Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Fevereiro de 2009 - Vol.14 - Nº 2

História da Psiquiatria

Adauto Junqueira Botelho: notas biográficas

MD. Walmor J. Piccinini
Psiquiatra.
Professor da Fundação Universitária Mário Martins.
Pesquisador da História da Psiquiatria Brasileira

     Escrever sobre Adauto Botelho não é tarefa fácil, sua vida privada é um segredo, sua vida pública está registrada em função dos cargos que exerceu e pela sua importância ao ditar os rumos da psiquiatria brasileira durante a “Era Vargas”. Um dos poucos registros a sua pessoa foi feito por Isaías Paim no seu livro Psiquiatras Brasileiros (Editora Oeste de Campo Grande, MS. 2003). Outra referência importante a respeito de Adauto Botelho, foi o editorial do Jornal Brasileiro de Psiquiatria em 1963, vol. 12 (1), 1:2, registrando sua morte ocorrida em 4 de fevereiro de 1963. Do editorial extraímos algumas informações: “Adauto Junqueira Botelho, no unânime consenso dos seus colegas, discípulos e contemporâneos em geral, foi uma das mais eminentes e expressivas figuras da psiquiatria nacional nos últimos 30 anos. Atuou nela destacadamente em três setores principais; na vida universitária, na administração psiquiátrica e na clínica privada. Docente Livre da Faculdade Nacional de Medicina e na última fase da existência na Cátedra da Faculdade de Ciências Médicas do Distrito Federal. Administrador ligado a história da criação do Serviço Nacional de Doenças Mentais. Como psiquiatra clínico, atendia no seu gabinete próprio e foi um dos fundadores do Sanatório Botafogo. Na gestão Henrique Roxo foi Assistente, Chefe de Laboratório, Chefe de Clínica da Cátedra e substituto eventual do catedrático. Em 1938 optou pelo serviço Público Federal, mas ficou como assistente em disponibilidade. Voltou em 1956, como catedrático interino por escolha da congregação da Faculdade de Medicina, após a aposentadoria compulsória de Maurício de Medeiros, ocupou a cátedra até a seleção do titular. Foi Diretor do Jornal Brasileiro de Psiquiatria.”

 

Observando a data de seu nascimento em Leopoldina, MG, no ano de 1895 e seu falecimento em 1963, constatamos que tinha 68 anos quando faleceu. Sua vida foi intensa, ocupou durante tanto tempo cargos proeminentes no serviço público, o que parecia lhe dar muito mais idade.  Segundo Isaías Paim, seu pai foi o Sr. Francisco de Andrade Botelho e sua mãe, Dona Maria Nazareth Botelho.  O jovem Adauto mudou-se para o Rio de Janeiro onde estudou na Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil onde recebeu o diploma em 1917. Sua tese de doutoramento foi “Contribuições para a etio-patogenia da demência precoce - disendocrinias pela reação de Abderhalden.

Seu interesse pela psiquiatria começou a surgir a partir do quarto ano do curso quando

Iniciou-se nos estágios do Hospital Nacional de Alienados.

 

Junto com Pedro Pernambuco Filho, Ulysses Vianna e Antonio Austregésilo, em 1921, fundou o Sanatório Botafogo, que se tornou famoso na assistência aos doentes mentais em nível privado. Em 1938, embora fosse fiel escudeiro de Henrique Roxo, não o acompanhou na criação do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil (IPUB). Aparentemente os dois decidiram que Adauto assumiria a liderança da assistência pública enquanto Henrique Roxo comandaria a área universitária. Podemos deduzir essa composição a partir dos três primeiros diretores do IPUB.

Henrique de Brito Belford Roxo (1877-1969) foi diretor no período (1938-46).

Maurício de Medeiros (1885- 1866) foi diretor no período (1947-1956).

