Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Fevereiro de 1999 - Vol.4 - Nş 2

Notas Ocasionais no NIH

Uma conversa com Dr. Meyersburg.

Dr Paulo Jacomo Negro Jr.
Investigador Associado
Clinical Neuroendocrinology Branch
National Institute of Mental Health
National Institutes of Health

Dr. Herman Arnold Meyersburg é uma figura conhecida nos círculos analíticos da grande Washington e do país. Ele é analista emérito do Instituto Psicanalítico de Washington e criou a mais importante entidade para tratamento psiquiátrico de populações carentes na grande Washington.

Ele transita com facilidade no NIMH, onde vem provendo supervisão a gerações de jovens pesquisadores. Com seus 85 anos, ele é capaz de descrever o progresso de pacientes acompanhados por mais de quatro décadas.

Mas o que mais ressalta no contato é seu profundo humanismo, capacidade de interação e constante questionamento de pressupostos. Em nosso grupo, Dr.Meyersburg provê supervisão há décadas e posso dizer que tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e desenvolver com ele os meus mais transformadores diálogos no NIH.

PJ. Gostaria que o senhor falasse sobre como os princípios de navegação se aplicam às relações humanas.

Dr. M. O nome do artigo é "Nada é Perfeito". E naturalmente isto nada mais é que o princípio da navegação. A cada hora o navegador deve checar onde está de forma a não sair muito longe de seu curso. Ele pode ir daqui até ali e nunca ter estado exatamente em curso. De fato, se ele seguir qualquer linha reta ele nunca irá até onde deseja chegar. Porém, por meio de constante checagem ele se articula ao redor de uma linha e chega a seu ponto de destino. Devido a obstáculos como correntes, vento, marés, tempestades, e obstáculos sob a superfície da água não é possível seguir uma linha reta. O mesmo ocorre em situações de navegação moderna, que a despeito de poder efetuar correções de forma mais precisa, ainda é sujeita a erros.

A correção destes erros é um processo que eu denominei "aproximação sucessiva". Eu estava lendo a autobiografia de Albert Einstein e ele usava o termo aproximação sucessiva como o método de investigação científica. Na verdade eu li a autobiografia apenas após minha idéia já estar formulada, mas devo dar crédito a suas idéias. Eu fiquei agradavelmente surpreendido ao perceber que ele utilizou o mesmo termo.

Este é o processo de navegação, a "aproximação sucessiva", e esta é a forma que precisamos viver nossas vidas. De outra maneira não chegamos a lugar algum. Precisamos constantemente identificar nossos próprios erros e através de sua correção, construir mais informação, progredir naquilo que conhecemos e, finalmente, chegar ao limite de nosso conhecimento atual.
Consolidamos e traduzimos o erro/correção em novas informações e nos movemos em explorações progressivas.

Se fizermos o erro de nos condenar pelos erros, isto nada mais é que uma forma de auto-sabotagem. Interfere com a capacidade de compreender a natureza de estar errado e, portanto, impede sua correção. Devemos considerar o erro como a descoberta de uma jóia bruta. Nós corrigimos o erro e ela se torna polida, lapidada. Mas estas são pedras que não precisamos preservar. De fato, devemos estar sempre atentos a revisões e buscar identificar novos erros para usar tais pedras como pontos de apoio de nosso desenvolvimento. Este é um ponto de vista que infelizmente é ensinado apenas em escolas de navegação. Em muitos outros lugares erros são condenados. Na escola de navegação você não é suposto deixar os erros passarem despercebidos e não serem corrigidos. É desta forma que crescemos intelectualmente. De qualquer maneira, não há outro modo de crescer intelectualmente após o término da adolescência.

O que faço com vocês no NIH é ajudá-los a compreender o que eu aprendi e testar em seus pacientes. Se após testarem vocês chegarem à conclusão de que funciona, ótimo. Caso contrário, se vocês encontrarem erros, então eu digo - ótimo, muito obrigado pois não sabia que havia um erro e é meu papel corrigi-lo. Então eu volto a vocês, que aplicam a correção e, então, passam a executar suas próprias correções. A partir do momento que você compreende o que eu digo, a informação pertence a você e pode ser desenvolvida a partir do ponto que estou para crescer mais. É como um transplante em botânica, colocamos o ramo junto a outra pessoa e ambos crescem juntos.
Tornam-se uma pessoa só, posteriormente. Torna-se parte de seu conhecimento, que você mesmo critica, corrige e progride.

