Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Agosto de 2009 - Vol.14 - Nº 8

Artigo do mês

O ENCONTRO COM UM HOMEM DE BEM

Jorge de Campos Valadares

Embora Wilson de Lyra Chebabi tenha, no que deixou escrito, se referido tão pouco aos grandes poetas, seu texto – como aliás,  toda  a sua vida  -  é profundamente poético. Ele próprio sempre se referiu à obra de Freud, a qual lia no original, de forma tencionada e, assim,  poética, estando sempre   extremamente imerso em sua própria alma e, a um só tempo,   procurando o mais estranho a si, leal com isso, ao espírito do inventor da psicanálise. Freud tinha o Fausto como seu livro de cabeceira, conhecia as obras de Goethe e Schiller a fundo e ganhou o prêmio Goethe de literatura, com o seu “Mal Estar na Cultura”. Somente uma abordagem poética pode possibilitar uma leitura criativa de uma obra, uma vez que poiesis é, em si produção,  –  e a criação, numa leitura, é central para a  psicanálise. A tensão para a prática psicanalítica, se liga a uma volta necessária para a perlaboração do  próprio sintoma, por parte de quem tenta entrar no espaço da clínica, como aponta Freud já em 1911, no seu trabalho Formulações sobre os dois Princípios do Acontecer  Psíquico.

A leitura de Freud como um poeta, afastou Chebabi das tomadas utilitaristas e simplificadoras do seu texto que se, às vezes, oferecem uma perspectiva histórica ou técnica de pontos do percurso do criador da psicanálise, transformam esses pontos, em lugares conceituais, em fundamentos, e daí a fundamentalismos será um passo: espírito completamente contrário ao percurso  do inventor, preocupado que sempre esteve antes de tudo com o movimento da vida. A poesia é esse espaço, pois, limiar, na acepção de  Luís Cláudio Figueiredo, entre o sonho e a realidade, entre a ligação e o desligamento, entre o afeto e a razão,  entre o adormecer e o acordar, como acontece no setting clínico,  uma passagem. Algo como a vida a passar, sempre de maneira diferente, irrepresentável porque indizível, uma vez que aí se passa  a forma sempre inventiva do “fazer” a vida, sempre singular em cada gesto. 

Mas, por outro lado, podíamos constatar, claramente, o amor de Chebabi pela Filosofia. Há quem não veja diferença entre o trabalho do poeta e o trabalho do filósofo.

Uma vez, em nossos encontros clínicos, Chebabi se referiu a Fernando Pessoa, quando lhe foi dito por um interlocutor, haver ocasiões em que, às vezes, este  se via sem saber se estava diante de  uma  verdade propriamente sua,   quando  sentia mais profundamente. E ele pronunciou o verso célebre do poeta:

 

“O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.”

 

Como se furtava aos diagnósticos, prática mais confortável por ser sempre fácil de conferir nos vademecums- e seria assim , na ocasião, fácil falar em “falso self”, em “estados esquizóides” – preferiu o texto poético.  Seria um forma mais fácil, mais próxima da teoria, mas menos próxima do  humano. Com essa prática Chebabi ia, com seus pacientes, se aproximando mais do conflito real a aparecer na clínica, isto é, aquele a  se referir à aceitação da angústia própria do existir. E, com isso, possibilitava alguma volta à realidade e uma saída para o apego à fantasia e o encontro de algo a ser o verdadeiro.

Recentemente, em uma homenagem que a Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro prestou a Chebabi , Elza Marques L. Freitas leu o trabalho dele “Porque não me tornei analista didata”,  apresentado  a colegas daquela sua sociedade psicanalítica, em agosto de 2004. Questionava ali, a forma utilitarista e mercadológica da prática, a ser um dos pilares da formação analítica tradicional. Defendia seu ponto de vista de forma livre, criativa, inovadora, como é o comum de seus escritos. A tensão com que ali, corajosamente, se colocava, expondo seu pertencimento, sua militância mesmo, é profundamente poética. Não se furta, assim, de contestar as formas acadêmicas de escrita. Lembro-me de, na ocasião da leitura feita por Elza, ter me referido ao fato do afastamento da prática acadêmica de qualquer possibilidade de criação,   pois acompanhando, há anos, a feitura de teses e dissertações, no trabalho acadêmico, me sentia, já em movimento de aposentar-me,  fatigado pela falta desse tipo de texto, a ser  totalmente barrado pelas normas dos órgãos de fomento à pesquisa e pelas internacionais editoriais de revistas indexadas.

