Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

Agosto de 2009 - Vol.14 - Nº 8

Psiquiatria na Prática Médica

PRESENÇA DE COMPANHEIRO COMO PROTETOR DE SINTOMAS
DEPRESSIVOS EM PACIENTES COM CÂNCER DE MAMA
O suporte emocional das relações afetivas em pacientes com câncer de mama.

Márcia Gonçalves
Joel Giglio
Marcos Ferraz

Introdução

Existem muitas evidências na literatura que a continência do grupo social (seja ele familiar, religioso ou outro) contribui para a boa qualidade de vida e o ajustamento psicossocial em pacientes acometidos com câncer. O  papel da feminilidade , funcionamento psico-sexual e as relações intimas e os relacionamentos podem sofrer prejuízos em decorrência do impacto do diagnóstico e do ajustamento ao tratamento. (1,2,3,4) .

Parceiros , Família e Continência emocional

 O câncer de mama pode trazer conseqüências emocionais não apenas para a paciente , mas para todo o sistema familiar. O maior impacto inicialmente é  sentido pelos maridos e a relação conjugal  , seguindo para os filhos e posteriormente atingindo  as responsabilidades da vida diária , que deixam de ser cumpridas a contento.

 A família  e não apenas o próprio doente  sofrem  experiências negativas e  demandas na continência do câncer . Uma maior atenção deve ser dada para os membros das famílias a fim de que eles possam manejar  suas necessidades  e possam dar suporte para as pacientes(5).

 Trabalhos exploram os papéis parentais no sentido de se avaliar quem são os verdadeiros suportes emocionais para pacientes com doenças crônicas. E os parceiros indiscutivelmente foram os que mais  deram suporte às pacientes; a família não ocupa o  papel principal na procura de conforto. A referência de pacientes com relação à busca do apoio familiar reside em estruturar uma maior afirmação. Depois dos parceiros, as mulheres recorriam aos conselheiros profissionais, religiosos ao invés da família e amigos. Afeto, afirmação e reciprocidade de ambos os parceiros e família estão associados a menos grau de depressão, altos escores de qualidade na vida conjugal e melhor funcionamento familiar(6).

 Os parceiros , tanto quanto o desempenho escolar das crianças são afetados pela experiência da doença. Para os parceiros existe ainda o problema da depressão e da tensão conjugal (7). Os estudos do impacto sobre as crianças ainda merecem ser visto com outros trabalhos pois os efeitos variam de acordo coma fase do desenvolvimento infantil..(7)

A gama de pesquisa que envolve a modificação do suporte ao paciente com câncer  inclui a presença de cuidados aos parceiros , que é quem carrega a ação de facilitar a adaptação após o diagnóstico e o tratamento do câncer de mama. O conceito de “veiculo” foi introduzido e ele prevê  o suporte para reduzir os sintomas de stress,  o desajuste emocional, garantir o status psicológico,  funcional e a alta qualidade entre as relações interpessoais para a participação das pacientes nos grupos de ajuda.(8)

 Muitos fatores em torno do percurso da doença afetam a relação com as crianças e o subseqüente ajustamento psicológico.Programas de suporte para a família, tanto quanto para os pacientes são claramente indicados. Muitos tipos de serviços de suporte atualmente estão sendo estudados.  São eles: suporte de Informação., suporte de orientação e interpretação, suporte de antecipação de prováveis acontecimentos no processo da doença, , suporte físico,  técnicas de construção de ajustamento(7).

Estudos prospectivos sobre o impacto e sobre as questões emocionais que surgem a partir do câncer de mama em  mulheres jovens demonstram que estas  são particularmente vulneráveis a efeitos negativos no ajustamento psicológico à doença. Apesar de não haver uma relação direta da idade com ajustamento dos maridos, os jovens maridos tiveram maior dificuldade para os cuidados  domésticos e de sustentar o papel dos afazeres domésticos e um grande numero de homens referem grande stress, em um numero maior que os mais velhos. A direção para futuros trabalhos sobre o impacto sobre jovens e suas famílias devem ser investigados (5).

Auto-imagem

Pacientes com câncer de mama revelaram que existem sintomas físicos e alterações no comportamento sexual . Com relação ao impacto do tratamento (mastectomia) a maior freqüência de sensações adversas são observadas na atitude com relação à auto-imagem. A nudez, quando as pacientes se observam ou quando são vistas pelos parceiros sempre é um momento de tensão, constrangimento e desconforto,   tendo uma certa interferência na vida sexual e auto-estima. Mudanças  nas relações emocionais entre os parceiros foram mais favoráveis do que na vida sexual(9).