Adauto Botelho (1895-1963) foi diretor no período (1956-58):

“O terceiro diretor do Ipub (1956-58) foi o médico-psiquiatra Adauto Botelho (1895-1963), que, segundo Arruda (1995), era discípulo de Juliano Moreira e de Henrique Roxo. Quando se tornou diretor do instituto, Adauto Botelho manteve sua carreira centrada em dois espaços: o da clínica e o da política. Com relação à clínica, fundara, com Pernambucano Filho, Antônio Austregésilo e Ulysses Vianna, em 1921, o Sanatório Botafogo: uma clínica particular com quatro pavilhões e menos de vinte leitos psiquiátricos, correspondendo ao interesse de Pernambucano Filho e Adauto Botelho pelas toxicomanias, com grande incidência no Rio de Janeiro após a Primeira Guerra Mundial. Já em 1948 Adauto Botelho passou a integrar a comissão que aprovaria a Classificação Brasileira de Doenças Mentais, no V Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal”. (Venâncio, AT)

Começando com J.C. Teixeira Brandão, seguindo-se com Juliano Moreira, Henrique Roxo, Maurício de Medeiros. Adauto Botelho, José Leme Lopes, Leonel Miranda e o atual coordenador de Saúde mental, o poder decisório sobre os rumos da psiquiatria brasileira sempre esteve ligado ao Rio de Janeiro onde, desde o Império foram concentrados os maiores recursos do poder público em relação ao tratamento do doente mental. Leme Lopes, apoiado por Jurandyr Manfredini sucessor de Adauto Botelho no Serviço Nacional de Doenças Mentais, participou e foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria que é uma entidade que abriga outras possibilidades de integração psiquiátrica.

O SNDM foi criado durante a ditadura getulista e foi montado e organizado por Adauto Botelho. O sucessor do SNDM é a atual Coordenadoria de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Adauto Botelho, em 1940 assumiu a direção da Divisão de Assistência a Psicopatas do Distrito Federal e por sua iniciativa foi criado em 1941 o Serviço Nacional de  Doenças Mentais (SNDM).

Decreto 17185 de 18 de novembro de 1944 aprovou o regimento do SNDM destacando entre suas finalidades:

1. (Superintender as atividades dos órgãos oficiais de assistência a psicopatas existentes no Distrito Federal.

2, Planejar para o território nacional os serviços de assistência e proteção aos psicopatas, coordenando e fiscalizando as respectivas instalações e atividades.

3. Opinar sobre a organização de qualquer serviço público ou particular de assistência e proteção a psicopatas, rever códigos, regulamentos e regimentos que cuide do assunto;

4. Manter organizado o cadastro de estabelecimentos oficiais e particulares de assistência e proteção a psicopatas, atualizando as respectivas atividades.

5. Incentivar o desenvolvimento das atividades que visem a saúde mental, inclusive dento dos serviços, inclusive dentro dos serviços estaduais de saúde pública;

6. Realizar estudos e investigar a respeito de etiopatogenia, profilaxia e tratamento das doenças mentais;

7. Facilitar o ensino da Psiquiatria em suas dependências.

A partir dessa época que se verifica grandes transformações na assistência aos doentes mentais em nosso país. Sob a direção de Adauto Botelho o SNDM expandiu-se de modo extraordinário, criando ambulatórios de Saúde Mental nos Estados: Amazonas; Maranhão, Piauí, Ceará; Rio Grande do Norte; Paraíba, Alagoas, Sergipe: Bahia, Espírito Santo; Paraná; Santa Catarina; Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal (Rio de Janeiro). Segundo Paulin e Turato. Na gestão de Adauto Botelho, além da criação dos ambulatórios, foram abertos 16 mil leitos psiquiátricos pelo país. Alguns em colônias (4) e outros em hospitais.

A administração de Adauto Botelho à frente do SNDM perdurou de 1941 a 1954 e se caracterizou pela expansão dos hospitais públicos. Certamente o decreto-lei 8.550, de 3 de janeiro de 1946, propiciou esse crescimento, pois autorizava o serviço a realizar convênios com os governos estaduais para a construção de hospitais psiquiátricos. Os poderes estaduais se comprometiam a doar o terreno, arcar com as despesas de manutenção e pagar a folha salarial, enquanto o poder federal se responsabilizava pelo investimento em projeto, construção, instalação e equipamentos (Sampaio, ibidem)”. (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702004000200002&nrm=iso&lng=en ) 