PJ. Um dos problemas é que perdoar a si mesmo pode ser difícil.

Dr. M. No começo somos ensinados que erros são ruins e "se você cometer erros, é melhor tomar cuidado"! Não há nenhuma maneira de não errar. Erros são parte da vida humana. A partir do momento que fizermos algo não familiar, erros irão aparecer. É através da correção que podemos expandir nosso conhecimento. Esta idéia de que não devemos errar é uma das maiores falhas de nossa educação. É uma falha criminosa pois destroi o desejo da
criança de aprender pois ela acha que tudo deve sair de sua mente pronto, como o mito do nascimento de Vênus, nascida da mente do pai como uma mulher totalmente crescida.

Não. Nós nascemos como criaturas pequenas. Mesmo antes de nosso nascimento nós crescemos e crescemos. E este crescimento é constantemente aumentado pelas experiências da vida, acuradas ou não. Erros e não erros. E se continuarmos a prestar atenção e sucessivamente fizermos o que devemos de maneira mais acurada e relevante nossa mente irá crescer. Se formos educados para não agir desta forma, isto interfere com o crescimento de nossa mente.

Acho que em todos os lugares do mundo se assume que não devemos fazer erros. Este é um pressuposto errado. Digamos, é como dizer que não devemos ter cabelo na cabeça, mas na sola dos pés. -"Se não tiver cabelo na sola dos pés, não será possível andar na neve, como o lince. E você vai sofrer as conseqüências por não ter pelos lá!" Bom, que soframos as conseqüências, mas mesmo assim não vamos fazer crescer cabelo nos pés pois não faz parte de nosso destino biológico.

PJ. É difícil pensar independentemente.

Dr. M. Esta é simplesmente a pior falha da nossa educação. Somos ensinados no 11º mandamento: -"Não deves aprender a pensar". É um mandamento inculcado através da condenação dos erros. Por insistir que nos subjuguemos às opiniões e atitudes de nossos antepassados, gostemos ou não, -"Honrai pai e mãe". Pois bem, o que isto tem a oferecer se nosso pai for um ladrão e assassino e nossa mãe uma prostituta? O que há para honrar? Nada. Nós devemos ser capazes de olhar para estas coisas e dizer: -"Este é o risco com o qual fui encilhado. Porque não pude escolher meus pais. E eu tenho a tarefa de corrigir estes erros para que possa continuar". Se a criança é proibida de fazer isto por, digamos, quinze anos uma tremenda quantidade de correções precisa ser feita.

Esta é a tarefa da psicoterapia. Todos os indivíduos que vem para psicoterapia foram ensinados desde o berço coisas que interferem com o desenvolvimento de sua própria autonomia. E nossa tarefa é ajudá-los a superar isto. Isto é diferente de abordar questões específicas, Édipo, sentimentos de inveja do pai ou mãe, e outras coisas do tipo. Certo, isto faz parte do trabalho, mas não é a parte mais importante. A parte importante é corrigir os erros que foram despejados em nós em tenra idade para que possamos ser livres para pensar. De outra forma, somos escravos do passado. Ao contrário do que dizem muitos psicanalistas, psicoterapia é uma forma de aprendizado. Se não há aprendizado, de que vale? Nada. Torna-se apenas um ritual no qual o indivíduo vem ao consultório se deita e espera melhorar magicamente. Isto é o que tento passar sempre que posso com meu trabalho com pessoas jovens no NIH.

PJ. E eu acho que o senhor é bem sucedido.

Dr. M. Eu também acho. É importante observar como pessoas mudam, como pensam sobre as mais diversas coisas. Que não precisam se sentir culpadas por fazer um erro. Fazer um erro é evidência de uma vida ativa. É caminhar para uma área em que há algo para aprender. Precisamos cometer os erros necessários para que o aprendizado se concretize. Se não somos livres para fazê-lo, se não temos a liberdade para aprender; como poderíamos pensar diferentemente? Nossas mentes estariam aprisionadas.

PJ. "Perfeição é uma forma de aniquilação".