Os homens normalmente se mostram tolerantes  com relação à doença. O medo e neuroticismo   encontrados em alguns casais aparentemente correspondem  mais com a deterioração da vida sexual  do que com outros fatores emocionais(9,10).  Há  experimentam alteração no relacionamento com o parceiro e disfunções sexuais(11).

  Apesar da dificuldade do enfrentamento da mutilação causada pela mastectomia , um número pequeno de mulheres se interessam na cirurgia de reconstrução da mama,  pois o maior enfoque das atenções das pacientes está classificado  em como enfrentar os efeitos imediatos do câncer, lidar com os efeitos paralelos ao próprio tratamento  e um ajustamento psíquico a um futuro incerto.  Com relação à imagem do corpo, os estudos atuais são  controversos, pois o medo da recidiva sempre sobrepõe(10,11).

Alguns trabalhos revelam que não existe  alteração significativa no que diz respeito aos relacionamentos afetivos , sendo que as pacientes recebem carinho e atenção dos companheiros independentemente das alterações da vida sexual(12).

A imagem do corpo pode ser  moderadamente importante. A rejeição foi um aspecto desvalorizado e mulheres jovens tinham fortes preocupações com questões sexuais e com o parceiro. Vida , dor e rejeição  contribuíram para predizer disfunções sociais Preocupações com a sexualidade foram preditivos de  psico-sexual e emocional disfunção(13).

 Observando a  extensão da cadeia que envolve o bem estar nestas pacientes com câncer de mama ficou evidenciado que as maiores  seqüelas do câncer de mama estão  na imagem do corpo e na reação do parceiro(13).

O Papel da boa comunicação

Trabalhos examinaram distúrbios de humor entre mulheres com câncer de mama e a relação com o estado civil, qualidade de relacionamento e o enfrentamento dos parceiros perante os distúrbios de humor das pacientes (14), e com um aprofundamento desta observação, resultados mostraram que pacientes com menor desajustamento psicossocial tinham uma alta coesão e expressão nos relacionamentos e  os conflitos com os parceiros eram coincidentes com distúrbios de humor(10). Uma boa comunicação com o parceiro freqüentemente tem sido caracterizada como um importante aspecto da adaptação e aceitabilidade da terapia(15).

Hoje existe um consenso que as mulheres com câncer de mama se beneficiam com uma relação aberta em suas dificuldades e conflitos. Além disso,  para o  alivio do stress do diagnostico e do tratamento deve ser também  avaliado o relacionamento afetivo e suporte conjugal em detrimento do  enfrentamento individual(14)

Para as pacientes. é mais fácil a discussão com os parceiros durante a doença (62%) do que com os médicos e psicólogos (15%)(16) .

Em uma linha teórica  de estudo sobre comunicação ,  ficou demonstrado que o assunto sobre o câncer  na comunicação familiar  é mais abertamente discutido quando se obtém uma  reabilitação positiva  , em um período   com média de 13 semanas ,  A boa comunicação coincidiu com  menor incerteza com relação ao futuro, menor sentimentos negativos, menor controle, melhora da  auto-estima, diminuição de medos psicológicos e de perdas físicas(17).

A partir disto , uma comunicação mais aberta foi relatada como um melhor suporte para os membros da família e mais uma vez foi valorizada uma maior discussão com o parceiro pela relevância que exerce nos aspectos positivos da reabilitação(17).

Toda a gama de interação entre a família, amigos e colegas vem sendo investigada  ,sob os mais diversos enfoques metodológicos,  visando não só o acompanhamento dos pacientes como também a atuação preventiva . As conclusões corroboram com o pensamento de que  a psicoterapia pode auxiliar as mulheres a enfrentar as  dificuldades das mudanças na auto-imagem e funcionamento sexual .Terapias de casais e terapeutas sexuais podem compor a  equipe dos serviços de saúde mental para pacientes com câncer(18,19).

Mudanças qualitativas com  menor conflito  nos relacionamentos  problemáticos , ou um maior esforço para a proteção do parceiro na comunicação diária , são observações  que garantem a eficácia de uma intervenção psicológica no processo delineado desde o diagnóstico até o final do tratamento (18)

Parceiros e recidiva do câncer

Apesar desta  significativa importância,  pouca atenção tem sido dada aos parceiros de mulheres com câncer de mama. Os efeitos a longo tempo do diagnóstico e tratamento para os parceiros podem ser minimizados pela intervenção de profissionais de saúde como enfermeiras e outros, já que  na literatura se observa  o medo da recorrência e problemas no relacionamento conjugal  relativo ao câncer de mama os quais são devastadores para a qualidade de vida(20).