Sobre esse período fomos pesquisar o artigo de Fernando A.C. Ramos e Luiz Geremias (  Instituto Philippe Pinel: origens históricas) e registramos essa informação: “ Com a transferência do antigo pavilhão de observação para a Universidade do Brasil em 1939, criando o Instituto de Psiquiatria (IPUB), o Hospital da Praia Vermelha passou a receber todos os doentes mentais indigentes, o que acabou por produzir uma segunda crise de superpopulação de internos. O prédio inaugurado por Pedro II estava decadente, mal conservado,e não tinha condições de abrigar os 3.000 doentes lá internados. Ao invés de reformar o prédio, o governo resolveu investir na Colônia Juliano Moreira e no Hospital do Engenho de Dentro. Em Janeiro de 1944 iniciou-se a transferência de pacientes para o Hospital Pedro II, no Engenho de Dentro. Em Agosto, é a vez do Hospital Gustavo Riedel receber os primeiros 60 pensionistas do Hospital da Praia Vermelha. Por fim, em setembro, concluiu-se a transferência dos internos da Praia Vermelha para outros hospitais. É criado o Serviço Nacional de Doenças Mentais do Departamento Nacional de Saúde do Ministério da Educação e Saúde, com a competência de assistir, distribuir e internar doentes mentais no Distrito Federal e realizar pesquisas e estudos sobre as psicopatias. (http://www.sms.rio.rj.gov.br/pinel/media/pinel_origens.pdf)

 

 

Adauto Botelho foi Docente Livre de Clínica Psiquiátrica da Faculdade Nacional de Medicina e Diretor do Instituto Philippe Pinel.

Entre 1956 e 57 ocupou interinamente a cátedra de Psiquiatria da UFRJ e presidiu o concurso para provimento da cátedra,

Membro da Academia Nacional de Medicina- recebeu a Ordem do Mérito Médico.

Membro efetivo da Soc. Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal

Membro da Soc. Med. Cirurgia do Rio de Janeiro e Soc. Brás. de Higiene Mental.

Durante sua interinidade na cátedra, realizou-se concorrido concurso para um novo titular. Sua posição de magistrado foi destacada por Paim. No Jornal brasileiro de Psiquiatria há uma nota sobre o concurso que foi realizado no período de 20 de maio de 1958 a 12 de junho do mesmo ano.

A Banca de examinadores estava constituída por: Renê Ribeiro (PE); André Teixeira Lima (SP); Adriano Ponde (BA); Magalhães Gomes (RJ) e Hamilton Nogueira(RJ).

Os candidatos foram: Professor J.Alves Garcia - Docente Livre Cláudio de Araujo Lima; docente Livre José Leme Lopes; Docente Livre, Elso Arruda; Professor A.L. Nobre de Melo; docente Livre Jurandyr Manfredini; docente Livre Aluísio Marques; docente Livre Darcy de Mendonça Uchoa. O vencedor foi o Professor José Leme Lopes, com média 9,8. A posse do novo catedrático ocorreu em 12 de setembro de 1958 e sua aula inaugural foi realizada em 26 de setembro de 1958.

 

 Produção bibliográfica de Adauto Junqueira Botelho encontrada no Índice Psiquiátrico Brasileiro de Psiquiatria (HTTP://www.biblioserver.com/walpicci.

 

 

            1.         Botelho, Adauto. Alcoolismo e Doenças Mentais. Arq. Bras. De Higiene Mental. 1944; 15(1): 87-89.

 

            2.         Botelho, Adauto. Alcoolismo, fator de loucura! Archivos Bras. De Hygiene Mental. 1942; 13(1): 64-62.

 

            3. Botelho, Adauto. Alcoolismo nos hospitais psiquiátricos do Brasil. Arq. Serv.Nac. De Doenças Mentais. 1955; 4(1): 7-16.

 

            4.         Botelho, Adauto. Aspectos da assistência a psicopatas no Brasil. Rev. Cultura Médica. 1944; 1-2.

 

            5.         Botelho, Adauto. Assistência aos doentes mentais. Rio De Janeiro, Imprensa Nacional. 1945.

 

            6.         Botelho, Adauto. Atividades do Serviço Nacional de Doenças Mentais em 1942. Arq. Do Serv. Nac. De Doenças Mentais, 1a Parte. Impr. Nacional. Rio De Janeiro. 1943; 11-151.

 

            7.         Botelho, Adauto. Cardiazoloterapia dos esquizofrênicos. Arq. Bras. De Neuriatria e Psiquiatria. 1938; 3/4: 69-86.

 

            8.         Botelho, Adauto. Centros psíquicos extra-corticais e perturbações mentais. Rev. Da Univ. Do Rio De Janeiro. 1938; 2(2): 131-146.

