Volume 11 - Março de 2006
Editor: Giovanni Torello


Março de 1999 - Vol.4 - Nş 3

*Visita às casas de Freud - uma ficção freudiana (*)

Sérgio Telles **

Sérgio Telles** Psicanalista e Escritor. Formou-se em Medicina em Fortaleza em 1970, ano em que veio para São Paulo. Fez sua formação analítica no Instituto Sedes Sapientiae, no Curso de Psicopatologia e Psicoterapia Psicanalíticas (atualmente "Formação em Psicanálise"), onde foi professor e supervisor de 1980 a 1992. Tem colaborado em vários jornais e revistas e é autor de um livro MERGULHADOR DE ACAPULCO (Imago Editora).

* (*) Em 1978 Octave Mannoni escreveu sete saborosas narrativas, às quais intitulou "Ficções Freudianas" (tradução brasileira pela Livraria Taurus Editora - Rio - 1983). Este texto pretende inscrever-se no mesmo espírito que animou Mannoni naquela ocasião, lamentando não alcançar a graça e a finura por ele ali alcançados.

O analista jamais duvidou que um dia iria a Viena. Para ele, como para todos analistas, Viena é uma espécie de pátria espiritual, moldura necessária que enquadra a descoberta do Inconsciente, o berço da psicanálise. Viena está irremediavelmente ligada ao nome de Freud.
Pois finalmente o dia chegara e o analista ia, com sua mulher, para Viena. Um pouco antes de viajar, lera alguns capítulos do livro de Schörske (Viena fin-du-siecle - Cia. das Letras - 1986), principalmente aqueles que abordam os projetos urbanísticos que trouxeram grandes mudanças à cidade em meados do século passado. O mais impressionante deles foi o que transformou num complexo de grandes avenidas e edifícios monumentais (a Universidade, o Parlamento, os Museus de História da Arte e Natural, as igrejas, etc), o chamado Ring, o milenar fosso que isolava dos outros bairros a cidade velha, núcleo do poder e residência imperial.

Anos antes, o analista vislumbrara Viena no filme de Alexander Korda, O Terceiro Homem. Ali estava ela em escombros, humilhada sob a poeira dos bombardeios e o tacão das potências aliadas, pagando a crime de sua cumplicidade com Hitler. Mesmo assim, encantadora. O analista imagina como a encontrará.

Cinquenta anos depois do filme de Korda, o analista e sua mulher encontram uma esplendorosa Viena que exibe um esteticismo tão arrebatado em sua organização espacial que o fez pensar que ela mais parecia produto de cenógrafos do que de urbanistas. Viena parecia um magnífico palco de grandiosas óperas. Andando por suas ruas e avenidas, o analista se imaginava andando num cenário teatral.

Essa sensação se manteve enquanto andavam de fiaker pelo Ring, enquanto perambulavam pela Graben e pela Kärntner Strasse, enquanto visitavam os museus, o Burg, as igrejas, os parques, o Palácio Schönbrunn, os monumentos art-nouveau da Secessão - os pavilhões de Karlplatz, portais do Stadtpark, o mural Beethoven de Klimt, os tradicionais cafés Central, Landtmann e Hawelka, os restaurantes. Viram muitos lugares impressionantes.

No dia antes de deixarem Viena, foram ver o Museu Freud. Somente então o analista se deu conta que deixara para a última hora aquela visita.

Para continuar usufruindo da beleza da cidade, resolveram ir a pé, apesar de estar o Museu Freud não tão perto do hotel situado atrás da Peterskirsche. Atravessaram a grande avenida do Schottenring, pegaram depois a Währinger Strasse, de onde sai a longa ladeira da Berggasse, à procura do número 19, a casa de Freud.

O acanhado prédio de Freud, com sua fachada um tanto pretensiosa fez o analista lembrar dos comentários de Schörske sobre a preocupação que a burguesia vienense do século passado tinha com a aparência de seus edifícios.

Como o prédio é ocupado normalmente, o visitante deve tocar a campainha do apartamento de Freud para ser autorizado a subir ao primeiro andar. Antes de entrarem, o analista pediu que sua mulher tirasse algumas fotos na frente do prédio. Traspassada a grande porta, viram-se num discreto vestíbulo de onde saía a escada, que tentava ter uma certa imponência.