Trabalhos de desenho qualitativo estudam casais que tiveram a experiência de recorrência em câncer de mama. Avaliaram a perspectiva de cada um, o humor, a qualidade da relação a dois. Os casais trabalham ativamente para não mudar muito suas vidas e para manter o câncer de mama em segundo e não em primeiro plano. Procuram exercer um controle sobre o manejo de seu cotidiano , não deixando  o câncer   mais relevante que os outros aspectos da vida, e tentam manter a esperança da cura  sempre em mente(21).

No balanço de suas vidas, os casais se envolveram em 4 processos: Manejo da doença ; organização  do dia a dia do tratamento;  Sobrevivência, cura ; e preparação para a morte. Freqüentemente, um ou ambos os membros do casal de 60% dos casais estiveram fora da faixa considerada normal para depressão e ajustamento de casais na entrevista (21).

A maneira que os casais de recidiva de câncer de mama  equilibram pode ser entendido através da maneira pelo qual eles tentam  facilitar o  funcionamento de seus comportamentos habituais, entretanto não conseguem elevar seu humor nem sua qualidade de relacionamento.

O manejo do relacionamento de casais com recorrência de câncer de mama pode ser uma estratégia adicional  mais para beneficiar estas pacientes. Esta atenção inclui auxilia-los a trabalhar seus pensamentos de tristeza, sentimentos de instabilidade , encontrar meios de dar continência mútua . Auxilia-los também a aprender maneiras de expressar seus pensamentos de tristeza e sentimentos sem se sentirem culpados(21).

Poucos trabalhos têm sido realizados para caracterizar o efeito das doenças crônicas sobre a família. Foi testado um modelo de funcionamento familiar durante a doença crônica em mulheres. A análise dos resultados mostrou que as pacientes apresentavam uma maior demanda de associação com seus parceiros desde que se estabelecia o diagnóstico. A demanda do parceiro associada à doença produziu desajustamento entre os casais. Comportamentos de enfrentamento introspectivos foram usadas freqüentemente  por familiares de mulheres que experimentavam  bom ajustamento com humor deprimido .  Nas famílias onde não havia depressão existiu dificuldades de relacionamento(21). O comportamento das mulheres com seus filhos foi positivamente influenciado por um bom relacionamento entre o casal (21).

Suporte familiar e ajustamento

O ajustamento negativo das pacientes sem companheiro com câncer de mama pode ser notadamente evidente na medida em que elas apresentaram–se muito mais vulneráveis para a resolução de problemas do que as que possuíam apoio do companheiro(18).

Para mulheres com elevado autoconceito e maior suporte social houve menos vivencia de depressão, ansiedade  durante o stress agudo  do que as mulheres que possuíam auto conceito baixo e menor suporte social após diagnóstico de câncer(22).

 Estão crescendo as evidências que mulheres com suporte de seus maridos tem um ajustamento relativamente bom , mas o impacto sobre as mulheres que não possuem companheiro ainda é pequeno. (4)

Relacionamentos  tratamentos alternativos no setor primário, sintomas de stress, suporte social  e psicossocial ajustamento em 101 mulheres sem companheiros foram investigadas usando dados coletados durante a fase pós-operatória. As mulheres experimentaram baixos níveis de problemas de ajuste psicossocial e mantiveram altos níveis de suporte social . O suporte social e sintomas de stress encontraram  significativas proporções na variação do ajustamento psicossocial, enquanto que no tratamento alternativo primário não houve este desajustamento(4,7).

Sintomas estressantes devem ser levados em conta e devem ser vistos como mais uma variável para a compreensão da variação do ajustamento psicossocial em câncer de mama (4,7).

As implicações deste conhecimento para os profissionais de saúde podem contribuir para facilitar um ajustamento positivo em mulheres sem companheiro .O direcionamento para futuros estudos é sugerido(4).

 

Relacionamentos afetivos e suporte emocional

A literatura mostra  que o suporte do relacionamento interpessoal é importante para a adaptação frente á doenças serias. Entretanto pesquisadores tem enfatizado as  limitações do suporte social(22).

Existe a preocupação em examinar como um auxílio informal  para o parceiro pode interferir na resposta psicológica de mulheres com câncer de mama. A satisfação com o parceiro esta associada a um bem estar psicológico das pacientes (23)

Perda ou ausência do companheiro

Mesmo quando as mulheres vivenciam um bom relacionamento com outras pessoas , isso não compensa a falta de um bom relacionamento interferindo negativamente no bem estar psicológico.  A boa comunicação com o parceiro foi caracterizada por alto grau de empatia e baixo nível de negação. Achados sugerem que uma intervenção no relacionamento entre os casais pode ser uma maneira de reduzir o desajustamento psicológico destas pacientes(23).

