Volume 22 - Novembro de 2017
Editores: Giovanni Torello e Walmor J. Piccinini

 

Junho de 2009 - Vol.14 - Nº 6

Artigo do mês

ALTERAÇÕES DA SEXUALIDADE E SINTOMAS DEPRESSIVOS EM PACIENTES COM NEOPLASIA MAMÁRIA

Prof.Dra.Márcia Gonçalves (1)
Prof.Dr. Joel S. Gíglio(2)
Prof.Dr.Marcos P.T Ferraz (3)
(1) Professora responsável pela disciplina de psiquiatria da UNITAU
(2) Professor de psiquiatria da UNICAMP
(3) Professor Titular de psiquiatria da UNIFESP

RESUMO

Este trabalho estudou as alterações sexuais em pacientes com diagnóstico de câncer de mama mastectomizadas. Como resultado obtivemos altos escores de alterações de sexualidade e uma correlação significativa com a depressão. Não foi possível determinar o grau de influência que a depressão exerce sobre os distúrbios da sexualidade. Novos estudos são sugeridos, bem como uma maior atenção à saúde mental das pacientes com câncer de mama , focalizando estes dados.

 

ABSTRACT

This work studied the correlation between sexuality disturbs and depressives symptoms in breast cancer patients. The results showed that exist high scores of sexuality disturbs in breast cancer patients and high scores of depression, but we did not understand this correlation. Other works will be necessary to see deeply these questions. This work showed too that the attention to mental health care is important complementary treatment.

 

INTRODUÇÂO

Estudos na literatura relatam o efeito avassalador do diagnóstico de câncer de mama e do tratamento (mastectomia).1,2  e as alterações da sexualidade frequentemente estão presentes nestas pacientes.

Para este tipo de alteração ainda não existe uma atenção adequada nos serviços de saúde e entre os fatores mais relevantes apontados pelas pacientes está a estética, aparência, atrativos sexuais e atividade sexual.2 Observou-se que estes fatores  são mais valorizados em mulheres jovens que nas idosas. 1,2,3.

Quando a mama,  símbolo corpóreo carregado de sensualidade, é danificada pela cirurgia, pode existir uma alteração da auto-imagem com sentimentos de inferioridade e de auto-rejeição. Quanto maior a representação simbólica da mama para a mulher, maior é o impacto do sentimento de perda após a cirurgia. Pacientes referem sentimentos de vergonha, constrangimento, sensação de mutilação e se sentem sexualmente repulsivas quando são submetidas à mastectomia.4.

       Com relação ao impacto do tratamento (mastectomia) os sentimentos negativos são observados na atitude de cada paciente com relação à auto-imagem, função sexual e idade.5 ,6  A nudez sempre é acompanhada de tensão, constrangimento e desconforto após a cirurgia. Mudanças nas relações emocionais entre os parceiros tiveram menor impacto do que na vida sexual, que freqüentemente sofre um decréscimo em qualidade e frequência. 5 ,6,7,8,9

Os reflexos da cirurgia sobre a vida do casal dependem muito da situação emocional de ambos antes da cirurgia, e da qualidade de relacionamento sexual que caracteriza o envolvimento conjugal.

 Atualmente existe um consenso que é imprescindível uma integração entre  a paciente, seu companheiro  e a equipe médica em todas as fases do tratamento.3    A mutilação, proveniente da cirurgia, tem muitas vezes como consequência uma alteração da auto-imagem com interferência na autoconfiança e auto-estima, podendo levar a transtornos mentais como a depressão e ansiedade. Autores referem bons resultados no trabalho interdisciplinar e no aconselhamento e  reafirmam a necessidade de uma continência por parte dos serviços saúde mental para estas pacientes e seus companheiros. 3,5,6,7,8,9

OBJETIVOS

Este estudo teve como objetivo correlacionar as alterações da sexualidade com sintomas depressivos em pacientes com  diagnóstico de câncer de mama ou mastectomizadas.

METODO

Foram  realizadas entrevistas de dados psicosociais e escala de Beck para depressão (BDI – Beck depression inventory) em pacientes com diagnóstico de câncer de mama dos hospitais Pérola Byington de São Paulo e Hospital de clínicas de Taubaté.

ANÁLISE DOS RESULTADOS

 Foi utilizado o programa EPI-INFO de análise estatística com os resultados avaliados em qui-quadrado.

INCLUSÃO/ EXCLUSÃO

As pacientes não podiam estar em pós-operatório imediato e deviam ter condição de compreensão dos objetivos do trabalho, bem como estarem cientes do diagnóstico da doença, e ter mais que 18 anos.

 

 

 

 

RESULTADOS

Tabela 1

Correlação entre sintomas depressivos & Alteração da sexualidade na população

Depressão

Sexualidade

 

Número Pac.Beck < 18

Número Pac.Beck > 18

Total

Sem Alteração

da Sexualidade

70

07

77

Com Alteração

da Sexualidade

70

43

113

Total

140

50

190

         

 Beck acima de 18 = com sintomas depressivos/  Beck abaixo de 18 = sem  sintomas depressivos

A tabela 01  mostra a correlação da depressão com as alterações da sexualidade nas populações estudadas:

P.value =  Uncorrect – 0.0000086

Mantel Haenszel – 0,0000090;

Yates – 0000184;

Confidence limits – 2.48-17.16.

Odds ratio – 6.14.

Como  demonstramos com os dados obtidos, para a população com depressão, houve um valor significante com relação à alteração da vida sexual.

