Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Setembro de 2009 - Vol.14 - Nº 9

COLUNA PSIQUIATRIA CONTEMPORÂNEA

INFECÇÕES E DOENÇAS MENTAIS

Fernando Portela Câmara

Desde Clérambault, a etiologia infecciosa de muitos transtornos mentais vem sendo de vez em quando discutida. Ele associou o que chamou de “automatismo mental”, base das “psicoses alucinatórias crônicas”, como uma seqüela psiquiátrica de infecções agudas longínquas, parte das quais subclínicas, de etiologia variada (Renard, 1992, p. 147). Era uma época em que não havia ainda a antibioticoterapia e as infecções tinham um curso diferente do que hoje estamos acostumados a ver, e a medicina vivia o paradigma da etiologia infecciosa, origem do modelo médico atual.

 

Entretanto, a comprovação de uma etiologia infecciosa não é fácil. Um exemplo são as pesquisas sobre as diferentes etiologias infecciosas da esquizofrenia. Uma das teorias mais discutidas é a de que esta doença teria com causa provável a infecção de estruturas límbicas pelo vírus do herpes tipo I. Mesa-Castilo (2001), trabalhando com imunoeletromicroscopia em cortes de lobo temporal de esquizofrênicos jovens, fetos de mães esquizofrênicas, e cérebros de animais inoculados com sangue de esquizofrênicos jovens, em um estudo longitudinal de 23 anos, encontrou significativa frequencia de alterações estruturais características de infecção herpética. Entretanto, o autor não correlacionou estes achados epidemiologicamente, geneticamente e, considerando a maioria das encefalites é devida ao vírus do herpes simples, tal achado fica em aberto. No máximo, ele pode nos informar, por enquanto, que talvez as infecções herpéticas possam ser um fator de risco para esquizofrenia.

 

Sintomas neuropsiquiátricos, contudo, estão positivamente presentes em certas doenças infecciosas. É bem conhecida a depressão que precede a recorrência do herpes genital, ou na hepatite B, ou ainda a depressão pós-gripal, expressões da ação de interleucinas, dentre elas interferon gama, que promove um quadro importante de depressão. A associação entre leptospirose e sintomas psiquiátricos pós-infecciosos, incluindo depressão, demência e psicose, é hoje um fato bem documentado (Mumford , 1990).  Em seu livro “Leptospira e leptospirosis”, Salomon Faine (1994) escreveu: "A number of patients suffer prolonged mental symptoms after leptospirosis, ranging from mood changes, irritability and irrational thoughts to dementia, serious psychosis and depression. Inability to concentrate or to carry out skilled tasks may affect employability. The condition may persist for several months to two or more years; it may be permanent. The relationship of such changes to physical effects of leptospirosis, including the cerebral arteritis mentioned above, is not well documented. In order to incriminate leptospirosis as a cause of the mental condition, the initial diagnosis must be proved, and the symptoms date clearly from after the time of recovery from the illness”.

 

Em um trabalho hoje clássico, pesquisadores da Universidade de Rockefeller e do National Institute of Mental Health apontaram evidências epidemiológicas para o risco aumentado de transtorno obsessivo-compulsivo e síndrome de Tourette em crianças após infecções estreptocócicas (Swaedo et al, 1997). Acredita-se que o antígeno D8/17 de linfócitos B humanos, um marcador para susceptibilidade de doença cardíaca reumática pós-estreptocócica, possa também servir de marcador para risco de doença psiquiátrica em crianças. Outras infecções que resultam em comprometimento encefálico, mesmo moderado, podem ocasionar sintomas neuropsiquiátricos persistentes.


A depressão maior, o transtorno bipolar, a esquizofrenia e o transtorno obsessivo-compulsivo estão entre as 10 causas principais de incapacitação listadas pela OMS (2009). O National Institute of Mental Health (2009) estimou que uma criança americana em cada dez sofre de alguma doença psiquiátrica grave, uma estatística maior que a de leucemia, diabetes e AIDS combinadas. Por outro lado, a causa primária destes grandes sintomas psiquiátricos é ainda um mistério. Agentes infecciosos podem estar relacionados a algumas destas doenças em algum grau, e uma melhor compreensão de como um evento infeccioso pode estar associado a alguma doença desta categoria pode melhorar o tratamento e a prevenção, e ainda reduzir o grau de incapacitação e o estigma associado às doenças mentais.


Hoje se reconhece que apenas 1% das doenças infecciosas é causa primária de doença neuropsiquiátrica, e somente estes pacientes pode se beneficiar com a terapia antimicrobiana e vacinas. Esta situação poderá mudar drasticamente quando experts em doenças infecciosas, imunologia e psiquiatria somarem esforços para retomar as pegadas de Clérambault.


Referências

Faine S. Leptospira and Leptospirosis, Boca Ratón: CRC Press, 1994. Ver também:

http://www.maths.tcd.ie/~niallp/leptospirosis.html#2.%20Confusion,%20and%20psychiatric%20changes

[acessado em 19.09.2009]

 

Mesa-Castilo, S. Estúdio ultraestructural do lóbulo temporal y de la sangre periférica en pacientes esquizofrénicos, Revista de Neurologia, 2001; 33:619-623.


Mumford C, Dudley N, Terry H. Leptospirosis presenting as a flaccid paraplegia. Postgrad Med J 1990;66:218-20.

 

National Institute of Mental Health [acessado em 19.09.2009] in:

http://www.omh.state.ny.us/omhweb/engage/next_step.html#one


Organização Mundial da Saúde (World Health Organization). The global burden of disease [acessado em 19.09.2009] in:

http://www.who.int/features/factfiles/global_burden/en/index.html

 

Renard, E. Le docteur Gaëtan Gatian de Clérambault – Sa vie et son oeuvre (1872-1934), Paris: Les Empêcheurs de Penser en Rond, 1992.

 

Swedo SE, Leonard HL, Mittleman BB, Allen AJ, Rapoport JL, Dow SP, et al. Identification of children with pediatric autoimmune neuropsychiatric disorders associated with streptococcal infections by a marker associated with rheumatic fever. Am J Psychiatry 1997;154:110-2.


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