O autoconceito também foi relativo no stress agudo e no stress normal, bem como o suporte social, entretanto foi amplamente relatado na fase aguda. Um trabalho  para se avaliar os recursos e a resistência pessoal na adequação das situações de stress agudo e implicações para a prevenção preventiva devem ser valorizadas(22).

Para pacientes com neoplasia mamária a perda de um companheiro (luto), ou situações de divórcio,  dificuldades e ajustamento sexual poderiam ser relevantes com relação à  depressão, quando avaliada através do estado civil e a condição de ter ou não um companheir (22) A questão  da sexualidade também aqui se encaixa, já que a mastectomia para mulheres que ainda estão sem companheiro poderia ser um fator de constrangimento (23).

 Outro fator que os estudos sobre a qualidade de vida em pacientes com câncer tem levantado, é a  essência estética e feminilidade. A cirurgia conservadora tem sido apontada como uma maneira de se evitar maiores transtornos com relação à questão estética do que a mastectomia radical (24).        

O ajustamento psicológico dos companheiros de mulheres mastectomizadas também foi estudado (24). A população foi dividida entre cirurgia radical e conservadora. (20 pacientes com cirurgia conservadora e 36 com cirurgia radical). Os companheiros das pacientes com mastectomia radical ficaram significativamente mais deprimidos do que os das que fizeram cirurgia conservadora após 4 meses da cirurgia. O nosso trabalho não foi extensivo à pesquisa dos familiares das pacientes mastectomizadas(24).

Atualmente se faz a associação do  suporte terapêutico da psicoterapia em grupo (familiar), à diminuição dos sintomas de ansiedade e depressão em pacientes acometidas com câncer de mama e a diminuição da ansiedade das pacientes. Existe a  diminuição das visitas ao médico, os exames e as admissões hospitalares desnecessárias(25).

Fortes tendências de pensamento foram recorrência, dor, morte, continência para tratamento adjuvante e contas. Em suma, a adaptação ao câncer de mama é um processo que envolve diversos aspectos do espaço de vida dos pacientes(13) .

Objetivo

Determinar se  a presença de companheiro é um fator psicossocial relevante contra sintomas depressivos em pacientes com neoplasia mamária.

Metodologia.

Foram avaliadas pacientes com diagnóstico clinico e laboratorial de neoplasia mamária triadas do hospital Perola Byngton de São Paulo e Hospital Santa Isabel de clínicas de Taubaté,e realizadas entrevistas de aspectos psicosociais, escala de beck para depressão.

Resultados

A distribuição do estado civil foi assim realizada: Em 190 pacientes entrevistadas temos:

Pacientes com companheiro= 110 - Pacientes sem companheiro= 80;

TABELA:  CORRELAÇÃO - ESTADO CIVIL – DEPRESSÃO

Tabela que correlaciona a presença ou ausência de depressão com o estado civil das pacientes (pacientes com ou sem companheiro). Pelas técnicas de Mantel-Haenzel no qui-quadrado temos os seguintes resultados para a correlação. Mh = P.value = 0.05, portanto significante para esta técnica.

 ESTADO CIVIL     DEPRESSÃO

NUMERO DE  PACIENTES 

Beck > 18 /com depressão

  NUMERO PACIENTES  

 Beck <18/ sem depressão

TOTAL

COM COMPANHEIRO

23

87

110

SEM COMPANHEIRO

27

53

80

TOTAL

50

140

190

 

Erro! Não é possível criar objetos a partir de códigos de campo de edição.

Escore da escala de Beck acima de 18 = com depressão /Escore da escala de Beck abaixo de 18 = sem depressão .Através de avaliação estatística no Q.quadrado obtivemos que pelas técnicas de Uncorrect = 0.0471931 - Mantel Haenzel = 0.477785.(P.value= Mantel Haenzel=0.00732868)ß SIGNIFICATIVO PARA A CORRELAÇÃO

Discussão.

No nosso trabalho foram avaliadas 190 pacientes acometidas de neoplasia mamária e como resultado obtivemos um valor significativo onde a presença de companheiro poderia ser considerado um dos fatores de proteção contra sintomas depressivos nestas pacientes .A correlação entre presença de companheiro, suporte familiar e psicossocial encontra na literatura resultados que corroboram com os valores encontrados em nossa avaliação.

MORRIS (1997), estuda o ajustamento social de pacientes após 2 anos de cirurgia radical e não encontra significância para o estado civil. A condição de ter ou não um companheiro envolve questões de ordem pessoal e social. A  boa comunicação com o parceiro, entretanto foi apontada como um fator positivo na aceitabilidade da terapia(26).

GONÇALVES,FERRAZ,GIGLIO (1996), encontraram um valor significativamente maior de depressão em pacientes mastectomizadas que não possuíam companheiro. Nosso trabalho sugere a necessidade de se criar uma atenção maior por parte dos departamentos de saúde mental para estas pacientes(3).