O analista não ignorava que a maior parte dos pertences de Freud tinha sido levada para Londres, cidade que o acolheu quando tivera de deixar uma Viena entregue aos nazistas. Tal só fora possível graças às gestões da Princesa Bonaparte junto à embaixada americana, que pressionara os alemães. Freud conseguira sair com mulher e filhos. O mesmo não acontecera com suas irmãs, que morreram em campos de concentração.

Ao entrarem no apartamento, dirigiram-se a uma sala onde estavam os funcionários, que lhes deram um livreto que os orientaria durante a visita. Como não havia uma versão em português, escolheram um em espanhol.

Ali no apartamento estava apenas a sala de espera intacta, com os móveis estofados, as gravuras, a mesa. Parecia uma sala de visita pequeno-burguesa, extremamente convencional. Na mesinha de centro havia um grande álbum de vistas, postais de cidades. Numa das paredes, uma janela dava para um pequeno pátio.

O analista se emocionou ao pensar que um dia naquele mesmo lugar, olhando daquela janela para o pátio, aguardando sua hora, estiveram o Homem dos Ratos, o Homem dos Lobos, Dora, os míticos pacientes de Freud. Lembrou que naquela salinha aconteciam incialmente as famosas "reuniões de quarta-feira", embrião das poderosas associações psicanalíticas.

Na sala vizinha, onde fôra o consultório, painéis fotográficos mostravam o lugar das estantes, das estatuetas, das antiguidades, do divã, da escrivaninha.

Naquele momento em que a visitavam, a sala estava ocupada por uma turma de colegiais, que ouviam desinteressados o que sua professora falava sobre Freud e a psicanálise. O analista tentou - sem sucesso - esperar que eles saíssem para poder meditar um pouco ali naquela sala onde tanta coisa fora descoberta por Freud.

O analista viu que o mesmo devia estar pensando um homem de sua idade que tentava ler seu livreto em inglês. A solenidade e a compostura com as quais ambos - o analista e aquele outro homem, que talvez fosse também outro analista - se imbuíam não condiziam com a leve balbúrdia proporcionada pela professora e seus alunos.

O analista e sua mulher desistiram de esperar que a aula acabasse e foram explorar as outras dependências do museu. Passaram por uma sala onde eram vendidos livros, postais, lembrancinhas. Havia duas salas com exposições, uma delas com objetos de Freud, outra com quadros ligados a sua obra. Uma terceira com uma exposicão de jóvens artistas de Viena que prestavam uma homenagem à descoberta do Inconsciente.

Meio constrangido, pois temia estar transformando Freud num ítem de consumo, o analista comprou uns postais, uns chaveirinhos, umas canetas, uns posters. Parou um pouco no vestíbulo, observando a porta de entrada do apartamento, com a placa Dr. Freud. Naquele momento estavam chegando, meio esbaforidos com o esforço de subir a escada, um casal francês de meia idade e um gordo mexicano, que vestia um caro casaco de pelo de camelo. O analista imaginou que, como ele, também deviam estar cumprindo a mesma visita ritual à Meca psicanalítica.

Voltaram para o interior do museu e viram, noutro aposento, vídeos de filmes documentários com Freud. Até então o analista nunca tinha visto Freud fora de suas conhecidas fotografias, onde a imobilidade própria das fotos dava-lhe o aspecto hierático, grandioso, condizente com sua estatura de gênio da humanidade. Achou estranho vê-lo em movimento, isso lhe devolvia a humanidade, revelava sua fragilidade, sua vulnerabilidade. Ali estava um velhinho andando para cá e para lá com amigos e familiares. Mais estranho ainda pareceu ao analista o som tremido e fraco da cansada voz de Freud.

Durante todo este percurso, o analista tentava se asenhorear de seus sentimentos e sensações, percebendo as oscilações que neles ocorriam. Antes de mais nada, sentia-se muito contente, realizando um sonho longamente acalentado. Estava desbravando um território conquistado. Sentia-se orgulhoso de estar ali. Depois, a visita à casa de Freud era como uma modestíssima homenagem que prestava ao mestre, era uma demonstração de respeito e admiração.

