Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Maio de 2009 - Vol.14 - Nº 5

Psicanálise em debate

Na janela de Sorín, o panorama atual da paternidade (*)

Sérgio Telles *
psicanalista e escritor

O diretor argentino Carlos Sorin diz que seu filme “A Janela” deve muito a “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman. De fato, ambos abordam a velhice e a iminência da morte, ao mesmo tempo em que refletem sobre a difícil relação entre pai e filho. 

Mas se “Morangos Silvestres”, com seu enredo complexo e personagens de grande densidade psicológica, é um rico banquete, o que “A janela” oferece é uma refeição magra e frugal, da qual saímos insatisfeitos, com uma incômoda sensação de fome. 

Em “A Janela”, pouco se sabe dos personagens. Um velho escritor, Dom Antonio, vive isolado em sua fazenda, cuidado por duas empregadas. Está muito doente e por ordens médicas deve ater-se ao leito. Espera a chegada do filho, pianista internacionalmente famoso, que não vê há décadas, em função de um obscuro desentendimento. Tendo em vista a visita do filho, o velho manda afinar o piano há muito abandonado. O afinador encontra soldadinhos de chumbo enfiados entre suas cordas, o que impedia o som de determinadas teclas. Seria uma indicação da antiga belicosidade vivida entre o pai e o filho que emudecera não só o piano, mas a própria comunicação entre eles?  O filho chega com a mulher, o pai brinda com um champanhe guardado para o grande evento e morre em seguida, sem que os dois tenham oportunidade para qualquer aproximação.

O reencontro, cercado de cuidadosos preparativos por parte do pai, termina por não acontecer. Assim como o piano zelosamente afinado permanecerá em silêncio, os personagens não puderam tocar em suas emoções guardadas por tanto tempo.

O expectador também se preparara para o encontro do pai com o filho, na expectativa de entender o motivo da separação e se emocionar com a anunciada reaproximação. Tal como os personagens,  tem de se contentar com a impossibilidade, o vazio, o vácuo. 

Ao deliberadamente fazer um filme frustrante, que provoca no expectador uma vivência de insatisfação  e incompletude,  Sorin,  de certa forma,  transcende a história que conta e a transforma diretamente numa grande metáfora do vazio em torno do qual, segundo Lacan, se organiza nosso psiquismo, o vazio gerador do desejo humano, que busca sem cessar algo inalcançável, para sempre perdido.

Este salto realizado por Sorin não anula o interesse no enredo nem nos impede de nele detectar algumas pistas sobre os personagens e suas desavenças.

Ao intitular seu filme “A Janela”, Sorín sublinha um gesto enigmático de Dom Antonio. Em meio aos arranjos para a chegada do filho, de forma inopinada, ele abandona seu leito de enfermo, seu posto à janela e sai pela porta da casa, embrenhando-se no amplo espaço exterior, no qual sua debilidade se manifesta com toda intensidade.

Porque desobedeceria ele às ordens médicas? Estaria apressando a própria morte, evitando assim encontrar o filho e os velhos conflitos? Ou, pelo contrário, estimulado por sua vinda, nega de forma onipotente sua condição de doente e tenta retomar a plenitude da vida? Seria tudo isso fruto de sua ambivalência frente ao filho?

Por sua vez, ao chegar, o filho parece indiferente e distante, diz pouco lembrar da casa. Ao encontrar os soldadinhos de chumbo em cima do piano, de forma furtiva os guarda no bolso do paletó, como se os escondesse, reprimindo antigas lembranças. 

Uma das poucas informações que temos sobre Dom Antonio é fornecida por um sonho que ele relata logo no início e que retorna no final do filme.

O sonho revive um episódio de sua mais remota infância. Vê a mãe colocá-lo na cama para dormir e sair, atendendo ao chamado do pai, que a leva para a festa que se desenrola no andar de baixo. Em seu lugar, a mãe deixa uma bela jovem a velar por seu sono. A cena evoca o início de “Em busca do tempo perdido” de Proust - o beijo noturno com o qual a mãe de Marcel o punha na cama, sua angústia ciumenta de perdê-la para o pai e para os convidados que a esperavam em outras dependências da casa.

