Volume 11 - Marηo de 2006
Editor: Giovanni Torello


Setembro de 1999 - Vol.4 - NΊ 9

Família – albergue de violências?

Thaïs Sá Pereira e Oliveira (*)

Lemos com frequência na mídia que é na família que se encontra o maior número de incestos, agressões físicas e outros tipos de violências, algumas impensáveis para a maioria das pessoas. A síndrome de Münchhausen, descrita nos Estados Unidos nesses últimos anos, é um exemplo marcante. (BERGERET, 1996)

Vou me referir aqui a um tipo de violência, em que o poder dos pais sobre filhos mentalmente afetados se manifesta pela decisão de não permitirem a estes se beneficiarem de uma psicoterapia, embora estejam conscientes da gravidade do estado emocional dos mesmos. Psicanalistas, psiquiatras, e psicólogos ficam muitas vezes estarrecidos com o nível de doença e/ou ignorância de pais que, impedindo crianças e jovens de se tratarem, terminam por condená-los a um futuro negro onde a deliquência e a loucura irão "des-nortear" suas vidas.

A procura de tratamento por parte desse tipo de família ocorre, em geral, em um momento de crise e o que verificamos é que os responsáveis logo desistem de investir no tratamento do filho atingido, por não desejarem avaliar suas próprias dificuldades emocionais. A criança ou o jovem que aparece como pivô da situação conflituosa "precisa" permanecer nesse lugar para que a estrutura familiar não desmore por inteiro: muitos cônjuges se mantêm unidos, evitando o fantasma do divórcio, através da manipulação de uma filha ou filho mentalmente perturbado.

Exemplos clínicos:

Fui procurada por um casal que desejava atendimento imediato, porque o filho de l9 anos, que havia passado a duras penas em um vestibular de medicina, decidira interromper os estudos pelo fato de não se sentir em condições de fazer exposições orais em frente ao professor e à turma. Ficava por isso impossibilitado de ser avaliado e, portanto, de prosseguir os estudos.

Ficou logo claro que a preocupação dos pais não era com o sofrimento do filho ou com o que a tal impossibilidade de falar em público estaria representando. Para eles o importante era a iminente perda da realização de seus próprios planos e expectativas. Assustava-os o fato de o filho os estar afastando da concretização do sonho deles, pais. Não se tratava de uma família pobre que havia investido no filho para alcançar uma melhor situação sócio-econômica, o que constituiria, a meu ver, um atenuante para a ansiedade presente nos referidos genitores.

  • No decorrer da entrevista, o candidato a "paciente" apresentava uma postura desvitalizada, que não lhe permitia sequer falar dos próprios problemas. Os pais, que o acompanhavam e que haviam ficado na sala de espera, foram convidados a entrar e só através deles fui "apresentada" ao rapaz com quem acabara de tentar estabelecer um diálogo. "O paciente estado-limite assiste de fora ao funcionamento de seu corpo e de seu espírito, como expectador desinteressado de sua própria vida" (ANZIEU, 1985).

Pude então perceber que o moço que ali estava não era bem um ser humano para aqueles pais. Era uma espécie de "coisa" manobrada por eles, esvaziado de qualquer desejo próprio. O desejo da mãe era o seu desejo, a vontade dela era a sua vontade. O pai, igualmente anulado, fazia eco a tudo sobre o que a esposa discorria. Aquele rapaz era totalmente incapaz de recohecer-se separado dos pais. De sua identidade, quem sabia era sobretudo a mãe, que falava dele com a falta de cerimônia e de respeito que alguem pode usar para falar de si mesmo. Espantosamente, o jovem, que se deixava falar através da mãe, quando convidado por mim a se manifestar, endossou com naturalidade o que havia sido dito sobre ele, incapaz de perceber que funcionava na vida como um mero objeto. O tratamento não teve início. A mãe telefonou-me alegando que o filho não queria fazer terapia, como se o filho tivesse acesso à capacidade de "querer".

