Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

Dezembro de 2009 - Vol.14 - Nº 12

Psiquiatria na Prática Médica

SINTOMAS ANSIOSOS, DEPRESSIVOS E O USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS EM ESTUDANTES DE MEDICINA

Prof. Dra. Márcia Gonçalves
Coordenadora da disciplina de psiquiatria da UNITAU

INTRODUÇÃO

A profissão médica tem suas características peculiares e o treinamento se inicia a partir do primeiro ano do ensino médico. Sendo uma das profissões que mais se aproxima do contexto privado da vida das pessoas, freqüentemente o médico está presente nos piores e nos mais emocionantes momentos da vida de seus pacientes. (doença, morte e nascimento).1

A prática médica , bem como seu ensino exige dos estudantes e dos profissionais uma estrutura emocional preparada para dar o suporte sem que o envolvimento  pessoal interfira em suas condutas. O treinamento desta estrutura passa por um período de des-sensibilização, que expõe o estudante gradativamente ao contato com os enfermos, com cargas crescentes de responsabilidade e de conscientização dos limites de sua possível atuação, bem como os insere em contextos de políticas de saúde.

Além do esforço cognitivo que deve ser colocado totalmente á disposição da apreensão da diversidade e do denso conteúdo didático e pedagógico do curso de medicina, os estudantes (principalmente os internos e residentes) passam por situações limítrofes de stress fazendo-os lidar com situações inusitadas, onde ainda se sentem despreparados e inseguros Estas situações se caracterizam em uma prováveis fontes de ansiedade.

Outras situações que trazem forte impacto psicológico para o estudante esta na submissão à hierarquia hospitalar. Ele deve se submeter desde o inicio do curso à uma escada hierárquica (Residentes1,Residentes2,Residentes3,etc... auxiliares de ensino, plantonistas não professores, professores assistentes, professores titulares, etc), onde fica submetido a uma pressão psicológica de controle e de falta de autonomia que perdura por anos com restrição da liberdade pessoal.

O ingresso ao curso de medicina ocorre em um momento de vida (18 a 25 anos) onde ainda é normal a insubordinação, o estabelecimento de valores próprios e pessoais, quebra de regras sociais, bem como uma forte reação contra qualquer autoridade.

Neste contexto a hierarquia e a cobrança às quais o aluno deve estar submetido podem desencadear desvios de comportamento, bem como condutas inadequadas no que diz respeito ao uso de substâncias psicoativas, drogas ilícitas, álcool, tabaco e tranqüilizantes,como fator de  alívio da ansiedade e/ou quebra de regras próprias desta faixa etária.

Diversos trabalhos da literatura demonstram a prevalência do uso de drogas por estudantes de medicina e profissionais médicos.

KERR-CORREA (1999) avaliou o comportamento dos estudantes  da Faculdade de Medicina de Botucatu - Unesp, comparada com outras oito escolas médicas paulistas (uso na vida, nos últimos 12 meses e nos últimos 30 dias).1

 Alunos do 1º ao 6º ano entre 1994 e 1995, com 5.227 estudantes responderam um questionário de auto-respostas, anônimo, incluindo o questionário da Organização Mundial da Saúde para levantamento de uso de drogas e álcool.1 Setenta e um por cento (3.725) dos alunos responderam ao mesmo, e destes, 421 eram de Botucatu. Não houve diferenças estatisticamente significantes entre escolas e, nos 30 dias anteriores ao preenchimento do questionário, a prevalência do uso de drogas para os estudantes de Botucatu foi a seguinte, com a variação entre outras escolas mostrada entre parênteses: álcool 50% (42-50%); tabaco 7% (7-13%); solventes 8% (7-12%); maconha 6% (6-16%); benzodiazepínicos (BZD) 3% (2-9%); cocaína 0,5% (0,2-4%); anfetaminas 1 % (0-1%). 1

Embora tenha se encontrado um uso crescente de todas as drogas do 1º ao 6º ano, e em especial os BZD, os estudantes não aprovam este uso. 1

A análise de regressão logística indicou que o uso de álcool e drogas foi favorecido por: a) ser homem; b) perder aulas sem razão e referir ou ter muito tempo livre nos finais de semana; e c) ter uma atitude favorável em relação ao uso de álcool e drogas.