Dr. M. Se observarmos a distribuição normal dos fenômenos, ambos os finais da curva estão vazios. Tanto o final perfeito, quanto o zero final. Não há nada nestas classes, não existe nada tal como zero e não existe nada tal como 100%. Nós não sabemos tudo o que há para saber no mundo, mas também não estamos em total ignorância.

Se isto for verdade, então se alguém conseguisse atingir a perfeição e cair nesta categoria, por definição vazia, inferencialmente seria aniquilado. É como cair em um buraco negro no espaço. Este é meu produto conceptual por aplicar a idéia de que nada é perfeito. Pois perfeição eqüivale a aniquilação. E o nada também eqüivale a aniquilação. Se colocarmos esta curva em um mecanismo de gravação, como por exemplo, um tambor esfumaçado antigo para medida de gráficos, a curva começa aos zero pontos, sobe e depois desce, terminando por se conectar com o ponto inicial do outro lado do cilindro. E é isto o que observamos quando dizemos que ambos são equivalentes. Zero eqüivale a 100% e vice-versa pois em ambas as classes há aniquilação, um buraco negro psicológico. Este é um tipo de lógica importante para mim, quando traduzimos aquilo que sabemos matematicamente para o mundo funcional sem fingir que a matemática não faz sentido. Dentre os adolescentes mais inteligentes em nossa sociedade, a taxa de suicídio é alta. Eles ficam deprimidos pois tentam ser perfeitos e quando chegam lá percebem que não existe nada, é inútil.

PJ. Minha esposa acabou de dar plantão hoje e encontrou uma das colegas de residência. Esta colega lhe disse que sentia muita falta da clínica médica pois não havia suficiente estrutura em psiquiatria e enquanto que em medicina interna há bastante estrutura. Ela mencionou então que "sabia que não era exatamente tratada como ser humano", mas ainda assim preferia permanecer lá.

Dr. M. Se ela não é tratada como ser humano, certamente há algo errado no sistema.

PJ. Mas o sistema já está incorporado em sua mente.

Dr. M. Certo, não digo que isto não ocorra, mas a incorporação do sistema está associada a não pensar independentemente, o que é o fator limitante.
Devemos ser capazes de pensar independentemente, a despeito do que precisamos fazer [para sobreviver]. De outra forma, não podemos crescer. Pois crescer é o desenvolvimento da mente e isto é sabido desde tempos imemoriais pelo homem. Por exemplo, os antigos oráculos na Grécia, principalmente o oráculo de Delphi, tinham um conselho para dar àqueles que os procuravam: -"Conheça a si mesmo". Estamos falando de coisas de milhares de anos atrás. O povo hebreu 200-300 anos antes de Cristo tinha a mesma idéia: -"Se eu não for por mim, quem será por mim e, se não agora, quando"?
Então Cristo apareceu e começou a dizer coisas dentro da mesma linha.
Passou-se um bom tempo e Shakespeare desenvolveu estas idéias e, finalmente, Freud. Assim de tempos em tempos humanos tem uma idéia do que é realmente importante, que eles devem conhecer a si mesmos, pois de outra forma estamos todos perdidos. Se eu não for por mim, então quem será? Zero, aniquilação.

PJ. Mas não é o que a sociedade espera, que nos conformemos?

Dr. M. Naturalmente. Nós vivemos em um mundo que põe no lixo todo este conhecimento importante.

PJ. As religiões eram cruciais para conformar as pessoas. Mas mesmo em nosso século, no qual religião é bem menos importante, tivemos coisas como o estado totalitário comunista na Russia e em outros países, e mesmo no mundo ocidental o consumo em massa é uma maneira econômica de dizer compre isto, use aquilo e todos usam as mesmas coisas.

Dr. M. O que você acha destas tendências na sociedade: religiosa, política, econômica?

PJ. Acho que para a pessoa média, a despeito da sociedade à qual ela pertença, há sempre a tendência de fazê-la se conformar. Mecanismos e razões diferentes, mas fazendo com que não pensemos, apenas nos comportemos da maneira esperada.

Dr. M. A sociedade é regressiva. Precisamos tomar cuidado, não podemos sacrificar a vida intelectual no altar do conformismo. Conformismo com qualquer coisa ou ideologia. Pelo menos em nossa mente devemos ser autônomos. Eu posso me conformar com o que preciso fazer para [sobre]viver nesta sociedade, mas não tenho que fazer minha mente se conformar. Minha mente deve ser livre. Mesmo para olhar algo que não gosto. Pois apenas assim podemos tomar as medidas necessárias para não sermos aniquilados. Tanto física quanto mentalmente.