Naquele texto, Chebabi mostrou aquilo que Emmanuel Carneiro Leão aponta como a tensão fundamental da poiesis, sobretudo na modernidade tardia: a tensão entre tecnologia de produção e liberdade. Trata-se aqui de uma “disposição”, mais que a preocupação de estar “up to date” com a parafernália de dispositivos técnicos e teórico-conceituais. Disposição para o encontro, para o novo, para aquilo que Martin Heidegger Chamou de “Clareira”, onde há o tempo do ser. Nessa metáfora vinda de  territórios da floresta, lembra Emmanuel Carneiro Leão, mesmo de noite, a clareira vige como clareira. Esses momentos do “ser na situação”, da “Presença”, do “ser aí”( Dasein), tencionam espaço e tempo e trazem o sujeito para a realidade. Chebabi era uma pessoa continuamente na “Clareira”. Há muitas pessoas a, terem tido  a sorte de terem sido seus analisantes e,  inúmeros amigos,  que o julgavam um sábio da psicanálise. A presença indispensável do analista, para o gesto da clínica, é um dos enigmas da psicanálise. Há uma arte da presença, e Ivan Ribeiro chegou a escrever sobre o tema, talvez algo que resta da prática da hipnose, pois, como disse Freud, a arte tem algo de hipnótico, sem ter nada a ver com o poder nem, por outro lado, com o divertissement  – estando, entretanto, este, a serviço do poder, nos termos de La Boétie. Nesse sentido Chebabi acompanhava os versos do poeta Antonio Machado:

 

“Nunca persegui la gloria, ni quedar en la memoria, de los hombres mi canción;

yo amo los mundos sutiles, impávidos y gentiles como pompas de jabón.”     

 

Chebabi mostrava assim, de forma corajosa, sem ser um protestador panfletário e, sem deixar de valorizar o trabalho com a teoria, tanto a imperfeição da instituição a que se filiara, ligada à IPA, como também o problema do sintoma de bastardia nas demais, que de lá haviam se desligado. Dizia, então, que somente de dentro, do centro das contradições, pode-se contestar.

A coragem de Chebabi aparece de forma clara em todo o percurso em sua obra maior, o Centro de Antropologia Clínica, e no movimento que foi denominado como uma luta contra   o que foi denominado "ntrinae forma clara em todo o percurso de sua obra maior, o Centro de Antropologia Cl“Os barões da psicanálise”, o qual liderou ao lado de Hélio Pelegrino e de Eduardo Mascarenhas, nos anos 70.  Havia uma coerência e uma consistência ética em seu caminhar, em que as identificações ideológicas apareceriam “só depois” de serem dados aqueles passos, mas elas lá  estavam desde o início de sua caminhada.

Há vários momentos de elevada iluminação de Chebabi, como em outro texto seu: “A Sessão Clínica”. Aponta, ali, a contradição de se falar sobre, “falar de cima”, afastamento que impossibilita a verdadeira busca, uma vez que, em realidade somos falados por essa situação. Não se pode, diz ele ali, fazer da sessão clínica um objeto de estudo, uma vez que isso significaria justamente evitar ser por ela estudado, “falado”...Chama atenção para o fato de que a sessão clínica é uma secção, um trecho. O encaminhamento daquela reflexão, nos leva a considerar, pensando a teoria como corte, que  o espaço de vida humana, como o Socius, somente pode ser entendido com a contribuição de uma teoria do desejo.  Uma vez que esta, sendo uma teoria do sexual, também é uma teoria de seccionamento,  e  aponta, assim,  qualquer tendência a aderir a um recorte, um lugar epistêmico.  Mas, também aqui, a convocação da psicanálise implicaria, assim, em um seu abandono também, em um determinado momento, sempre necessário, para não haver aderência  também à sua  contribuição – aderência esta  a ser a prática do sectário, aquele a aderir a uma secção, corte e lei de um saber. Para isso, dever-se-ia considerar a Presença, a experiência, o exercício da vida – que Chebabi sempre lembrava ser diferente de experimento, que implicaria uma objetivação impossível da vida. Foi nesse mesmo sentido que Serge Leclaire, em suas conferências no Rio de Janeiro, chamava atenção para o fato de que toda teoria fala, antes de tudo de coisa morta: como representação que é  “traz para o presente aquilo que já foi presente”.