As mulheres iniciam uso mais precocemente e o fazem mais freqüentemente.

 O padrão de uso de álcool e a prevalência do abuso do mesmo entre estudantes de medicina de uma faculdade do interior do Estado de São Paulo foi estudado por BORINI.  De um total de 322 estudantes, 260 (80,7 por cento) faziam uso de bebidas alcoólicas.2 A idade média de início do uso foi de 16,5 . Apenas 35 estudantes (13,5 por cento) iniciaram o uso de álcool durante o curso de medicina. 2

Os estudantes do sexo masculino bebiam com mais freqüência e consumiam maior quantidade de álcool que os do sexo feminino. 2

Os homens reduziam acentuadamente a quantidade de álcool ingerida a partir do 4º ano, e a mesma se mantinha constante até o último ano. As mulheres reduziam o consumo a partir do 3º ano, mas apresentavam discreto aumento da quantidade consumida no último ano do curso.2

Cerca de 18,1 por cento dos estudantes foram classificados como bebedores excessivos e 5,0 por cento constituíam sérios candidatos a alcoolistas. 2

Na Faculdade de Medicina de Marília - SP com relação ao uso e abuso de álcool, a maioria dos estudantes (87,1 por cento) aceitava o uso de bebidas alcoólicas desde que feito com responsabilidade e que näo provocasse embriaguez . 3

No global, o conceito de hábito/vício foi o mais freqüëntemente admitido (43 por cento), seguido do de doença (36,1 por cento). A partir do 4º ano do curso houve mudança da predominância do conceito de hábito/vício para a doença. 3

  Nos Estados Unidos foi realizado um estudo com 23 escolas de medicina, onde os estudantes respondiam a um questionário anônimo onde foram detectados o uso de álcool  87.5%; Maconha, 10.0%; cigarros, 10.0%; cocaína, 2.8%; tranquilizantes, 2.3%; opiácios

 (outros que não a heroína, 1.1%; psicodélicos outros além do LSD (lysergic acid diethylamide), 0.6%; anfetaminas, 0.3%; barbitúricos, 0.2%; LSD, 0.1%; heroína,0.0% 4

Comparados com a população geral os alunos apresentavam maior uso de álcool e tranqüilizantes e psicodélicos que não o LSD.

MENEZES (1996)5 Realizou-se estudo transversal com estudantes do primeiro ao quinto ano do curso de medicina, em 1996. A amostra foi de 449 alunos que responderam a questionário auto-aplicável 5 A prevalência de tabagismo foi de 11%, comparada com 14% em 1991 e 21% em 1986. 5 A maioria dos alunos mostrou-se favorável à proibição do fumo em locais de ensino e assistência e afirmaram que o tema era pouco valorizado no currículo da faculdade.5

Além dos problemas relacionados com uso ou abuso de substâncias psico-ativas, outros problemas graves que envolvem a saúde mental podem ser detectados entre os profissionais médicos e estudantes de medicina .6

O médico por ser, na maioria das vezes, ativo, ambicioso, competitivo, compulsivo, entusiasta e individualista, é facilmente frustrado em suas necessidades de realização e reconhecimento. Isto pode ser suficiente para produzir ansiedade, depressão e necessidade de cuidados psiquiátricos.7

Mas se houver preconceitos com a Psiquiatria, o médico buscará outras opções, como a somatização, abuso de álcool e drogas e o suicídio.7

MELEIRO6 diz que: “... Existe a necessidade de nossa  classe se tornar mais sensível a existência desse problema e mais apta a reconhecer "o pedido de ajuda" de um colega e de si mesmo, sem, contudo, deixar de zelar pelos interesses do público...”6

A relação entre queixas de sonolência diurna crescente e desempenho acadêmico de estudantes de medicina da Universidade de Brasília foi avaliada pela escala de sonolência de Epworth em 172 estudantes de medicina no início de agosto de 1997 e no final de novembro (respectivamente início e final do semestre letivo).8

Estudou-se o desempenho acadêmico pela análise do número de menções SS (valores entre 9,0 e 10,0) e MM (valores entre 5,0 a 6,9) obtidas no final do referido semestre letivo.8