Após visitar tantos prédios e palácios esplendorosos de Viena, o analista registrou que se sentia comovido com a simplicidade do apartamento de Freud. O mesmo sentira ao passar em frente ao prédio de apartamentos onde morara Beethoven. Naquela ocasião, tinha acabado de assistir a um recital no suntuoso Palácio Lobkowitz, na Sala Eroica, assim chamada por ter sido ali onde Beethoven tocara pela primeira vez sua sinfonia. A comparação entre o fausto do palácio e a humildade da residência de Beethoven pareceu-lhe gritante e injusta.

O analista notou que tais pensamentos não justificavam o crescente desconforto no qual sentia-se mergulhar. Como era de se esperar, tentou compreender melhor o que sentia, fazendo uma rápida auto-análise. Começou por lembrar que todo analista tem um certo grau de identificação com Freud. Todo analista conhece a fundo os textos freudianos, suas biografias, o que - além do exercício da profissão - lhes proporciona uma imaginária intimidade e familiaridade com Freud. Cada um, a seu modo, sente-se um pouco como Freud, sente que é Freud. E era justamente esse sentimento de proximidade e intimidade com Freud que o analista, com certa perplexidade e pesar, sentia estar perdendo naquele momento. Era essa a fonte de seu desconforto.

Constatava que o estar no ambiente físico onde Freud vivera, o estar junto de seus objetos, dentro de sua casa, não faziam crescer a intimidade e proximidade que sentia até então. Pelo contrário, mais do que nunca sentia-se afastado e distante dele. Sentia-se frustrado com esta descoberta, mas julgava que a entendia.

O ver o apartamento de Freud, espaço por ele ocupado por mais de 40 anos naquela rua de Viena, fazia Freud aparecer em sua inteireza singular de sujeito, o que - de alguma forma - desfazia a identificação imaginária que o analista mantinha com ele, pois ele próprio - o analista - se sentia devolvido a si mesmo, à sua própria inteireza, a sua própria identidade.
Pensou que se, por uma mágica qualquer, Freud aparecesse naquele momento ali no apartamento o veria como um estranho, um desconhecido, distante de sua vida, de seus círculo de amigos e familiares, de seus feitos.

Com certo pesar e susto, constatava o que sempre soubera - que ele e Freud eram pessoas distintas uma da outra. Por mais que pudesse imaginar a vida de Freud em Viena, como tinha feito em suas andanças pela cidade, pensando nas dificuldades que ele como judeu tivera de enfrentar no império austro-húngaro dos Habsburg, esmagado pelo esplendor barroco católico do poder da aristocracia, por mais que pudesse entender, empatizar, aquela era a vida de Freud, não a sua.

O analista pensou que alimenta-se uma intimidade imaginária com os ídolos até chegar-se muito perto deles, quando se estabelece a diferença, o estranhamento, o quebrar-se do espelho narcísico. Isso é comum com os grandes ídolos de massa (política, cinema, música, pop), com quem os admiradores se fundem inconsciente e narcisicamente. Também para eles é intolerável a constatação da diferença, do distanciamento, da realidade imaginária daquela identificação, coisa que tem por vórtice o momento de encontro face a face com o objeto de tal idealização. Essa quebra, esse desfazer da identificação narcísica é sempre traumático, violento, desencadeador da agressividade a mais destrututiva. O assassinato de John Lennon por seu grande fã ilustra perfeitamente tudo isso, configurando-se ali o encontro letal com o doppelgänger, o insuportável momento de ruptura, de perda narcísica.

O analista lembra os escritos de Lacan sobre a fase do espelho e sua posterior elaboração, em termos da alienação constitutiva do sujeito no desejo do Outro e o dela sair, com o resgate do próprio desejo.