-"Penso, portanto existo". Descartes deixou de fora algumas coisas, como o sentir e o fazer. Eu diria: -"penso, sinto, faço, portanto sou". Pensar e sentir são muito próximos e pensar deve estar em uma posição privilegiada, antes do fazer. Se agirmos baseados no que pensamos e sentimos, seremos mais acurados que se agirmos baseados em impulsos. Devemos criticar o que sentimos e pensamos, isto é, considerar o campo de significância daquilo que sentimos. Lembre-se, criticar não é o mesmo que condenar. Precisamos permitir que nosso pensamento seja modificado pelas observações que fizermos.

PJ. Estava pensando nas contradições do treinamento analítico, os seus três aspectos: arte, comércio, ciência.

Dr. M. Esqueceu do quarto? Religião.

PJ. Mas manter a mente aberta faz parte do treinamento científico.

Dr. M. A mente do cientista sempre deve estar aberta para mudanças. Eu lhe emprestei o livro de Popper. Ele deixa bastante claro isto tudo. Boa parte de meu raciocínio incorpora suas considerações. É necessário constantemente buscar nossos próprios erros. Pois assim podemos utilizá-los para seu propósito, ou seja para sua própria correção. Se não utilizarmos os erros com o objetivo de corrigi-los estamos perdidos pois este é um dos princípios do desenvolvimento científico.

A crítica que fazemos deve incluir diversos aspectos de nossa vida, tanto individual quanto em comunidade. Precisamos ser capazes de aplicar nosso avanço do conhecimento a todas as fases da vida. Reconhecer nossa existência como parte do fenômeno da terra. Gostaríamos de acreditar que há coisas vivas em outros planetas ou galáxias, mas até o momento não temos evidência confirmatória disto. Nós sabemos que há algo sobre o ambiente na terra que permite o desenvolvimento de coisas vivas. Mesmo no interior da terra, no qual a temperatura é alta, há organismos vivos que podem se adaptar à intensidade do calor. Porém compreendemos pouco sobre estas formas de vida. Existiram e provavelmente ainda existem sistemas de vida que dependem de substâncias diferentes de oxigênio para a manutenção da vida. Estas imensamente importantes e pouco exploradas áreas permanecem para novas gerações com um conhecimento mais abrangente do mundo investigar.

Para aqueles de nós que vivem na superfície da terra existe uma necessidade de reconhecer que nossa existência não pode ser separada da existência de outros organismos. Se aplicarmos o conceito de aproximação sucessiva a estas atividades, devemos perguntar o quanto podemos prosseguir antes de interferir com o ecossistema da terra, vital para a vida de animais, inclusive humanos. Por exemplo, nas ilhas havaianas, na segunda parte do século XIX vastas áreas de florestas únicas foram cortadas para produção de perfumes. Foi descoberto que a ecologia destas florestas não foi mantida e várias espécies de árvores não podem ser cultivadas lá. As poucas árvores que sobreviveram não podem reconstruir a floresta pois o ecossistema como um todo foi seriamente destruído. Se fizermos isto a outras florestas em nosso esforço de conseguir "lucros econômicos" para pequenos grupos de indivíduos, poderemos perder indefinidamente uma ecologia para miríades de outras formas de vida. Precisamos observar este processo como algo de crescente ameaça à vida humana. Florestas tropicais no mundo já foram queimadas para processos de agricultura. Nossos oceanos foram pescados mecanicamente de maneiras que ameaçam aniquilar muitas espécies de peixes. Algumas já foram perdidas. Se não regularmos este processo e corrigirmos os erros, corremos o risco de privar humanos de recursos. Através da ameaça a outras espécies, ameaçamos a nossa.

Temos que reconhecer que nossos políticos estão operacionalmente cegos a estas questões e continuam a promover processos de exploração da terra sem considerar estudar a importância para nossa própria ecologia. Nós precisamos cessar de considerar nossos processos políticos acima de questionamento e submetê-los ao mesmo escrutínio que os demais processos humanos de maneira a promover a sobrevivência da espécie.

Paulo Jacomo Negro Jr., M.D.
Clinical Neuroendocrinology Branch/NIMH/NIH

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