Os resultados revelam sonolência diurna desde o início do semestre em 68 alunos (39,53%) e, nos 104 restantes, observou-se sonolência diurna crescente no decorrer do semestre em 38 alunos (22 %).8

Observou-se também que os estudantes mais sonolentos apresentaram pior desempenho acadêmico.8

Numa época em que se discute muito a qualidade dos produtos e serviços, cabe pensar criticamente sobre os esquemas de horários e freqüências de plantões dos serviços de saúde .9

Nessa organização do trabalho médico, quase sempre feita por colegas de profissão , encontramos jornadas e escalas de trabalho que nem sempre respeitam os princípios biológicos dos próprios médicos, assim como existem muitos profissionais que, por várias razões, fazem um grande número de plantões.9

A privação crônica de sono e a perturbação da ritmicidade associada a ela provocam um aumento do risco de acidentes de trabalho.9

GOLDMAN, que analisou 33 cirurgias usando um circuito fechado de TV, e observou que os residentes que tinham dormido menos que duas horas na noite anterior tinham uma condição de desempenho inferior aos demais residentes, e gastavam em média 30% a mais de tempo nos mesmos atos cirúrgicos. 10-11.

Outro dado alarmante relacionado com a profissão médica é o alto escore de suicídio. SIMON E LUMRY apontam algumas razões para a elevada taxa de suicídios entre os médicos :12

1)      Médicos tendem a negar o estresse de natureza pessoal.

2)      Médicos tendem a negar o desconforto psicológico.

3)      Inclinações suicidas são acobertadas (tratamento mais difícil).

4)      Médicos elaboram, mais freqüentemente, esquemas defensivos (fecham-se para qualquer intervenção terapêutica eficaz).

5)      Negligência da família e dos colegas (ele é médico, sabe se cuidar).

6)      Os médicos têm o meio do suicídio ao alcance das mãos (métodos mais eficazes para o êxito).12

Em 2003, o editorial do Journal American Association  expôs que os médicos com uma predisposição mórbida, e sem princípios elevados ou inibições morais, optavam pelo suicídio como uma maneira direta e efetiva de eliminar seus problemas.13

Merecem atenção, aqui, as tendências materialistas que acreditamos existir entre os médicos, pois a morte lhes é familiar, em todas as suas formas, além de terem o meio do suicídio ao alcance das mãos. 13

Existe a necessidade de se eliminar as barreiras de busca de auxílio de profissionais de saúde mental pelos profissionais médicos e pelos estudantes de medicina. 13,14

Diante das diversas categorias de problemas de saúde mental a que os médicos e estudante de medicina estão expostos, trabalhos da literatura apontam quais seriam as prerrogativas de atenção e continência. 13,15,16

Para o médico já em exercício da profissão, um programa de conscientização e orientação de que a informação técnica anteriormente adquirida não lhe dá imunidade aos conflitos emocionais .6

 MELEIRO sugere que devem ser realizadas:

1) Publicações constantes para familiarização por parte dos colegas médicos com a profilaxia e reconhecimento dos sinais preditivos de suicídio.6

2) Desenvolvimento de uma assistência psiquiátrica e psicoterápica para médicos em risco de suicídio.6

3) Preparo de profissionais para lidar com esse grupo de pacientes, pois os sentimentos positivos e negativos da contratransferência se misturam, principalmente os de identificação.6

4) É imperativo que a equipe defina sua relação com o paciente-médico e enfatize a sua responsabilidade de cooperação, evitando privilégios especiais.6

5) A equipe não deve ser  familiar (conhecida) do paciente médico.6

SALES acredita que é fundamental uma ação preventiva para evitar sobrecargas e intensa fadiga com suas conseqüências para a relação médico-paciente e para a qualidade de vida dos médicos e residentes.11

Os resultados de muitos estudos sugerem a necessidade de as universidades estabelecerem uma política clara de orientação sobre uso de drogas e álcool para os estudantes, incluindo mudanças curriculares e programas de prevenção.1

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1-     KERR-CORREA, F.; ANDRADE, AG.; BASSIT, AZ. Uso de álcool e drogas por estudantes de medicina da Unesp. Rev. Bras. Psiquiatr.,  abr./jun. 1999, vol.21, no.2, p.95-100.