Na nossa experiência em dois hospitais de referência em  tratamento de pacientes com câncer de mama,  procuramos observar os aspectos psicosociais das pacientes entrevistadas. As pacientes normalmente  faziam parte de um lócus social  de médio a baixo (normalmente com renda familiar baixa), tendendo a cair após o tratamento.

As pacientes sempre mostraram- se receptivas e colaborativas diante da pesquisa demonstrando uma preocupação em auxiliar o desenvolvimento dos conhecimentos. Muitas referiam que ficavam muito satisfeitas em poder ajudar com sua experiência, demonstrando solidariedade e compaixão, através de seu sofrimento.

Foi possível observar além da preocupação com o próprio bem estar, e apesar do medo das prováveis repercussões da doença, uma intensa ligação com os companheiros e com a família, chegando até a mencionar um certo cuidado para com os companheiros em detrimento da sua condição que exigia cuidado.

 

 

Preocupação com a manutenção do tratamento , seja através do custo do tratamento para a família e para os filhos , bem como uma necessidade de  auto-sacrifício pela família. Entretanto não podemos afirmar que este seja um perfil de todas as pacientes, pois nosso trabalho não estruturou uma metodologia adequada para o estabelecimento de perfis emocionais.

Mudanças do padrão do comportamento como uma nova busca de contatos sociais após o tratamento também foi observado. Algumas pacientes que referiam  ter tido sempre um comportamento arredio  no contato social tentavam participar de festas, bailes com o companheiro demonstrando uma maior solidariedade com o parceiro e uma preocupação com uma possível recidiva. Estas pacientes mencionavam que se caso houvesse uma recidiva ou se viessem morrer, os parceiros estariam inseridos em algum meio social. Entretanto esta revelação elas  diziam em total confidência.

Foi observado uma necessidade de continência psicológica nas pacientes que procuravam saber o local e como poderiam continuar a conversar com a pesquisadora.

Nas nossas entrevistas ficou nitidamente evidenciado que a perda do companheiro  (morte) independente do tempo acontecido foi considerado o  evento mais traumático de toda a existência em praticamente todas as pacientes que tiveram esta experiência, demonstrando o valor afetivo das relações conjugais.

Sentimentos de  mágoa e o ressentimento foram observados nas pacientes que tiveram perdas afetivas  durante a vida, e não houve regressão dos sentimentos experenciados nestas pacientes , mesmo quando elas conheceram ou se envolviam  em  novos relacionamentos. O sentimento de traição e deslealdade aparentemente ficou como uma marca na experiência emocional deixando uma cicatriz emocional indelével.

Em uma das nossas pacientes houve um comportamento tão traumático com relação à perda da mama  relacionado com a auto–imagem feminina (A paciente  referia medo de se expor e perder o marido), chegando a  apresentar delírios com relação ao médico que realizou a mastectomia, onde este sofria acusações de ter realizado a cirurgia indevidamente. (A paciente questionava o ato médico, indignada, considerando a possibilidade indiscutível de que o mesmo não gostava dela e que e tinha ódio, e por isso realizou a mastectomia, obs – ela não conhecia o médico antes da doença). Podemos a partir desta experiência notar que uma avaliação e uma orientação psicológica antes da cirurgia da mama deve ser realizada para menor impacto quando existe a necessidade de ressecção total da mama.

O suporte social, de amigos companheiros e família foi revisto por ROBERTS (1994) em 135 pacientes com diagnóstico de neoplasia mamária. O resultado mostrou que havia uma certa correlação entre o desajustamento e o baixo suporte social. Quando as variáveis de personalidade foram verificadas, revelou-se um decréscimo do desajustamento. As características da personalidade foram consideradas como relevantes no ajustamento. Neste trabalho, os autores solicitam uma atenção aos profissionais para que atuem no sentido de desenvolver a força do ego para obterem uma melhor adaptação à doença(27).

O sentimento de auto-agressão foi observado em uma paciente que deixou registrada a seguinte frase "eu não mato o meu marido"... (se referindo ao marido que a abandonara para ficar com outra mulher) "mato a mim mesma" : "já que não consigo matá-lo, morro com esta doença! Se não fosse com esta doença seria de outro modo."

Ainda com referência aos eventos considerados como os mais traumáticos  na vida de uma pessoa , o de  ser abandonada pelo marido, a separação ou o divórcio, foram os mais referidos pelas pacientes. A sensação de desamparo e solidão vivenciada por estas pacientes foi refletida no maior escore de depressão que elas apresentam. Este dado pode ser tido como relevante já que muitos trabalhos da literatura se preocupam com a saúde mental de pacientes em companheiro.