Ao sair da casa de Freud e subir a longa ladeira da Berggasse até a Wäringer Strasse, o analista lembrou de um paciente que se queixava do local de seu novo consultório, descrito derrisoriamente por ele como uma pirambeira, por situar-se no meio de uma ladeira. Um tanto constrangido, o analista constatou que talvez essa lembrança indicasse uma identificação com o paciente. Talvez estivesse fazendo o mesmo com o consultório de Freud, denegrindo-o por estar mal localizado, numa pirambeira. Por outro lado, essa identificação o colocava como paciente de Freud, realizando assim um desejo, um sonho de todo analista - o ter sido paciente de Freud.

Na Wäringer Strasse, o analista e sua mulher entraram num antiquário, mas logo saíram. Estavam cansados e com fome, o que os fez estugar o passo, procurando o Macdonald's da Universitätsstrasse, em frente à Universidade, para onde se encaminharam depois do lanche, no desejo de localizar o busto de Freud no grande pátio do prédio principal.

O analista pensava que, levando em conta a dimensão do reconhecimento que o gênio de Freud atingira, não deixava de ser tocante que ele, num determinado momento, considerara uma grande honra ter um busto ali, no meio daqueles que ele desejara ter como pares. Ao encontrar o busto, muito simples e modesto se comparado com os grandes bustos e monumentais baixos e altos relevos que louvavam o saber de tantos outros mestres da academia, o analista foi tomado por um sentimento de justiça poética. Pensou que Freud, de todos aqueles professores e cientistas, era o mais famoso, o mais genial, o mais universalmente aclamado, provavelmente o único que justificaria uma visita como aquela que ele e a mulher estavam fazendo naquele momento.

A figura de Freud não estava apenas ali no busto do pátio da Universidade, mas marcava a História do pensamento do século XX. O onipresente olhar de Freud abarcava toda a humanidade. Afinal, como descobrira já no aeroporto de Viena ao trocar os dólares pela moeda local, Freud o olhava também a partir da cédula de 5 xelins, onde sua efígie era a evidência mais cabal do reconhecimento oficial da Áustria. Freud era um herói nacional.

Estas considerações do analista foram suspensas até serem retomadas na escala seguinte de sua viagem, quando visitaram a casa londrina de Freud, em Hampstead.

Foram de metrô, parando na estação Finchley Road. Atravessaram uma larga avenida, subiram uma ladeira e já estavam na Maresfield Gardens, uma avenida arborizada, cheia de casarões de tijolinhos vermelhos e acabamentos brancos. Logo cruzaram com duas mulheres que falavam francês e que portavam sacolas com o logotipo do Freud Museum. Viram que estavam chegando.

Abriram o portão do jardim e atravessaram a curta alameda que levava para a porta principal. Encontraram-se num vestíbulo, onde havia uma mesinha com cadeira. À esquerda, abria-se uma pequena porta. Em frente, um grande arco dava passagem para o corpo da casa. Não havia ninguém ali para os receber, o funcionário devia ter ido a algum lugar. A mulher dirigiu-se para os fundos, onde se ouviam pessoas falando. O analista entrou no primeiro aposento à direita e, surpreso, viu que estava no consultório do Freud. Além dele, estava ali um casal, que, numa nova surpresa, falava em português. Eram uma psicanalista de Porto Alegre e seu marido, que lhe traduzia em voz alta o folheto do museu. Embora avisos na parede expressamente o proibíssem, ela tirava fotos do local.

Ali estavam o divã, os tapetes, as antiguidades, os livros, a escrivaninha, a poltrona, tudo como esperava, como já tinha visto tantas vezes em fotos.

Sem entender, o analista registrou que não se sentia bem, estava tenso e angustiado. Sentia como se quizesse sair imediatamente dali, como se quizesse manter irrealizado seu desejo tantas vezes acalentado de ver o consultório de Freud, mantê-lo como um projeto futuro e distante feito por um jóvem que diz para si mesmo: um dia vou visitar a casa de Freud e não tem nenhuma pressa quanto a isso, pois vê a vida como uma longa e infindável estrada que mal começou a trilhar.

