Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Setembro de 2009 - Vol.14 - Nº 9

Psiquiatria Forense

MAIS UM CASO DE MITOMANIA

Hilda Morana

Artigo escrito a partir do caso publicado pela  FOLHA DE SÃO PAULO em  11 de setembro de 2009.   

 

Documentário retrata a impostora do 11/9

Mulher que fingiu ser sobrevivente do ataque ao World Trade Center.

”Com pseudônimo Tania, ela se tornou a mais célebre sobrevivente dos atentados e até teve encontros com importantes políticos locais.

Tania Head se tornou, nos primeiros anos após o 11 de Setembro, a mais célebre sobrevivente do ataque às Torres Gêmeas. Sua história de superação e perda -enquanto ela fugia, ferida, do 78º andar da torre sul, o noivo, David, morria na torre norte- chegou a milhares de pessoas no mundo todo. Em pouco tempo, ela se tornou presidente da associação de sobreviventes. Chegou a ser recebida por políticos de primeira grandeza dos EUA. Só em 2006 a verdade veio à tona. Tania Head nunca existiu.
A mulher loira, baixinha e gordinha que causou tanta compaixão e admiração no país se chama, na verdade, Alicia Esteves Head. É espanhola e nem sequer estava em Nova York quando o World Trade Center foi destruído. A família do suposto noivo jamais ouvira falar dela. Os e-mails semanais que enviava a outros sobreviventes narrando a luta para livrar-se do trauma eram fantasia.

Gerry Bogacz, cofundador da Rede de Sobreviventes, foi uma das pessoas tocadas por Tania. Ele trabalhava no 82º andar da torre norte e diz no documentário ter compartilhado vários desabafos com a impostora. Bogacz conta ter percebido, ao longo do tempo, discrepâncias em seus relatos. Algumas vezes, ela dizia que era noiva; outras, casada. Ao descobrir que o bombeiro voluntário Welles Crowther, que morreu nos ataques, salvou diversas pessoas, Tania incorporou a presença dele em sua história.
Ainda assim, Bogacz -como outros- só mudou de posição quando o "New York Times" finalmente publicou uma reportagem questionando a veracidade da experiência dela, em setembro de 2006. Mesmo depois de saber a verdade, muitos mantiveram dose de gratidão, como a sobrevivente Carrie Sullivan. "Ela fez muitas coisas boas por nós. É é difícil descartar tudo isso", diz. Tania colaborou de verdade. Não só doou dinheiro como transformou o grupo de sobreviventes em uma organização oficial. Obteve financiamento do governo. Conseguiu permissão para a primeira visita de sobreviventes ao marco zero, em 2003. Foi guia voluntária do local. Os primeiros a ouvi-la foram o prefeito Michael Bloomberg e o ex-prefeito Rudolph Giuliani, durante inauguração do memorial pelas vítimas. Alicia deixou os holofotes sem nunca se explicar. Como jamais lucrou financeiramente, seu comportamento nos EUA não foi criminoso. Acredita-se que ela tenha deixado o país. Algum tempo depois, segundo o documentário, os sobreviventes reais receberam um e-mail que dizia que ela havia cometido suicídio. Mas, a esta altura, ninguém sabe mais no que acreditar”.

ANDREA MURTA DA REPORTAGEM LOCAL

 

O DIAGNÓSTICO DE MITOMANIA  TEM SIDO FREQUENTEMENTE ESQUECIDO PELA PSIQUIATRIA. Em geral os pacientes recebem  diagnóstico de transtorno afetivo bipolar e de esquizofrenias. 

 

A mitomania é a propensão a contar histórias e mentiras fantásticas, frutos da imaginação, sabendo o paciente que o que está relatando, é falso. O indivíduo mente e acredita na própria mentira, sem crítica sobre este estado patológico. Em geral, essa manifestação deve-se à profunda necessidade de apreço ou atenção. A pessoa tem consciência de que sua história é falsa, mas é capaz de reproduzi-la de forma quase idêntica quantas vezes for necessário

 

 

A mitomania é frequentemente confundida com delírios.

De fato, a ficção mitômana é similar ao delírio, por envolver concepções de grandeza, atribuíveis à intensa necessidade de apreço, com conteúdo muito variável. Inclusive ocorre em sujeitos que se dizem autores de crimes hediondos, até mesmo se orgulhando de sua suposta maldade. Essas fabulações são mantidas, durante tempo variável, e podem se acompanhar de conduta delituosa, assim como, entre outras,  do exercício ilegal de certas profissões e prática fraudulenta. Pode também envolver acusações graves contra terceiros. É comum a queixa de abuso sexual ou violência, na qual o mitômano se apresenta como vítima, com sérias conseqüências para a pessoa acusada, em geral inocente.

 

Quando o sujeito é confrontado com as suas contradições tenta evadir-se, falseia as informações e demonstra acentuada  inconsistência do comportamento.

 

A mitomania pode ocorrer apenas como sintoma, em diversas condições.  É um sintoma caracterizado por ideação fantasiosa de uma história ou de um personagem. É comum em pessoas com transtorno histriônico da personalidade embora não seja só neste tipo de transtorno que o sintoma ocorra. O sujeito imagina uma história ou várias delas, fantásticas, que se passaram com ele, com a finalidade de ganho pessoal. Os ganhos podem ser apenas para auto-valorização de si mesmo. É a superestima patológica.

 

Para Robert Hare (autor do psychopathy check-list revised : PCL-R), o mitômano é um individuo para quem mentir e enganar é próprio da sua maneira habitual de interagir com os outros. Ele e capaz de produzir contos elaborados de seu passado, mesmo que ele saiba que esta história possa ser facilmente verificada. Sua prontidão em mentir e a aparente calma com a qual ele a conta (ate mesmo para pessoas que o conhecem bem), pode ser notável. Quando apanhado em uma mentira ou quando desafiado com a verdade, ele raramente  parece perplexo ou embaraçado: ele simplesmente muda sua história ou tenta refazer os fatos para que pareçam consistentes com o que ele disse. Ele tem uma explicação ou desculpa para tudo. Mais ainda, mesmo após quebrar repetidamente suas promessas e compromissos para alguém, ele ainda acha fácil dizer novas mentiras sob "sua palavra de honra". Ele mente frequentemente por razões óbvias, mas enganar outras pessoas também parece ter alguns valores intrínsecos para ele. Pode fazer discursos livremente e ter orgulho e prazer em sua habilidade para mentir.

 

Os mitômanos são confundidos com sujeitos psicóticos delirantes. Contudo, os psicóticos não forjam situações concretas para convencer os demais a respeito de suas próprias idéias e convicções delirantes. Pessoas delirantes, quando causam mal a seus entes queridos, o fazem em razão de suas convicções mórbidas, mas não inventam queixas ou sintomas para prejudicá-los, acusando terceiros.

 

Em casos de suspeita de mitomania deve ser procedido exame criterioso e  aprofundado estudo semiológico do caso, a fim de se distinguir entre as concepções mitômanas e as delirantes. Esta avaliação é fundamental, tanto para a verificação da procedência dos fatos denunciados, quanto para a avaliação da imputabilidade penal. A consistência dos fatos com que é contada pelo sujeito mitômano impressiona, mas como em geral evidenciam-se inconsistências nos mesmos, a tendência é formular o diagnóstico de delírio. Mas, a confrontação com informações objetivas desfaz o equívoco.

 


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