Nosso trabalho também enfatiza este aspecto e corrobora com a opinião de que um atendimento  psicossocial estruturado nos serviços de câncer de mama deve ser levado em consideração nas decisões e na hora da organização destes serviços. VAZQUEZ-BARQUERO em um estudo sobre a prevalência das comorbidades psiquiátricas em pacientes com alterações somáticas teve um resultado com alta significância para os pacientes com companheiro, ou seja, as pacientes com companheiro apresentavam um escore significativamente maior de comorbidades psíquicas daquelas que não tinham companheiro. Este trabalho apresenta uma concordância com os nossos resultados(28).

Uma outra referência considerada digna de nota no nosso trabalho é com relação ás mulheres que possuem maridos alcoolistas. Invariavelmente, estas pacientes apontam o alcoolismo como um dos principais motivos de stress, traumas e tristeza. A falta de apoio emocional advindo desta condição do companheiro no caso de pacientes com câncer de mama deve ser alvo de cuidado, já que  a desilusão demonstrada pelas pacientes diante deste fato é tamanha que frases de cunho generalistas do tipo “homem que bebe é tudo igual; não presta para nada..”, ou “eu não sou uma boa suficiente”, ou “ melhor é morrer logo mesmo do que continuar aturando aquele homem “ . Pode–se observar o elevado cunho de culpabilidade , rancor, sentimentos de hostilidade e outros sentimentos negativos. Futuros  estudos mais aprofundados são necessários e  podem avaliar o quanto este fator pode prejudicar no ajustamento e a aderência ao tratamento  destas pacientes.

Os aspectos psicossociais do câncer têm sido estudados por diversos autores. O suporte e o bem estar das pacientes e uma certa inconsistência têm sido apontada na ocorrência de uma má adaptação à patologia. A boa comunicação com o parceiro foi enfatizada como um importante aspecto na adaptação e aceitabilidade da patologia, o que também encontra eco nos nossos resultados(23)

Foi observado também que algumas pacientes traziam alguns sentimentos de culpa enfocados sob as mais diversas situações de vida; sensação de que estavam em falta com os companheiros (seja sexualmente , ou afetivamente). Uma paciente referiu ter sido o câncer um castigo advindo de seu comportamento infiel em outrora, e o seu sofrimento atual um pagamento de suas atitudes desleais. A má adaptação à patologia e o bem estar das pacientes não estão ligados a um suporte social, mas estão ligados a fatores individuais que ainda não estão bem elucidados. Estes fatores, poderiam estar ligados a questões de ordem inconscientes (23)

As pacientes de um modo geral ,demonstraram muita presteza na condução da entrevista, chegando até mesmo a fazer questão de esperar a sua vez em local desconfortável,como um ambulatório cheio , mesmo após terem sido já consultadas.

Nos estudos sobre o suporte emocional e ajustamento psicossocial em pacientes mastectomizadas, quando comparadas com um grupo controle de doença benigna da mama revelam que as pacientes com neoplasia mamária encontravam um maior suporte psicossocial do que as do grupo controle. Este dado nos faz refletir sobre o alto escore de afiliação (mecanismo de defesa do ego caracterizado por realização de vínculo à instituições, religiões,e outros) na população estudada como um dos motivos desta maior continência social(29)

Como foram  realizadas entrevistas de cunho psicossocial, as pacientes referiam estarem contentes por poder expressar seus pensamentos e suas crenças diante das doenças e se sentirem “úteis”. Em 1997 GONÇALVES, GIGLIO , FERRAZ estudaram os mecanismos de defesa do ego em pacientes mastectomizadas e altos escores de afiliação (mecanismo de defesa que tem como característica o vínculo feito a instituições, clubes, pessoas,e outros), foram encontrados em pacientes da população de estudo (24 no grupo A- mastectomizadas até 6 meses de cirurgia e 29 no grupo B - mastectomizadas após 6 meses de cirurgia). Segundo a nossa opinião, este trabalho sugere a demanda de solidariedade e atenção destas pacientes, que através deste mecanismo poderiam estar buscando realizar vínculos afetivos na tentativa de minimizar a tensão imposta pela patologia e pela mutilação(30).   Sobreviventes de câncer de mama referem que a auto-imagem, sexualidade e a comunicação com o parceiro raramente são abordadas pelos profissionais de saúde. A necessidade de uma intervenção compreensiva para facilitar o enfrentamento dos assuntos relativos ao relacionamento como intimidade e sexualidade é notada através da solicitação  por parte dos pacientes deste tipo de atendimento e,  partindo desta observação, podemos inferir que o  oferecimento de uma base de atendimento para estas  áreas especificas  pode trazer além investigações empíricas a  confirmação de que a intervenção preventiva nestas áreas  trazem benefícios garantidos(18).                                                          

                                                 Conclusão:

O  amadurecimento pessoal  e uma nova perspectiva de auto-conhecimento , mesmo diante das mais adversas situações , como é o caso de uma doença  que envolve a mutilação e a sobrevivência ,  pode ser aflorado e espelhado na continência que convívio a dois  promove. Os aspectos emocionais positivos como a compaixão, lealdade,  tolerância, desprendimento, cumplicidade são observados e desenvolvidos nesta miríade de turbulências emocionais que circundam doenças graves e eventos traumáticos.