O estar efetivamente visitando a casa de Freud provocava no analista um paradoxal sentimento depressivo. Parecia-lhe não uma aquisição e sim uma perda. Despertava-lhe uma inesperada consciência de sua idade madura, de já não ter um futuro imenso e despreocupado com que contar, de ter que viver sofregamente o agora. Dava-lhe uma dolorosa percepção do tempo, com sua finitude e fugacidade.

Perdido em tais pensamentos, o analista se assustou quando ouviu um funcionário do staff repreendendo a psicanalista gaúcha, que continuava a tirar fotos proibidas. Teve um pouco de vergonha por ela e logo ficou embaraçado, pois não tinha comprado ainda os ingressos.

Confuso e tumultuado, surpreso com tais sentimentos que o assaltaram inesperadamente, o analista sentiu-se só e desamparado e foi atrás da mulher, que estava ainda nos fundos da mansão, num lugar onde havia uma pequena livraria e uma lojinha, onde ela escolhia camisetas, moletons, lembrancinhas do museu. Confortado com sua presença, voltou com ela até o pequeno vestíbulo do museu, onde compraram os ingressos do funcionário que agora estava a postos na mesinha. Os dois ingressaram no consultório de Freud, onde o analista, já mais calmo, pôde apreciar o que ali estava exposto.

Dali encaminharam-se para o segundo andar, onde Anna Freud tinha seus aposentos, com seu tear, sua cama, seu guarda-roupas, sua escrivaninha. Ali encontraram dois outros psicanalistas brasileiros. Eram de Belo Horizonte e muito jóvens.

Apesar de mais calmo, de novo o analista se viu assaltado pelo estranhamento, o mesmo distanciamento que sentira em Viena. As relíquias de Freud, seu consultório tão cuidadosamente preservado com suas ricas peças, tudo com tanto valor afetivo e histórico, tudo aquilo agora parecia-lhe esvaziado de sentido, objetos mortos, mórbidos. Vislumbrava a grande distância entre o homem e a obra, via que a essência de Freud não estava ali naqueles objetos, por mais valiosos que fossem, mas em seus livros, suas obras, seu espírito.
Tudo o que tinha sentido em Viena, na Berggasse, o analista sentia mais intensa e claramente agora, ali no meio dos objetos, móveis e pertences de Freud. Era fácil imaginá-lo andando por aqueles espaços, subindo a escada, sentado ali, pegando um de seus livros, alisando uma estatueta. E o imaginar isso, o visualizar a pessoa histórica de Freud, mais uma vez forçava uma ruptura entre Freud e ele. Mais uma vez pensou que se, por um milagre, Freud aparecesse naquele momento ali o consideraria um estranho.

Tal como uma criança que, segurando a barra da saia da mãe, se considera parte dela até penosamente concluir ser isto apenas uma ilusão, o analista de alguma forma se segurara na barra das calças de Freud, compartilhando imagináriamente sua extensão gigantesca, sua monumentalidade de gênio. Novamente se defrontava com o que nunca deixara de saber, que Freud não era ele, ele não era Freud.

Essa separação fazia o analista sentir-se esmagado frente a grandeza de Freud, gênio benfeitor da humanidade. Ele sentia-se pequeno e insignificante, apenas mais um daquela anônima humanidade, um brasileiro, um terceiro-mundista, vindo de um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mais que beleza, e que tinha carnaval. Foi invadido por um poderoso sentimento de inveja e ódio contra Freud ao pensar que jamais atingiria sua estatura.

