número 19, p. I

ALMEIDA, J.P. Hospital Psychiatrico. Gazeta de Minas, Oliveira, 08 janeiro 1928. Número 55, p. II 

ALMEIDA, J.P. Hospital Psychiatrico. Gazeta de Minas, Oliveira, 21 out. 1928. Número 45, p. I

ALMEIDA, J.P. Oliveira em festas, Visita aos Edificios Publicos – Inauguração do Hospital e do Grupo Escolar – Inauguração do Busto do Dr. Antonio Carlos – A Manifestação – O Baile – Os Discursos – Outras Notas. Gazeta de Minas, Oliveira, 18 jan. 1931. Número 3, p. I

GUSMÃO, S.S.  História da Neurologia em Minas Gerais. Jornal Brasileiro História da Medicina. jul 2006 (Disponível em http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=noticias&codigo=95)

MAGRO FILHO, J.B. A tradição da loucura – Minas Gerais - 1870-1964. Belo Horizonte: COOPMED/Editora UFMG, 1992

MENDONÇA, J.L; COELHO, R.S;  GUSMÃO, S. História da Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (1911-1961). Jornal Brasileiro História da Medicina. jul 2006 (Disponível em http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=noticias&codigo=89)

MORETZOMN, J.A. História da Psiquiatria Mineira. Belo Horizonte: COOPMED/Editora UFMG, 1989

ODA, A.M.G.R; DALGALARRONDO, P. História das primeiras instituições para alienados no Brasil. Hist. cienc. saude-Manguinhos,  Rio de Janeiro,  v. 12,  n. 3, p. 983-1010, dez.  2005

RESENDE, H. Política de saúde mental no Brasil: Uma visão histórica. In: TUNDIS, S; COSTA, N.R. (org.). Cidadania e Loucura: Políticas de saúde mental no Brasil. Petrópolis: Vozes Editora, 2000, p. 15-74

 


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