 Podemos concluir também através deste estudo que nas situações de stress elevado as relações humanas são  mais valorizadas e que diante do impactante resultado do diagnóstico e tratamento de câncer existem mudanças no comportamento das pessoas ( paciente, familiares e amigos).

 Dentre estas mudanças de comportamento podemos reconhecer  uma maior união entre as pessoas, solidariedade , presteza de atitudes, respeito ao ritmo dos outros , atitudes afetivas mais expressivas, atenção às necessidades alheiras em detrimento das pessoais ,  maior sensibilidade aos aspectos emocionais de quem se convive , maior cortesia no trato ,  comportamento de  proteção e cuidado ao outro  , tentativa de maior comunicação e expressão de sentimentos , desprendimento, desapego e aceitação do próximo , das perdas e da morte.

Este  aprimoramento compulsório das  trocas afetivas  nos revela  a profundidade e a magnitude da teia das relações humanas e a maneira  como elas atuam minimizando o sofrimento , seja ele observado através de  sintomas depressivos ou outros aspectos  mentais resultantes do enfrentamento de situações de alto impacto emocional.

             A morte do companheiro foi  considerado o evento mais traumático na vida das pacientes que tiveram esta experiência.

            Observamos também que os  certos distúrbios mentais  dos companheiros , como alcoolismo,  podem interferir negativamente no ajustamento das pacientes com sentimentos de desvalia, culpabilidade, hostilidade e desejo de morte.

Situações de divórcio e de abandono, bem como atitudes de traição e deslealdade podem  trazer marcas afetivas que aparentemente prejudicam o enfrentamento da patologia. Trabalhos com metodologia que enfoque mais diretamente esta questão poderiam auxiliar  a desvendar estes achados. Estas  pacientes aparentemente necessitam de um apoio psicológico para elaborarem e  lidarem  melhor com seus afetos  nestes eventos. 

Através deste estudo realizado em 190 pacientes acometidas com neoplasia mamária encontramos um valor significativo para a correlação Sintomas depressivos e ausência de companheiro. Pacientes sem companheiro apresentam altos índices de sintomas depressivos. Através deste resultado pretendemos lançar sugestões de ordem prática que enfatizam a necessidade de uma continência por parte dos serviços de saúde na priorização de programas de atendimento e  suporte  em saúde mental para as pacientes com  neoplasia mamária sem companheiro, pois estas pacientes podem estar  expostas a agravos da qualidade de vida em função dos sintomas depressivos significativos .           

Referências Bibliográficas

1-FORSÉN . A. Psychological stress as risk for breast cancer. Psychother Psychosom. 55: 176-85 1991.

.2 –CLARK. E .H.  ROLLAND.J.  LIPPMAN..M. Psychosocial factors in the development and progression of breast cancer. Breast cancer res. treat. 29: 141-160-1993.

3- GONÇALVES, GIGLIO,J;  FERRAZ, MPT; Dissertação de mestrado – Estudo dos transtornos depressivos em pacientes acometidas com neoplasia mamária – UNICAMP - 1996.

4- BUDIN WC. HOSKINS CN.- Psychosocial adjustment to breast cancer in unmarried women. ; Res Nurs Health  1998 Apr;21(2):155-66

5- Northouse LL,Cracchiolo-Caraway A, Appel CP.- Psychologic consequences of breast cancer on partner and family. Semin Oncol Nurs  1991 Aug;7(3):216-23

6- . J, YATES BC, WOODS NF.- Social support for women during chronic illness: the relationship among sourcesand types to adjustment .Res Nurs Health  1990 Jun;13(3):153- 61.

7- Lewis FM.- Strengthening family supports. Cancer and the family. Feb 1;65(3 Suppl):752-98- 1990

8- SAMAREL N, FAWCETT J - 815Enhancing adaptation to breast cancer: the addition of coaching to support

Oncol Nurs Forum   May;19(4):591-6; 1992

9- URBANEK V, KOFRANEK J, ALBL M -  The impact of breast cancer treatment on sexual functions of the woman ; Zentralbl Gynakol  ;116(7):390-7. 1994.