Talvez por tudo isso, o analista sentiu uma grande antipatia, uma visceral hostilidade frente aos brasileiros ali presentes, os psicanalistas do Rio Grande do Sul e de Minas. Não quis confraternizar com eles, nada de conversas e trocas de informações de viagem. Se acabara de desfazer sua identidade fusional com Freud e tentava recentrar-se em sua própria identidade, estava longe de se sentir inclinado a se identificar com aquelas pessoas que estavam ali falando, em tom excessivamente alto, esta última e bruta flor do Lácio, ignorada por todos, esta língua semi-bárbara, eterna prima pobre do Francês e do Italiano. Pessoas que insistiam em tirar fotos apesar da proibição expressa, pessoas com o desenho e a cor do seu país, pessoas que como ele estavam ali sorvendo o ar milenar da Europa, da loura Albion, tentando parecer familiarizados com o clima, a fina garoa, o usar com desenvoltura o trench-coat, falar o inglês com um sotaque continental, fôsse ele qual fôsse, já que para os ingleses mais cabotinos, o continente, aquela parte da Europa não contida pela ilha, era o berço de uma gente mal-educada, ignorantes que nunca fora a Cambridge e Oxford, únicos lugares onde se aprende a ser um efetivo gentleman. Que diriam eles se soubessem que atrás de seu belo casaco comprado na Burberry's, estava um reles habitante do Terceiro Mundo?
Já se preparavam para sair, quando o analista sentiu uma incontrolável necessidade de aliviar os intestinos. Era um inadiável apelo da natureza, como falavam os antigos. O analista lembrou do caso relatado por Freud, um adolescente que entrou em surto aos berros de Natureza, Natureza. Estaria se identificando com este paciente de Freud? Mas não havia tempo para divagações, estava vivendo uma situação de urgência. Informou-se de onde havia um banheiro e foi-lhe indicado um pequeno lavabo logo na entrada da casa. Era aquela pequena porta à esquerda, que tinha visto ao entrar no vestíbulo.

Ao sairem do museu, a mulher do analista disse-lhe que tinha ficado constrangida pois o vestíbulo, onde ela o esperara e onde também estava o funcionário em sua pequena mesa, fora invadido pelos desagradáveis e inconfundíveis odores vindos do banheiro.

Perto da estação de metrô, viram uma moderna loja de decoração, onde entraram. Enquanto a mulher olhava os objetos da loja, o analista começava a tentar entender aquela súbita necessidade de ir ao banheiro. Ao sairem da loja, resolveram voltar de ônibus, ao invés do metrô. Não tinham pressa e poderiam apreciar mais a paisagem vista do segundo andar do double-decker. Ao subirem ali, encontraram vários adolescentes paquistaneses que, voltando das aulas, falavam em altos brados sua língua nativa. O analista lembrou de sua vergonha do português e os invejou por não se envergonharem da deles.

No meio da algazarra dos adolescentes, o analista tentou pensar nos motivos do constrangimento de sua mulher. O andamento de seu raciocínio foi interrompido várias vezes por ela, pelos adolescentes paquistaneses e por ele mesmo, que se deixava distrair pela paisagem vista do ônibus, pelo que via pela janela - o tráfego intenso, o movimento das pessoas nas ruas, o Regent's Park, a Marylebone Road, o Museu de Mme. Tussaud, local que não se deu ao trabalho de ir visitar, para escândalo de uma velha conhecida que encontraram logo que retornaram da Europa. Anos antes a pobre senhora tinha feito uma excursão pela Inglaterra e a visita ao Museu de Cera fora o ponto alto de sua estada em Londres. Ao saber que o analista e sua mulher não tinham ido ali, não pode conter sua perplexidade.

Entre paradas e avanços, distrações e retomadas, retas e curvas, o que o analista pensou foi que o aprendizado do contrôle esfincteriano é um dos importantes momentos de ruptura da fusão narcísica com a mãe. De repente, a criança descobre que a mãe não compartilha todos seus desejos e pode ter desejos próprios, opostos àqueles seus. A mãe começa a ensinar à criança como e onde evacuar e urinar. Começa a impor limites, a contrariar a onipotência infantil, a quebrar o espelho narcísico da comunhão absoluta de todos os desejos. A criança reage a tudo isso, fazendo um grande manejo. Quando quer agradar a mãe, faz o cocô no lugar e na hora certa, dá de presente tal obra, sua mais importante obra, na verdade a única que é capaz de realizar. Quando está brigada com a mãe, espalha merda por todo canto, suja tudo, desobedece, se enfurece e faz um grande ataque agressivo à mãe. Em ambas as situações, está implícita uma relação muito íntima, básica, fundamental, cheia de ódio e amor, relação que, na verdade, está se desfazendo para dar vez a um outro nível de integração.