A pergunta, por quem se coloca diante do  trabalho, ao   iniciar um  texto, isto é,  apontar, desde o começo,  os problemas de sua construção – como, por exemplo, no caso, indicar a distância que implica  o “falar sobre”  uma coisa somente identificável quando nela se faz uma imersão, um mergulho – não implica em um gesto auto acusatório ao formulador de uma teoria.

E, é lógico, que como no verso de Schiller, citado por Freud, a alegria do mergulhador somente se manifesta, quando ele pode “respirar da rósea luz”.

Também nesse trabalho sobre a clínica, Chebabi pergunta-se sobre o que seja “se tratar” e o que seja assistir a quem se trata. Diz ali que são posturas e dis-posições diferentes, onde um não promete “sucesso ou gratificação” o e outro não promete continuar... num risco contínuo de vazio do encontro – que sendo diferente do “nada”, remete à experiência da própria vida.

Parece-me ser essa a via régia para se examinar a questão da compulsão à repetição, marcando-se no “Fort-Da”, um momento da suspensão,  onde pode se dar a transfiguração, a epifania, onde o vício pode passar ser virtude, onde a insistência deixa aparecer a esperança, e a prisão se transforma em possibilidade de  liberdade.

Chebabi, como Freud, ensinou, nesse belo texto, a partir de Demócrito, ser-estar nesse risco,  o gesto necessário da clínica: um desvio, um “Kliname”, um movimento  da liberdade de transgressão, em  relação  à ordem e de dentro da própria repetição. A teoria como cerco, vindo sempre com “ostentação e garbo”, como marcou Lacan, no seu trabalho sobre Agressividade em Psicanálise, é uma agressividade, e é a primeira a ser transgredida. Aí, no empecilho, vai se descobrir  a via. E assim podemos divisar em cada analisante uma reformulação, uma contribuição possível ao pensar da psicanálise, uma mais-vida às representações da Vida.

No espaço de trabalho dos teóricos dedicados, onde,  sempre vamos encontrar Freud e seus continuadores, podemos observar o silêncio de  uma insistência na procura que, se pode existir a partir  da atividade terrível do que ele chamou de pulsão de morte, ou seja,  o maligno de uma introspecção solipsista,  podemos  também aí ter um “Háver”, a ser, na construção do Chebabi, o inesperado, a criação.  Pois, se se está no reino da palavra e se se deve apartar do que seja o real procura-se, de lá, dessa perspectiva, desse ponto de vista, poder-se guardar a esperança, a utopia, de sempre, apesar de perdidos, podermos  estar caminhando na direção da verdade...

Nessa suspensão (Aufhebung), entretanto, a denegação se instala, na medida em que as afirmações(Bejahungen) não satisfazem, uma vez que se limitam a  aquilo a ser o possível apenas a  uma síntese ...

Para saber que se trata apenas de um caminhar, entretanto, a psicanálise e sua clínica aponta para o lugar daquele, ao nosso lado, que também pensa e se autoriza de si próprio a pensar, e, por isso, está, sempre,   em outra perspéctica.

 

 

                            BIBLIOGRAFIA

Chebabi, Wilson de Lyra. A Sessão Clínica. XXVII Encontro Científico da SPCRJ-IP

Chebabi, Wilson de Lyra. Porque Não Me Tornei Analista Didata. Rio 2004.