10- FALLOWFIELD.L.J. Quality of life measurement in breast Cancer.J. Royal Society of Medicine.vol 86, jan. 1993.

11- MAGUIRE G.P. Breast conservation versus matectomy, Psychological considerations .Sem Surgery Oncol. 5: 137- 144. 1989

 

12- GANZ PA, ROWLAND JH, DESMOND K, MEYEROWITZ BE, WYATT GE. Predictors of sexual health in women after a breast cancer diagnosis.   J Clin Oncol   Aug;17(8):2371-1999

 13- SPENCER SM, LEHMAN JM, WYNINGS C, ARENA P, CARVER CS, ANTONI MH, DERHAGOPIAN RP, IRONSON G, LOVE N -. Concerns about breast cancer and relations to psychosocial well-being in a multiethnic sample of early-stage patients Health Psychol   Mar;18(2):159-68.

14- GIESE DAVIS J, HERMANSON K, KOOPMAN C, WEIBEL D, SPIEGEL D.  - Quality of couples' relationship and adjustment to metastatic breast cancer. J Fam Psychol   Jun;14(2):251-66 ; 2000

15- PISTRANG N.; BARKER C. The parter relationship in psychological response to breast cancer. Soc. Sci Med. 40(6): 789-97, mar. 1995).

16- BARNI S, MONDIN R.- Sexual dysfunction in treated breast cancer patients. Ann Oncol. Jun;8(6):616-8;1997

17- VAN DEN BORNE H, MCCORMICK L, PRUYN J, DE BOER M, IMBOS T.- Openness to discuss cancer in the nuclear family: scale, development, andvalidation.Mesters Psychosom Med  May-Jun;59(3):269-79; 1997

18- HOLMBERG SK, SCOTT LL, ALEXY W; FIFE BL - Relationship issues of women with breast cancer.

Cancer Nurs   Feb;24(1):53-60; 2001

19- ANLLO LM - J  Sexual life after breast cancer. Sex Marital Ther   Jul-Sep;26(3):241-8  2000

20-Zahlis EH, Shands ME Shover The impact of breast cancer on the partner 18 months after diagnosis

Semin Oncol Nurs   May;9(2):83-.7; 1993

21- LEWIS FM, DEAL LW- Balancing our lives: a study of the married couple's experience with breast cancer recurrence.Oncol Nurs Forum   Jul;22(6):943-53 ; 1995

22-HOBFOLL SE, WALFISCH S. - Coping with a threat to life: a longitudinal study of self-concept, social

support, and psychological distress Am J Community Psychol   Feb;12(1):87-100; 1984

23- .PISTRANG N, BARKER - Partners and fellow patients: two sources of emotional support for women withbreast cancer; Am J Community Psychol   Jun;26(3):439-56 ; 1998.

24- M. OMNE-PONTEN, HOLBERG.L. BERGSTRON R,  SJODEN P.O. BURS.T. Psychosocial adjustment among husbands of women trated for breast cancer; mastectomy vs. breast conserving surgery. Br. J. Cancer. vol. 29. n.10, pp. 1393-1397- 1993.

25- SPIEGEL,D. Health caring.  Câncer , vol 74, n4, aug. 1994.

26- MORRIS.T. GREER.S. WHITE Psychological and Social Adjustment to mastectomy- a two year Follow-up Study. Cancer 40: 2381-87-1977.

27-ROBERTS CS; COX; CE; SHANNON VJ; WELLS NL. A closer look at social support as a moderator of stress in breast cancer. Heath  Soc. Work. 19 (3) : 157- 64, Aug. 1994.

 28- VAZQUEZ-BARQUERO J.J.,PENÃ,c. MANRIQUE.J.F. ARENAL.A. QUINTANAL,R.  SAMANIEGO.C.- The influence of sociocultural factors on the interaction between physucal and mental disturbances in a rural community. in:  Soc. Psychiatry an Psychiatry epidemiology, 195-201-1988.

 29 - ZEMORE, R. SHEPEL L., Effects of breast cancer and mastectomy on emotional support and adjustment. Soc. Sci. Med. vol.28, no 1, pp19-27,1989.

30- GONÇALVES,M; GIGLIO,J; FERRAZ,MPT; Estudo dos mecanismos de defesa do ego em pacientes com neoplasia mamária , Revista de Biociências da Unitau – vol 3, 1999.

31- GANZ PA, ROWLAND JH, DESMOND K, MEYEROWITZ BE, WYATT GE. Life after breast cancer: understanding women's health-related quality of life and sexual functioning.J Clin Oncol   Feb;16(2):501-14 , 1998.


TOP