2-     BORINI, P; OLIVEIRA, CM; MARTINS, MG; GUIMARÄES, RC. Padräo de uso de bebidas alcoólicas de estudantes de medicina (Marília, Säo Paulo) Parte 1 / Patterns of alcoholic beverages usage by medical students ; J. Bras. Psiquiatr;43(2):93-103, fev. 1994.

3-     BORINI, P; OLIVEIRA, CM; MARTINS, MG; GUIMARÅES, R C. Conceitos, concepcöes etiológicas e atitudes de estudantes de medicina sobre o uso e abuso de álcool: correlacöes com os padröes de uso - parte 2 / Concepts, etiological conceptions, and attitudes of medical students on the use and abuse of alcohol: correlations with the patterns of alcohol usage J. bras. psiquiatr;43(3):123-31, mar. 1994

4-     BALDWIN DC; HUGHES PH; CONARD SE; STORR CL; SHEEHAN DV. A survey of 23 medical schools. JAMA. 1991 Apr 24;265(16):2110-1/ JAMA; 265(16):2074-8, 1991 Apr 24.

5-     MENEZES, A. PALMA, E., HOLTHAUSEN, R. Evolução temporal do tabagismo em estudantes de medicina, 1986, 1991, 1996. Rev. Saúde Pública, abr. 2001, vol.35, no.2, p.165-169.

6-     MELEIRO, A.M.A.S. Suicídio entre médicos e estudantes de medicina. Rev. Assoc. Med. Bras., abr./jun. 1998, vol.44, no.2, p.135-140.

7-     LYMAN J. Student suicide at Oxford University. Student Med 1961; 10: 218-34.

8-     RODRIGUESRN,D;VIEGAS, CA,A;ABREU&SILVA,AA. Sonolência diurna e desempenho acadêmico em estudantes de medicina.  Arq. Neuro-Psiquiatr., mar. 2002, vol.60, no.1, p.6-11.

9-     GASPAR, S., MORENO, C. e MENNA-BARRETO, L. Os plantões médicos, o sono e a ritmicidade biológica. Rev. Assoc. Med. Bras., jul./set. 1998, vol.44, no.3, p.239-245.

10-  SAMKOF FJS, JACQUES CHM. Review of studies concerning effects of sleep deprivation and fatigue on residents' performance. Acad. Med. 1991; 66(7): 687-93.

11-   SALES PP, BERNA MG, JIMÉNEZ AP.  La privación de sueño y su efecto sobre el estado de animo y el rendimiento de los residentes. Rev Clin. Esp 1993; 173(7): 384-6.

12-  SIMON W, LUMRY GK. Suicide among physician-patient. J Nerv. Ment. Dis. 1968; 147(2): 105-12

13-   CENTER C, DAVIS M, DETRE T, FORD DE, HANSBROUGH W, HENDIN H, LASZLO J, LITTS DA, MANN J, MANSKY PA, MICHELS R, MILES SH, PROUJANSKY R, REYNOLDS CF 3RD, SILVERMAN MM. Confronting depression and suicide in physicians: a consensus statement. JAMA. 2003 Jun 18 ;289(23):3161-6.

14- GOREINSTEIN C; ANDRADE LHSG; ZUARDI A.W. Escalas de avaliação clinica em psiquiatria e psicofarmacologia: Versão atualizada e ampliada da Revista de psiquiatria clinica .vol 25,nº 5 e 6, 1998 vol.26 n1 e 2, 1999.

15- CARLINI, E.A.; CARLINI-COTRIN, B.; SILVA-FILHO; A.R. & BARBOSA, M.T. _ II Levantamento Nacional sobre o Uso de Psicotrópicos em Estudantes de 1º e 2º graus, 1989.

16-   SOUZA,F.B, LANDIM.F.M,;MORAIS.F.M, CARNEIRO. B. A.F;  Consumo de drogas e desempenho acadêmico entre estudantes de medicina no Ceará . Revista de Psiquiatria Clínica, VOLUME 26,NÚMERO 4,JULHO/AGOSTO  DE 1999.

 

 


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