A lembrança de momentos arcaicos através do sonho – que ocorre também em “Morangos Silvestres” – aponta para aquilo que Freud chamou de a atemporalidade do inconsciente. Mesmo em pessoas da mais avançada idade, persistem as imagens e fantasias infantis, passíveis de serem reativadas ao sabor das associações psíquicas e eventos da realidade.

Tal sonho é um prenúncio de sua morte e lembra a interpretação que Freud faz de “Rei Lear”, quando entende que a escolha de Cordélia como a predileta entre as três filhas remeteria à terceira e última forma que toma, no correr de sua vida, a relação do homem com a mulher. A primeira é com a mãe, a segunda com a mulher que ama e que a substitui e a terceira é com a morte, esta “mãe” que mais uma vez vai abrigá-lo no “útero-terra” onde será enterrado. 

Assim, se, por um lado, o sonho de Dom Antonio é uma representação do final da vida e do inevitável  encontro com a morte, por outro, podemos relacioná-lo  com o inexplicado conflito com o filho.

É chamativo que ele relate tal sonho na iminência de reencontrá-lo. E neste momento, aponta o sonho, ele não se vê como um pai que recebe um filho e sim como um filho às voltas com a situação edipiana, a disputar com o pai a posse da mãe. 

Indicaria o sonho fortes traços infantis de Dom Antonio que o teriam impedido de exercer a função paterna? Teria isso impossibilitado a relação pai-filho? Seria este o motivo do rompimento entre os dois?

Pressupondo que a estrutura narrativa tem uma coesão interna, esta é uma possível explicação de porque Sorin, num roteiro tão enxuto, abre um amplo espaço para o sonho do personagem e lhe atribui as características mencionadas.

Assim, “A Janela” mostraria o final melancólico de um homem cujo infantilismo emocional teria impedido uma boa relação com seu filho, coisa que tenta reparar e no que é impedido por sua própria ambivalência. Afinal, como vimos, sua morte parece ter sido precipitada por ele mesmo, ao desobedecer as ordens médicas.

A dificuldade no exercício da função paterna é um achado freqüente na clinica psicanalítica atual. É comum constatarmos a relutância de homens adultos abandonarem as posições narcísicas de filhos protegidos e assumirem as responsabilidades e exigências próprias à paternidade. Ao constituírem família, tais homens se comportam como filhos de suas mulheres e irmãos de seus próprios filhos.

De forma muito mais direta do que esta que rastreamos em “A Janela”, tais configurações podem ser examinadas em outros filmes, como “Uma Babá quase Perfeita” (“Mrs. Doubtfire”, 1993) de Chris Columbus e “Pecados Íntimos” (“Little Children”, 2006) de Todd Field .

Num registro cômico e desabusado, Homer Simpson de “Os Simpson” e Peter Griffin de “Uma família da pesada” (“Family Guy”) ilustram à perfeição este problema.  Tais personagens jamais ocupam o lugar do pai. Quando muito, são os filhos mais velhos e irresponsáveis da casa, delegando a Marge e Lois,  suas mulheres, os encargos da vida familiar. O extraordinário sucesso que fazem na televisão estes seriados de animação para adultos é um bom indicador do quanto eles representam e simbolizam este sintoma social concernente à forma como a paternidade é exercida nestes tempos regidos pelo narcisismo.

Em “Happiness”(1998) de Todd Solondz , esta situação adquire uma chocante radicalidade: um pai confessa ao filho de dez anos ter sodomizado o coleguinha dele que viera passar o final de semana em casa. Numa  inversão completa, o pai se comporta como uma criança, pedindo socorro ao filho, colocado no lugar de pai.

Há uma distância incomensurável entre Homer Simpson ou o pai mostrado por Solondz e o fantasma do pai de Hamlet, (HAMLET, 1992, de Franco Zefirelli), poderosa figura que vem assombrar o filho e dele exigir o cumprimento de uma vingança.

 

Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de “O psicanalista vai ao cinema I e II” (Casa do Psicólogo), entre outros.

 

(*) – Este artigo, com pequenas alterações, foi publicado no suplemento “Cultura” do jornal “O Estado de São Paulo”, em 17/05/09, sob o título “Em nome do pai (e do filho também)”.


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