 

            9.         Botelho, Adauto. Considerações sobre higiene mental. Arq. Bras. De Higiene Mental. 1944; 15(1): 16-24.

 

            10.       Botelho, Adauto. Contribuições para a etio-patogenia da demência precoce - disendocrinias pela reação de Abderhalden. Doutoramento, Tese-Fac. Med.Do Rio De Janeiro.  1917.

 

            11.       Botelho, Adauto. Dados estatísticos sobre a paralisia geral. Arq. Bras. De Neuriatria e Psiquiatria. 1933; 29(1): 7-13.

 

            12.       Botelho, Adauto. Dados sobre as atividades psiquiátricas e de higiene mental no Brasil. Rev.Bras. De Saúde Mental. 1955; 1(1): 43-56.

 

            13.       Botelho, Adauto. Dados sobre a assistência psiquiátrica no Brasil. Arq. Assist. a Psicopatas Do Estado De São Paulo. 1944; 9(3-4):161-176.

 

            14.       Botelho, Adauto. Ensino e Evolução da Psiquiatria. Jornal Dos Clínicos. 1933; 11.

 

            15.       Botelho, Adauto. Estados mistos da psicose maníaco-depressiva. Arq. Bras. De Neuriatria e Psiquiatria. 1929; 11(2): 105-112.

 

            16.       Botelho, Adauto. Estatística de paralisia geral. Arq. Bras. De Neuriatria e Psiquiatria. 1932; 28(10): 299.

 

            17. Botelho, Adauto. Idéias e sugestões sobre a Assistência dos Psicopatas no Brasil. Arq. Bras. De Neuriatria e Psiquiatria. 1937; 20(3-4): 286-296.

 

            18.       Botelho, Adauto. Idéias e sugestões sobre assistência aos psicopatas no Brasil. In: Questões Médico-Sociais, Rio De Janeiro. 1936; 103-122.

 

            19.       Botelho, Adauto. Influência da psicanálise sobre a psiquiatria. J. Bras.Psiquiat. 1956; 5(2): 93-101.

 

            20.       Botelho, Adauto. Necessidade de psiquiatras para a Saúde Pública. Arq. Serv.Nac. De Doenças Mentais. 1955; 4: 17-19.

 

            21.       Botelho, Adauto. O álcool e a loucura. Arq. Bras. De Higiene Mental. 1940; 12(5): 56-57.

 

            22.       Botelho, Adauto. O centenário do Hospício D.Pedro II. Arq. Serv.Nac. De Doenças Mentais. 1943; 1: 369-411.

 

            23.       Botelho, Adauto. Paralisia geral juvenil e tabes amaurótica. Arq. Bras. De Neuriatria e Psiquiatria. 1919; 15:447

 

            24.       Botelho, Adauto. Paralisia Geral Senil. Arq. Bras. De Neuriatria e Psiquiatria. 1933; 17(4): 219-240.

 

            25.       Botelho, Adauto. Psychiatric assistance in Brasil (general features). Rio De Janeiro, Secção De Cooperação Do S.N.D.M. 1948.

 

            26.       Botelho, Adauto. Realizações do S.N.D.M. Arq. Serv.Nac. De Doenças Mentais. 1955; 4: 287-290.

 

            27.       Botelho, Adauto Tratamento da esquizofrenia pelo cardiazol. In: Livro De Ouro Dedicado Ao Prof.Dr. Mariano R.Castex, Buenos Aires. 1938; 3:3-7.

 

            28.       Botelho, Adauto e Cunha Lopes, Ignácio Da.  Classificação Psiquiátrica. Arq. Assist. a Psicopatas Do Estado De São Paulo . 1948; 14-15: 57-67.

Notes: Relatório Oficial do V Congresso Brasileiro de Psiquiatria

 

            29.       Cunha Lopes, Ignácio da; Botelho, Adauto; Lemos, Jefferson de, e Costa, Ida H. O centenário do Hospício Pedro II. Arq. Serv.Nac. De Doenças Mentais . 1939:183-198.

Notes: Impr. Nacional, Rio de Janeiro

 

            30.       Lyra, Roberto; Botelho, Adauto; Moraes, Osvaldo Domingues de, e Câmara, Aluisio. Homenagens ao Prof. Heitor Carrilho. Arq. Manicômio Judiciário Heitor Carrilho. 1951; 20-23(1-8): 11-27.

 

            31.       Pernambuco Filho, Pedro e Botelho, Adauto. Vícios Sociais Elegantes. Rio De Janeiro, Edit. Liv.Francisco Alves.


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