No segundo caso, outro pedido de marcação de consulta urgente. A mãe disse-me ao telefone que a filha estava numa situação difícil e que precisava da ajuda de um psicólogo. Na hora da consulta, além da filha, uma mulher de 26 anos, a mãe. Iniciei a entrevista com a mãe presente.

Imaginara que se tratasse de um caso ligado à síndrome de pânico, agorafobia, algo assim, que impossibilitasse àquela moça andar sozinha. Não era. O motivo da crise era a ameaça de término do noivado por parte do noivo, é preciso ressaltar, da moça: A mãe se comportava como se o seu próprio noivado estivesse em jogo.

A suposta necessitada de ajuda, a filha, manteve-se numa posição em que se percebia a consciência que tinha da importância de sua existência no mundo. Avaliando-se de forma superficial, poder-se-ia dizer que gozava de uma excelente auto-estima. Era visível, porém, que não percebia que esse mundo era a mãe, que funcionava como um "refúgio" (STEINER, 1993). A mãe falava dela, filha, como se fosse de si mesma, parecendo saber tudo a seu respeito. Como no caso anterior, a filha não opôs, em nenhum momento, qualquer restrição ao que ouvia ser dito a seu respeito. Ao contrário, parecia deleitar-se com o fato de ser o alvo da atenção dos que a cercavam, no caso, a mãe e eu. O "refúgio", segundo Steiner, "pode levar à angústia mas também à resignação, e por vezes, à rebeldia ou ao júbilo, de forma que é o analista quem deve arcar com o desespero associado ao fracasso em estabelecer contato". Quando perguntei-lhe se gostaria de ficar a sós comigo, ela e a mãe responderam juntas que tudo que se passava com Z era do conhecimento da mãe portanto não seria necessária essa privacidade.

O noivo decidiu romper o noivado porque a futura esposa era sujeita a crises de agressividade, prenúncio de uma convivência impossível de suportar. Era considerada, também, uma pessoa caprichosa, incapaz de suportar frustrações por menores que fossem, que a levavam a reações impulsivas perigosas. O futuro cônjuge, "excelente partido", (sic) ameaçava desestruturar a família da moça com sua desistência de manter o compromisso.

Então, vejamos: enquanto tudo correu "normalmente", a filha prestes a se casar, ninguem pensou em sugerir-lhe um tratamento. A cumplicidade existente entre mãe e filha implicava na impossibilidade, por parte de ambas, de perceberem a "fratura" existente em cada uma delas. Completavam-se, e "rolavam" redondas em sua complementariedade. O desejo de uma era o desejo da outra. A ruptura do pacto ameaçava a beatitude existencial das duas. A mãe, professora, imaginava-se em condições de tratar da filha - o que chegou a ser dito - e só por exigência do noivo procurou a ajuda psicológica que já chegaria, a meu ver, com grande atraso. A moça, com tendências auto-destrutivas acentuadas, oriundas de traumas profundos, ficou sem tratamento. Depois da consulta, a mãe comunicou-me que o tratamento seria uma sobrecarga financeira com a qual a família não poderia arcar, embora esse pretenso empecilho já houvesse sido contornado no consultório através de um acordo feito entre mim e ela.

Situação parecida ocorreu quando uma adolescente de l6 anos foi trazida pela mãe ao consultório, após ter tentado suicídio. Depois de um ano de análise, durante o qual minha paciente foi atendida três vêzes por semana apresentando grande progresso terapêutico, a mãe resolveu interrompê-la por não ter meios de continuar a financiá-la. Não era verdade. O que estava em questão para a família era a modificação incômoda que X vinha apresentando, auxiliada por sua inteligência privilegiada. A jovem, impedida de ver novelas e sendo obrigada a dormir antes das 10,00 hs. da noite, aparentemente para não ouvir as discussões de sua mãe com o atual marido, saía de sua inocência através da análise, vindo a desidealizar a mãe e a descobrir que o pai não era o vilão que lhe haviam incutido que era. O "aborto" a que teve que sujeitar-se foi um entre outros com os quais era obrigada a conviver, como o "aborto" de seus desejos e de seu surgimento como "sujeito desejante"; "aborto" que ela colocara no real através da tentativa de suicídio.