Figueiredo, Luís Cláudio. Conferência no Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro em 15 de agosto de 2009.

Freud, Sigmund. 1911. Formulierungen über die swei prinzipien des psychischen geschehens.  Imago. In Gesammelte Werke (G .W.). Vol. 8.  London:  Imago Publishing Co., 1911, pp. 229-238.

Freud, Sigmund. 1925. Die Verneinung. G.W., 13:9-15.

 

Heidegger Martin. 1926.  Ser e Tempo. Vozes. 2006

 

La Boétie, Étienne de la. Discours de la servitude volontaire. Mille et une nuits .1995

Lacan, Jacques. Agressivité en Psychanalyse. Écrits. Editions du Seuil. 1966

 

     

Textos de Wilson de Lyra Chebabi

 

-  A ÉTICA DO ENCONTRO CLÍNICO À LUZ DE PLATÃO.

 

- A IMPORTÂNCIA DA VERDADE PARA O ACRESCIMENTO MENTAL    CONCEBIDA ATRAVÉS DA OBSERVAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO ANALÍTICO NA EXPERIÊNCIA DA PSICANÁLISE.

-   ALGUNS TEMAS MEDIEVAIS NA PRÁTICA CLÍNICA.  Revista Consciência. Editora Vozes. 1976

 

 

-  ANTROPOLOGIA CLÍNICA ARISTOTÉLICA. A DICOTOMIA EM CLINICA E O PENSAMENTO ARISTOTÉLICO.

 

- ANTROPOLOGIA CLÍNICA EPICURISTA. O EPICURISMO COMO             SUPERAÇÃO DO EGOCENTRISMO.

 

-   A OUTRA O OUTRO.

 

- COMENTÁRIO AO TRABALHO “HOSPITALIZAÇÃO AUTORITÁRIA” DE NEUMA AGUIAR.

 

-   DECESSO E RESSUREIÇÃO DA PSICANÁLISE.

 

-   EM TORNO DE JOÃO.

 

-      EVOLUÇÃO HISTÓRICA E CONCEITUAL DA PSICANÁLISE

       Período dos três extratos para a teoria sexual (1904 - 1905)

 

-     INTRODUÇÃO AO OFÍCIO DE PSICANALISTA

      MEMÓRIA E PSICANÁLISE.

 

-   O ETHOS DA ATIVIDADE CLÍNICA.

 

-   O PROBLEMA DA PSIQUIATRIA NAS INSTITUIÇÕES.

 

-     O QUE A PSICANÁLISE DEVE À LITERATURA

 

 

-     O RETORNO À CLÍNICA.

Revista Consciência. Editora Vozes. 1974.

 

 

-     O SENTIDO DE UMA ANTROPOLOGIA CÍNICA NO MUNDO DE HOJE. Revista Consciência. Editora Vozes. 1975

 

-   OS FUNDAMENTOS SOCRÁTICOS DO PROCESSO PSICANALÍTICO.

 

-     PORQUE NÃO ME TORNEI ANALISTA DIDATA.

 

-   PSICANÁLISE E MEIDICALIZAÇÃO DA VIDA PSÍQUICA.

 

-   RAZÃO DA CRISE DA RAZÃO.

 

-   RECALQUE DA CONSCIÊNCIA.

 

-   RECESSO E RESSUREIÇÃO DA PSICANÁLISE.

 

-   SUCESSO E DECESSO DA PSICANÁLISE.

 

-   TÓXICOS, CORPO, PSICANÁLISE E CONSUMO.

 

 - TRATAMENTO ANÍMICO OU SIGMUND FREUD HIPNÓLOGO. PSICANÁLISE E PICOLOGIA.

 

- UMA REVISÃO DO CONCEITO DE INCONSCIENTE. XI CONGRESSO LATINOAMERICANO DE PISCANÁLISE. RELATO OFICIAL COMPLETO DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO RIO DE JANEIRO.  

 

Nota: Saul Fucks, e Elza Marques Lisboa de Freitas estão organizando um livro com textos escolhidos do Chebabi.


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