DISCUSSÂO

O nosso trabalho encontrou dados significativos no que diz respeito às alterações da sexualidade (68.4%).  Ao procurarem auxilio, as pacientes relatam uma dificuldade por parte dos serviços de saúde para abordarem as questões associadas ao câncer, perda da mama e as alterações sexuais.13,14

 As pacientes referem que os cirurgiões, segundo suas observações, normalmente abordam os problemas físicos e não os problemas emocionais.13,14

 Trabalhos mostram que existe a necessidade de um auxilio por parte das assistentes sociais, enfermeiras, psicólogas e outros profissionais de estarem identificando os problemas emocionais das pacientes para que seja possível  continência e orientação.13,14

A perda da libido foi uma outra característica frequente. No nosso trabalho houve uma alteração significativa das funções sexuais, e uma forte correlação com a depressão. A distinção  exata da  influência da depressão e da alteração sexual ainda não bem elucidada  pois um dos sintomas freqüentes da depressão é exatamente a perda da libido e uma alteração das atividades sexuais.15  Possivelmente estas alterações sejam consequência de todos estes fatores associados. Trabalhos mais focalizados sobre estas questões podem clarear estas duvidas.

CONCLUSÃO

No nosso trabalho encontramos valores altamente significativos no que diz respeito ás alterações da sexualidade quando correlacionadas com os sintomas depressivos, já que na população estudada pacientes com escores de sintomas depressivos elevados (acima de 18 pela escala de Beck), apresentaram resultados significativamente mais elevados de alterações da sexualidade.

Existe a necessidade da inserção de profissionais especializados em distúrbios sexuais para um atendimento complementar ao tratamento do câncer. Terapias de casais e terapeutas com especialização em distúrbios sexuais podem compor a  equipe dos serviços de saúde mental para pacientes com câncer de mama. 10,11,12

Ainda não é possível compreender as correlações entre os sintomas depressivos e os distúrbios da sexualidade , e novos trabalhos são necessários para uma melhor compreensão.

Na nossa população os dados encontrados poderiam resultar em outras questões e os  sintomas depressivos como a baixa auto-estima, alterações na  auto-imagem e diminuição da libido, poderiam ser avaliados também sob outra óptica , com a observação do grau de autonomia e da responsabilidade da escolha do tratamento (conservador ou não), bem como em consequência do  medo da recidiva do câncer após a escolha do tratamento. 16

 

Uma avaliação da qualidade de vida destas pacientes prospectivamente pode revelar mais dados para a compreensão dos aspectos emocionais do impacto da patologia.  Em nosso meio,  a avaliação dos serviços, de saúde, bem como  do tipo de tratamento e do grau de autonomia na escolha do tratamento que esta sendo oferecido, poderia ser objeto de outros estudos

 

                                                REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1- FOLLOWFIED.L.J.; A HALL.APsychosocial and sexual impact of diagnosis and treatment breast cancer- Br Med Bull 1991. Apr;47(2):388-99.

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4- WANDERLEY,K.S, Aspectos psicológicos do câncer de mama. INTRODUÇÃO A PSIOCONCOLOGIA Maria Margarida Carvalho (Coord) Editorial Psy. Campinas Sp-1994

5- WELLISH D.K.  PASNAU.R. Psychosocial aspects of mastectomy: II The man`s perspective. Am J. Psych. 135:5 May-1978

6- HOLLAND,J.C,. LEWIS,S.  Emoções e Cancer. o que sabemos realmente. in -  Equilíbrio Corpo e Mente.(como usar sua mente para uma saúde melhor) ; Daniel Goleman e Joel Gurin ( organizadores )- Tradução de Ana Maria Rodrigues e Priscila Martins Celeste-  Rio de Janeiro - Campus - 1997 (pg 73-93).

7- MORRIS.T. GREER.S. WHITE. Psychological and Social Adjustment to mastectomy- a two year Follow-up Study. Cancer 40: 2381-87-1977

8-, MAGUIRE G.P. Breast conservation versus matectomy, Psychological considerations Sem Surgery Oncol. 5: 137- 144. 1989

9-FALLOWFIELD.L.J. Quality of life measurement in breast Cancer.J. Royal Society of Medicine.vol 86, jan. 1993.

10-HOLMBERG SK, SCOTT LL, ALEXY W. HOLMBERG SK, SCOTT LL, ALEXY WFIFE BL - Relationship issues of women with breast cancer.Cancer Nurs   Feb;24(1):53-60; 2001

11- ANLLO LM - J  Sexual life after breast cancer. Sex Marital Ther   Jul-Sep;26(3):241-8  2000

12- GANZ PA, ROWLAND JH, DESMOND K, MEYEROWITZ BE, WYATT GE. GANZ PA, ROWLAND JH, DESMOND K, MEYEROWITZ BE, WYATT GE. 80Predictors of sexual health in women after a breast cancer diagnosis. J Clin Oncol   Aug;17(8):2371-1999

13- SPENCER SM, LEHMAN JM, WYNINGS C, ARENA P, CARVER CS, ANTONI MH, DERHAGOPIAN RP, IRONSON G, LOVE N. Concerns about breast cancer and relations to psychosocial well-being in a multiethnic sample of early-stage patients Health Psychol   Mar;18(2):159-68.

14- URBANEK V, KOFRANEK J, ALBL M -  The impact of breast cancer treatment on sexual functions of the woman ; Zentralbl Gynakol  ;116(7):390-7. 1994.

15- GOLLEMAN.D., GURIN.J. EQUILIBIO MENTECORPO. como usar sua mente para uma saúde melhor-  CAMPUS editora. Rio de Janeiro,1997.

16 – GONÇALVES.M, Avaliação da capacidade de manutenção da autonomia- POL-BR – Psychiatry on line –  www. yatros.com/naupsi. Agoto de 2001.###

 


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