É possível dizer que nesses casos, o sistema defensivo que impede o tratamento do menor que dele necessita é administrado pelos pais com o objetivo de preservar o paciente no refúgio, "que funciona como uma área da mente onde a realidade não precisa ser encarada, onde a fantasia e a onipotência podem existir sem restrições e onde tudo é permitido" (STEINER, l993). Tudo é permitido, exceto sair da posição de servidão ao desejo do outro mais poderoso. O que está em jogo para famílas assim estruturadas, na maior parte das vezes, é a necessidade que os membros mais "fortes" (nem por isso menos doentes) têm de manter os mais "fracos" na posição em que se encontram, para que nada mude.

Interessante ressaltar que nos casos aqui resumidos, e de forma mais clara nos dois primeiros, há uma semelhança ao modo como drogadictos relacionam-se com o objeto de seu vício. "Na família do adicto observa-se que muitas vezes o pai desempenha um papel de passividade, sendo a mãe a dominadora, a exigente, que mantém uma relação simbiótica com o filho. O filho pode ser através da mãe; ele não possui uma identidade própria. Sua vida só tem sentido se for um ser-para-a-mãe, ou seja, não há autonomia..." (KALINA1991)

Pensando sobre a questão de quem seria o adicto, "poderíamos encontrar aquele que se apega à droga numa tentativa de alívio para suas sensações dolorosas de falta... seu sofrimento ficando evidenciado pela dependência, onde o ser alguém passa a envolver danos mentais" ... "O adicto possui uma estrutra psíquica, onde seu eu fica submetido aos rigores de um supereu crítico e severo, dependendo por isso de estímulos afetivos e reconhecimentos que vêm do exterior. A mãe precisa desse filho dependente, do qual se ocupa e o pai permanece em seu lugar, embora ausente". (ANDRADE, 1998)

As citações aqui referidas remetem à existência de uma patologia narcísica, evidentemente mais grave do que uma neurose. A escolha do objeto amoroso é narcísica e não anaclítica, como acontece com os neuróticos, (FREUD, 1914) adequando-se perfeitamente às situações clínicas acima tratadas. Pude observar nas três, a presença do "narcisismo destrutivo". (ROSENFELD, 1986)

O que se pode constatar é que além das violências visíveis, passíveis de provas e portanto de serem denunciadas, existem aquelas veladas, insidiosas, a respeito das quais nada podemos fazer. Que os pais espancadores, estupradores sejam pessoas doentes não há dúvidas. No entanto, seja o diagnóstico deles de psicopatia, psicose, ou neurose grave, a denúncia é efetivada e providências podem ser tomadas. Em casos semelhantes aos que foram aqui abordados, nada há de concreto que possa ser provado, nenhum ato testemunhado, a não ser pela avaliação impotente dos que exercem esse tipo de atividade clínica.

Referências bibliográficas

Andrade, M. –– "Drogadicção: particularidades de um caso". Apresentado nas "Jornadas de Psicanálise; celebração dos 45 anos da SPID - IMP" - Hotel Everest, Rio de Janeiro, 1998

Bergeret, J. – Cap.IX. In: "La pathologie narcissique" - DUNOD, Paris, l996: 248

Anzieu, D. – Cap. IX. In "O Eu-pele" - Casa do Psicólogo, São Paulo, l989: 286

Freud, S. – "On Narcissism: an introduction" - 1914 - S.E., vol. XIV

Kalina, E. – "Drogas: terapia familiar e outros temas" - FRANCISCO ALVES, Rio de Janeiro, 1991

Rosenfeld, H. – Cap.VI. In: "Impasse e interpretação" - IMAGO Ed. Ltda, Rio de Janeiro, l988: 360

Steiner, J. – Cap. I. In "Refúgios psíquicos - organizações patológicas em pacientes psicóticos, neuróticos e fronteiriços" - IMAGO Ed. Ltda., Rio de Janeiro, l997: 184

 

(*)Autora: Thaïs Sá Pereira e Oliveira

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