Ali em Hampstead, pensou o analista, quis restabelecer o vínculo narcísico imaginário com Freud, numa tentativa que se revelaria de antemão fracassada. Como acabara de lembrar, a relação da criança com seus dejetos é muito peculiar, cheia de significados. Ela não os dá de presente para qualquer um, em qualquer lugar. Pensou que aí talvez estivesse a origem do fato de algumas pessoas serem incapazes de evacuar a não ser em seus lares. É comum pessoas entrarem em prisão-de-ventre ao viajar. Alegam questões de higiene, limpeza, horários, sabe-se lá mais o que, mas no fundo, é como se esta relação de intimidade pressuposta para a evacuação remetesse àquela faceta de presentear a mãe com algo valioso, esta obra única que a criança produz.

Assim, ao usar o banheiro da casa de Freud, fazia uma demonstração de intimidade e proximidade amorosas. Ali estavam, não mais separados por milhões de milhas, o gênio universal de um lado e noutro o insignificante terceiro-mundista. Agora se refazia o congraçamento de uma intimidade básica, de uma inabalável unidade, de uma mônada.

Mas era também um ataque de ódio por constatar que estava quebrada aquela relação narcísica. Era um ataque por ter de reconhecer que ele e Freud eram pessoas diferentes, por não mais poder manter a fantasia de uma identidade fundida e única, por ter de aguentar a inveja e a humilhação frente a sua estatura magnífica. Assim, ele fazia cocô no lugar e na hora errados, gerando embaraços e constrangimentos. Partia ressentido, deixando bombas fétidas explodindo a casa de Freud. Não fôra a toa que lembrara o assassinato de John Lennon, isso seria uma outra evidência de quão radical e violenta seria essa despedida, como despertara ódios assassinos.

O analista concluiu que sua vontade de aliviar os intestinos tinha sido uma tentativa regressiva de negar a ruptura da identificação com Freud, reafazendo-a, bem como um ataque invejoso e agressivo por constatar o irreversível desta ruptura.

Mas, pensou, se a ruptura implicava em perda e luto, também indicava crescimento, autonomia, assunção do seu próprio desejo, assim como a dor da solidão existencial.

O analista já tinha chegado ao hotel, ao atingir este ponto de suas cogitações. Sentiu-se contente com elas, pareciam-lhe fazer sentido. Sabia que aquelas interpretações provavelmente não esgotavam todos os significados envolvidos no acontecimento, mas eram o bastante para aquele momento. Davam-lhe a sensação de uma maior compreensão de si mesmo, de novamente tomar nas mãos as rédeas de seus pensamentos e poder transitar livremente dentro dos labirintos e meandros de sua mente.

Viu então que suas cogitações em torno de suas visitas às casas de Freud chegara a um terceiro e final estágio. Da idealização inicial que estabelecera uma identificação narcísica imaginária com Freud, passara por uma dolorosa ruptura desta identificação que levara a um comportamento regressivo, de uma evacuação cheia de significados agressivos.

Agora sentia-se noutro nível. Ao utilizar os instrumentos analíticos para entender tudo isso, retomava uma ligação com Freud e com a psicanálise noutros termos, não mais alienado no Grande Outro Freud, não mais o atacando e destruindo para poder sobreviver e organizar sua própria identidade, mas integrando e assimilando as coisas boas que ele podia lhe oferecer, organizando-as de uma forma única e singular em sua própria psique, capaz de pensar de forma autónoma.

Com alívio e tranquilidade, o analista deu por encerrado esse episódio. Sabia que aquele sentimento de paz era passageiro, que sua mente continuaria a produzir novos conteúdos que gerariam ocasionalmente inquietações e angústias, perplexidades que o levariam a analisá-los, num nem sempre penoso trabalho de Sísifo.

Enquanto se vestiam para o jantar, o analista e sua mulher anteviam o prazer de reencontrar amigos ingleses no Virginia Woolf, o restaurante do Russell Hotel, em Bloomsbury, o mais belo hotel vitoriano de Londres.

Matariam a saudade da doce música da língua materna. Falariam português, pois os amigos tinham morado muitos anos no Brasil e eram grandes admiradores de Machado de Assis, o que deixava o analista muito orgulhoso.


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